Montesquieu
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Montesquieu
 
RAYMOND ARON E A FILOSOFIA POLÍTICA DE MONTESQUIEU
 
		
Para Raymond Aron, sociólogo francês autor do Ópio dos Intelectuais, se a sociologia se define pela intenção de conhecer cientificamente o social enquanto tal, então Montesquieu é tão sociólogo como Augusto Comte, o criador do termo. Para este sociólogo, Montesquieu no seu Espírito das Leis, chega a ser mais «moderno» do que Comte, o que serve para provar que Montesquieu não deve ser considerado somente como precursor, mas sim como um dos doutrinadores da sociologia. 
Neste extracto Raymon Aron analisa a teoria política de Montesquieu.
 
Teoria política
 
O problema do aparelho conceptual de Montesquieu, desse aparelho que lhe permite substituir uma ordem pensada a uma diversidade incoerente, equivale mais ou menos à questão, clássica entre os seus intérpretes, do plano de O Espírito das Leis. A obra oferecer-nos-á uma ordem inteligível ou uma colecção de observações mais ou menos subtis sobre estes ou aqueles aspectos da realidade histórica?
O Espírito das Leis divide-se em várias partes, cuja aparente heterogeneidade foi muitas vezes notada. Do ponto de vista onde me coloco, há, parece-me, essencialmente, três grandes partes.
Em primeiro lugar, os treze primeiros livros que desenvolvem a teoria bem conhecida dos três tipos de governo, ou seja, aquilo a que chamaríamos uma sociologia política, um esforço tendente a reduzir a diversidade das formas de governo a alguns tipos, sendo cada um deles definido, ao mesmo tempo, pela sua natureza e pelo seu princípio. A segunda porte vai do livro XIV ao livro XIX. É consagrada às causas materiais ou físicas, quer dizer, essencialmente à influência do clima e do solo sobre os homens, os seus costumes e as suas instituições. A terceira parte, que vai do livro XX ao livro XXVI, estuda sucessivamente a influência das causas sociais, comércio, moeda, número de homens, religião, sobre os costumes, os hábitos e as leis.
Estas três partes são pois, aparentemente, por um lado uma sociologia da política; em seguida, um estudo sociológico das causas, umas físicas, outras morais, que actuam sobre a organização das sociedades.
Restam, fora destas três parte principais, os últimos livros de O Espírito das Leis, que, consagrados ao estudo das legislações romana e feudal, representam ilustrações históricas, e o livro XXIX, que é difícil enquadrar em qualquer uma das grandes divisões; destina-se a responder à pergunta: como devem ser compostas as leis? Este último livro pode ser interpretado como uma elaboração pragmática das consequências que se deduzem do estudo científico.
Há por fim um livro, difícil de classificar neste plano de conjunto, o livro XIX, que trata do espírito geral de uma nação. Não se prende pois a uma causa particular nem ao aspecto político das instituições, mas ao que constitui, talvez, o princípio de unificação do todo social. De qualquer maneira, este livro é um dos mais importantes. Representa a transição ou a ligação entre a primeira parte de O Espírito das Leis, a sociologia política, e as duas outras partes, que estudam as causas físicas ou morais.
Este relembrar do plano de O Espírito das Leis permite colocar os problemas essenciais da interpretação de Montesquieu. Todos os historiadores se sentiram impressionados pelas diferenças entre a primeira parte e as duas partes seguintes. Sempre que os historiadores constatam a heterogeneidade aparente das partes de um mesmo livro, são tentados a recorrer a uma interpretação histórica, procurando em que data terá escrito o autor as diversas partes.
No caso de Montesquieu, esta interpretação histórica pode ser desenvolvida sem dificuldades excessivas. Os primeiros livros de O Espírito das Leis, senão o primeiro, pelo menos do livro II ao livro VIII, quer dizer, os livros que analisam os três tipos de governo, são, sé assim posso dizer, de inspiração aristotélica.
Montesquieu escreveu-os antes da sua viagem a Inglaterra, numa época em que se encontrava sob a influência dominante da filosofia política clássica. Ora, na tradição clássica, a Política de Aristóteles era o livro essencial. Que Montesquieu tenha escrito os primeiros livros com a Política de Aristóteles ao alcance da mão é indubitável. Podemos, quase em todas as páginas, descobrir referências a Aristóteles sob a forma de alusões ou de críticas.
Os livros seguintes, em particular o famoso livro XI, sobre a constituição de Inglaterra e a separação dos poderes, foram provavelmente escritos em data posterior, depois da estadia em Inglaterra, sob a influência das observações realizadas por ocasião dessa viagem. Quanto aos livros de sociologia consagrados ao estudo das causas físicas ou morais, foram escritos provavelmente mais tarde do que os primeiros livros.
A partir daqui, seria fácil mas pouco satisfatório mostrarmos O Espírito das Leis como a sobreposição de duas maneiras de pensar, de duas maneiras de estudar a realidade.
Montesquieu seria, por um lado, um discípulo dos filósofos clássicos. Enquanto tal, desenvolveu uma teoria dos tipos de governo que,  mesmo que difira, nalguns pontos, da teoria clássica de Aristóteles, se encontra ainda de acordo com o clima e a tradição desses filósofos. Ao mesmo tempo, Montesquieu seria um sociólogo que investiga a influência que o clima, a natureza do solo, o número de homens e a religião podem exercer sobre os diferentes aspectos da vida colectiva.
Sendo o autor duplo, teórico da política por um lado, sociólogo por outro, O Espírito das Leis seria uma obra incoerente, e não um livro ordenado por uma intenção dominante e um sistema conceptual, ainda que contendo trechos de datas e talvez de inspirações diversas.
Antes de nos resignarmos a uma interpretação que supõe o historiador mais inteligente do que o autor e capaz de ver imediatamente a contradição que teria escapado ao génio, devemos procurar a ordem interna que Montesquieu, com razão ou sem ela, via no seu próprio pensamento. O problema que aqui se levanta é o da compatibilidade entre a teoria dos tipos de governo e a teoria das causas.
Montesquieu distingue três tipos de governo, a república, a monarquia e o despotismo. Cada um destes tipos é definido por referência a dois conceitos, que o autor de O Espírito das Leis chama anatureza e o princípio do governo.
A natureza do governo é o que o faz ser o que é. O princípio do governo é o sentimento que deve animar os homens no interior de um tipo de governo, para que este funcione harmoniosamente. Assim, a virtude é o princípio da república, o que não significa que na república os homens sejam virtuosos, mas que deveriam sê-lo, e que as repúblicas só serão prósperas na medida em que os cidadãos foremvirtuosos. 1
A natureza de cada governo é determinada pelo número dos detentores da soberania. Montesquieu escreve: «Suponho três definições, ou melhor, três factos: um, que o governo republicano é aquele em que o corpo do povo ou apenas uma parte do povo detém a força suprema; o monárquico, aquele em que um só governa, mas por meio de leis fixas e estáveis; ao passo que no despotismo, um só sem lei e sem regra, tudo arrasta segundo a sua vontade e os seus caprichos.» (O Espírito das Leis, liv. ti, cap. 1; O. C., t. II, p. 239.) A distinção entre o corpo do povo ou só uma parte do povo, aplicada à república, tem por fim lembrar as duas espécies de governo republicano: a democracia e a aristocracia.
Mas estas definições mostram de modo imediato que a natureza de um governo não depende apenas do número dos que detêm a força soberana, mas também da maneira como esta é exercida. Monarquia e despotismo são ambos regimes que comportam um só detentor da soberania, mas no caso do governo monárquico o detentor único governa segundo leis fixas e estabelecidas, enquanto no despotismo governa sem leis e sem regras. Temos assim dois critérios, ou, em gíria moderna, duas variáveis que precisam a natureza de cada governo: por um lado, quem detém a força soberana,