Montesquieu
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Montesquieu


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virtude política dos cidadãos e o outro num sucedâneo de virtude, que é a honra, os dois regimes têm contudo um traço comum: são moderados, neles ninguém comanda de maneira arbitrária e à margem das leis. Em contrapartida, quando chegamos ao terceiro governo, a saber, o governo despótico, saímos do âmbito dos governos moderados. Montesquieu combina com a classificação dos três governos uma classificação dualista dos governos moderados e dos governos não-moderados. A república e a monarquia, são moderados, o despotismo não o é.
A isto é necessário acrescentar uma terceira espécie de classificação, a que chamarei, sacrificando à moda, dialéctica. A república assenta numa organização igualitária das relações entre os membros da colectividade. A monarquia assenta essencialmente na diferenciação e na desigualdade. Quanto ao despotismo, assinala o regresso à igualdade. Mas, ao passo que a igualdade republicana é a igualdade na virtude e na participação de todos no poder soberano, a igualdade despótica é a igualdade no medo, na impotência e na não-participação no poder soberano.
Montesquieu aponta no despotismo por assim dizer o mal político absoluto. É verdade que o despotismo talvez seja inevitável quando os Estados se, tornam demasiado grandes, mas simultaneamente o despotismo é o regime em que um só governa sem regras e sem leis e em que, por consequência, reina o medo. Sentimo-nos tentados a dizer que cada um tem medo de todos os outros a partir do momento em que é estabelecido o despotismo.
Em última análise, no pensamento político de Montesquieu, a oposição decisiva é entre o despotismo, em que cada um tem medo de todos os outros, e os regimes de liberdade, nos quais nenhum cidadão tem medo dos outros. Esta segurança que a cada um dá a sua liberdade, Montesquieu exprimiu-a directamente e claramente nos capítulos consagrados à constituição inglesa, no livro XI. No despotismo, subsiste apenas um limite ao poder absoluto daquele que reina, a religião; e mesmo essa protecção é precária.
 
Esta síntese não deixa de provocar discussões e críticas.
Podemos antes do mais perguntar se o despotismo é um tipo político concreto, no mesmo sentido em que o são a república ou a monarquia. Montesquieu precisa que o modelo da república nos é dado pelas repúblicas antigas e, em particular, pela república romana, antes das grandes conquistas. Modelos da monarquia são as monarquias europeias, inglesa e francesa, do seu tempo. Quanto aos modelos do despotismo, são, de uma vez por todas, os impérios a que ele chama asiáticos, por meio de uma amálgama entre o império persa e o império chinês, o império das índias e o império japonês. Sem dúvida, os conhecimentos que Montesquieu possuía sobre a Ásia eram fragmentários, mas dispunha, apesar disso, de uma documentação que lhe teria permitido tornar mais matizada a sua concepção do despotismo asiático.
Montesquieu está na origem de uma interpretação da história da Ásia que ainda não desapareceu por completo e que é característica do pensamento europeu: os regimes asiáticos seriam essencialmente despotismos, suprimindo toda a estrutura política, toda a instituição e toda a moderação. O despotismo asiático visto por Montesquieu é o deserto da servidão. O soberano absoluto é único, todo-poderoso, delega eventualmente os seus poderes num grande vizir; mas sejam quais forem as modalidades das relações entre o déspota e o seu séquito, não há classes sociais em equilíbrio, não há ordens nem categorias; nem o equivalente da virtude antiga nem o equivalente da honra europeia; o medo reina sobre milhões de homens, através dessas extensões desmesuradas, nas quais o Estado não se pode manter amenos que um só tudo possa.
Esta teoria do despotismo asiático não será assim também e sobretudo a imagem ideal do mal político cuja evocação não se opera .sem uma intenção polémica perante as monarquias europeias? Não esqueçamos a frase famosa: «Todas as monarquias se vão perder no despotismo, como os rios no mar.» A ideia do despotismo asiático é a obsessão perante o desfecho possível das monarquias quando estas perdem o respeito pelas categorias, pela nobreza, pelos corpos intermédios, à falta dos quais o poder absoluto e arbitrário de um só perde toda a moderação.
A teoria dos governos de Montesquieu, na medida em que estabelece uma correspondência entre as dimensões do território e a forma do governo, arrisca-se também a conduzir a uma espécie de fatalismo.
Em O Espírito das Leis, há uma oscilação entre dois extremos. Seria fácil sublinhar numerosos textos, segundo os quais haveria uma espécie de hierarquia: sendo a república o melhor regime, viria depois a monarquia e por fim o despotismo. Mas, por outro lado, se cada regime é irresistivelmente exigido por uma certa dimensão do corpo social, estamos em presença, não de uma hierarquia de valores, mas de um determinismo inexorável.
Existe finalmente uma última crítica ou incerteza que incide sobre o essencial e diz respeito à relação entre os regimes políticos e os tipos sociais.
Esta relação pode, com efeito, ser pensada de diversas maneiras. O sociólogo ou o filósofo pode considerar que um regime político é suficientemente definido por um só critério, por exemplo o número dos que detêm a soberania, e fundamentar assim uma classificação dos regimes políticos com uma significação suprahistórica. Tal era a concepção que se achava implícita na filosofia política clássica, na medida em que esta fazia uma teoria dos regimes, abstraindo da organização da sociedade e pressupondo por assim dizer a validade intemporal dos tipos políticos.
Mas é também possível, como mais ou menos claramente faz Montesquieu, combinar estreitamente regime político e tipo social. Nesse caso, chegamos àquilo a que Max Weber teria chamado três tipos ideais: o da cidade antiga, Estado de pequenas dimensões, governado segundo a república, democracia ou aristocracia; o tipo ideal da monarquia europeia, cuja essência é a diferenciação das ordens, monarquia legal e moderada; e por fim o tipo ideal do despotismo asiático, Estado de dimensões extremas, poder absoluto de um só, sendo a religião o único limite a erguer-se perante a arbitrariedade do soberano; a igualdade é restaurada, mas no meio da impotência de todos.
Montesquieu escolhe preferencialmente esta segunda concepção da relação entre regime político e tipo social. Mas no mesmo momento, perguntamo-nos então em que medida os regimes políticos são separáveis das entidades históricas no interior das quais se realizaram.
Seja como for, resta que a ideia essencial. é esta ligação estabelecida entre o modo de governo, o tipo de regime por um lado, o estilo das relações interpessoais, por outro. De facto, o que é decisivo aos olhos de Montesquieu é menos que o poder soberano pertença a vários ou a um só, mas que a autoridade seja exercida segundo as leis e a medida, ou, pelo contrário, arbitrariamente e pela violência. A vida social será diferente segundo o modo de exercício do governo. Esta ideia conserva todo o seu alcance numa sociologia dos regimes políticos.
Além disso, seja qual for a interpretação das relações entre a classificação dos regimes políticos e a classificação dos tipos sociais, não podemos recusar a Montesquieu o mérito de ter posto claramente o problema. Duvido que o tenha resolvido de maneira definitiva, mas terá alguém conseguido fazê-lo?
 
 
A distinção entre governo moderado e governo não-moderado é provavelmente central no pensamento de Montesquieu. Permite integrar as considerações sobre a Inglaterra que se encontram no livro XI na teoria dos tipos de governo dos primeiros livros.
O texto essencial, a este propósito, é o capítulo 6 do livro XI, no qual Montesquieu estuda a constituição da Inglaterra. Este capítulo teve um tal eco que numerosos constitucionalistas ingleses têm interpretado as instituições do seu país segundo o que delas disse Montesquieu. O prestígio do génio foi tal que os ingleses julgaram compreender-se a si próprios lendo O Espírito das Leis 4 *.
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