Montesquieu
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Montesquieu


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descobriu em Inglaterra por um lado um Estado que tem por objecto próprio a liberdade política, por outro lado o facto e a ideia da representação política.
«Embora todos os Estados tenham em geral um mesmo objecto que é o de se manterem, cada Estado tem contudo um outro que lhe é particular, escreve Montesquieu. A expansão era o objecto de Roma; a guerra o da Lacedemónia; a religião o das leis judaicas; o comércio o de Marselha... Há também uma nação no mundo que tem por objecto directo da sua constituição a liberdade política.» (O Espírito das Leis, liv. XI, cap. 5; O. C., t. li, p. 396.) Quanto à representação, a sua ideia não figurava em primeiro plano na teoria da república. As repúblicas em que Montesquieu pensa são as repúblicas antigas nas quais existia uma assembleia do povo, e não uma assembleia eleita pelo povo e composta por representantes do povo. Foi só em Inglaterra que ele pôde observar, plenamente realizada, a instituição representativa.
Este governo, tendo por objecto a liberdade e onde o povo é representado pelas assembleias, tem por principal característica aquilo a que se chamou a separação dos poderes, doutrina que continua a ser actual e sobre a  qual indefinidamente se tem especulado.
Montesquieu verifica que em Inglaterra um monarca detém o poder executivo. Uma vez que este exige rapidez de decisão e de acção, é bom que um só o detenha. O poder legislativo é incarnado por duas assembleias: a Câmara dos Lordes, que representa a nobreza, e a Câmara dos Comuns, que representa o povo.
Estes dois poderes, executivo e legislativo, são detidos por pessoas ou corpos distintos. Montesquieu descreve a cooperação dos dois órgãos bem como analisa a sua separação. Mostra, com efeito, o que cada um desses poderes pode e deve fazer em relação ao outro.
Há ainda um terceiro poder, o poder de julgar. Mas Montesquieu precisa que «a força de julgar, tão terrível entre os homens, não estando ligada nem a um certo estado, nem a uma certa profissão, torna-se por assim dizer, invisível e nula». (E. L., liv. XI, cap. 6; O. C., t. II, p. 398.) O que parece indicar que o poder judicial sendo essencialmente o intérprete das leis deve ter tão pouca iniciativa e personalidade quanto possível. Não é o poder de pessoas, é o poder das leis, «teme-se a magistratura e não os magistrados» (ibid.).
O poder legislativo coopera com o poder executivo; deve examinar em que medida as leis foram correctamente aplicadas por este último. Quanto à força «executora», não poderá entrar no debate dos assuntos, mas deve estar em relação de cooperação com o poder legislativo, por aquilo a que Montesquieu chama a sua faculdade de impedir. Montesquieu acfescenta ainda que o orçamento deve ser votado todos os anos. « Se a potência legislativa estatui, não de ano em ano, mas para sempre, sobre os dinheiros públicos, corre o risco de perder a sua liberdade, porque a potência executiva deixará de depender dela.» (Ibid., p. 405.) O voto anual do orçamento é como que urna condição de liberdade.
Estabelecidos estes dados gerais, os intérpretes têm acentuado uns o facto de a potência executiva e a potência legislativa serem distintas, outros o facto de dever existir entre elas uma cooperação permanente.
O texto de Montesquieu tem sido aproximado dos textos de Locke sobre o mesmo tema; certos aspectos bizarros da exposição de Montesquieu explicam-se se nos referirmos ao texto de Locke. 5Em particular, no início do capítulo 6, há duas definições da potência executiva. Esta é definida uma primeira vez como a que decide «das coisas que dependem do direito das gentes» (ibid., p. 396), o que parece limitá-la à política externa. Um pouco mais longe, é definida como a que «executa as resoluções públicas» (ibid., p. 397), o que lhe dá uma extensão muito maior. Montesquieu segue num dos casos o texto de Locke. Mas, entre Locke e Montesquieu, há uma diferença de intenção fundamental. O objectivo de Locke é limitar o pode real, mostrar que se o monarca ultrapassar certos limites ou faltar a certas obrigações, o povo, verdadeira origem da soberania, tem o direito de reagir. Em contrapartida, a ideia essencial de Montesquieu não é a separação dos poderes no sentido jurídico do termo, mas o que poderíamos chamar o equilíbrio das forçar sociais, condição da liberdade política.
 
Montesquieu, em toda a sua análise da constituição inglesa, supõe uma nobreza e duas câmaras, das quais uma representa o povo e a outra a aristocracia. Insiste em que os nobres só sejam julgados pelos seus pares. Com efeito, «os grandes estão sempre expostos à inveja; e se fossem julgados pelo povo, poderiam ficar em perigo, e não gozariam do privilégio que o mais pequeno dos cidadãos tem num Estado livre, o de ser julgado pelos seus pares. É pois necessário que os nobres sejam convocados não perante os tribunais ordinários da nação, mas perante essa parte do corpo legislativo que é composta por nobres» (ibid., p. 404). Noutros termos, Montesquieu, na sua análise da constituição inglesa, visa redescobrir a diferenciação social, a distinção entre as classes e as categorias de acordo com a essência da monarquia, tal como a definiu, e indispensável à moderação do poder.
Um Estado é livre, diria eu de bom grado, comentando Montesquieu, quando nele o poder trava o poder. O que há de mais impressionante, para justificar esta interpretação, é que, no livro XI, depois de ter terminado o exame da constituição de Inglaterra, Montesquieu volta a Roma e analisa o conjunto da história romana em termos de relações entre a plebe e o patriciado. O que o interessa é a rivalidade entre as classes. Esta competição social é a condição do regime moderado porque as diversas classes são capazes de se equilibrar.
No que se refere à própria constituição, é bem verdade que Montesquieu indica em pormenor como cada um dos poderes tem este ou aquele direito e como devem os diferentes poderes cooperar. Mas esta formalização constitucional não é mais do que a expressão de um Estado livre, ou, diria eu de bom grado, de uma sociedade livre, na qual nenhum poder pode alargar-se sem limites uma vez que é travado por outros poderes.
Um texto das Considerações sobre as Causas da Grandeza e da Decadência dos Romanos resume perfeitamente este tema central de Montesquieu:
«Por regra geral, sempre que virmos toda a gente tranquila, num Estado que se atribui o nome de República, poderemos ter a certeza de que nele não há liberdade. Aquilo a que se chama união, num corpo político, é uma coisa muito equívoca. A verdadeira união é uma união de harmonia, que faz com que todas as partes, por opostas que nos pareçam, concorram para o bem geral da sociedade como as dissonâncias da música concorrem para o acordo total. Pode haver união num Estado onde pareça haver apenas confusão, quer dizer, uma harmonia da qual resulta a felicidade, que é a única paz verdadeira. Passa-se aqui o mesmo que com as partes do universo, eternamente ligadas pela acção de umas e a reacção das outras.» (Cap. 9; O. C., t. II, p. 119.)
A concepção do consenso social é a de um equilíbrio das forças ou da paz estabelecida por acção e reacção entre os grupos sociais. 6
Se esta análise for exacta, a teoria da constituição inglesa encontra-se no centro da sociologia política de Montesquieu, não por ser um modelo para todos os países, mas por permitir identificar o mecanismo constitucional de uma monarquia, os fundamentos de um Estado moderado e livre, graças ao equilíbrio entre as classes sociais, graças ao equilíbrio entre os poderes políticos.
Mas esta constituição, modelo de liberdade, é aristocrática e, de tal facto, têm sido propostas interpretações diversas.
 
Uma primeira interpretação, que foi durante muito tempo a dos juristas e que provavelmente era ainda a dos constituintes franceses de 1958, é uma teoria da separação, juridicamente concebida, dos poderes, no interior do regime republicano. O presidente da República e o primeiro-ministro por um lado, o Parlamento por outro têm direitos bem definidos, sendo o equilíbrio obtido