Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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pela empresa Caldas Jr., entre 1972 e 1974, foi a gênese da cooperativa.
\u201cÉramos um estado de oposição, mas a imprensa não atendia a esse público. Havia es-
paço para uma imprensa independente\u201d, lembra Elmar Bones, secretário de redação da
Folha da Manhã e, depois, diretor da Coojornal. O sucesso obtido com a profissionali-
zação da redação e a abordagem de temas que mobilizavam a oposição não impediu que
a empresa cedesse às pressões do regime. Após um incidente com a publicação de uma
reportagem sobre problemas nas portas dos aviões da Varig, Elmar Bones, autor da ma-
téria para a Folha da Manhã, pediu demissão. Em seguida, uma reportagem, do então
desconhecido Caco Barcellos, provocou mais uma crise dentro do jornal. Cerca de 20
jornalistas se demitiram em massa, o jornal recuou e a imprensa gaúcha \u2013 que já havia
perdido o Pato Macho, que promoveu uma \u201crebelião impressa\u201d em 1971 \u2013 ficou órfã
de uma alternativa.
Nesse contexto nasceu a Coojornal. \u201cA questão do mercado de trabalho \u2013 lembra
Bones \u2013 mobilizava mais, mas havia um grupo pequeno que acreditava na possibilida-
de de se criar um jornal independente\u201d. A cooperativa começou editando jornais para
terceiros. Enquanto juntava capital para criar o sonhado jornal, criou um boletim in-
terno para discutir as questões do cooperativismo e da imprensa no Brasil. O boletim
cresceu e, em 1976, a cooperativa decidiu transformá-lo em um jornal mensal, intitu-
lado Coojornal, o jornal dos jornalistas. Na capa, uma reportagem sobre o assassina-
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to da esposa do deputado gaúcho Euclides Kliemann, em 1962, que nunca fora escla-
recido. \u201cO Coojornal foi às bancas numa fase já mais definida de abertura política. O
regime militar começava a entrar para a história. E o Coojornal se tornou o contador
dessa história\u201d, escreveu o professor e jornalista Bernardo Kucinski em seu livro Jor-
nalistas e Revolucionários.
O Coojornal foi o primeiro jornal do País a falar na Guerrilha do Araguaia, na edi-
ção de julho de 1978. Em 1977, fez um levantamento completo dos políticos cassados
em 13 anos de \u201crevolução democrática\u201d. Abordou as ditaduras nos países da América
Latina e deu voz aos líderes históricos da esquerda, como Luiz Carlos Prestes, Miguel
Arraes, Leonel Brizola e aos personagens que iniciavam suas trajetórias, como Luiz
Inácio Lula da Silva e Olívio Dutra. Também dedicou-se a temas da economia, da cul-
tura e do esporte, mantendo sua característica inicial de fazer a crítica da imprensa. \u201cEra
um assunto em que, simplesmente, não se tocava\u201d, aponta Bones. Em pouco tempo, o
jornal ganhou importância e influência. Chegou a alcançar uma tiragem de 35 mil exem-
plares, dos quais mais da metade circulava fora do Rio Grande do Sul.
Para José Antonio Vieira da Cunha \u2013 autor da idéia da Coojornal a partir de uma no-
ta em uma publicação, que falava de uma cooperativa de jornalistas na Itália \u2013 o êxito
se devia à profissionalização do projeto. \u201cEra isso que dava credibilidade e prestígio pa-
ra o Coojornal, na medida em que ele procurava tratar os assuntos da maneira mais ob-
jetiva e isenta, do ponto de vista de vícios partidários\u201d, explica. O veículo não teria es-
sa força se não fosse a estrutura de propriedade coletiva, na opinião de Bones. \u201cO jor-
nalista era o dono da empresa e isso gerou uma grande simpatia no meio\u201d, afirma. Nas
palavras de Kucinski, \u201ctratava-se, não de organizar partidos ou vanguardas, mas de per-
mitir aos associados a prática de um jornalismo livre e independente, cujas \u2018expectati-
vas\u2019 seriam satisfeitas, muito mais no resultado do confronto geral do projeto com a di-
tadura, do que como expectativas pessoais\u201d.
Com a repressão aos sindicatos, as assembléias da cooperativa extrapolavam as ques-
tões administrativas e tornavam-se grandes fóruns de discussão sobre a conjuntura po-
lítica brasileira. \u201cEram assembléias que chegavam a durar oito horas\u201d, recorda Vieira
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Capas do Coojornal: protagonismo e registros históricos 
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da Cunha. Internamente, os conselheiros editoriais, repórteres e fotógrafos permitiam
uma democratização das decisões diárias da cooperativa. 
Editorialmente, o Coojornal passou a testar os limites que a ditadura impunha. As-
sim, puxou a imprensa para os temas antes censurados, impelindo baixas à ditadura, ao
mesmo tempo que soava o alarme nos gabinetes militares. \u201cHouve um plano delibera-
do para detonar a Coojornal\u201d, atesta Bones. Militares faziam visitas aos anunciantes,
pressionando para que retirassem o apoio. \u201cEu tenho vários testemunhos de empresá-
rios que foram visitados\u201d, lembra. A maioria obedeceu. Bombas explodiram em algu-
mas bancas que vendiam o jornal. Nesse meio tempo, chegaram à redação os documen-
tos oficiais do Exército relatando as ações de desmantelamento dos focos de guerrilha
no Vale do Ribeira e da execução de Carlos Lamarca. \u201cTínhamos uma desconfiança
muito forte de que aquilo era uma armação. Só que os documentos eram autênticos e
revelavam coisas que tinham acontecido em 1970, 1971, mas que ninguém sabia. Era
uma bomba\u201d, recorda Elmar. A reportagem foi publicada e acabou provocando a pri-
são de Osmar Trindade, Rosvita Sauerssig, Rafael Guimaraens e Elmar Bones, em 1983,
já com a abertura política sendo retomada.
Sem clientes nem anunciantes, a Coojornal passava por um processo de desgaste in-
terno, por conta de divergências entre o grupo dirigente e a oposição. Esse desgaste pro-
vocou, por fim, a falência do projeto. A última edição do jornal saiu em março de 1983.
Despejada de sua sede por ordem judicial, teve todos os seus documentos e sua biblio-
teca recolhidos a um depósito judicial e queimados, sob a alegação de falta de espaço,
destruindo fração importante da memória do jornalismo brasileiro \u2013 cada vez mais ca-
rente de iniciativas como essa.
ELMAR BONES: \u201cPRECISAMOS DE UM CONJUNTO DE PEQUENAS MÍDIAS, PARA A SAÚDE
DA DEMOCRACIA\u201d.
Espécie de fio condutor da história do Coojornal, Elmar Bones hoje dirige o Já, um pe-
queno jornal de bairro de Porto Alegre (RS) que ainda insiste em fazer jornalismo: em
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2004, por exemplo, o Já viu uma de suas reportagens conquistar o Prêmio Esso de
Jornalismo. 
Foi na redação do jornal, onde também funciona a Já Editores e sua casa, que Elmar
concedeu essa entrevista, para contar a experiência empreendida na década de 70 e fa-
lar sobre a situação da imprensa no Brasil. 
_ O objetivo da Coojornal era criar uma alternativa de mercado ou uma válvula de es-
cape para o jornalismo crítico e independente?
A questão do mercado de trabalho era um problema concreto em Porto Alegre e mo-
tivou um grupo maior. Mas tinha um grupo menor que tinha uma visão crítica da im-
prensa local, que sempre foi muito governista, oficiosa. 
_ Qual foi a influência da experiência que vocês tiveram com a Folha da Manhã?
A experiência da Folha aglutinou o grupo que criticava o oficialismo da imprensa. Fize-
mos um jornal ativo, em contraposição aos jornais passivos. A nossa tese se revelava ver-
dadeira à medida que o jornal crescia muito em vendas. Mas ele começou a trazer proble-
mas para a Caldas Jr [empresa que editava o jornal], uma empresa que, como todas as ou-
tras, apoiou o regime militar. A imprensa sempre adere aos movimentos da elite.
_ Depois do fim da Folha da Manhã, como esse grupo continuou?
Seguíamos nos reunindo com a idéia de que havíamos descoberto um caminho. Com
uma cooperativa, poderíamos aglutinar mais gente. Começamos a nos aproximar das
cooperativas agrícolas, fortes