Montesquieu
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Montesquieu


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no estilo ou na tradição de Montesquieu, precisamente por meio de uma ordenação precisa das relações entre os diversos órgãos. 7
Uma segunda interpretação insiste no equilíbrio das forças sociais, como eu próprio faço, e acentua também o carácter aristocrático da concepção de Montesquieu. Esta ideia do equilíbrio das forças sociais supõe a nobreza, serve de justificação aos corpos intermédios do século XVIII, no momento em que estes estavam prestes a desaparecer. Nesta perspectiva, Montesquieu é um representante da aristocracia que reage contra o poder monárquico em nome da sua classe, que é uma classe condenada. Vítima da astúcia da história, levanta-se contra o rei, querendo agir em favor da nobreza, mas a sua polémica apenas para a causa do povo será eficaz. 8
Penso pessoalmente que há uma terceira interpretação, que retoma a segunda, mas a supera, no sentido do aufheben de Hegel, quer dizer, que vai mais longe do que a interpretação anterior, embora conservando a sua parte de verdade.
É verdade que Montesquieu não concebia o equilíbrio das forças sociais, condição da liberdade, senão segundo o modelo de uma sociedade aristocrática. Pensava que os bons governos eram moderados, e que os governos só podiam ser moderados quando o poder travasse o poder, ou ainda quando nenhum cidadão tivesse que temer outro. Os nobres não podiam sentir-se em segurança a não ser que os seus direitos fossem garantidos pela própria organização política. A concepção social do equilíbrio queO Espírito das Leis expõe está ligada a uma sociedade aristocrática e no conflito do seu tempo sobre a constituição da monarquia francesa, Montesquieu pertence ao partido da aristocracia, e não ao do rei nem ao do povo.
Mas resta saber se a ideia que Montesquieu tinha das condições da liberdade e da moderação, não continua a ser verdadeira para além do modelo aristocrático que ele tinha no espírito. O que Montesquieu teria provavelmente dito é que podemos efectivamente conceber uma evolução social através da qual a diferenciação das ordens e das categorias tenda a apagar-se. Mas poderemos conceber uma sociedade sem ordens nem categorias, um Estado sem pluralidade dos poderes, que seja ao mesmo tempo moderado e no qual os cidadãos sejam livres?
Que Montesguieu, querendo trabalhar em favor da nobreza e contra o rei, tenha trabalhado para o movimento popular e democrático, é uma ideia defensável. Mas, se nos referirmos à história, os acontecimentos, em larga medida, justificaram a sua doutrina. Demonstraram que um regime democrático, em que a força soberana pertence a todos, não é só por isso um governo moderado e livre. Montesquieu, ao que me parece, tem perfeitamente razão ao manter a distinção radical entre o poder do povo e a liberdade dos cidadãos. É possível que, sendo o povo soberano, a segurança dos cidadãos e a moderação no exercício do poder desapareçam.
Para além da formulação aristocrática da sua doutrina do equilíbrio das forças sociais e da cooperação dos poderes políticos 9, Montesquieu estabeleceu o princípio segundo o qual a condição do respeito das leis e da segurança dos cidadãos é que nenhum poder seja ilimitado. Tal é o tema essencial da sua sociologia política.
Notas:
* Escusado será dizer que não entrarei aqui num estudo pormenorizado nem sobre o que era a constituição inglesa no século XVIII, nem sobre o que Montesquieu julgou que ela era, nem por fim sobre aquilo em que ela se transformou no século XX. Quero apenas mostrar como as ideias essenciais de Montesquieu sobre a Inglaterra se integram na sua concepção geral da política.
 
1. «Há esta diferença entre a natureza do governo e o seu princípio: a sua natureza é o que faz ser o que é, e o seu princípio o que o faz agir. Uma é a sua estrutura particular e o outro as paixões humanas que o fazem mover-se. As leis não devem ser menos relativas ao princípio de cada governo do que à sua natureza.» (E. L., liv. III, cap. 1; O. C., t. ti, pp. 250 e 251.)
2. «É claro que numa monarquia, onde aquele que faz executar as leis se julga acima das leis, se tem necessidade de menos virtude do que num governo popular, onde quem faz executar as leis sente que lhes está submetido e que terá que suportar o seu peso... Quando esta virtude cessa, a arbitrariedade entra nos corações dispostos a recebê-la, e a avareza em todos os corações.» (Liv. III, cap. 3; O. C., t. II, pp. 251 e 252.) «A natureza da honra é exigir preferências e distinções.» (Liv. III, cap. 7; O. C., t. ti, p. 257.)
3. A distinção fundamental entre república e monarquia encontra-se de facto já em Maquiavel: «Todos os governos, todas as senhorias que tiveram e têm poder sobre os homens foram e são ou Repúblicas ou Principados.» (O Príncipe, cap. 1; Le Prince, trad. fr. in O. C., Pléiade, p. 290.)
4. Sobre esta questão ver o livro de F. T. H. Fletcher, Montesquieu and english politics, Londres, 1939, ao qual se pode acrescentar a obra de P M. Spurlin, Montesquieu in America 1760-1801, Louisiana State University, 1940.
5. Os textos de Locke sobre os quais Montesquieu trabalha são os dos Two Treatises of Government, in the former the false principles and foundation of Sir Robert Filmer and his followers are detected and overthrown; the later is an Essay concerning the true Origin, Extent and End of Civil Government, editados pela primeira vez em Londres em 1690. O segundo destes dois tratados, o Ensaio sobre a Verdadeira Origem, a Extensão e o Fim do Poder Civil, foi traduzido para o francês por David Mazel e publicado em Amesterdão por A. Wolfgang a partir de 1691 sob o título Do Governo Civil, onde se trata da Origem, dos Fundamentos, da Natureza do Poder e dos Fins das Sociedades Políticas. Nesta tradução de Mazel, conheceu numerosas edições ao longo do século XVIII. Uma nova tradução para uma edição moderna foi realizada por J. L. Fyot com o título Ensaio sobre o Poder Civil (Essai sur le pouvoir civil) e publicada pela Bibliothèque de Ia Science politique, Paris, P. U. F., 1953, prefácio de B. Mirkine-Guetzevitch e Marcel Prélot.
A teoria dos poderes e das relações entre os poderes de Locke encontra-se exposta nos capítulos XI a XIV do Ensaio sobre o Poder Civil. No capítulo XII, Locke distingue três tipos de poder: o poder legislativo, o poder executivo e o poder federativo do Estado. «O poder legislativo é o que tem o direito de determinar a maneira como se empregará a força do Estado para proteger a comunidade e os seus membros.» O poder executivo é «um poder sempre em exercício para velar pela execução das leis que foram feitas e continuam em vigor». Inclui portanto, ao mesmo tempo, a administração e a justiça. Além disso, «existe em cada estado um outro poder a que podemos chamar natural porque corresponde a uma faculdade que cada homem naturalmente tinha antes de entrar na sociedade... Considerada globalmente a comunidade forma um corpo que se encontra no estado de natureza relativamente a todos os outros Estados ou a todas as pessoas que dela não fazem parte. Este poder compreende o direito de paz e de guerra, o de formar ligas e alianças e conduzir toda a espécie de negociações com as pessoas e as comunidades estranhas ao Estado. Podemos chamar-lhe, se assim o quisermos, federativo... Os dois poderes, executivo e federativo são, sem dúvida, em si mesmos realmente distintos: um respeita à aplicação das leis no interior da sociedade, a todos os que dela fazem parte; o outro está encarregado da segurança e dos interesses exteriores da comunidade perante aqueles que lhe podem ser úteis ou prejudicá-la; contudo, ambos se encontram quase sempre reunidos... De resto não se poderia confiar o poder executivo e o poder federativo a pessoas susceptíveis de agirem separadamente porque a força pública ficaria então colocada sob comandos diferentes, o que não poderia deixar de engendrar, cedo ou tarde, desordens e catástrofes» (ed. Fyot, pp. 158 e 159).
6. Esta concepção não é totalmente nova. A interpretação da constituição romana pela ideia da divisão e do equilíbrio dos poderes e das forças