Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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nessa época eu estava na faculdade e a gente tentava importar pa-
ra Santa Maria toda a discussão que havia em Florianópolis. Aquelas informações, que
diziam que '9 famílias controlam a Comunicação no Brasil'... Tínhamos ali a consciên-
cia do monopólio, que até então era uma coisa esquisita, uma coisa sem dados, uma
coisa sem consistência\u201d. Para Cassel, o trabalho de Herz, junto ao próprio Karam, a
Adelmo Genro Filho e outros, foi especialmente importante em termos de formulação,
gerando argumentos e socializando conhecimento. 
A atuação dos movimentos em Santa Catarina nas questões da comunicação logo se
ampliou, com alianças a instituições de outros estados e regiões que trabalhavam, por
exemplo, para implantar o voto direto e universal para a Federação Nacional dos Jor-
nalistas e outras entidades. Karam registra uma outra faceta dos movimentos de comu-
nicação em Santa Catarina, que geraram \u201cvárias candidaturas às câmaras de vereado-
res, Assembléia Legislativa e Câmara Federal que contribuíram para a democratização
do País\u201d. 
Tal mobilização foi fortalecida por um sem-número de projetos no campo da comu-
nicação que contribuíram para a redemocratização. \u201cEram incontáveis as iniciativas
que colaboraram para a criação de uma nova mentalidade, de uma necessidade de
abertura, de desmascaramento do regime militar, de denúncia de suas mazelas e cor-
rupções\u201d, destaca Elson Faxina. Para ele, é injusto apontar aqui alguns projetos como
de maior importância, mas igualmente injusto seria não destacar o Boletim da CPT e
o informativo O Metalúrgico, da oposição sindical dos metalúrgicos do Paraná em par-
ceria com a Pastoral Operária. Já os anos 80 foram marcados também pelo surgimen-
to de diversas iniciativas de teatro de rua e de teatro popular na periferia das grandes
cidades e de inúmeras produções de vídeos populares.
Sem demérito às histórias mais conhecidas e épicas, Faxina faz questão de frisar
que \u201ctambém não se pode esquecer das infinitas ações até mesmo individuais de
centenas de profissionais da comunicação que buscavam, cada qual em seu espaço
de atuação \u2013 inclusive em rádios, jornais, revistas e televisões da época \u2013 furar blo-
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queios e ocupar espaços importantes para forjar um novo imaginário de liberdade
fora daquele regime\u201d.
PARTIDOS POLÍTICOS E DIRETAS JÁ
A redemocratização do Brasil tem nas Diretas Já seu clímax e anticlímax, processos
que desembocam na Constituinte em 1987 e 1988. Elson Faxina destaca que o surgi-
mento do PT foi igualmente um grande momento de mobilização, \u201cembora também de
rachas na esquerda, entre aqueles fervorosos seguidores dos partidos já existentes e
aqueles que não se sentiam representados por eles\u201d. 
Na campanha pelas Diretas Já em Santa Catarina, o MOS (Movimento de Oposição
Sindical) colaborou de forma decisiva, na análise de Gastão Cassel. \u201cEra um dos nú-
cleos aglutinadores da campanha. Não estou dizendo isso de uma maneira absoluta,
não estou dizendo que não havia outros tantos de uma enorme importância, mas o
MOS se destacava\u201d. Cassel recorda-se de um detalhe interessante da comunicação na
redemocratização: um dos coordenadores mais importantes do MOS, Artur Scabone,
era \u201csimplesmente o locutor de todos os eventos das Diretas!\u201d.
As Diretas Já conseguiram agregar os movimentos sindical, estudantil e os movimen-
tos sociais em geral, abrindo caminho para outras transformações. Especialmente para
os sindicatos, Cassel acredita que a campanha tenha sido \u201cum marco importante, não
só pela reivindicação em si, mas pelas pessoas verem que elas podiam reivindicar a par-
tir dos sindicatos mais do que os seus salários no final do ano\u201d. Para ele, nessa época
havia muita discussão corporativa do sindicato: \u201co sindicato tem que cumprir o papel
de negociar o salário, de garantir tíquete alimentação e pronto... A campanha das Di-
retas mostra de uma maneira muito transparente para todo mundo que há possibilida-
de de interferir na cena política institucional\u201d, papel até o momento relegado aos par-
tidos políticos.
As histórias todas aqui relatadas registram de forma evidente a importância que a re-
gião Sul teve na redemocratização do Brasil, tanto como berço de movimentos como
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campo de lutas. Apesar disso, e de a politização de boa parte da sociedade gaúcha em
específico ser conhecida no Brasil todo, Rafael Guimaraens faz questão de reforçar es-
sas impressões. \u201cEm primeiro lugar, é preciso salientar que o Rio Grande do Sul este-
ve no centro dos acontecimentos que levaram ao golpe militar de 1964\u201d. Ele continua:
\u201cTrês anos antes, quando Jânio Quadros renunciou à Presidência da República e os mi-
litares vetaram a posse de João Goulart, foram os gaúchos que se mobilizaram para evi-
tar o golpe, no chamado Movimento pela Legalidade. Nos anos seguintes, Jango gover-
nou o País tendo seu cunhado Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e pos-
teriormente eleito deputado federal pela Guanabara, atuando pela radicalização das re-
formas. Deu-se o golpe e ambos foram para o exílio\u201d. Por fim, Guimaraens registra que
\u201ctrês dos cinco presidentes militares eram gaúchos \u2013 [Arthur da] Costa e Silva, [Emílio
Garrastazu] Médici e [Ernesto] Geisel \u2013 e dois deles \u2013 [Humberto] Castello Branco e
[João Baptista] Figueiredo \u2013 serviram às Forças Armadas no Rio Grande do Sul\u201d. 
Histórias contadas e recontadas. Nunca superadas. Mas hoje no passado, graças aos
tantos lutadores da região Sul e do Brasil todo.
[1] Sebastião Rodrigues de Moura, também conhecido como major Curió, foi um dos comandantes da repressão
militar ao movimento armado do Araguaia na década de 1970. Ganhou notoriedade no País por sua brutalidade
na perseguição aos opositores do regime militar. Hoje, é prefeito da cidade de Curionópolis, no Pará.
[2] Tuparamaros: integrantes do Exército de Liberação Nacional, guerrilha urbana atuante no Uruguai nas décadas
de 1960 e 1970, cujo nome homenageia o revolucionário inca Tupac Amaru.
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[história] Contexto Sul 
[onde e quando] Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná; de 1960 a 2005, especialmente 1970 a 1989
[quem conta] Elson Faxina, Francisco Karan, Gastão Cassel, e Rafael Guimaraens 
[entrevistas realizadas] de setembro de 2004 a março de 2005
[colaborou]
CAMILA STÄHELIN
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COOJORNAL: 
O FIM DA 
DITADURA \u2013 
E DA REPORTAGEM
DANIEL CASSOL é jornalista, assessor de imprensa do deputado estadual Frei Sérgio Görgen
(PT-RS), colaborador do jornal Boca de Rua e integrante do Intervozes
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Em fevereiro de 1983, quatro repórteres da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Ale-
gre foram condenados à prisão pelo Supremo Tribunal Militar. Motivo de revolta e evi-
dência do anacronismo da ditadura, a prisão de jornalistas em pleno processo de aber-
tura política foi o último golpe desferido contra uma das mais originais experiências de
imprensa independente que o Brasil já conheceu. Fundada por 67 jornalistas asfixiados
pela censura e falta de emprego, em 27 de agosto de 1974, a primeira cooperativa do
gênero do País aliou organização coletiva com jornalismo crítico e independente, pro-
vocando estragos na ditadura e deixando, para museus e bibliotecas, uma lição hoje es-
quecida pela imprensa.
A participação de muitos de seus fundadores na experiência da Folha da Manhã, jor-
nal editado