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I
NELSON SALDANHA
A ESCOLA DO
RECIFE
EDIÇÃO DA FACULDADE DE DIREITO DE CARUARU
CARUARU 
PERNAMBUCO — BRASIL 
— RECIFE —
NELSON SALDANHA
A ESCOLA DO RECIFE
CADERNO N° 66
EDIÇÃO DA FACULDADE DE DIREITO DE CARUARU 
CARUARU 
PERNAMBUCO — BRASIL 
— RECIFE —
PARA
MAURO MOTA e MILTON MELO 
E TAMBÉM PARA 
PINTO FERREIRA,
ANTONIO PAIM,
MIGUEL REALE 
e WILLIAM FERRER COELHO
A E S C O L A DO R E C I F E
Nelson Nogueira Saldanha (*)
Panorama histórico e análise do movimento
ÍNDICE GERAL
Explicação circunstancial
Propósito temático e observação bibliográfica 
CAPÍTULO I — Ambiência e formação
1 — O ambiente recifense ao tempo da gestação ou for
mação da Escola do Recife-.
2 — A vida cultural no Recife pelos anos 60 e 70.
3 — A figura de Tobias Barreto e a constituição de um
“Escola” .
CAPITULO II — Composição da Escola: integrantes e aspectos.
1 — Os componentes da Escola, desde o tempo de Tobic 
Barreto até a morte de Sílvio Romero.
§ 1 — Vista geral.
§ 2 — Componentes iniciais: primeiro, Tobias Ba] 
reto.
§ 3 — Componentes iniciais: segundo, Sílvio Römer 
§ 4 — Seguidores e continuadores: Artur Orlando.
( * ) Professor Adjunto de Teoria do E stad o e Titular de História i 
Pensamento Social e Político da Universidade Federal de Pernambuco.
§ 5 — Ainda seguidores e continuadores: M artins
Júnior.
§ 6 — Seguidores e continuadores: Clóvis Bevilaqua. 
§ 7 — Ainda seguidores e continuadores.
§ 8 — Outros seguidores e continuadores.
§ 9 — Outras figuras.
2 — Setores cultivados pela Escola.
3 — A Faculdade do Recife como berço e foco do movi­
mento.
CAPÍTULO III — Conseqüências e influências. Tentativa de balanço
crítico.
1 — Características dominantes.
2 — Conseqüências e influências.
3 — Para um balanço crítico.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
EXPLICAÇÃO CIRCUNSTANCIAL
Este trabalho foi escrito, entre novembro e dezembro de 1970, 
como monografia apresentada para concorrer ao “Prêmio Cidade do 
Recife — 1970” . Elaborado no exíguo prazo de cinco semanas, em 
meio aos trabalhos docentes do autor, este é o primeiro a reconhecer 
que o estudo poderia, noutras condições, ter sido mais aprofundado.
Reconhecendo o quanto a premência do tempo utilizado afetou a 
construção do livro, mas crendo-o válido como homenagem historio- 
gráfica ao movimento que visou focalizar, o autor agradece profun­
damente o incentivo que recebeu de alguns amigos, que não o deixa­
ram desistir da tarefa, durante o período em que trabalhou.
Falando de homenagem à Escola do Recife mesma, o autor não 
quer furtar-se a afirmar que o trabalho historiográfico pede sempre 
uma compreensão existencial do passado e de sua relação com o pre­
sente. Os homens de carne e osso que fizeram a Escola do Recife, 
vivendo como viveram numa cidade que hoje nos parece tão peque­
na como antecipação de nossos problemas urbanos, pensaram intensa­
mente e intensamente escreveram, assumindo as questões de seu tem­
po com sofreguidão. Olhando as páginas dos livros daquele tempo, 
notamos a solidariedade entre os tipos gráficos — mais as vinhetas 
e as reliures — e a linguagem mesma que traziam, mais as idéias
que expressavam. A morte dos estilos, como a das vestes e a dos 
problemas, é mais recuperável que a das pessoas, e um pouco para 
isso serve a tarefa de historiar: para recuperar o que se pode, de 
dentro dos longos e sucessivos enterros das gerações.
Retomando o texto, quase um ano depois, p a ra a presente edição, 
tivemos agora oportunidade de fazer uns poucos, pouquíssimos repa-
ros na terminologia. Basicamente, o livro vai tal como foi concebido 
e redigido.
O padrão intelectual da “Escola do Recife” constituiu realmente 
uma atitude intelectual bastante característica. Entre os modos de 
filosofar que têm ocorrido em nosso país, aquele padrão teve sua 
eficácia, cuja compreensão e valorização, diante da circunstância cor­
respondente, nos compete tentar. Seja esta a intenção de nosso 
trabalho.
Aproveito para agradecer, como sempre, às pessoas que me deram 
ajuda datilográfica: desta vez Severina de Lourdes Lima, Carolina 
Alcides, Maria José Costa Pinto, Zélia Alves e Albanete Florencio.
Recife, setembro de 1971.
PROPÓSITO TEMATICO E OBSERVAÇÃO BIBLIOGRAFICA
A chamada Escola do Recife constitui sem dúvida um dos títulos 
de gloria da tradição intelectual de Pernambuco, e, de certa forma, 
do Nordeste inteiro. Carregando semelhante responsabilidade, é natu­
ral que tenha sido tema de tantos estudos, e que já exista em torno 
dela uma bibliografia realmente vastíssima. Acontece, entretanto, 
que o vastíssimo dessa bibliografia corre a troco de uma certa hete- 
rogeneidade, ou antes, digamos, de uma certa dispersão. O numeroso 
material existente, numeroso até demais possivelmente, tem sido insu­
ficientemente sintetizado. Os esforços que têm incidido sobre ele 
trazem mui poucas vezes intenção didática. Somente uma ou duas 
obras possuem o sentido de síntese e sumarização do que foi efeti­
vamente a Escola; com a grande maioria dos trabalhos referentes 
sucede que são vistas parciais, tocantes quer a algum aspecto quer 
a alguns nomes mais altos, ou então includentes do episódio, que foi 
a Escola, em algum panorama cultural maior.
Das sínteses disponíveis, com alcance global e conteúdo realmente 
completo, embora sem enxúndias nem prolixidades, destaca-se inques­
tionavelmente o livro de Antônio Paim, A Filosofia da Escola do 
Recife, lançado pela Editora Saga em 1966. Este estudo, completo 
quanto ao aspecto que elege, ou seja, o filosófico, deixa — como decor­
rência lógica de seu enfoque — deixa de parte toda uma série de 
aspectos e lados que a Escola apresentou. Há também o fato de que 
grande parte da bibliografia existente se centra sobre as figuras pros- 
ceniais do movimento, particularmente Tobias Barreto e Sílvio Rome­
ro. Ora, são figuras, estas duas, que de ta l modo tentam o biógrafo, 
pelo tumultuado de suas vidas, ou mesmo o expositor crítico, pela 
complexa riqueza das obras que deixaram , que os livros sobre eles 
são em muito pouca medida livros sobre a Escola. São livros “sobre 
Tobias”, ou “sobre Sílvio”, nomes próprios que aliás o apego dos estu­
diosos tem feito independentes dos sobrenomes; contrapartida daquele
12 —
irioso uso de escritores lusos e brasileiros, de a té uma ou duas gera- 
cs, de se fazerem conhecer pelos sobrenom es sem o cognato.
Por outro lado, o comportamento doutrinário e proselitístico da 
scola, desde o exem plo de Tobias B arreto, sempre ensejou atitudes 
paixonadas a respeito. Atitudes polarizadas, contra ou a favor, con- 
mdindo-se as figuras com as idéias, confundindo-se determ inadas 
léias com o “progresso” intelectual, ou recusando-se os m éritos do 
rupo por idiossincrasias e crenças. Se se aplicar ao caso a famosa 
istinção de Ortega acerca de idéias e crenças ( “as idéias se têm, nas 
"enças se está” ; “das crenças, às vezes não se tem nem idéia” ), se 
ê justam ente isso: as idéias do grupo, que aliás eram ao mesmo 
impo crenças, ou antes repousavam em crenças, vêm sendo v a lo n ­
adas ou desvalorizadas, como crenças, mais que como idéias.
Tudo isso significa, se se permite, a necessidade de uma recon- 
ideração da Escola. Ao mesmo tempo, de uma reexposição de seus 
ravejamentos intelectuais e de seus suportes históricos, com uma 
essistematização de sua trajetória na evolução cultural do Recife. 
)essa evolução ela foi, por um lado, produto e manifestação; por 
o tro lado, elemento propulsor durante muitos anos — ou antes, 
turante algumas gerações.
Ver a Escola do Recife no Recife: esta seria a tarefa necessária. 
‘No Recife” significa dentro de uma certa fase da vida da cidade, 
iquela em que a metrópole concentrava um sentido maior (ao menos 
geograficamente) que o que lhe cabe hoje: o Recife era considerado:omo o centro da vida do “Norte” . Quando Franklin Távora, ap 
prefaciar seu próprio romance O Cabeleira, dividiu o território lite ­
rário nacional em Norte e Sul (levantando um problema chato mas 
necessàrio que ainda hoje agita e incomoda os críticos literários), teve 
a intenção de situar no “Norte” a ambiência do romance; e a suges­
tão daquela distinção ficaria atuanclo no sentido de fazer concentrar 
em Pernambuco a condição de ponto de referência do “nortism o” : 
tinha sido o estado mais trabalhado pelas lutas emancipacionistas. 
E o Recife, como capital, confirmava semelhante condição pela p r i­
mazia intelectual que entre os estados vizinhos nenhuma outra cidade 
pretenderia negar, nem disputar. A consolidação desta hegemonia 
do Recife, entre as cidades da região, correspondeu a uma série de 
circunstâncias, das quais se poderia mencionar a situação econômica 
de Pernambuco, ainda vivendo dias de bom açúcar e esplendor comer­
cial. No Recife de então, a importação de coisas européias se fazia
Ccrriqueira e generalizada. Então ímportaram-se também livros e 
idéias, em quantidade m aior. P a r te digeridos, parte indigeridos, esses 
livros e essas idéias resultaram , de alguma forma, na Escola do Recife.
- ❖ -
Mencionamos, atrás, o problem a bibliográfico. Voltemos a ele. 
Desde logo para dizer que não temos a pretensão de, com o presente 
ensaio, preencher as lacunas porventura existentes na lista, que já 
qualificamos de vastíssima, dos títulos tocantes ao tem a. Nem, por 
outra parte, pretendemos dar conta, utilizando ou citando, de quantos 
estudos já se consagraram à Escola, ou a seus integrantes, ou a seus 
aspectos.
Há, realm ente, estudos excelentes sobre determinadas figuras, como 
o de Hermes Lima sobre Tobias Barreto ou o de Sílvio Rabello sobre 
Sílvio Romero. O aspecto filosófico da Escola foi analisado por Paim. 
o jurídico está enfocado em trabalhos de Machado Neto e Vamireh 
Chacon. E, se faltam síntese outras (sobre o positivismo existem 
umas três obras de porte, globais), falta também outra coisa: uma 
discriminação compreensível da verdadeira c-omposição da Escola. 
Quem a integrou realmente? Quem foi co-fundador, além de Tobias 
Barreto e Sílvio Romero? Quais foram os seguidores (habitualm ente 
ditos “epígonos” na retórica historiográfica) propriam ente, quais os 
meros simpatizantes, os que aproveitaram idéias do movimento ou 
os apenas relacionados por questões polêmicas, ou por serem da m es­
ma hora, dos mesmos assuntos e das mesmas leituras?
Tentaremos rever essas coisas. Um pequeno balanço, como este, 
não pode ter maiores veleidades. De qualquer sorte, o que faz falta 
para repor certos nomes em seu momento certo é um critério adequado. 
Certas exposições, excelentes como apresentação doutrinária ou n o tí­
cia bibliográfica, deixam indeciso o desenho das posições dos vários 
“integrantes” do grupo, e o leitor se perde um pouco. Na verdade 
a Escola, como um eco que se esmaece lentamente e lentam ente se 
modifica, modificou-se e esmaeceu-se ao passar de geração a geração 
Uma coisa eram as motivações da década 70 do século XIX, quandc 
Tobias Barreto estava preocupado com Guizot e Haeckel, outra eram 
as investigações jurídicas de Bevilaqua e os desafios objetivos que 
Sílvio Romero apontava em 1910.
Um pequeno balanço como este, repita-se, não pode ter maiorei 
veleidades, que as referentes à “compendiar” e “aq u ila ta r” os an v er
— 14 —
; e reversos da Escola. De resto, se dizemos que a Escola se alte- 
ì ao passar por distintas motivações históricas, isto supõe que se 
3 atribua um perfil inicial definido, senão definitivo, um núcleo de 
racterísticas p róprias. Isto porém será visto adiante: se ela teve 
não a denom inada unidade interna. E teve. Teve-a sem ser orto- 
xamente, que é a boa maneira de se te r unidade interna.
CAPÍTULO I
AMBIÊNCIA E FORMAÇÃO 
— O ambiente recifense ao tempo da formação da Escola do Recife.
Não se pode, conforme foi afirmado acima, entender as etapas de 
ansformação que a Escola do Recife atravessou, sem situá-la a par- 
r de sua gênese num determinado cenário histórico. Também não 
i pode considerar seu cenário histórico sem ter em conta a atemosfera 
►ciai e cultural v ivida pelo Recife, com suas características de m etró- 
)le regional então inconteste (mais do que h o je ) . Características 
íe sob o prism a econômico correspondiam ao. fato de ser a cidade 
3saguadouro de uma economia agrária ainda plenamente vigorosa — 
Desar de se prepararem as crises e problemas que desembocariam 
3 Congresso Agrícola Regional de 1878 —, e de ser, por outro lado, 
»co de um comércio nacional e internacional considerável. Sob o 
risma político, o Recife continuava sentindo-se a própria cabeça do 
Leão do Norte”, impávido e rebelde, cheio dos ecos e dos gestos 
e várias revoluções libertárias: no século dezenove mesmo, tinha feito 
Revolução de 1817, a Confederação do Equador e a Praieira, alimen- 
mdo uma tradição de liberalismo e inconformismo verdadeiramente 
npar. Socialmente, Pernambuco apresentava um quadro que se pode- 
ia tomar como típico da brasilidade oitocentista em seu aspecto bási- 
o, ou seja, antropológico: a miscigenação racial, se por um lado 
avoreceu exem plarmente a mobilidade social, permitindo que pardos 
mulatos subissem na escala social, por outro lado ensejou dialetica- 
aente um processo de preconceitualização que, mau grado nossa apre- 
oada democracia racial (só em parte existente), continua a medrar 
errivelmente en tre nós.
O lado positivo da mestiçagem foi aliás, em boa hora e em te r­
nos convincentes, enfatizado por G ilberto Freyre. Desde seu juvenil 
nas definitivo estudo sobre a “Vida Social no Brasil nos meados do 
éculo X IX ” o problema está posto, mas seu completo tratam ento em 
timensão de história social se encontra em “Sobrados e Mucambos”, 
>nde vemos retratada a figura do m ulato que se habilita e se nobi-
- 1 5 -
lita pela transformação em padre ou em bacharel: e para Gilberto 
Freyre, o mulato do romance famoso de Aluízio de Azevedo teria 
sido modelado sobre casos reais, como um tipo.
Vale lembrar, todavia, o lado negativo da mestiçagem, correspon­
dente à formação dos preconceitos de raça e aos ressenteimentos 
correlatos.
Ambos os lados, de resto, vamos encontrar no «aso fundamental 
e exem plar de Tobias Barreto. O padrão mestiço existente na socie­
dade permitiu-lhe “subir” na hierarquia social, vindo a ser professor 
da Faculdade, condição que no tempo correspondia a um status social 
de enorme prestígio. Mas teve de haver-se com um mundo de anti­
patías e reações por conta de seus caracteres somáticos. Donde, ao 
menos em parte, sua agressividade perm anente.
r
Intelec-tualmente, dá para se dizer que as duas grandes forças do 
Recife de então eram a Faculdade de Direito e a Imprensa. Como a 
de São Paulo, a Faculdade do Recife exerceu função por assim dizer 
catalizadora, centralizando o prestígio social e cultural num meio urba­
no bisonho e limitado, como era o das províncias de então, onde aos 
poucos entravam as vias férreas e os costumes novos. Ser bacharel 
tinha de ser grande coisa; ser acadêmico já era muito, era ser um 
personagem .
A importação de idéias européias — francesas em maioria, como 
se sabe — era um processo cultural antigo no país, e vinha desde o 
período colonial, mas agora era mais intenso, agora era uma notícia 
mais completa e mais direta a que se tinha dos debates ideológicos e 
científicos travados na Europa. No Recife, semelhante processo foi 
dos mais representativos: jornalistas e professores, políticos, padres, 
militares, bacharéis, toda a intelligentsia local se debruçava sobre os 
volumes vindos de P aris . Quando Vauthier chegou ao Recife, onde 
construiria o Teatro e outras edificações inconfundíveis, já encontrou 
ebulições intelectuais patentes,que talvez lhe tenham parecido con­
traditórias em relação ao nível global da cultura do povo, e ao aca­
nhado da mentalidade em term os genéricos.
A elite, que Pernam buco até então tivera como portadora de 
rebeldías e leonismos, existia, ainda, nos anos 60; e àquela a ltu ra a 
pobreza urbana da cidade e as limitações do ambiente como periferia 
não impediam que ta l elite estivesse cada vez mais interessada em 
ismos do velho mundo, como socialismo, romantismo, liberalismo etc.
— 16 —
Foi quando chegaram Os ismos filosóficos. V inham liderados 
pelo positivismo e pelo evolucionismo. E logo se revelaram avessos 
à metafísica, ao direito natural e às tradições (que por si mesmos 
não se chamariam de “ismos” se não fossem desafiados e espicaçados 
pelos “ismos” heréticos que chegavam).
2. — A vida cultural no Recife pelos anos 60 e 70
Os anos sessenta e setenta, do século XIX, são o m om ento prepa­
ratório para a eclosão do movimento que se cham ou Escola do Recife. 
Foram anos agitados: basta mencionar que ainda soavam polêmicas 
ligadas à Revolução Praieira de 1848. Mas havia um surto de polê­
micas novas e novos polemistas. Foi em 1867 que Borges da Fonseca, 
antigo agitador praieiro, publicou no Recife o seu “M anifesto Político”, 
com o subtítulo de “Apontamentos de m inha vida política e da vida 
política do Dr. Urbano Sabino Pessoa de M elo”; em 1862 Antônio 
Herculano de Souza Bandeira publicara, prefaciando-a, um a im portan­
te coletânea sobre a reforma eleitoral e a eleição direta; por aqueles 
anos, o alagoano Melo Morais publicava, no Rio, suas furiosas obras, 
meio jornalism o-diatribe meio historiografia-denúncia. Foi também o 
tempo em que, no Recife, Afonso de A lbuquerque Melo editou sua 
catilinària anti-lusitana: “A liberdade no B rasil — seu nascimento, 
vida, morte e sepultura” .
A revolução praieira, impregnada de doutrinagem européia e de 
intenções genéricas, não deixou de ser entranhadam ente recifense 
pelas motivações sociais que carregou (evoque-se a respeito o decisivo 
estudo do professor Amaro Quintas a respeito). Mas o Recife dos 
anos 60 e 70 não constava apenas de ressonâncias heróicas nem de 
permanências polêmicas: era também uma cidade que se alterava aos 
poucos, se bem num ritmo que hoje, ao nosso pulso histórico sempre 
acelerado, possa parecer bem lento. Já não era o Recife dos revo­
lucionários ainda meio coloniais de 1817 ou mesmo de 1824, cidadela 
bitolada e esconsa: era uma cidade com pretensões novas. As figuras 
humanas mudavam. Os “gamenhos” que Lopes Gama satirizou, como 
um Daumier de outra forma (sobre Lopes Gama é impossível ignorar 
o livre exaustivo do professor Valdemar Valente, publicado em 1969), 
os gamenhos da prim eira e trêmula floração romântica cediam o passo 
a novos tipos; esses tipos correspondiam a um começo de classe média 
urbana, a uma nova fixação antropológica resultante de nova fase da 
miscigenação, e a uma nova mentalidade social.
Ao falar em tipos humanos e em mentalidade social, temos for- 
çosamente de retom ar o tema do bacharel. Dito foi, acima, que o
— 17 —
bacharel e ra um personagem: dava-se ares, assumia um papel espe­
cífico, e com um pouco de desenho a crítica histórica acabou por 
pregar-lhe sentido caricato. O certo é que tal crítica já vinha sendo 
feita no século passado mesmo, e que a antipatia posterior contribuiu 
para criar, sobre um equívoco, um pesado preconceito terminológico. 
Bacharéis fo ram os que deram passos decisivos na nossa história, pen­
saram coisas novas, fizeram levantes. Bacharéis fizeram a Escola de 
Recife — precisamente um movimento de bacharéis. Bacharelismo 
(o ismo como afocinhamento na fisionomia da palavra com fins nega­
tivos) já é ou tra coisa, e se existiu com os bacharéis de direito naque­
le tempo, e a té bem pouco, existe hoje com outras áreas profissionais.
Essa afirm atividade da “intervenção dos juristas” foi por sinal, 
há pouco, oportunam ente sublinhada por Luís Delgado num dos me­
lhores capítulos de seu livro “Gestos e Vozes de Pernam buco”. Eram 
os formados pelas academias de direito que iam — m ostra ele — lidar 
com os problemas novos e urgentes da vida real do país, desde a 
independência, e orientar sua vida institucional da maneira mais 
equilibrada.
Se o Recife, por aqueles anos, era uma cidade com pretensões 
novas, isto não pode ser descrito como um processo evolutivo tran ­
quilo e pacífico. As novas atitudes, sobretudo as intelectuais e aca­
dêmicas, se topavam com resistências e reações, de um a maneira que 
talvez possa ser atingida pela expressão ambígua “conflito de gerações” . 
Os representantes do tomismo ou do catolicismo, guardando o hábito 
metodológico da escolástica e o critério doutrinário da metafísica, não 
podiam aceitar novidades inquietantes, e é natural que os pregoeiros 
destas novidades se sentissem como juventude e criatividade em face 
de idéias velhas e gente repetidora.
Antônio Paim , evocando a origem da Escola de Recife, menciona 
a Questão Coimbra, que por volta de 1865 tinha revelado o estupendo 
poderio especulativo de Antero, atirando-se sobre Castilho, ou antes, 
sobre o que Castilho representava como coisa arcaica. Fonte e mode­
lo para os Anteros locais, ou não, o movimento português serve como 
comparação. Também houve, na insurreição literária representada 
pelo movimento de Tobias Barreto, uma dimensão de lu ta de gerações. 
E com isto não se tira o mérito dos que a Escola combateu: sem 
dúvida que se tratava de professores idôneos. O que se tem a con­
siderar é o cará ter de novidade, como elemento decisivo, que Tobias 
e seus sequazes anunciavam no que defendiam. Argum ento insufi­
ciente, mas psicologicamente forte, e, para o tempo, compreensível: 
nossas idéias são boas porque são novas, as dos nossos detratores
— 18 —
0 ruins porque são velhas. Um socratismo estranho e tosco se 
icontrava no âmago das pretensiosidades erudicionais de Tobias e 
lvio Romero: pretendiam saber mais que os adversários, e se sabiam 
ais, estavam mais certos, pois que enquanto se sabe menos, se conhe- 
■ menos a verdade. Restava perguntar qual a medida para contar
1 saberes. Para eles, a medida estaria justam ente na novidade dos 
yros e dos autores que aduziam, como pour épater e como uma 
¡plica, também estranha e tosca, do clássico argum ento de autoridade, 
uanto mais nova uma idéia, melhor; e quanto mais autores a este- 
im adotando, melhor. Este critério, a té certo ponto, vigorou como 
¡ndência psicológica central no grupo de Tobias. Por isso se cita 
;mpre a frase de Sílvio Romero, que, aludindo às origens da cam- 
anha intelectual do fundador da Escola, dizia que “um bando de 
léias novas” tinha começado a esvoaçar no horizonte. A Escola de 
ecife (nome que começa a circular por conta de Sílvio Romero) 
retendia-se iniciadora, em verdade, do autêntico sopro de vida cul- 
jra l em Pernambuco. Exagero patente. E um pouco exagero de 
)vens.
. — A figura de Tobias Barreto e a constituição de uma “Escola” .
A figura de Tobias Barreto ficou sendo, em relação à Escola do 
tecife, não apenas centro e ponto de partida, como também modelo, 
xemplo de estilo intelectual, multiplicidade de conhecimentos, ten­
encia polêmica, pretensão literária.
Com respeito a ele é difícil descartar o biográfico, não só porque 
ua obra se acha toda marcada pelo circunstancial, como porque a 
magem que a historiografia habitualmente faz dele está sempre vin- 
ulada ao biográfico.
Nascido em 1839, em Sergipe (numa vilazinha chamada Campos), 
íerdou do pai as características físicas do mestiço e certas inclinações 
joêmias e estouvadas. Estudou por lá as chamadas primeiras letras, 
endo estado inclusive em Lagarto (terra de Sílvio Romero). Apren- 
leu latim, o que, como observou Hermes Lima, o nivelava de certo 
nodo aos filhos de ricos, ele que vinha de um paiescrivão de cartó­
rio, pobre e modesto. Jovem ainda, tocou flauta em charangas locais, 
asando cabeleira enorme e compondo versos. Jam ais deixou o gosto 
pelas diversões, pelo violão, pelas mulheres. Saiu de Sergipe para a 
Bahia à procura de um meio mais condizente com suas virtualidades. 
Em 1861 foi para a Bahia. Teve atropelos iniciais. Estudou filosofia, 
inclusive assistindo aulas do célebre Frei Itaparica, mas sobretudo 
mergulhando na Biblioteca Pública. Ali conheceu inclusive as obras
de Victor Hugo, que a ele, como a Castro Alves, influenciariam de 
form a profunda. Hermes Lima, no magnífico livro que dedica ao 
estudo de Tobias Barreto, assim se refere às suas leituras na Biblio­
teca Pública baiana:
“Ali passava o m elhor do seu tempo, lendo os românticos, 
deslumbrando-se com Victor Hugo, que é, verdadeiramen­
te, a sua grande, a sua máxima descoberta na Bahia. 
Pela voz do poeta, o rapaz humilde e sonhador do sertão 
de Sergipe entra a participar do drama do mundo, dos 
seus anseios, da sua inquietação” .
Voltou a Campos numa crise de vida, e dali resolveu dar o g ran ­
de passo, ir para o Recife. Sofreu outros contratempos iniciais, inclu­
sive alguns grotescos (como o coice de um burro que os autores sem ­
pre relembram, e que o pegou bru ta lm en te). Fez um concurso de 
latim para o Ginásio Pernambucano, perdendo-o; fez outro de F ilo ­
sofia, que venceu, mas viu nomeado outro candidato. Ainda desco­
nhecido e desamparado, essas adversidades, preparam -lhe o acervo de 
ressentimentos e queixas que nunca deixariam de m anifestar-se pelo 
resto de sua vida. Como aliás aconteceria com outros mestiços de 
nossa história literária, qual foi o caso, menos ostensivo, de Machado 
de Assis, ou o caso, mais ostensivo e mais amargo, de Lima B arreto .
Na Faculdade de Direito, como acadêmico, formou aos poucos, 
entretanto, um grupo de amigos e admiradores, conquistando um nome 
conceituado e um prestígio intelectual considerável. Prestígio in icial­
mente de poeta, obtido nas disputas com Castro Alves, nas declam a- 
ções típicas da época, na luta lírica em torno de atrizes de T eatro . 
Várias oportunidades de aparecimento social se apresentavam aos e-stu- 
dantes naquela sociedade que aos poucos adquiria hábitos novos, e 
em que as festas acompanhadas a piano incluíam recitativos rom ân­
ticos. Sua rivalidade com Castro Alves, talvez acentuada demais pelos 
zelos bairristas de Sílvio Romero em sua “H istória da L ite ra tu ra 
Brasileira”, não teria talvez passado de episódio momentâneo. N a 
verdade, Castro Alves sempre foi basicamente poeta, e muito m ais 
poeta que Tobias, inquestionavelmente. Tobias, porém, utilizando 
uma experiência maior em termos de existência e de estudos, conse­
guia enfrentar a parada. E para ele aquilo e ra um a grande opo rtu ­
nidade, no sentido de fazer-se aceitar pela sociedade — a ele m estiço 
e pobre —, de se fazer adm irar e impor. De seu s concursos, e o u tra s 
tentativas específicamente intelectuais, Tobias posterio rm ente faria u m 
juízo zombeteiro, chegando a dizer, em estudo contido depois no 
volume “Filosofia e Crítica”, que não sabia m esm o Filosofia quando
concorreu, como o seu oponente tam bém não sabia. Mas destas lutas 
lítero-sociais não fez juízo negativo: ele sabia que eram o seu cam i­
nho, p ara subir na província.
N em sempre, entretanto, teve êxito na escalada. Teve inclusive 
fracassos sentimentais, que lhe doíam como provenientes de sua infe­
rioridade social. Destes desastres, curava-se pelo tem peram ento comu­
nicativo e por uma certa leviandade, mesmo, que o impedia de se 
concentrar todo tempo numa pessoa, como num a teoria ou numa m a­
téria . T inha um jeitão transbordante e falastrão, que com o tempo 
se tornou desinibição total. Não era um tímido, como o são geral­
mente os ressentidos; aproveitava toda ocasião de aparecer, falar, ser 
ouvido, te r êxito. Tanto apreciava a conversa chã e as anedotas 
prosaicas, como a discussão erud ita . Conseguia passar da concentra­
ção paciente debruçada em cima dos clássicos e dos grossos tomos 
alemães e franceses, para o cavaco informal, o “papo” inconseqüente 
e a in triga política. Adorava fazer discursos: destemperado, exage­
rado, sem o aplomb de um Nabuco nem as correções de tantos outros, 
mas eficiente e persuasivo: homem do povo, alimentado de conheci­
mentos europeus, voltado de novo para o povo.
Tornou-se membro do partido liberal. Mas suas convicções polí­
ticas nunca foram muito claras. Conservou hábitos desorganizados 
por toda a vida: Luiz W ashington Vita, em sua notável síntese “Pano­
ram a da Filosofia no Brasil”, m ostra-o em bailes e serestas, com 
pouco apreço pelas coisas práticas e até mesmo pela higiene. Conser­
vava também o hábito da polêmica. Sempre se cita sua polêmica 
contra o conselheiro Autran, representativo da velha guarda dos pro­
fessores de direito, conservador, católico, jus-naturalista, bien-pensant. 
No volum e “Polêmicas”, das obras de Tobias Barreto, inclui-se a 
famosa “Crônica dos disparatos”, onde dirigiu a Autran os versos 
seguintes:
Mote:
Fradecos, tocai o sino 
Que o Católico m orreu.
Glosa:
Um velho feito menino 
por força de caduquice,
Quiz lutar — oh que sandice! 
Fradecos, tocai o sino 
Não julgueis que é desatino 
Taxá-lo assim de sandeu.
Se em discussões se meteu,
21 —
Para tornar uma sóva 
Carolas, abri-lhe a cóva, 
Que o católico morreu.
Tal é na terra o destino 
Das ciencias passageiras: 
morreu vomitando asneiras...
Fradecos, tocai o sino!
Não teve auxílio divino 
Nem a Suma lhe valeu.
Como é que assim se perdeu 
Tão sábio guia das almas?
Quem for ímpio, bata palmas,
Que o Católico m orreu.
O “Católico” era o jornal onde Pedro A utran escrevia (Tobias 
replicava no “Americano”) . As ciências passageiras mencionadas na 
segunda estrofe aludem evidentem ente à teologia e à metafísica, e 
mostram um Tobias ainda meio positivista, pois segundo a Lei dos 
Três Estados, de Comte, a teologia foi substituída pela metafísica, e 
esta pelas ciências positivas. Note-se ainda a referência à Suma — 
seguramente a “Suma Teológica” de Tomás de Aquino.
Concluído o curso de D ireito, Tobias Barreto, como todos sabem, 
vai ser promotor em Escada, in terior de Pernam buco. Ia-se em bre­
nhar, não apenas na distância geográfica, como na concentração da 
leitura. Conta-se que antes de v ia jar comprou por acaso, numa liv ra­
ria da rua do Imperador, um dicionário de alem ão. Diz Luiz W ashi­
ngton Vita que aquela visita à liv raria foi uma “visita histórica”, pois 
dali dataram suas “núpcias com o germanismo” . Realmente, núpcias 
férteis.
Este germanismo seria, daí por diante, a g ran d e constante, senão 
mesmo a grande alegação in telectual de sua v ida de pensador.
Em Escada redige um jo rn a l em alemão, o Deutscher Kampfei 
(“Lutador Alemão” ), que pouca gente te rá lido, incluindo-se os a le ­
mães da Alemanha para os q uais o rem etia, e incluindo-se o pròprie 
Haeckel, que, ao que consta, te r ia um d ia elogiado sua redação en 
língua tedesca.
— 22 —
De certa form a, o jornal alem ão marcava o início da formação 
ca Escola. In telectuais do sul, à frente* Carlos de Laet, chamariam 
depois o grupo de “escola tcu to-serg ipana”, sublinhando nom inalm en­
te a dcsi^roporção entre o elem ento alemão e o elemento sergipano. 
Tobias e seu grupo redarguiriam designando o grupo de Laet (que 
nem era um a escola, e não o p retend ia) como escola galo-fluminense. 
Nesta designação, ia o intento de apontar a limitação dos intelectuais 
da corte, apenas lidos nos franceses, e isto traduzia um duplo precon­
ceito de Tobias: o preconceito segundo o qual a verdadeira cultura 
citava na A lem anha (“não tendo deixado sucursal na F rança”), e o 
preconceito nortista contra os intelectuais do Sul, no caso tidos como 
folgados e avessosaos estudos pesados.
A famosa frase de A raripe Júnior, segundo o qual Tobias, lan­
çando pela prim eira vez en tre nós os nomes de Darwin e Haeckel, 
“lançava as prim eiras tarrafadas na pesca dos prosélitos”, ficou como 
uma imagem definitiva: era uma ascendência ímpar, a que Tobias 
Barreto conquistava aos poucos, e indubitavelmente mantinha, dentro 
do meio culto rccifense; senão mesmo, já que o Recife era o centro 
da região, dentro da cultura nordestina. Isto através da Faculdade 
de Direito. Na verdade, só depois de tornado professor da Faculdade 
é que :u a atuação, já fru tífera e exemplar, se projetou em chefia 
de escola e em proselitismo definido e caracterizado.
Para Antônio Paim, passou a Escola do Recife por quatro fases. 
Teria sido, a prim eira, um esforço genérico de renovar idéias, rejei­
tando a metafísica, o ecletismo e a escolástica. Tal fase iria mais 
ou menos de 1860 a 1875. A segunda fase, segundo Paim, teria tido 
início quando — já Tobias intelectual conceituado — Sílvio Romero, 
no conhecido incidente acadêmico da defesa de tese, gritou e debla- 
terou que a metafísica estava morta, afirmação que provocaria inda­
gações no próprio Tobias. Esta segunda fase tem outra marca da 
presença de Sílvio Romero: a publicação (1878) de seu livro “A Filo­
sofia no Brasil”, imaturo e desigual mas expressivo e válido. A ter­
ceira iria de meados da década de 80 aos primeiros anos do século 
XX: Tobias m orre aos 50 anos em 1889; refundem-se os fundamentos 
doutrinários; os arrancos polêmicos iniciais se mudam em desdobra­
mentos temáticos, incluindo-se cada vez mais o ângulo sociológico na 
consideração dos problemas. A chamada quarta fase seria a dos 
brilhos finais, onde as discussões filosóficas já pouco contavam. Deixa
de circular a revista Cultura Acadêmica, que se divulgara em 1905 e 
1906. O ano 1914, com a morte de Silvio Romero, balizaria o fim 
da trajetória da Escola.
Talvez seja esm iuçar demais a existência da Escola, dividir seu 
ciclo vital em quatro fases; de certa forma, o que ela teve mesmo, 
como de resto todo movimento intelectual aqui ou no velho mundo, 
foi um período de formação, um de apogeu e outro de declínio. 
Todavia podemos aceitar em parte o esquema proposto por Paim .
De qualquer sorte, um momento decisivo na caracterização inicial 
da Escola, no sentido de uma definição interior de sua doutrina foi 
o abandono, por Tobias Barreto, do positivismo (ou da parte do posi­
tivismo que viera aceitando) e sua adesão gradativa ao haeckelismo.
É verdade que antes tinha feito a crítica do espiritualismo francês de 
Royer-Collard, de Jouffroy, de Guizot e de Cousin, em diversos estu ; 
dos, e tinha também combatido o teologismo e o tomismo. Sejam 
lembrados os estudos “A propósito de uma teoria de São Tomás de 
Aquino” (1868, incluindo nos Estudos Alemães e depois posto no 
tomo III das Obras Completas editadas pelo governo de Sergipe em 
1926) e “Teologia e Teodicéia não são ciências” (1868), abrigado no 
tomo II das Obras Completas. Mas com o artigo sobre o “H aecke­
lismo em Zoologia” (1880), que comentava a obra homônima de C arl 
Semper, Tobias colocava Haeckel no cimo mais alto da in telectuali­
dade, como um sábio inconteste e incontestável, cujas idéias faziam 
parte do que de mais sólido e mais definitivo existe ou pode existir 
no patrimônio da filosofia e da ciência. O culto a Haeckel se con­
funde, nas páginas de Tobias e em suas entrelinhas, com o culto à 
própria superioridade cultural alemã. Com ambas as coisas se con­
funde, de certa forma, o culto ao monismo e a uma certa concepção 
cientificista da filosofia, que não deixava de ser também uma con­
cepção filosofante da ciência e do trabalho científico.
Antônio Paim considera que a rejeição do positivismo por Tobias 
resultou da procura de uma solução para um problema fundam ental 
com que ele se debatia desde o contacto inicial com as idéias de 
Comte: o problema dos limites em que se poderia aceitar a m etafí 
sica, retirando-se-lhe desde logo o fam igerado problema da “causs 
p rim eira” . Isto nos põe na pista das dúvidas e críticas feitas ao: 
autores franceses; e explica que diante do brado destambocado d< 
Silvio Romero sobre a morte da metafísica, Tobias se pusesse a pen 
sar m elhor no assunto. Tanto que, em 1875, escreveu o texto “Dev< 
a metafísica ser considerada morta?” , publicando-o no seu jo rn a
— 24 —
eutscher Kampfer. O texto é hesitante: arrasa a metafísica tradi- 
onal, atribuí a Hume e a Kant a sua destruição, mas também criti­
ca a ingenuidade dos que falam da metafísica sem conhecê-la.
Por sinal, que situar certos pontos do pensamento de Tobias sem- 
re é algo difícil. Se Sílvio Romero praticou a instabilidade quase 
amo uma profissão de fé, dizendo-se ora isto e ora aquilo, Tobias 
iarreto, de modo visível, tinha também certa heterogeneidade, ou 
ntes, certas hesitações no tocante às convicções. O que era, na rea- 
dade, uma forma de ser eclético, embora o ecletismo fosse expres­
amente repelido pela Escola, como hoje repelem a própria idéia de 
cletismo vários críticos que malgré tout fazem seus ecletismos também.
A propósito de política, por exemplo, Tobias Barreto sempre hesi- 
ou. Segundo Sílvio Romero, Tobias escreveu certa vez: “Não sou, 
íão posso ser conservador e isto por índole. Liberal, não sei se sou; 
10 menos entre nós os liberais me repelem, e eu de minha parte os 
icho sofrivelmente ridículos, desde os chefes que comprometem o p a r­
ido, até qualquer desses desfrutáveis quarentacoitistas que têm na 
>arede o retrato de Nunes Machado abaixo do registro de N . S . da 
Penha, sem falar no resto” .
E dizia mais, ainda segundo o testem unho de Silvio Romero: 
‘O que eu sou, pois? Talvez uma dessas naturezas problemáticas, a 
:juem nada contenta, senão desmontar todas as peças dos velhos p re­
conceitos e por tudo em questão; nunca e nunca, porém, um evangelist 
of waste, na frase de Buchanan” .
Dizia-se liberal (e filiou-se ao partido) e criticava os liberais. 
Suas instabilidades doutrinárias, que ele urna vez (em frase um tanto 
leviana) comparou às próprias sentimentais, sempre foram um a cons­
tante sua, embora, repita-se, não tão desconcertantemente como as 
de Sílvio Romero.
As vicissitudes de sua vida marcaram o evolver de seu pensa­
mento: escrevendo sobre coisas seríssimas em periódicos efêmeros, 
conciliando estudos profundos com hábitos boêmios, enfurnando-se em 
Escada para escrever em alemão, sempre deixou que o bias subjetivo 
de sua auto-imagem afetasse o crescimento interior de seu pensa­
m ento. E nisto, como modelo, iria influir sobre os outros da escola, 
discípulos e continuadores, particularm ente sobre Sílvio Romero, que,
— 25 —
se bem homem de hábitos pessoais muito diferentes, conservou sem- 
pre o eriçado polêmico em tudo o que escrevia, bem como a sempre 
disponível dimensão pessoal por dentro das idéias. Em ambos, a 
abertura às idéias e às teorias as mais diversas (que aliás se facili­
tava pelo convite ao enciclopedismo, próprio da época) foi algo fecun­
do: cada um dos dois praticou a seu modo a regra “je prends mon 
bien où je le trouve” .
CAPÍTULO II
COMPOSIÇÃO DA ESCOLA: INTEGRANTES E ASPECTOS
1. — Os componentes da Escola, desde o tempo de Tobias Barreto 
até a morte de Sílvio Romero.
8 1 — Vista geral
Uma das coisas que fazem falta ao leitor, nas exposições sobre a 
Escola do Recife, é um quadro mais ou menos claro da seriação de 
nomes que a integraram, bem como (o que foi mencionado atrás) 
das posições que cada um ocupou. Na verdade, uns têm colocação 
central, estão na linha principal dos temas e das inclinações da Esco­
la; outros, sem que isto signifique maior ou menor “importância” de 
sua parte em relação aos primeiros, estão na periferia da atuação 
do grupo.
A Escola do Recife, se a consideramos como tendo durado dos 
anos60 do século XIX até pelo menos a segunda década do nosso 
século, atravessou sessenta anos, o que significa duas gerações. Gera­
ções, porém, não são demarcações cronológicas fáceis de situar; sem­
pre há restos de gerações anteriores convivendo com gerações em 
ascensão, de modo que, efetivamente, a Escola correspondeu a umas 
três gerações: a de Tobias, nascido em 1839 e começando a publicar 
seus trabalhos no fim dos anos 60; a de Sílvio Romero, apenas doze 
anos mais moço, mas com vida mais longa e mais variada evolução; 
a que atua depois de 1890 e chega às primeiras décadas do século 
vinte.
Foi Sílvio Romero que deu o nome de “Escola do Recife” ao 
grupo, ele, que sempre se disse mais companheiro do que discípulo 
de Tobias, era no fundo um influenciado por Tobias. O fascínio de 
Tobias sobre a mocidade da Academia era realmente avassalador:
le representava a irreverencia dentro de uma sociedade estática, 
epresenta a novidade, o ruido polémico, a extroversão e a espon- 
aneidade.
H erm es Lima frisou o encanto que aquele hom em tão pouco esté- 
ico exerceu sobre os jovens.
“A mocidade — diz ele — adorava-o. Ela só lhe descobria vir- 
udes: o arrojado e o moderno das concepções, a irreverência do saber, 
i capacidade de demolir, a liberdade de dizer o q u e bem entendia e 
i flam a capaz de comunicar a outrem o próprio entusiasm o. Tinha 
im riso largo, sacudido, uma voz sonora e nuançada, uma simplici- 
lade ex trem a de m aneiras. Na livraria do Q uintas, à Rua Nova, 
lepois do meio-dia, era certo encontrá-lo na sua cadeira, o braço 
¡squerdo apoiado no balcão, cercado de ouvintes. Aquecido e esti­
pulado pela simpatia e admiração da roda, deslum brava com o seu 
aber, seu espírito não afeito às convenções, sua jovialidade” .
Realmente, esta jovialidade de Tobias Barreto foi em grande parte 
;eu condão para seduzir as classes na Faculdade, os leitores em geral 
; as pessoas no convívio. Naquele tempo, aliás, as obrigações de 
professor não eram absorventes: ser lente da Faculdade significava 
»anhar razoavelmente, te r um prestígio social enorme e um número 
le horas de ócio bastante para realmente estudar e produzir — tão 
liversam ente da situação de hoje, quando aos professores se impõem 
rada vez mais aulas, ficando o tempo restante para a leitura e a 
Desquisa simplesmente nulo.
Sílvio Romero, portanto, como dizíamos, representou em verdade 
ím seguidor, um continuador, embora o mais privilegiado, o mais 
•epresentativo, o mais especial de todos, pois era um contemporâneo 
le Tobias, um companheiro das primeiras lutas, e, se não foi o fun- 
iador da Escola, foi seu padrinho, pois lhe deu o nome.
O Recife, por aqueles tempos, crescia na pachorra desordenada e 
enta de cidade já cheia de problemas, com ruas estreitas, carroças 
le bois pelas ruas, dois ou três centros de atração (entre os quais 
d Teatro Santa Isabel). A diversão dos estudantes consistia nos saraus, 
ias farras, nos bailes, nas pequenas intrigas, nos grandes sonhos.
^ aparição das estradas de ferro no Brasil, dando a certas cidades 
üsionomia nova, correspondeu no Recife ao domínio da Great Western, 
nas nem tudo mudava — ou eram mudanças muito lentas para nossos
olhos hoje tão acostumados a alterações céleres —, nem tudo m udava 
no ambiente urbano pequeno e singelo.
§ 2 — Componentes iniciais: primeiro, Tobias Barreto.
Evolução Geral
Cremos que se pode dizer, a Escola inicialmente foi o mero con­
vívio de Tobias Barreto e Sílvio Romero, embora a caracterização 
efetiva só viesse quando a influência de Tobias “transbordasse” sobre 
outros, e quando as lealdades pessoais de Sílvio tingissem de cores 
ásperas as suas críticas e seus destemperos contra inimigos adqu iri­
dos em comum, numa espécie de definitivo condomínio polêmico que 
os uniu toda a vida, nos ganhos e nas perdas, e que prosseguiu depois 
mesmo da morte do m estre.
O rol de integrantes da Escola é longo, e deve ser entendido em 
termos, já que houve adesões de diferentes graus. Clóvis Beviláqua, 
no capítulo VII da segunda parte de sua História da Faculdade de 
Direito, menciona, como “discípulos imediatos”, os seguintes nomes: 
A rtur Orlando, Gumercindo Bessa, Martins Júnior, Adelino Filho, 
Fausto Cardoso, Urbano Santos, Benedito Leite, Francisco José de 
Viveiros Castro, Phaelante da Câmara, Oliveira Teiles, Graça Aranha, 
Anísio de Abreu, João Freitas, Hygino Cunha, César do Rego M on­
teiro, Prado Sampaio, Nobre de Lacerda, Virgílio de Sá Pereira, A be­
lardo Lobo. E acrescenta reticente: “e muitos outros” .
São, como se vé, nomes de projeções diferentes, alguns caídos 
hoje no esquecimento. Naqueles dias, porém, uniu-os a efervescência 
dos entusiasmos intelectuais, e todos, encascados em seus palitos escu­
ros e na gravidade bigoduda que o padrão social pedia aos bacharéis, 
viam nas idéias de Tobias Barreto o grande exem plo, a grande m oti­
vação do saber e do pensar.
Mas retornemos a Tobias.
Clóvis Beviláqua, historiando a evolução do pensamento na Facul­
dade, atribui a Tobias um período inicial, espiritualista, vinculado às 
idéias de Guizot e outros escritores franceses, e logo depois um perío­
do positivista.
Este teria começado com o famoso artigo “Teologia e Teodicéia 
não são ciências” (1868), onde havia algo de L ittré , bem como com 
o pequeno ensaio “Moisés e Laplace”, que aproveitava hábil e im agi-
osamente a lei dos trds estados no tocante ao advento do mono- 
ìismo hebraico. Vem desta época, por sinai, o apego de Tobias 
arre to a Vacherot, pensador filosòfico e político muito típico daquela 
ise do esplritualismo francês, com toques de positivismo e de ecle- 
ismo.
Tobias Barreto, detendo-se pouco no positivismo, passa ao haecke- 
ismo. Para o autor da História da Faculdade de Direito, a influén- 
ia de Comte teria sido, sobre Tobias, m enor do que a de um Cousin, 
m Vacherot, um Jouffroy, um Scherer. É aliás curioso notar que, 
auitas vezes, Tobias não se apegava tan to a um autor de maior 
aonta, deixando-se empolgar por divulgadores menores. Isto se pas- 
a, um pouco, com o fato a que alude a observação de Clóvis; passa-se, 
nais ainda e estranham ente até com o apego de Tobias às obras de 
..udwig Noirè, simples divulgador de Haeckel, a cujas obras, mais 
iue às deste, se atinha e se referia quando de suas andanças pelo 
nonismo.
Àquela altura, Tobias Barreto assimilara os conteúdos mais subs- 
anciosos da literatura filosófica francesa (Renan, Jules Simon, 
/achero t etc. e tc .) e se iniciava na alem ã. Sua conversão ao ger- 
nanism o não é apenas um fato explicável em termos sistemáticos ou 
lilosóficos. Explica-se em termos psicológicos. Adesão ao germanis- 
no e c-onversão ao monismo ou ao haeckelismo foram em sua traje- 
ória coisas conjuntas: para um homem como Tobias, aprender alemão 
:inha de parecer proeza pessoal definitiva; fam iliarizar-se com a lín­
gua alemã devia significar passar-se para as tendências alemãs. E 
ocorreu que o pensamento de Haeckel era pouco conhecido no Brasil; 
ser adepta do Haeckel era um modo de ser diferente, algo muito 
importante para um m ulato necessitado de afirmação e de imparidade. 
Renunciar ao positivismo era uma sacudidela de independência, era 
um gesto de recusa às disciplinas religiosas, gregarizantes e “ecle­
siásticas” do positivismo. O que, no sistema de Haeckel, havia de 
religioso, bastava para as tendências de eclético sui generis que ele 
sempre foi, um eclético muito barulhento e muito pouco conciliador 
nas atitudes externas. No sistema de Haeckel, não só havia muita 
clareza e m uita ordem expositiva (e até talvez uma certa superficia­
lidade fácil, segunco certos autores), como também muito ressumar 
de cientismo, o típico cientismo do século X IX . Acompanhando Haec­
kel, e com ele outros autores alemães, Tobias estava além disso acom­
panhando uma outra disciplina, que nãoa gregarizante e ritualizante 
do positivismo: a d.sciplina germânica do saber, consagrada como dis­
ciplina acadêmica e representada nas glórias universitárias alemãs.
— 29 —
Que justo prêmio — diga-se de passagem — não teria sido para Tobias 
te r podido ir à Alemanha (aonde só foi através da euforia gráfica 
de seu jornal de Escada), ter visitado as instituições e os sábios que 
venerava e aplaudia, daqui, vassalo orgulhoso e desconhecido.
Na trajetória literária de Tobias, é m arcante o ponto correspon­
dente à polêmica contra o professor Pedro Autran, que ficou cha­
mada de “Crônica dos Disparates”, título inventado pelo próprio 
Autran ao referir-se a um artigo de Tobias. Esta polêmica foi muito 
valorizada por Clóvis Beviláqua, como representativa de um instante 
decisivo na evolução da Faculdade de Direito. Significava a oposição 
contra o tomismo e a escolástica, por p arte de um estudioso novo 
e inquieto. De um estudioso, acrescentaríamos, em quem o incandes­
cente das pretensões ia às vezes além das conveniências, mas geral­
mente traduzia uma necessidade imperiosa de auto-afirmação e um 
auto-conhecimento sempre instintivamente seguro.
Caracteriscas intelectuais
Falastrão e enciclopédico, Tobias Barreto personificou e encerrou 
o líder intelectual de província destinado a impressionar fundam ente 
em tempos como aquele. Sabia várias línguas incluindo o distan­
ciador alemão; conhecia m atéria religiosa, filosofia, história, direito, 
literatura, música, e mais coisas.. O enciclopedismo de “O Progres­
so”, de Antônio Pedro Figueiredo, que tempos antes discutia, no Reci­
fe, política, economia, filosofia, história, repetia-se agora com mais 
estridência e mais eficácia, trazendo citações germânicas, nomes mais 
arrevezados e sobretudo um a agressividade insólita. O ideal do saber, 
Tobias já o expressara no final do seu artigo ainda estudantil “Teo­
logia e Teodicóia não são ciências”, encerrando-o com a frase, modes­
ta mas taxativa e desafiadora:
“Meu fito é saber, nada mais” .
Esse ide-al do saber fazia-o referir-se aos sábios europeus com 
ênfases sintomáticas; de Haeckel e de outros alemães dizia “sábios 
reconhecidos, consagrados pela crítica”, etc.
Per volta de 1881, regressando de Escada para o Recife, Tobias 
consuma a sua virada dou trinária . Já siderado pelos rovos au to ­
res alemães, mas ainda agarrado a K ant e a Schopenhauer, bem como 
a Eduard von Hartmann, au to r de um a interpretação especial de K ant,
- 3 0 -
vai o futuro chefe da Escola voltando-se para a solução monistica, 
através das obras do pròprio Haeckel, das do zoòlogo Sem per e das 
de Noiré.
O evolucionismo spenceriano com eçava também a ser conhecido. 
Consta que o artigo “Palestra científica” de Jerónimo Muniz, publi­
cado na Autoridade em 1875, foi um dos passos iniciais da divulgação 
da obra de Spencer no Recife.
Do mesmo modo começava-se a le r Taine, cuja fórm ula “raça, 
meio e momento” seria aliás, de certa forma, adotada por Sílvio 
Romero no em basamento de sua H istória da Literatura Brasileira. 
Também os livros dos materialistas alem ães começam a conhecer-se, 
sobretudo por via das traduções francesas: Büchner, Vogt, Molleschot.
Como estudiosos que começam a despontar no Recife, dentro desta 
área, citam-se — além dos que já foram mencionados — Barros 
Pimentel, Marcos de Souza, Aitino de A raújo, Aníbal Falcão, Meira 
e Sá, Muniz Freire, Afonso Cláudio, Leovigildo Filgueiras, Gii Amora, 
Amazonas de Almeida, Pedro de Queiroz, Clodoaldo de F reitas.
Em 1882 Tobias faz o seu concurso para professor da Faculdade. 
Esta existia ainda no antigo e antiquado prédio da rua do Hospício, 
imponente mas insuficiente para o m om ento. Apresentou um estudo 
sobre “A extensão da idéia de mandato, de que trata o artigo quatro 
do Código C rim inal” . A fonte geralm ente utilizada para conheci­
mento do concurso é, ainda hoje, a carta em que Gumercindo Bessa, 
futuro componente da Escola, o descreve pormenorizada e impressio- 
nadamente a um amigo (carta incluída no tomo VII das Obras de 
Tobias publicadas pelo Governo de Sergipe).
• V I . • *
' ■ Á * < ' v *—. «(>. »
Tobias jurista
Com a alusão ao concurso de Tobias para a Faculdade de Direito, 
cabe acentuar que somente após diversas incursões em estudos filo­
sóficos, e amplas contribuições à crítica de idéias em geral, é que 
Tobias Barreto efetivam ente se atirou aos estudos jurídicos. É certo 
que escreveu sobre direito antes do concurso, mas os estudos filosó­
ficos vieram antes, e disso beneficiou-se a solidez e a clarividência 
crítica com que viu a problemática jurídica, jamais se perdendo em 
questiúnculas m iúdas demais nem perdendo de vista a relação entre 
as questões positivas e as linhas de fundo da história e dos princípios
— 31 —
Para Machado Neto, são quatro, basicamente, os textos de Tobias 
Barreto sobre tem as de teoria do direito . São textos breves. Prim ei­
ro, o célebre ensaio “Sobre uma intuição do direito” (1881). Segundo, 
a prova escrita do concurso para a Faculdade, sobre a pergunta: 
Conforma-se com os princípios da ciência social a doutrina dos direi­
tos naturais e originários do homem?” . Terceiro, o discurso de para­
ninfo denominado “Idéia do Direito” . Quarto, o escrito intitulado 
“Introdução ao Estudo do Direito” (1887-1888).
Entretanto, acrescentaríamos tam bém o conteúdo do estudo “Juris­
prudência da vida diária”, que é um comentário à margem do livro 
homônimo de Ihering . Foi publicado inicialmente no Recife em 1878, 
e depois, com alterações, no Rio em 1879, sendo incluído nas Questões 
Vigentes. Tal artigo é representativo porque, desde logo, exemplifica 
o hábito de Tobias de bordar glosas a obras alemãs (sobretudo ale­
mãs, depois de certa fase), como atitude de divulgação e, ao mesmo 
tempo, de repensam ento. Também porque Ihering ficou como uma 
das fixações do Tobias jurista. Se — como A rtur Orlando enfatiza, 
ao prefaciar o volum e das Questões Vigentes — a “Nova Intuição do 
Direito” representou a concepção de Darwin e de Haeckel aplicada ao 
Direito, Tobias viu em Ihering e no específico finalismo de suas idéias 
uma versão jurídica do darwinismo, filtrada e burilada.
De qualquer sorte, Tobias jamais procurou adaptar-se aos padrões 
referentes ao “ju ris ta” como sabedor de leis e conhecedor de fontes. 
Antes procurou impor, à problemática jurídica, o enfoque das concep­
ções que adotava. Por sinal, toda a Escola do Recife foi de juristas. 
A tentação dos estudos jurídicos em relação aos seus integrantes se 
explica, não apenas pelo “Bacharelismo” que tivesse sido dominante 
no tempo, entre nós, mas também pelo fato de que na própria Europa 
do século XIX os grandes problemas das ciências hum anas estiveram 
marcadamente ligados aos estudos jurídicos: assim se deu com o 
pensamento histórico, com o etnográfico e com o sociológico. 
Naqueles anos, a problemática do D ireito Natural, que na Euro­
pa tinha sido recolocada pelas críticas dos historicistas rom ân­
ticos, parecia ainda carecente de diária e renovada discussão. O ata­
que de Tobias ao jusnaturalism o, com a idéia de que o D ireito “não 
é um filho do céu”, e sim um produto da história hum ana, agradou 
aos prosélitos como irreverência e convenceu como argumentação: 
era uma novidade viável considerar as coisas humanas como obra da 
seleção n a tu ra l.
Pra ele, sempre aguilhoado por sua equação pessoal e suas velhas 
mágoas, era um prazer sempre novo desm antelar idéias tradicionais».
— 32 —
'ílho, como dizia, da “fulgurante plebe”, e ra estim ulante atacar os 
elhos odres cervantescos que representavam o assentado, o reconhe- 
ido pela sociedade de então.
Tam bém do ano de 1881 (como a “Nova Intuição” ) é o estudo 
Fundam entos do Direito de Punir”, que m arca as inclinações pena- 
istas e crim inalistas de Tobias.
Tobiase a sociologia
Dos escritos de Tobias, convém ainda dar destaque ao seu estudo 
aparentem ente descolocado e equivocado sobre a sociologia. Seu títu ­
lo, m uito típico, “Glosas heterodoxas a um dos motes do dia ou 
variações anti-sociológicas”, sua frase inicial cortante e negativa (“eu 
não creio na existência de uma ciência social” ), realm ente mostram 
um Tobias azedo e im pertinente, chateado com algo e disposto a negar 
coisas. Entretanto, o estudo, em prim eiro lugar, se dirige antes à 
concepção comteana da sociologia, ou a um aspecto dela, do que à 
idéia mesma da ciência social. Em segundo lugar, o estudo contras­
ta com a “vocação” de sociólogo que Tobias Barreto sempre teve: 
seu realismo social, manifestado aliás em diversos estudos, inclusive 
nos que escreveu sobre problemas locais ou nacionais.
O estudo em causa diz, talhadamente: “A sociologia é apenas o
nome de uma aspiração tão elevada, quão pouco realizável” . A sociolo­
gia seria apenas um “postulado do coração”, querendo encontrar leis 
na sociedade hum ana como nos organismos. E o estudo dos fenôme­
nos sociais, considerados como totalidade e unificados num só sistema 
científico, resultaria numa “estupenda pantosofia” .
Na verdade, eram de certo modo os argumentos de Von den Stein 
(e os que Dilthey posteriormente retom aria em parte) contra a con­
cepção da vasta ciência social abarcadora de todos os conhecimentos 
referentes ao humano.
Havia um lado salutar naquela recusa de leis para os fenômenos 
sociais. Não se pense porém que Tobias se insurgia contra elas por 
causa de uma rejeição coerente do mecanismo que a idéia de leis 
sociais implica. Recusava-as por conta de um preconceito natura­
lista, provindo de seu monismo já enraizado: ele queria que os soció­
logos apresentassem “resultados” positivos e não meras “frases” . 
Discutindo, ainda no mesmo estudo, o “Problema da liberdade” ele 
diz que esta “não se deixa explicar mecanicamente”, mas é um fato 
da ordem natural. Neste ensaio entram considerações de índole
cultural, antecipadoras e pioneiras em nossa cultura (dai o professor 
Miguel Reale ter falado no “culturalismo da Escola do Recife”), quan­
do, por exemplo, diz ser “a sociedade o grande aparato da cultura 
humana”, feito de uma teia de normas. Distinguindo entre cultura 
(ou sociedade) e natureza, com uma nitidez impressionante, reafirma 
a inexistencia de um direito natural pelo fato de só na sociedade 
(e não na natureza) ixistirem normas. Estes trechos do estudo são 
de incontestável e imperecível mérito, embora a nosso ver contradi­
gam o propósito do próprio título do estudo, já que são, no fundo, 
sociologia.
Estas magníficas intuições, entretanto, conviviam, no pensamento 
de Tobias, e colidiam, com preconceitos pesados e opacos hauridos no 
naturalismo monista. Os homens são seres naturais, mas fazem uma 
organização que não é mais natural. Numa fórmula extremamente 
feliz, Tobias exprimiu esta situação ao dizer:
“A sociedade é uma série de combates contra o geral com­
bate pela existência, é um conjunto de seleções artísticas, 
que melhoram, modificam, alteram a grande lei da seleção 
natural” .
Fórmula feliz, porque exprime a ordem social como um diríamos, 
redimensionamento da ordem natural; a luta bruta que nesta rege se 
faz, na sociedade, luta “artística” (arte vai ali num sentido amplís­
simo) que coloca os problemas humanos numa rede normativa.
Embora misturando Noiré com Kant e Hartmann com Haeckel no 
tocante ao problema da liberdade, este estudo de Tobias tem enorme 
importância.
Pensamento político
Lucidez muito grande demonstrou Tobias como pensador político. 
Um de seus estudos mais representativos neste campo é o intitulado 
“Os homens e os princípios”, onde relaciona o liberalismo com a 
democracia e faz o elogio do povo como suporte das formas políticas. 
O hesitante, que jamais foi republicano propriamente nem se pro­
nunciou claramente sobre o abolicionismo, faz ali observações francas 
e firmes sobre o Brasil, cuja situação descreve em cores fortes:
“O Brasil, encarado pela face do seu governo, é um corpo 
que se move entre dois abismos, sempre mais inclinado 
para o lado do absolutismo. Encarado como povo, como
nação, como sociecade, o Brasil é um país am orfo, pela 
m istura variável de elem entos radicalm ente antagônicos, 
tolerados e aquecidos no seio da opinião pública” .
No mesmo ensaio, afirmava que, “onde o povo não é tudo, ele 
torna-se nada” . E criticava o messianismo da idéia liberal no Brasil, 
que só fazia prom eter reinos futuros nos momentos de crise, om itin ­
do-se e calando-se nos períodos serenos.
Muito sério é o ensaio “Política B rasile ira”, onde tam bém toma 
o problema do povo.
“im porta-nos mais saber o que pensa o homem do povo, 
sensato e magnânimo, sobre os negócios do país, do que 
saber o que dizem os em presários da política, interessei- 
ros e fatuos. Por isso, é sobre o povo que devemos con­
vergir o nosso estudo e atenção” .
Retomando o elogio do liberalismo, acentuava que a grandeza de 
um povo se media pelo grau de liberdade que possui.
Embora jam ais tivesse acerido ao credo republicano, não parava 
de zombar do Im perador. Recusava-se a aceitar a imagem de um 
Pedro II sábio, erudito, misto de Salomão e Platão, que certos áulicos 
pintavam . Sobre o problema servil om itiu-se de modo que tem sido 
estranhado por diversos críticos. E se elogiava o liberalismo como 
tese geral, não privava os liberais brasileiros de críticas pontudas. 
Como não poupava também, é claro, aos conservadores. A mesma 
indisposição que Sílvio Romero m anifestaria mais tarde contra as 
oligarquias da prim eira república, Tobias expressava contra os con­
servadores rígidos e empedernidos.
Por outro lado, nunca aderiu ao socialismo. Num Recife ainda 
embebido das ressonâncias da pregação de Borges da Fonseca e das 
doutrinas de A breu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, Tobias 
Barreto, embora inimigo ferrenho dos professores mais conservadores 
e com um temperamento talhado para a insurreição e a rebeldia em 
geral, manteve sempre uma desconfiança fundamental em relação 
ao socialismo.
Desde logo, a democracia de que falava não era o igualitarismo 
total. Isto já estava no ensaio “Os homens e os princípios”, onde 
falava numa democracia sensata. Aliás, como Hermes Lima já obser-
vou, este desigualitarismo básico provinha de certa forma do darwi­
nismo e do haeckelismo, que contra toda intenção niveladora ante­
punham a imagem da seleção natural e do combate permanente como 
regra e como critério. No famoso “Discurso em mangas de camisa”, 
analisando os ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade, 
tanto denuncia as amarguras do povo brasileiro, afligido por castas 
e injustiças, como duvida de um perfeito arranjo da liberdade e da 
igualdade.
Um artigo de 1874, chamado “Socialismo em literatura”, Tobias 
propõe aplicar o socialismo na literatura, como um liquidação. Ali, 
dizia que lhe causava horror a idéia de uma “liquidação social”, e 
era isto o que lhe parecia ser o socialismo. E acrescentava:
“O instituto da Internacional é para mim a organização da
loucura” .
Entre equilíbrio e hesitação, passam estas linhas do pensamento 
de Tobias. Nem liberal radical, nem republicano, nem socialista, 
nem conservador: mas sempre radical no modo de negar o que nega­
va. Sincero diante dos problemas do povo, reticente porém no 
tocante a pontos que tangiam de perto certas mágoas suas ou idios­
sincrasias temáticas. Dominantemente, a irreverência como reação. 
Essa irreverência se mostra nas polêmicas. Seja agora mencio­
nada a polêmica contra os autores que haviam tratado do Poder 
Moderador. No estudo sobre o assunto, encontramos por sinal a 
observação de que o Brasil não era um país com governo parlamen­
tarista, pois que não se podiam entre nós repetir as estruturasingle­
sas, tese ainda discutida (mas a nosso ver correta) e que recente­
mente seria retomada por Afonso Arinos de Melo Franco.
A crítica de Tobias ao problema do poder moderador é dirigida 
desde logo à validade do tema, que a seu ver nem merece tanta aten­
ção científica: tudo o que se escrevera a respeito provinha, ou do 
equívoco ou do servilismo político. Para ele, o padrão ortodoxo em 1 
teoria política (e nisso antecipava notavelmente Carl Schmitt) é sem­
pre reflexo do padrão ortodoxo em religião: o ponto de vista católico 
fazia a fé na monarquia como entidade moral e dogma de crença. 
Denunciava (quase, dir-se-ia hoje, como uma “alienação”) o diletan­
tismo parlamentar que existia em verdade no Brasil. Este ensaio 
estava marcadamente voltado contra o professor Braz Florentine 
Henrique de Souza, que em 1864 publicara no Recife seu alentado
— 36 —
volume sobre o poder m oderador. Os outros autores estudados eram 
o Visconde de Uruguai e Zacarias de Gois e Vasconcelos.
§ 3 — Componentes iniciais: segundo, Silvio Romero 
Os dias e os trabalhos
Sílvio Romero (1851-1914) foi o grande “batalhador” da Escola; 
deu-lhe o nome, fez-lhe a propaganda, corrigiu-lhe algo, estendeu-a, 
perenizou-a. Sergipano, como Tobias B arreto, considerou-se sempre 
em relação a este antes um companheiro de estudos do que um discí­
pulo, se bem seja possível sentir que o padrão e a inclinação de 
seus estudos deveram a Tobias, ao menos na fase inicial, grande 
p arte do impulso e da motivação. Polígrafo como Tobias, pratica- 
m ente só não cultivou a ficção. Se não entrou bastante em certos 
campos como o autor das “Questões Vigentes”, em compensação cul­
tivou ertudos que o outro não havia tentado, como folclore, etnogra­
fia, economia e — ao menos mais expressam ente — sociologia.
Sílvio Romero foi realmente um homem dotado de extraordinária 
capacidade criadora, profusa e dispersa às vezes, ou equivocada e 
apressada, mas sempre honesta e sempre fecunda. Foi o que a re tó ­
rica das apresentações antológicas costuma cham ar um grande “trab a­
lhador intelectual” . Poesia, crítica, história literária, crônica, ensaio, 
filosofia, direito, tudo fez. Foi, como Tobias, parlam entar militante, 
e não deixou de reunir seus discursos, não vãos e aguados como os 
de tantos políticos que reúnem suas falas apenas para ter nome numa 
capa impressa, mas substanciosos e cheios, com efeito, de empenho 
“ilustrador” e sério.
Também teve seus concursos. Ao contrário de Tobias, não ficou 
no Recife: foi em 1876 para o Rio. Um dos seus biógrafos e estu­
diosos de sua evolução intelectual, Carlos Sussekind de Mendonça, 
considera que foi um passo que se im punha a Sílvio Romero essa 
ida para a Corte: faltava-lhe ambiente no Recife, onde atraiu an ti­
patías demais. Segundo este autor, no seu segundo concurso para 
a Faculdade de Direito (para a cadeira de filosofia do curso anexo, 
chamado Colégio das A rtes), Sílvio foi vítim a de uma injustiça cla­
morosa, e mais ainda, de uma covardia por parte dos julgadores.
Indo para a “Corte”, Sílvio Romero desenraizava-se, mas em 
compensação abria-se para contactos mais amplos.
Ficando como juiz municipal em Parati, no Estado do Rio, demo­
rou-se aí dois anos e meio, num am biente pequeno, limitado, inade-
— 37 —
quado para seu porte intelectual, e não produziu praticam ente nada: 
apenas leu — e sempre foi leitor voraz —, estudou e reestudou o 
quanto pôde. Consta que este período foi, também, o de intenso 
contacto com o povo, as coisas do povo, conversas e hábitos dos 
homens comuns. Nesta época projetou a sistematização de sua obra, 
embora não tivesse podido realizar seguramente a form a como a 
teria projetado, inclusive porque lhe faltaram materiais e papéis que 
na sua mudança se perderam.
Argeu Guimarães, filho de A rtur Guimarães (que foi amigo pes­
soal e biógrafo apologista de Sílvio), em seu livro “Presença de 
Sílvio Romero”, conta algo sobre Sílvio Romero professor. Em suas 
aulas, diz, havia um a larga dose de improvisação, e de tentativa de 
interpretação nova de cada tema; por mais árida que fosse a matéria, 
o professor a amenizava com a m aneira informal e bem-humorada 
de prelecionar. Mas impressionava sobretudo pela liberdade desas - 
sombrada, pela crítica implacável que ixibia e exercia diante de toda 
opinião vigente e assente. Adquiriu entre os estudantes um a simpa­
tia paralela à que Tobias conseguia no Recife: como Tobias, era jovial 
e franco, cordial, desempertigado e acessível. Não tinha o aprumo 
distanciador que, em muitos casos, denota no professor certa insegu­
rança e certo tem or do diálogo. Ao contrário: vivia para o diálogo, 
que se transform aria em entendimento ou em polêmica conforme o 
caso, mas isto é outro problema.
Sua independência crítica, que transparecia nas aulas como cora­
gem interpretativa, e que em suas inúmeras polêmicas se fazia exi­
gência e agressividade, também se manifestou no caso do panam eri­
canismo: Sílvio sempre foi, a respeito, desconfiado e insubmisso, 
embora não chegasse às posições, por exemplo, de um Eduardo Prado.
Indo para o Rio em 1879, fixa-se definitivamente na capital. Sua 
fama (ou pretensão) de sabedor e erudito levantou-lhe várias anti­
patías e adversidades pessoais, como se ele tivesse vindo para desa­
fios gerais.
Um de seus mais célebres opositores, Lafaiette Rodrigues Pereira, 
que usava o pseudônimo de Labieno, descreveu-o certa vez como “um 
bárbaro, que estudou em alguma escola de província”, cu ja lingua­
gem ainda estava “contaminada da ferrugem da aldeia” . Tudo isso 
reforçou a dificuldade de adaptação, já que, desde os tempos iniciais 
do Recife, Sílvio (como Tobias) guardava algumas reservas contra a 
corte e contra seus intelectuais acasquilhados e posudos. A figura
— 3 8 —
de Tobias, escrito r plantado em sua província e alim entado-se dire­
tam en te de cu ltu ra européia, sem a mediação da capital, era para ele 
m odelo e incentivo: tam bém ele poderia m a n te r sua liberdade crítica.
E ste era portan to o problem a de Sílvio em seu período de adap­
tação à corte: sabia ser necessário ficar, po rque no Recife tinha fecha­
do os horizontes e porque no Sul teria chances intelectuais mais 
am plas; sabia porém que despertaria rancores, despeitos, atritos, e 
não se d ispunha a adotar os figurinos cortesãos no tocante às re la ­
ções pessoais, às atitudes literárias, ao cu ltivo dos estilos.
A liás, no prefácio aos “Vários Escritos” de Tobias, ele bem o disse, 
reconhecendo que poderia te r tido cam inho m ais fácil, se quisesse:
“Ah, se também eu tivesse querido agradar! P o r cue não 
poderia ter concorrido com os outros? A receita foi sem ­
pre fácil aos escritores provincianos que têm vindo ao Rio 
te n ta r fo rtuna. N ada m ais do q u e procurarem a ccnfraria 
dos chefes da época, fazer-lhes zum baias, t r a ta r de lhes 
cair em graça” .
Considere-se a época, em que a separação geográfica e intelectual 
entre Norte e Sul funcionava como uma cerca de arame farpado e 
como um motivo de diferenciação total. Hoje as coisas são algo 
diferentes, a comunicação se faz melhor, embora não tenham cessado 
as diferenças nem os desníveis. Ao tempo de Sílvio, o hábito da 
polêmica como que fazia parte do tirocinio dos escritores, e o precon­
ceito recíproco entre Sul e Norte funcionava em toda a plenitude.
Daí os entreveros polêmicos de Sílvio Romero contra Lafaiette 
e contra José Veríssimo — este talvez o seu oponente principal, ou 
ao menos o que mais lhe fez gastar papel e tinta. Acusava a José 
Veríssimo, que era paraense, de ter tido êxito no Rio à custa de 
concessões, salamaleques e habilidades diplomáticas.
As polêmicas
Seria precisamente o caso de se indagar se, num autor como Sílvio, 
0 estilo polêmico não teria desvirtuado e descaracterizado o exercício 
da crítica.Sílvio Rabelo põe este problema em seu “Itinerário de 
Sílvio Romero” (capítulo V II). Para ele, o que Sílvio Romero foi, 
basicamente, foi crítico, embora sua obra apresente um leque temá­
tico tão amplo, um naipe de interesses tão variado. E sobretudo,
39 —
crítico de idéias é o que ele teria sido, erudito como poucos, ou como 
nenhum dos de seu tempo, dispondo dos conhecimentos com segu­
rança e facilidade.
Para Sílvio Rabelo, entretanto, o seu enorme aparato de conhe­
cimentos contrastava com sua falta de intuição artística. E isto teria 
defeituado sua obra m aior (aliás uma obra ainda de juventude, dos 
37 anos), a vasta História da Literatura Brasileira. Seus conhecimen­
tos tendiam mais a servir à polêmica do que à análise serena e ab er­
ta: parece que o esforço de Os te r adquirido precisava ser pago com 
o prazer de mostrar que a maioria não os tinha.
Também suas mudanças de posição doutrinária têm que ver com 
seu vezo polêmico. Passando do determinismo biológico ao socioló­
gico, como passaria do spencenismo ao leplayismo, Sílvio defendia 
polemicamente suas metamorfoses, com uma agressividade que era de 
índole e de formação, mas que servia ao propósito de não prestar 
muitas contas sobre as coerências que lhe cobrassem. No livro 
“Minhas Contradições”, respondendo a Laudelino Freire, alegava que 
suas mudanças de opinião vinham com o tempo, com os estudos, com 
a reflexão, não eram mudanças inconseqüentes nem gratuitas nem 
repentinas.
Sua mania polêmica, invadindo sua atividade crítica, transform ou- 
se por vezes em azedume e rudeza, dando lições, bancando o ensina- 
dor, lembrando conhecimentos. Era o que chamamos, atrás, de socra» 
tismo tosco: Sílvio, como Tobias, considerava o próprio saber um a 
garantia de “estar certo” ; estava certo quem sabia mais, e sabia m ais 
ele próprio. O adversário são chegara a saber tanto, e sua ignorân­
cia lhe vedava o acesso ao ponto de vista correto.
Como diz Sílvio Rabello, “Sílvio Romero às vezes procurava con­
vencer aos brados, e, não raro, com vaia e assovio” . E isso, ac res­
centa, o inferiorizou em certas ocasiões, peran te contendores mais 
serenos (inclusive Laet, Teófilo Braga, Veríssimo e Lafaiette), que 
insistiam exatamente sobre seus pontos vulneráveis.
Sua prevenção contra Machado de Assis, evidentem ente injusta 
e injustificável, veio desse vezo polêmico. E ra-lhe necessário atacai 
Machado (como atacar Castro Alves), para ressa lta r o valor do se i 
caro Tobias. E falava de Tobias a propósito de tudo. Aliás ele 
mesmo confessou a A rtur Guim arães, em carta , que defendia Tobias 
primeiro, pelo mérito intrínseco; segundo, para justificar suas própria:
— 4 0 —
posições; terceiro, como meio de guerra. E por isso Lafaiette, ironi­
camente, sugeriu que o título do livro “Machado de Assis”, de Sílvio, 
fosse substituído por “Tobias B arreto” .
Também atacou Nabuco (“Hermafrodita da inteligência” ), atacou 
Francisco Otaviano, sempre tendendo ao ataque pessoal. A velha e 
boa divisa, que um jornal pernambucano do século XIX exibia: “Prin­
cípios, não homens”, tinha utilização inversa nestas polêmicas: Sílvio 
derrapara na dimensão pessoal e investia contra as pessoas, deixando 
de visar obras ou idéias.
Fases da obra
Podemos, grosso modo, adotar a seqüência estabelecida por Anto­
nio Paim para dividir em etapas a produção bibliográfica de Sílvio.
Prim eiro, a fase pernambucana, consistente sobretudo em artigos 
de crítica. Artigos que depois se coligiram em livros (Etnologia sel­
vagem, 1875; Cantos do Fim do Século, 1878; A lite ra tu ra brasileira 
e a crítica moderna, 1880).
A esta fase pertenceriam igualmente, de algum modo, os seguin­
tes trabalhos:
— “A poesia contemporânea e sua intuição naturalística” (1896), 
publicado em jornal, no Recife.
— “Idealismo e Realismo” (1870), no jornal Movimento, no Reci­
fe. Reproduzido nos “Estudos de Literatura Contemporânea”, que 
surgiram no sul em 1885.
— “Se a economia política é uma ciência” (1873). Foi uma prova 
escrita produzida na Faculdade e incluiu-se nos mesmos “Estudos de 
L iteratura Contemporânea” .
— “O Espírito novo em filosofia”, “Os princípios fundamentais 
da evolução” e “A concepção monistica do Universo”, artigos de 
1874.
Fase posterior seria a iniciada em 1876, correspondendo de alguma 
forma à presença no Rio, e significando uma certa acomodação entre 
evolucionismo e positivismo. Aqui caberiam as produções seguintes:
— 41 —
— “A Filosofia no Brasil”, publicado em Porto Alegre em 1878, 
na tipografia da “Deutsche Zeitung” . Paim atribui a esta obra, hoje, 
caráter de rarissima, com certo exagero. No alto do frontispicio, o 
sobretítulo: “Apontamentos para a história da literatura brasileira no 
século XIX” .
— “A filosofia no Brasil e o Sr. Dr. Herculano Bandeira” (1879), 
artigo de jornal, no Rio.
— “Interpretação filosòfica dos fatos históricos” (1880), tese para 
o concurso de filosofia do Colégio Pedro II. Incluído nos “Estudos 
de Literatura Contemporânea”.
— “A História do Brasil e o Dr. Mèlo Morais” (1883).
— “A filosofia e o ensino secundário” (1885), incluído, como o 
anterior, nos “Novos Estudos de Literatura Contemporânea” .
Outra fase, seguindo o esquema de Paim, teria sido a de 1888 
ao fim do século. Começa com a publicação de seu “megatério tipo­
gráfico” (para usar a expressão que Ortega empregou para designar 
o Study of History de Toynbee): a monumentai “História da Litera­
tura Brasileira” . Esta obra, fundada num certo determinismo meso- 
etnográfico, embora mitigado por outras considerações, traduzia certa 
influência de Taine e manipulava um conceito bastante amplo de 
literatura. Por sinal que José Veríssimo chegou a dizer que de 
Varnhagen tirara Sílvio esta noção ampla de literatura, sendo por 
tanto pouco original. Quer-nos parecer, porém, que não precisaria 
Sílvio ter ido a Varnhagen para isso. Vários autores do tempo (inclu­
sive Taine e Domingos Magalhães, senão mesmo o próprio Tobias) 
usavam e justificavam o uso do termo literatura abrangendo toda a 
produção intelectual de um povo.
E foi, apesar de imatura, desigual, apaixonada e apressada, sua 
obra maior e a maior obra do gênero no Brasil de até bem pouco. 
Pois o volume de pesquisa que envolveu, o empenho interpretativo, 
a amplitude do estudo que representava, deram-lhe dimensões 
enormes.
Seria, ainda, desta terceira fase:
— “O problema brasileiro em 1891” (1891), série de artigos de 
jornal. Incluída nos “Outros Estudos” .
— “A m ulher e a sociogenia” (1893), estudo sobre o notável 
livro de Tito Livio de Castro.
— “D outrina contra doutrina — o evolucionismo e o positivismo 
no Brasil” (1894), um de seus livros m ais im portantes, inclusive como 
reposição de idéias.
— “Ensaios de filosofia do Direito” (1895), que aliás, ao reed itar­
se, ficaria no singular: Ensaio.
— “A festa do Trabalho” (1895), artigo cheio de consciência 
social.
— “Uma suposta lei sociológica” (1896).
— “O haeckelismo em sociologia” (1899).
— “A classificação dos fenômenos em sociologia” (1898).
— “O Direito brasileiro no século X V I” (1899).
Finalmente, uma fase final iria a té sua morte, em 1914. Aqui 
encontramos os escritos seguintes:
— “Concepção da filosofia” (1901), referente a um estudo de 
Samuel de Oliveira, nome aliás vinculado à Escola de Recife.
— “Origem, elementos, estrutura e evolução da sociedade” (1904), 
referente a um ensaio de Augusto Franco, outro nome vinculado à 
Escola.
— “A classificação das ciências” (1904), escrito como prefácio a 
um livro de Liberato Bitencourt.
— “Concurso de Lógica” (1909), espécie de memória dirigida ao 
Colégio Pedro II, e abrigado nas “Provocações e Debates” que sairiam 
em 1910.
— “Prefácio” ao livro “Questões e Problemas” de Tito Livio de 
Castro (1913).
São desta fase novecentista, também, algunsestudos que corres­
pondem à sua adesão à escola de Leplay e que inclusive tentam apli­
car ao Brasil, ou a coisas brasileiras, o método monográfico do famoso 
sociólogo francês.
Sua maneira intelectual
Como um Tobias dissidente, Silvio Romero se parece com ele 
pela agressividade, pelo culto da erudição, pelo polemismo, pela capa- 
cidade de trabalho e pela tendência geral dos estudos e das idéias. 
Entretanto, algo de sua índole era diferente. Nada de boêmias, como 
Tobias: ao contrário, caseiro e casadouro, criando família três vezes 
sucessivas, cheio de filhos e aparentando o feitio de cidadão subur­
bano e pacato.
Nordestinão impertinente, não se amaneirou ao contacto da 
corte: ficou um recifense (ou um lagartense) todo o tempo, embora 
atuasse no Rio e partilhasse das especulações que a Europa mais 
culta cultivou inquietamente. Conta-se de sua voracidade de leitor, 
de seu modo bonachão e desabrido, de seus cuidados de pai e avô, 
de suas lhanezas entremeadas de destemperos.
Trabalhava incansavelmente, com método e afinco, quer tivesse 
paz e silêncio quer não.
Sílvio Romero e a filosofia
Segundo a exposição de Clóvis Beviláqua, Sílvio Romero teve por 
linha evolutiva fundamental a passagem do positivismo — na versão 
de Littré — para o criticismo kantiano e para o evolucionismo spen- 
ceriano. Neste evolucionismo, porém, é que parece ter criado mais 
raízes. E se, em sociologia, passou de Combate a Spencer e a Le Play 
e Tourville, nunca desamarrou totalmente do evolucionismo. Em 
direito, foi também evolucionista.
Seu livro de 1878, A Filosofia no Brasil, combativo e ainda verde, 
é bem um reflexo, já, de suas inclinações e de suas aversões. Neste 
livro, uma “Nota inicial” diz ao leitor que a intenção do autor é dar 
um balanço crítico: vendo o quão pouco se tem feito de filosofia no 
país, se poderá medir o esforço a fazer para preencher a lacuna. O 
livro se ocupa das seguintes obras: o Compêndio de Filosofia de Frei 
Francisco de Mont’Alverne; as Investigações de Psicologia, de Eduar­
do França; os Fatos de Espirito humano de Domingos de Magalhães; 
a Teoria da Afirmação pura de Patrício Muniz; as Lições de Filosofia 
elementar, de Soriano de Souza; La science et les systèmes, de Pedro 
Américo (o pintor); As Três Filosofias de Luiz Pereira Barreto (aliás 
figura hoje em plena reabilitação como expoente de nosso positi­
vismo); O Fim da Criação, do Visconde do Rio Grande; as Funções 
do Cérebro, de Guedes Cabral; os Ensaios e Estudos de Filosofia e
— 4 4 —
Crítica de Tobias Barreto, bem como, deste também, o escrito a rre ­
gladamente germânico Brasilien wie es ist in literarischer Hinsicht 
>etrachtet.
N aturalm ente que, à parte Tobias, os outros autores ali estavam 
’orno réus num banco, ou como alunos num a parede, para tom ar 
palm atória. Os escritos de Tobias, vindo no fim, pareciam dar ao 
Livro um ritm o de julgamento por seleção crescente; os Ensaios e 
Estudos seriam como o estalo de Vieira da inteligência nacional e a 
confortadora prova de que enfim havia alguém no país capaz de filo­
sofar. O tom do livro é áspero e acre, irreverente, agressivo, ponti- 
ficial e polêmico.
Sílvio Romero e o Direito
A pesar de já ter sido dito que Sílvio Romero foi um juiz muito 
mais preocupado com a antropologia do que com as leis processuais, 
sua atuação como juiz sempre foi eficiente e não se lhe pode atribuir 
ignorância em matéria ju ríd ica . Não foi um jurista técnico propria­
m ente, como Clóvis por exemplo o seria depois, embrenhando-se em 
estudos dogmáticos e produzindo obras de direito positivo. Mas teve 
cu ltura jurídica equiparável à de Tobias, e, como no caso de Tobias, 
sua cu ltu ra jurídica se situava no bojo de um a cultura geral assom­
brosa, para a época. Se ser culto — como disse Ortega — é estar 
“a a ltu ra dos tempos”, Sílvio dominou panoramicamente tudo o que 
foi preciso para se achar à altura dos seus.
Na obra que deixou sobre Filosofia do Direito (o livro “Ensaios”, 
depois singularizado para “Ensaio” ), o Prefácio confessa a influência 
de Taine, Renan, Scherer e Spencer, que teriam segundo ele liquidado 
a concepção católica “e especialmente jouffroyanesca” sobre proble­
mas “do mundo moral” . No mesmo Prefácio, reivindica Sílvio a 
prim azia de ter, antes de qualquer outro, citado Ihering no Recife, 
em 1875, quando de sua defesa de tese, na qual falou também na 
darwinização do direito. Reconhece entretanto que o que fez foi m era 
indicação, e que a Tobias coube realmente, em 1882, o ter iniciado o 
desenvolvimento efetivo destas idéias em estudos jurídicos. Ainda 
neste prefácio, realmente interessantíssimo como confiteor doutrinário 
(dentre tantos que Sílvio deixou), está dito que, tentando pensar em 
uma filosofia que não tivesse nem “os anatemas do positivismo”, nem 
tampouco as “manias sistemáticas do haeckelismo”, escolheria Spen­
cer — nas linhas gerais de seu pensar, embora afastando algumas 
de suas idéias.
— 45 —
D iga-se de passagem, que o Ihering de Tobias e de Silvio era 
sobretudo o Ihering da Luta pelo D ireito. Naquela obra, dissera 
Tobias (em trecho que Sílvio estusiasticamente encampa), naquela 
obra de Ihering “a genial concepção darw inica do Struggle foi life é 
transportada do domínio da natureza para o domínio da sociedade, e 
o direito se resigna a ser um capítulo da história natural” .
O Ihering do “Espírito do Direito Romano”, e principalm ente o 
do “Fim do Direito”, se ac-ha praticamente ausente das darwinices 
jurídicas de ambos. A estranha frase, do direito se resignando a ser 
um capítulo da historia na tu ra l chega aliás a discrepar do “cu ltu ra­
lismo” que em boa hora o pròprio Tobias esboçou, e que foi m en­
cionado páginas acima no presente estudo.
Em parte, a enfatização deste darwinismo e deste “iheringism o” 
era um modo de fazer a apologia do Recife, de sua Faculdade e do
grupo de Tobias. Mas nunca faltou a Sílvio Romero disposição nem
personalidade para divergir de Tobias em certos pontos. Assim, ao 
recusar as “manias sistem áticas” do monismo; assim tam bém ao recu­
sar o anti-sociologismo do au to r dos Dias e Noites.
Ainda naquele prefácio, Sílvio rejeita a idéia de ter sido “discí­
pulo” de Tobias. Este, afirm a, era quase de sua idade: era um p a trí­
cio, um camarada, um amigo; nunca foi seu mestre. Ele próprio e
Tobias teriam sido, diz ele, “dois obreiros amigos, mas independen­
tes”, “ele todo haeckelista, e eu mais spenceriano” .
Nesta espécie de sed magis amica veritas, as assertivas de Sílvio 
puxavam um pouco para si. Tobias não era exatamente todo haeke- 
lista. E no fundo houve influência deste sobre Sílvio Romero, ao 
menos uma influência inicial e genérica.
O mesmo naturalism o de Tobias que tropeçava em sua idéia de 
cultura, se acha em Sílvio Romero, para quem não cabia distinguir 
uma ciência da natureza e outra do homem: “o homem é apenas 
fenômeno no imenso mundo dos fenômenos” .
Ainda Sílvio Romero e o direito
Quando deputado, teve Sílvio Romero oportunidade de ser rela­
tor do parecer da comissão Especial da Câmara, a respeito do proje­
to do Código Civil. Neste parecer, teceu amplas considerações sobre 
o diretto brasileiro, denunciando, inclusive, o “demasiado aferro ao
— 4 6 —
pírito e tradições do direito romano, em que nos temos mantido, 
s relações civis”, agravado, segundo ele, pela “incontestável infe- 
Dridade em que, até bem pouco andou o ensino das ciências ju ríd i- 
s entre nós” .
O parecer inclui a citação de extensíssimos trechos de Tobias
► “sábio e saudoso m estre” ). Aliás, no mesmo trabalho, Sílvio chega 
dizer que o saber jurídico no Brasil teve três pontos culm inantes,
> século XIX: a Introdução da “Consolidação das Leis Civis” de 
eixeira de Freitas (1857), o estudo “sobre uma nova concepção do 
ireito”, de Tobias Barreto (1882), e o ensaio “Fórmulada evolução 
irídica”, de Clóvis Beviláqua (1894). Note-se que duas, das três 
ilminações, correspondem a nomes da Escola do Recife.
Incluído depois na edição de seus Discursos (e também no livro 
e M artinho Garcez, “Da Teoria Geral do Direito segundo o projeto
0 Código Civil Brasileiro”, Rio, 1914), este parecer revela um Sílvio 
òm ero altam ente identificado com problemas jurídicos.
Sílvio Romero e as ciências sociais
Na opinião de Machado Neto, a obra de Sílvio Romero, embora 
irm ã” da de Tobias, supera-a “pela amplitude e complemento, e 
obretudo pela paixão pela problemática nacional” .
!
1
De fato, como já observamos em nossa História das Idéias Polí- 
icas no Brasil, Sílvio Romero teve sempre suas atenções voltadas 
jara os problemas brasileiros. Se adotou o Leplayismo, tentou ana- 
isar com ele os fatos sociais brasileiros. Se foi crítico literário, preo- 
•upou-se basicamente com a vida intelectual do país. Se não teve as 
ntuições quase geniais de Tobias, nem as iluminadas expressões deste, 
eve a paciência enorme de estudar e inventariar coisas nacionais. 
Se não tinha o pathos dramático de um Euclides da Cunha, nem sua 
:ompenetrada concentração, teve uma energia inesgotável para pro­
por soluções, rever sugestões, denunciar abusos, acusar oligarquias e 
caudilhismos — os turbulentos que atrasavam e comprometiam o pro­
gresso do país.
Porque Sílvio foi — como aliás a Escola do Recife em geral — 
um ilustrado, neste sentido essencial de considerar que o saber e a 
civilização eram valores suficientemente fortes para vencer as maze­
las do país. Acreditava que a difusão do saber (inclusive por obra 
das polêmicas e dos debates que nunca perdeu chance de acender)
— 47 —
era bastante, e sobretudo era necessária, para o progresso do país, 
meta principal de suas preocupações. Tudo isso, por sinai, paga e 
compensa seus destemperos, suas imodéstias e suas agressividades.
*
A preocupação com problemas concretos do país consolidou sua 
crença (já arrimada em Spencer) na sociologia e na viabilidade dos 
estudos sociológicos.
E como respeitava sobremaneira as idéias de Tobias, e como Tobias 
negava a sociologia, não se limitou a defender a sociologia com qual­
quer desaforo como teria feito noutro caso. Cuidou de defendê-la, 
ponto por ponto, atendendo aplicadamente às negações do outro. Tanto 
nos pontos correspondentes a implicações filosóficas, como nos atinen­
tes a viabilidades concretas e até ao uso de leis na esfera social — 
leis a que Sílvio dava grande crédito.
Aliás, Clóvis Beviláqua, em sua História da Faculdade de Direito 
do Recife, lembra que muita coisa dita depois por autores como Raoul 
de la Grasserie e Raymond Saleilles, tinham sido já, em matéria de 
interpretação social do direito, afirmadas no Recife, por obra do grupo 
de Tobias e Sílvio. Aliás Clóvis acrescenta que, no tocante à teoria 
jurídica, a Escola do Recife não foi um grupo fechado nem ortodoxo: 
a idéia básica, em torno da qual se girava, era a de que o direito, 
como forma de coexistência humana, devia ser estudado como fenô­
meno objetivo no meio dos fenômenos universais.
Caberia por sinal ao próprio Clóvis ampliar as filiações neste 
campo, indo a outros autores, como Hermann Post, Kohler, Ardigò, 
Letourneau e outros.
Voltando porém aos estudos sociais de Sílvio, um de seus livros 
fundamentais neste setor foi, como todos sabem, “Doutrina contra 
doutrina” . Trata-se basicamente de uma contraposição do evolucio­
nismo ao positivismo, cheia de empenho polêmico e de inquietação 
pelo Brasil:
“No Brasil (diz na Introdução), representa-se agora um 
desses dramas raros, que nem a todas as gerações é dado 
apreciar. O esboroar de um trono, a queda de institui­
ções quase quatro vezes seculares, pois que essa é a ver­
dadeira data do governo régio no Brasil; o levantar de 
novas organizações, de novas fórmulas, de novas doutri­
nas, com seus moldes e suas necessidades novas, tudo isto
constitui para os sociólogos e am adores de estudos de psi­
cologia popu lar um momento verdadeiram ente excepcio­
nal” (grifos nossos).
No Brasil, acrescentava, “tudo é indisciplina”; e mais, “a ignorán- 
:ia dos doutores é só com parável à sua original companheira — a 
/aidade, a desenfreada petulância dos politiqueiros” .
Adm itia plenam ente, nesse livro, a lei da evolução, na fórm ula de 
Spencer, e mais a lei da “inter-dependência” dos fenômenos sociais, 
o “concensus, que preside à evolução to tal dos acontecimentos da 
história” . Na mesma Introdução do livro, tra ta da questão do ope­
rariado nacional: para Sílvio, os pregoeiros do movimento obreiro no 
Brasil não tinham capacidade de entender as diferenças entre a s itu a­
ção brasileira e a da Europa. Econômica e demograficamente, está- 
vamos em condições in teiram ente distintas daquelas que haviam cer­
cado a formação de partidos proletários no velho mundo. Critica 
ainda os nossos militares (o “partido m ilitar’” ), quer os de credo libe­
ral quer os de credo conservador, por lhe faltarem os princípios da 
ciência política. Seu objetivo, porém, era combater o positivismo. 
Dai dizer, abrindo o corpo do livro:
“O positivismo é uma coisa perigosa e deve ser com bati­
do com seriedade” .
Nada de levá-lo na troça: tratava-se de atacá-lo sistematicamente, 
com todo o empenho crítico. E por que? Porque o positivismo só 
servia, no Brasil, para a criação de ilusões, para novas religiosidades 
vãs, e para desviar dos estudos adequados os espíritos nacionais.
Um pouco de spencerismo, de resto, exibia Sílvio na sua esque­
m ática seriação das “espécies dos fatos culturais” . No mencionado 
parecer sobre o Projeto do Código, dizia ele, lá para as tantas (D is­
cursos, 1904, pág. 254), que tais espécies são sete: religião, arte, 
ciência, política, direito, moral, indústria. “Tais são, rematava, o que 
se deve cham ar as criações fundamentais e irredutíveis da hum ani­
dade” .
Seriação imperfeita e discutível, sem dúvida, mas que em seu 
tempo se explicava, e que vinha de um esforço de repensar (via 
Spencer) o quadro das realizações do homem na sociedade.
Tanto quanto Tobias, Sílvio Romero praticou o que se poderia 
cham ar um darwinismo doutrinário e até bibliográfico. As teorias,
ao se sucederem, operam uma como que seleção natural, o que justi­
ficaria a preocupação de estar sempre up to date; os livros “melhores” 
sobrevivem, e os mais recentes valem mais, como numa sobrevivên­
cia dos mais aptos.
Um dos mais importantes trabalhos de Sílvio Romero sobre o 
país foi “O Brasil na primeira década do século XX”, que aliás apa­
receu junto com o estudo de seu amigo Artur Guimarães, “Problemas 
Brasileiros” .
Começa desancando os grupos oligárquicos e os caudilhos do tipo 
de Pinheiro Machado (a quem jamais perdoou), “chefes dos clãs em 
que anda dividida a gentalha politicamente do país, arruinadores de 
negócios, que vivem de manipular nossa política alimentària, todos 
eles expoentes da desorientação intrínseca que nos devora, na sua 
surdez aos ensinamentos das sãs doutrinas, julgam-se chefes e dire­
tores desta pobre terra e deste desventurado povo” .
Note-se o ponto de vista intelectualista e ilustrador: à míngua de 
instrução nas boas doutrinas é que os caudilhos se endurecem nas 
pretensões e nos erros. Propõe, justamente, que as atitudes emocio­
nais, a respeito, sejam substituídas por atitudes críticas, pelo estudo 
sério dos elementos que formam o quadro real do país. Para ele, as 
soluções puramente políticas eram inteiramente inócuas, desde que o 
problema do Brasil era orgânico, étnico, em um problema de psico­
logia popular e de “estrutura social do povo” .
“É desmontando em todas as peças a sociedade brasileira 
que se há de achar a chave do enigma: a razão porque 
a nação marca passo num eterno messianismo que se não 
realiza; o motivo porque as panacéiasdos políticos de 
nada valem, senão para aum entar a confusão” .
Neste livro, que foi um de seus derradeiros depoimentos de pen­
sador social e de brasileiro inquieto, há observações dignas de nota 
sobre a psicologia do brasileiro. Observações como, por exemplo, a 
de que o brasileiro, por mais que ame e aplauda os retóricos e ora­
dores, ama e segue mais ainda os homens da força e da espada. Tam ­
bém levanta o problema do ensino, atropelado de reformas im aturas 
e inócuas. Uma das constantes fundam entais do livro era, todavia 
e sempre, o ataque às oligarquias locais, que cham ava “a mais hedion­
da forma de escravidão política” . No Epílogo, concluía melancólica­
mente:
“Aos que exerceram o monopólio de nos governar em 
nome do direito divino dos reis, sucederam os que exer­
cem o mesmo monopolio em nome da esperteza, da audá­
cia, da m entira, da corrução” .
3 4 — SEGUIDORES E CONTINUADORES — ARTUR ORLANDO
Vida e obra
A rtu r Orlando da Silva, recifense (1858-1916) pode ser visto, não 
propriam ente como fundador, mas já como seguidor ou continuador 
da obra dos iniciadores da Escola. Pouco mais moço que Silvio, como 
este pouco mais de que Tobias, nunca reivindicou como Sílvio Rome­
ro a condição de co-fundador da Escola, e realm ente a imagem histo- 
riográfica que dele temos é a de um consolidador de tendencias, de 
um “prosélito” convicto e operoso, eficiente, independente até certo 
ponto, fiel em grande medida, enfim um intelectual cuja “organiza­
ção m ental” (conforme se usava dizer naqueles tempos) acompanhava 
exatam ente o molde dos criadores do grupo.
Teve relações pessoais excelentes com Tobias Barreto e com Sílvio 
Romero. Tobias, dedicando-lhe seus Ensaios e Estudos de Filosofia e 
crítica, disse dele: “amigo incomparável e companheiro de trabalho, 
do qual bem pudera dizer o que disse Hugo de Lamartine, que somos 
uma espécie de par homérico, sendo ele quem traz a lança e eu quem 
dirige os corcéis” .
Também experimentou a frustração em concurso na Faculdade. 
Foi inspetor de instrução em Pernambuco. Desinteressado do magis­
tério quando lhe teria sido mais fácil praticá-lo, ou seja, com o 
advento da República, foi deputado e senador. Tal como Tobias e 
Sílvio, teve também, portanto, a experiência política. Vivendo no Rio, 
ingressando na Academia Brasileira de Letras, não desligou sua vida 
de sua província; conservou sempre o contato com a imprensa per­
nambucana (pois foi por muitos anos redator-chefe do Diário de 
Pernambuco) e com os amigos locais.
Também como Tobias, e como Sílvio Romero, A rtur Orlando cul­
tivou diversos campos de estudo. Foi, como eles, um polígrafo (pala­
vra que naquela época ainda tinha dimensão de elogio e não adqui­
rira o sentido pejorativo que lhe deram depois) . Não nas proporçõ/ts 
enciclopédicas dos outros dois, porém, tratou de filosofia, sociologia 
e direito, além do famoso livro sobre a cidade do Recife, obra de 
ecologia, demografia e higiene.
— 51 —
Foi jornalista de intensa produtivdade, tendo participado da publi­
cação intitulada Cultura Acadêmica, que documentou os estudos e 
produções da Escola do Recife nos anos de 1905 e 1906.
A defesa que Sílvio Romero fizera da sociologia, Artur Orlando 
toma-a como que por ponto de partida. Aceita, deste modo, a corri­
genda que fizera a Tobias o autor da História da Literatura. Também, 
como Sílvio, Artur Orlando se inclinou para o padrão sociológico da 
Escola de Le Play e Tourville.
Tal inclinação se manifestou, por exemplo, na famosa obra Brasil, 
a terra e o homem. Ali, como nos estudos de Sílvio, o mesologismo 
geográfico encontra aplicação e uso, tanto no tocante ao zoneamento 
regional do país, revisto em termos novos, como no tocante ao exa­
me dos tipos físicos ou antropológicos nacionais — o tapuio amazô­
nico, o sertanejo nordestino, o pernambucano (desdobramento talvez 
um tanto bairrista e desnecessário), o baiano, o paulista, o gaúcho, 
o mineiro e o teuto-brasileiro.
Além do livro sobre o Brasil, e do sobre a cidade do Recife, dei­
xou A rtur Orlando os Ensaios de Crítica, editados no Recife em 1904 
pelo Diário de Pernambuco, livro dedicado precisamente a Sílvio 
Romero e feito de estudos divulgados anteriormente pela imprensa. 
Um dos ensaios do livro estuda a figura de Sílvio Romero, a quem 
chama de “reformador dos hábitos intelectuais” brasileiros.
Inclui-se no livro, também, um estudo intitulado “Pernambuco”, 
que começa com o rómpante reivindicador e lírico:
“Outros estados reclamarão para si os vôos da águia, o 
rugido do leão pertencerá a Pernambuco.
Deitado sobre o coral dós arrecifes, o Leão do Norte dis­
tende o olhar calmo, melancólico, sobre o horizonte enig­
mático do m ar, enquanto o oceano, outro indomável, a ti­
rando vagas furiosas contra os céus, vem beijar-lhes os 
pés” .
Neste estudo sobre Pernambuco encontra-se, também, a preocu­
pação mesológica (aliás sempre misturada a engastes literários de 
valor duvidoso). Encontram-se igualmente curiosas considerações 
sobre a alma da mulher pernambucana e sua participação na estru ­
tura da mentalidade local.
— 52 —
Um dos estudos mais célebres de A rtur Orlando foi en tretan to a 
¡'ilocrítica, editada em Pernambuco (1886) com uma introdução feita 
>or M artins Júnior, já então integrante, também, da Escola.
Publicou ainda a Propedêutica política-jurídica (Recife 1904), 
•ápida m isturada de temas, desigual mas expressiva. Outro coquetel 
le temas são os Novos Ensaios (Recife 1905), onde há escritos de 
ülosofia, de direito, de medicina social e de teoria literária.
Muito representativo foi, ainda, o livro Pan-americanismo, saído 
io Rio em 1906. Aqui topamos, outra vez, com o mesologismo: decla- 
ra-se desde logo que o territorio é elemento decisivo na vida dos 
povos, e que toda a vida social se lhe acha subordinada, tanto nos 
aspectos morais, políticos e jurídicos, como nos religiosos e estéticos.
Posições em geral
Filosoficamente, A rtu r Orlando não teve, nem de longe, as g ran ­
dezas de Tobias Barreto, suas clarividências, sua capacidade criadora. 
Nem teve a capacidade reflexiva e crúica de Sílvio Romero, sua insa­
tisfação itinerante, seu empenho investigador. Foi mais um divulga­
dor, relativam ente sossegado e indubitavelmente probo, limitado em bo­
ra seguro.
Para A rtur Orlando, o problema do conhecimento devia ser en ten ­
dido superando-se tanto o agnosticismo (aquele fundo inacessível de 
que tratou Spencer) quanto o esplritualismo (o fácil e horizontal espl­
ritualism o, que a Escola se empenhava em desancar, desde Tobias). 
Preocupou-se com o problema do Idealismo e do Realismo, aceitando 
em grande medida a dose de Kantismo que Tobias Barreto durante 
certas fases de sua vida adotou. Ao mesmo tempo, admitia os postu­
lados centrais do monismo e do evolucionismo, ao menos ao passar 
dos problemas gnoseológicos para as questões cosmológicas. P reocu­
pou-se, sintomaticamente, com temas de ciência, de física por exemplo. 
Semelhante dispersão temática não chegava a ser algo desarrumado: 
A rtu r Orlando conseguia comportar seus estudos em ordem aceitável.
É frequente citar-se o discurso de Oliveira Lima, ao recebê-lo na 
Academia Brasileira de Letras (dezembro de 1907), para confirm ar 
a validade do título de filósofo, aplicado ao pensador pernambucano. 
Filósofo no sentido m aior e mais fundo do termo, não sabemos se 
te ria sido; foi sem dúvida, porém, um cultivador de estudos filosó­
ficos sério e generoso, aceitando idé.as (sempre como os da Escola:
- 5 3 -
je prends mon bien où je le troiive), aceitando-as com uma certa 
“disponibilidade” doutrinária e manipulando-as com intenção cons­
trutiva e positiva.
Seu temperamento, precisamente, tem sido evocado como com­
provante ou correlato de suas aberturas intelectuais: afável pessoal­
mente, accessível, disposto ao diálogo, recebendodiscípulos, orientan­
do neófitos.
Desistindo do concurso à Faculdade de Direito, para o qual redi­
giu uma tese tobiaticamente fundada na idéia haeckeliana da Onto­
genese e da filogênese (as ordálias como provas ontogenéticas do 
desenvolvimento filogenètico do direito através da luta), Artur Orlan­
do permaneceu fiel aos postulados fundamentais da Escola. E fiel 
às amizades do grupo: Sílvio, Tobias já falecido, Martins Júnior e 
outros.
O professor Luiz Delgado, em ensaio relativo ao Centenário do 
Nascimento de Artur Orlando, interpreta de modo positivo a linha 
que vai de Tobias ao nosso século, através de Sílvio Romero e do 
autor da Filocrítica. Para Delgado, a “diluição” e o “apagamento” 
do espiritualismo é que tornaram insatisfeito um espírito como o de 
Tobias, que exigiu “certezas mais claras e mais firmes” . E o mate­
rialismo, que tentou Tobias, não pôde arrancá-lo do apego a Kant, 
ficando em indecisões que foram também partilhadas pelos compa­
nheiros e seguidores da Escola: assim em Sílvio, assim em Artur 
Orlando.
Tentando reunir o determinismo geográfico com as teses de Gobi- 
neau sobre a importância do elemento étnico, A rtur Orlando ader- 
nava, de qualquer modo, para considerar largamente os componentes 
m ateriais.
Daí dizer, naquela pompa que foi o estilo de sua geração (salvo 
exceções), e naquele esforço generalizador que foi a sedução de seu 
tempo:
“é da comunhão da terra e do homem, da combinação do 
território e da população, que surge a sociedade. Mas 
não basta esta interpretação global: resta determinar o 
traço característico da fenomenalidade social, considerada 
esta como o produto da fusão de todos os elementos — 
físicos, orgânicos e psíquicos” .
— 54 —
Era, de certa forma, o tipo de formulação que encerrava os tra- 
alhos básicos da Escola do Recife, os trabalhos de investigação filo- 
Dfica e a ten tativa de fundamentação da ciencia social. Fundá-la 
)bre o cientificismo determinista eis o escopo de seus integrantes, 
las havia considerações de outra ordem, e ingredientes não mate- 
lalistas que, desde Tobias Barreto, teimavam em entrar na receita.
Figura e circunstância
Provinciano feito metropolitano, ou político nacional com am i- 
ides de alto coturno e raízes na província, A rtur Orlando guardou 
>da a vida os hábitos do estudioso naquele padrão de voracidade 
vresca de que Tobias e Sílvio tinham dado o definitivo exemplo.
Menciona-se sempre, a propósito, o depoimento de Oliveira Lima, 
ue narra a abundância de livros que encontrou na residência de 
r tu r Orlando (em qualquer das residências onde esteve). Ensaios, 
sicología, ciência, todas as áreas de leitura.
Uma certa noção do feminismo ocupou também A rtur Orlando 
- não caberia aqui deslindar se por motivações pessoais ou se por 
mvicção objetiva. Chegou a escrever um estudo sôbre “A alma da 
ulher russa” (que seria um “estudo de psicofilia fem inina” ), m en- 
onando os movimentos emancipacionistas das senhoras eslavas, 
liás, no ensaio sobre Pernambuco, mencionado linhas atrás, também 
ítraram em cena as mulheres do Estado. Outro membro da Escola 
•eocupado (e este basicamente) com o problema feminino foi Tito 
ívio de Castro, cujo livro maior, “A M ulher e a Sociogenia”, será 
tudado adiante.
É im portante situar a figura de A rtu r Orlando em seu tempo: 
aturação e saturação dos ideais do século dezenove com seus mate- 
alismos enfáticos e seus sintetismos vistosos; crises de idéias e de 
»temas, advento de novos problemas, desequilíbrios políticos e eco- 
>micos no mundo; uma onda de renovação em matéria de estilos 
; vida, com as pré-figurações da modernidade. Transição para o 
culo vinte, com um a maior flexibilidade de pensamento e aberturas 
ira soluções novas em m atéria de concepção do mundo, da educação, 
i higiene pessoal, de tudo. A rtur Orlando, jurista como os da 
.cola eram quase todos, filósofo como todos pretendiam ser, repre- 
ntou bem essa transação: repositório de tendências, conciliador de 
idas, herdeiro de Tobias mas amigo de Nabuco.
Áreas de interesse
Interessado basicamente em geografia. Uma geografia ainda à 
Ratzel e à Lapouge, feita de determinismo e de referências enigmáti­
cas ao território. Interessado em literatura (aquele mesmo conceito 
amplo de literatura, que fora de Varnhagen e de Sílvio Romero), 
bem como em sociologia: a sociologia recebia os dados da geografia 
e ten tava articulá-los com a psicologia (e a psicofilia), com o estudo 
das populações, com o estudo do direito. Tudo isto pressupunha um a 
visão do universo, e então era preciso saber coisas sobre o éter, sobre 
a m atéria, sobre os átomos.
Não esqueçamos a enorm e gama de assuntos de que tratavam os 
livros de Gustave Le Bon, tão influente na época, e que ía da Revo­
lução Francesa à equitação, passando pelo estudo da matéria e pela 
psicologia das massas e das multidões.
Assim A rtur Orlando: sofrego de informações, lendo desabalada- 
mente, inquieto com a deterioração do monismo que parecera a Tobias 
a formulação definitiva da verdade, e com o advento de novos e te i­
mosos probleminhas, pululando por todas as áreas do conhecimento 
hum ano.
D iante da chamada Questão Social (nome que em seu tempo se 
dava aos problemas políticos, econômicos e sociais ligados às lu tas de 
classes e ao socialismo), parece que adotou posição de simpatia, como 
por sinal sucedera com Sílvio Romero: viu com moderada aceitação 
a necessidade de intervenção do Estado, e a de um a redistribuição de 
bens que não redundasse em supressão total da propriedade individual.
Seu pensamento político se apresentou bastan te caracterizado no 
volume sobre o Panamericanismo. Ali, encontam os muitas idéias 
ainda hoje válidas sobre economia e sobre direito, muitas conside­
rações sensatas sobre a relação entre economia e d ireito : basta lem b ra r 
suas referências, inegavelm ente pioneiras, à “ Economia jurídica” , equ i­
valen te de um “Direito Econômico” . Muito m aterial histórico bem 
utilizado, e muita inform ação segura sobre o d ireito público n o rtea ­
m ericano — inclusive a trav és das obras clássicas (e então ind ispen­
sáveis) de Boutmy. Há também, entretanto, m uito equívoco e m uita 
preocupação de não c ria r caso, diferindo, por exem plo, das posições 
bem definidas de um O liveira Lima, para não fa la r, está claro, dos 
radicalism os de um E duardo Prado. D eixava-se navegar n a re tó ­
rica do panamericanismo, vendo o grande país do norte como “ o
colosso anglosaxônico” (tal como sucedeu com Euclides da Cunha), 
com o o im ponente modelo de self-made grandeza que devíamos imi­
ta r e acom panhar.
Estudos de direito
D entre seus estudos jurídicos, podemos destacar aqueles que com­
põem o pequeno livro Propedêutica político-jurídica, de 1904.
Em seus “Estudos Jurídicos”, publicado em 1916, Clóvis Bevilá­
qua inclui (cap. VII) um a análise do livro de A rtur Orlando. Para 
Clóvis, parecia definitiva conquista a idéia de A rtur Orlando, de que
“os problemas de direito são estudos de sociologia d inâ­
mica” .
Desta frase, cuja veracidade considerava absoluta e indiscutível, 
Beviláqua deduzia, por sua vez, que o jurista deve antes de tudo “des­
cobrir a relação en tre os fatores da evolução cultural humana e as 
form as jurídicas” . Realmente o corolário de Clóvis é aceitável, em ­
bora a formulação de A rtu r Orlando fosse, na verdade, passível de 
sérias críticas.
A Propedêutica contém, efetivamente, um grande número de suges­
tões, pontos dignos de nota e frases cheias de ressonância. Pena que 
não tenha dado ao seu conteúdo maior desenvolvimento, deixando 
tudo ali esboçado e abreviado. Os estudos a que deu maiores espi- 
chamentos textuais são, ao contrário, muitas vezes palhudos e ingênuos, 
como certos escritos palavrosos incluídos nos Ensaios de Crítica, ou 
certas partes do livro sobreo Brasil.
Sua formação jurídica era boa, e frequentemente sua idéia de 
um realce do direito em face da sociedade chegava perto das con­
cepções de Giuseppe Carle, para quem o direito era a parte principal 
do “edificio social” . Semelhante tipo de idéia não correria tanto, ou 
apenas, por conta do “bacharelismo” que hoje se costuma apontar nos 
da geração, mas era antes corrente em muitos autores europeus que 
tiveram grande voga no Recife.
O capítulo IV da Propedéutica, por exemplo, tem interessantes 
observações sobre constituições, direito não escrito e regimes políti­
cos. Sua fonte é quase sempre Boutmy, mas a assimilação das idéias 
é correta e sua expressão adequada. No seu capítulo V ili se encon­
tra a discussão sobre a “Questão Social” (que considera “antos de
— 5 7 —
tudo como uma questão m oral” ). Em um semi-monista e adepto do 
determinismo geográfico, é en tre tan to confortador encontrar um tópico 
em que se diz que a universalização da civilização ocidental é que 
faz que as outras sociedades adquiram “uma contextura mais ou menos 
comum de relações econômicas, jurídicas, morais e políticas” (Prope­
dêutica, cap. V ili) .
Outros aspectos
Cometeu algumas injustiças. Uma delas, a que escreveu sobre 
Tavares Bastos (no ensaio “Tobias Barreto”, incluído nos Ensaios de 
Crítica). Para A rtur Orlando, Tobias Barreto tivera razão em criti­
car Tavares Bastos: o livro deste, A Província, era “tudo, menos um 
livro” . E acrescentava:
“Sente-se que o livro é despido de todo senso científico. 
Na Província, ao lado de pomposas tiradas oratórias, 
encontram-se apenas fracos e tíbios raciocínios” .
Pavorosa e clamorosa injustiça, cometida contra o escritor a quem 
recentemente José Honorio Rodrigues chamou de “maior pensador 
político” já havido no Brasil. Descontado o possível exagero desta 
outra frase, ere de qualquer modo desnecessário, a A rtu r Orlando, 
acompanhar a Tobias na ojeriza a Tavares Bastos, sem dúvida nenhu­
ma um extraordinário analista de problemas nacionais.
M artins Júnior, prefaciando amistosamente a Filocrítica de A rtur 
Orlando, delinecu-lhe a evolução intelectual:
“Vi-o positivista com Émile Littré e H erbert Spencer, 
assisti a sua passagem para os arraiais do darw inism o e 
do haekelismo puros, testemunhei a sua conversão ao 
monismo de Noiré, e vejo todos os dias o seu espírito irre ­
quieto oscilar entre Schopenhauer e D uehring, entre 
Hartmann e Lange” .
Parece que assistimos a uma série de manobras: ora um a posição, 
ora outra, uma inquietação realm ente inquietante. De tan tas m eta­
morfoses, ficaria um rendilhado doutrinário — típico dos grandes ledo- 
res livre-pensadores daquela geração (como da nossa) —, um rendi­
lhado que se revela em cada escrito, em cada ensaio.
Aquelas balizas que Martins Júnior apontou, foram rea lm en te as 
constantes do pensamento de A rtur Orlando, que de resto jam ais teve
— 58 —
tem po, nem talvez condições psicológicas, para dar ordem e prum o 
às idéias, aparar os resíduos e configurar uma posição filosófica d efi­
n ida . P o liticam ente foi conciliatório, atendendo amenamente a um 
socialism o onde a disciplina jurídica tirasse a economia das av en tu ­
ras p lu tocráticas (cf. ensaio sobre “Sílvio Romero”); filosoficamente, 
porém, foi um indeciso, menos eclético do que hesitante, a lim en­
tando-se de d iferen tes dietas em diferentes épocas da vida. Se teve 
coerência, foi a coerência heterogênea de todos os da Escola, vinda 
de um a certa unidade de estilo, de temperamento ou de resultados, 
no tom da obra, nas atitudes pessoais ou na posição adquirida.
§ 5 — Ainda seguidores e continuadores. Martins Júnior 
Trajetória
M orto prem aturam ente aos 44 anos, recifense, Izidoro M artins 
Jún io r realizou algumas das constantes típicas dos da Escola: a passa­
gem pela política (nele aliás m arcante), os brilhos precoces, o cien­
tificism o, a aliança entre literatura e direito.
Sua vida (1860-1904) se colocou paralela à de A rtur Orlando, de 
quem aliás foi amigo constante — outro “par Homérico”, para lançar 
mão da suntuosa metáfora de Tobias, citada a propósito deste último. 
Vida intensa, atribulada, cheia de problemas e de projetos. Martins 
foi jornalista m ilitante e ardoroso combatente na campanha abolicio­
nista e, mais ainda, na republicana. Foi orador dos que se dizem 
habitualm ente “ inflamados”, qualidade que aliás prejudicou algumas 
vezes seus trabalhos, onde o vêzo retórico despontava frequentem ente 
onde menos devia. Poeta ainda condoreiro de certa forma, mas já 
parnasiano também, e cientificista na intenção, publicou em plena 
juventude o im portante livro Visões de Hoje (1886). No ano anterior 
publicara Estilhaços.
Aos 23 anos editou o opúsculo A Poesia Científica, com o subtí­
tulo: “Escorço de um livro futuro” . Não era apenas um trabalho de 
teoria literária; tinha implicações patrióticas. Dizia, no capítulo 
inicial:
“A pátria brasileira, hoje, tem a alma em fusão. Olha-se- 
lhe para o íntimo, e enterra-se a vista em alguma coisa 
de profundamente am orfo que dá uma sensação de agonia 
ou, quando muito, de dolorosa esperança” . “Enfim: a 
anarquia nos cráneos e nos peitos” .
A dota a divisão que Sílvio Romero fizera, da história da litera­
tura brasileira, em quatro períodos: formação, desenvolvimento, trans­
formação romântica e reação positiva. Todavia, tentava ajustá-la à 
idéia comteana das três “modalidades capitais de concepção do mundo 
— a teológica, a metafísica e a positiva” .
Moço e impressionável, com enormes projetos, M artins Júnior se 
tornou professor da Faculdade de Direito depois de diversas tentati­
vas, em que se viu rejeitado por obra de suas pregações republicanas. 
Só depois da República é que conseguiu nom ear-se.
P airava ainda, na casa, a ressonância dos dias de Tobias — morto 
justam ente no ano em que Martins Júnior ascendia ao magistério 
(1889). Para o temperamento nervoso e ardoroso de Martins, a rebel­
dia era a tônica: com igual sentido combatia a m onarquia e discutia 
idéias filosóficas; aceitava a monismo (embora tam bém se deixasse 
influenciar pelo positivismo), aceitava a “lei biogenètica fundamen­
tal” de Haeckel, e tudo isso acendia em seu espírito a impressão de 
estar num a grande batalha doutrinária .
E estava mesmo.
A fase dos debates fundam entais passava à dos desdobramentos. 
Ou, se se permite a metáfora sediça, o facho passara das mãos de 
Tobias para as de Sílvio, cuja ida para o Sul jam ais o desligou das 
campanhas intelectuais da província, nem daquela espécie de engaja­
mento recíproco que era o cimento formador da Escola.
Jornalista, orador, político, sobrou pouco tempo a Martins para 
am adurecer e verticalizar seus estudos, construir obras mais substan­
tivas. O que deixou, porém, m ostra uma capacidade intelectual das 
maiores dentre os componentes do grupo.
Foi injusto Tobias Barreto, e profundamente, quando em frase 
dirigida a Sílvio, desfazia de M artins, chegando a considerá-lo um 
“bobete” .
Martins Júnior jornalista.
Talvez tenha sido o mais ligado, dentre os da Escola, ao jo rn a ­
lismo, atividade que o prendeu desde os arrancos de adolescente. 
Meninote, escreveu prosa e verso na “América Ilustrada” . Rapaz de 
preparatórios, com 15 anos, foi co-fundador do “Progresso”, iniciado 
em 1875. Em 1878 publicou poesias na “Província” . No ano seguinte,
- 6 0 -
redigiu com outros o “Correio da Noite”, já e s tu d a n te de D ireito, 
começando a encrespar seu republicanismo por t r á s de u m a expressa 
e impossível prom essa de imparcialidade po lítica .
Trabalhou depois na “Opinião”, repetindo a p reg açã o rep u b lica ­
na, dem onstrando que só a mudança de regime d a r ia ao p a ís e s tru tu ra 
constitucional. Segundo Luís do Nascimento, q u e pesqu isou aquelas 
publicações, m an tinha àsvezes o pseudônimo d e Junio, m as às vezes 
assinava o nom e real.
Ao lado de Clóvis Bevilaqua, trabalhou na “ Idéia N o v a”, e depois 
no “Escalpelo”, revista burlona um tanto ao m odo das F arp as de Eça 
e Ram alho.
Toda a década de oitenta o viu escrevendo em jornais, acenden­
do e reacendendo a propaganda republicana, fazendo crítica literária, 
publicando poesias, preparando a opinião pública para as grandes 
mudanças de sua utopia. Com Francisco Campeio e Faelante da 
Câmara, dirigiu a “Folha do Norte”, desde 1883, combatendo pela 
abolição e pela república.
Àqueles tempos, o Recife vivia dias tremendamente agitados, com 
campanhas de imprensa e discurseiras ferozes, onde um parnasianismo 
fulgurante dava expressão a esperanças exageradas e a acusações 
intermináveis.
Em 1887, por exemplo, com Nilo Peçanha e outros, redigiu “A 
República”, que incluía doutrinação genérica e também comentários 
de fatos. Era um reflexo das atividades do Partido Republicano.
No mesmo ano, em janeiro, surgira a “Revista do Norte”, na qual 
colaborou ao lado de Artur Orlando, Adelino Freire e Pardal Mallet. 
Com Maciel Pinheiro, dirigiu o diário “O Norte”, em 1889. Era no 
mais quente da luta pela república, e inclusive o jornal teve ocasião 
de dar grande ênfase à presença, em Pernambuco, de Silva Jardim, 
o célebre tribuno republicano.
No período republicano, teve oportunidade de se meter em ques­
tões de política local, como a campanha que moveu na “Gazeta da 
Tarde”, cm 1892, contra o governo Barbosa Lima — mau grado as 
perseguições e agressões aos redatores, com empastelamento das má­
quinas e outras violências típicas.
— 61 —
Deputado Federal, à época, Martins deu am plitude nacional 
campanha.
Orador e político
Veemente, dentro do padrão dos faladores característicos do terr 
po, e ao mesmo tempo elegante e cheio de imagens, Martins foi ur 
exemplo de orador de sua geração.
A vocação política, que o tentou toda a vida, disputando-o a 
magistério e mesmo ao trabalho intelectual, revelou nele uma enorm 
capacidade de liderança popular. Objeto de ódios e admirações irre; 
tritas, provocando adesões radicais e radicais antipatias, viveu no Ri 
de Janeiro os últimos tempos, sem desligar-se de Pernam buco. E a 
m orrer, a cena de seu enterro, acompanhado por um a multidão imer 
sa (sobretudo para a demografia do Recife de 1904), é sempre citad 
como demonstração de extraordinária popularidade.
Mas não teve, com a república — fora o fato im ediato de have 
finalmente obtido nomeação para “lente” da Faculdade —, os bene 
fícios que poderia ter tido. Ao contrário, parece que foi então q i 
as complicações de sua vida redobraram .
Martins e a sociologia
Em ensaio chamado “Sociologia e Sociófobos”, inserido nos Fraj 
mentos Jurídico-filosóficos, M artins Júnior estabeleceu sua plena adí 
são à sociologia. Era, para quem vinha incluir-se no rol dos cont 
nuadores de Tobias, uma rebeldia, embora autorizada pela posiçí 
anterior de Sílvio Romero, que também desaceitara a recusa de Tobi; 
à ciência do social. Mas a rebeldia era maior pelo fato de que 
artigo praticam ente não dava bolas ao estudo anti-sociológico c 
Tobias. Apenas mencionava os “adversários da sociologia”, os “soei 
fobos”, os “negadores da ciência social” . Trazia à tona o argumen 
maior, aduzido contra a sociologia, o “cavalo de m adeira” dos soei 
fobos: e ra o apego ao livre arbítrio, à liberdade, que os sociófobc 
viam am eaçada pelo determinismo carregado pela sociologia. Pa 
Martins, ía p a ra r em Schopenhauer ta l apego à vontade, essencializa< 
pelos an tagonistas da ciência social. Na realidade, diz ele, não 
sabe bem o que é a sociologia tal como a entendem seus detrator« 
tal a deform ação que lhe imprimem ao argum entar.
Sua defesa da sociologia, expressamente, era uma colossal defe 
de A ugusto Comte:
— 62 —
“A p artir do dia em que se publicou, em Paris, o últim o 
volum e do Cours de Philosophie Positive, a m entalidade 
européia começou a agitar-se nervosamente, sob a im pul- 
são que acabava de com unicar-lhe o maior dos filósofos 
a té hoje existentes” .
E prosseguia:
“Foi dessa profunda elaboração, provocada por Comte, que 
saíram , logo depois, todas as escolas ou sistemas atuais 
de filosofia, desde o evolucionismo de Spencar até o mo­
nismo naturalista e o realism o científico dos escritores 
alem ães” .
Enfim, Comte tinha sido o marco maior: note-se a hiperbólica e 
enorme frase: “o maior dos filósofos até hoje existentes” . Comte 
criara as condições para auto-interpretação do espírito humano a rever 
e entender seus percursos anteriores, seu estágio presente e suas pers­
pectivas. De Comte teriam vindo todas as teorias vigentes (o que era 
evidentemente um exagero); e então (eis aí outra rebeldia) o próprio 
monismo te ria saído das amplas dobras do sistema comteano. Tanto 
assim que Roberty (positivista de origem eslava a que M artins pres­
tava grande atenção) chamara à doutrina de Spencer, de “positivismo 
monistico” .
O esforço de síntese, que vimos em Tobias como rejeição do ecle­
tismo e como ten tativa esconsa de ju n ta r K ant e Haeckel; que em 
Sílvio dera prim azia a Spencer; que em A rtur Orlando procurou ficar 
entre as manias do monismo e a rigidez do positivismo, esse esforço 
aparece também em Martins Júnior. Nele, o critério consiste em 
adotar o positivismo como posição genérica, alma mater dos outros 
sistemas do século.
Afirmando sua crença na sociologia, Martins enfatizava precisa- 
mente — contra o ensaio “sociófobo” de Tobias — possibilidade cien­
tífica da mesma. Mesmo na Alemanha, acrescentava significativa­
mente, aceitava-se a sociologia.
Teve, portanto, mais do que Tobias, sem ter tido os brilhos e 
vôos maiores que este teve (ou, no caso em tela, por isso mesmo), 
senso comum para adm itir a ciência do social. Em Tobias, a recusa 
à sociologia tinha sido uma forma de aderir ao monismo alemão. 
Martins Júnior, atendo-se mais às fontes francesas, e pregando em 
Comte uns olhos alargadamente admirados, aceitou a ciência social
— 6 3 —
como uma natural decorrência do positivismo, da superação da meta­
física e da teologia. P ara M artins, o monismo, ao invés de repelir 
a sociologia, devia precisamente desembocar nela, já que do monismo 
vinha a idéia de entender os fatos sociais como fatos inteligíveis por 
meio de leis fundam entais.
Posição em direito
Basicamente, Martins Júnior admitiu em direito o haeckelismo, 
supondo uma ontogênese e uma filogênese jurídicas. E como foi poi 
excelência historiador do direito, teve chance de aplicar largamente 
esta crença nuclear.
• • ' V r r r J s '
Um dos ensaios mais famosos, incluídos nos Fragmentos, é o in ti­
tulado “Intuições romana e germânica do processo” . Neste ensaio 
M artins via o direito como um organismo, cuja evolução se aperfeiçoa 
pelo processo:
“Assim como no homem os órgãos locomotores e apreen­
sivos se desenvolvem pela marcha e pelo trabalho manual 
assim como os respectivos músculos enrijecem pelo exer­
cício, e o corpo inteiro recebe a influência benéfica dc 
funcionamento dos órgãos; assim tam bém no organismc 
jurídico a atividade processual desenvolve e aperfeiçoa c 
direito, concorre-lhe para a riqueza da plástica, em bele 
za-o e robustece-o” .
Metodologicamente seu ponto de partida era sempre o histórico- 
social. Mas a história era, para M artins, evolução: mutação orgânica 
transformação biológica, cientificização crescente.
Com certa pompa, mas de modo expressivo, Beviláqua escrevei 
dele:
“Foi com o espírito form ado pela emoção estética, des 
pertada pela ciência; foi com a inteligência preparadí 
pela harmonia altíssona das frases, cantando em alexan 
drinos triunfais; disciplinado pelo método severo do posi­
tivismo, em sua feição puram ente científica, e pela con 
cepção do mundo,deduzida da observação dos fenômenos 
nesse intérmino encadeiam ento que desce das alturas dc 
mundo estelar para as obscuras combinações da vida social
— 6 4 —
ou prende as sutilezas do pensam ento hum ano aos estos 
grandiosos da m atéria m ultiform e; foi com essa m entali­
dade que M artins Jú n io r se entregou ao estudo do direito” .
M u ita coisa certam ente, m uita altissonância para es tu d ar o direito; 
mas e ra m coisas daquele tempo ainda parnasiano na form a e ingênuo 
no con teúdo , im peniten tem ente palavroso .
No seu Compêndio de História Geral do Direito, de 1899, M artins 
u tilizou la rg am en te a bibliografia de língua francesa, particu larm en te 
L eto u rn eau , A hrens e Dareste, m as tam bém os italianos D’Aguanno 
e C a rie . A pesar das pretensões p rim ordialm ente d idáticas, o liv ro 
se m o n tav a sobre um a série de consu ltas severas e anotações deta lha­
das. J á na História do Direito Nacional, publicada em 1895, M artins 
fizera tra b a lh o m ais pessoal, desdobrando esm iuçadam ente os tem as, 
pesquisando fontes, repassando todos os detalhes e de ixando inclusive 
a obra inconclusa, pois chega apenas à época do B rasil-re in o . A p ro ­
b lem ática dos prim ordios e das antecipações ibéricas se acha, inclusive, 
am p iam en te estudada . Em am bas as obras, o prism a evolucionista 
se en con tra acentuado: na História do Direito Nacional, a Introdução 
tra ta p rec isam en te da “Filogenia Ju r íd ic a ” e das “Leis superiores d a 
evolução re sp ec tiv a” .
O s d ep o im en tos d e 1904
Morto no Sul, e vindo em esquife para enterrar-se gloriosamente 
em sua terra, Martins Júnior foi objeto de um número especial da 
revista Cultura Acadêmica, em 1904. Aliás este número trás, no final, 
uma impressionante fotografia do prèstito ao passar pela rua do Hos­
pício, com uma compacta multidão perdendo-se longe, cujo aspecto, 
empretecido na chapa, dá um ar de compunção realmente tocante.
Neste volume, Faelante da Câmara trata da atividade jornalística 
de Martins, Carlos Porto Carreiro, de Martins poeta (“o último poeta 
da república”). França Pereira, da “sua influência na vida mental 
brasileira” . A. G. Araújo Jorge, do “meio em que apareceu” Martins 
Júnior (onde se encontra a evocação a Tobias, ao monismo e aos deba­
tes do tempo). Virgílio de Sá Pereira, de “Martins Júnior, íntimo” . 
Teotônio Freire colaborava com um artigo genérico sobre o morto. 
Artur Muniz, com “O orador”. Osvaldo Machado, com “Martins Júnior, 
o político” . Artur Orlando, com “o filósofo”, artigo desigual mas inte­
ressante. Gervásio Fioravanti com “o poeta”, estudando os Estilhaços, 
as Visões de Hoje e a Tela Polícroma. Clóvis Beviláqua, estudando 
“o jurista” .
— 65 —
No artigo de Clóvis se põe a figura de Martins dentro da Escol: 
do Recife, reivindicando para a Faculdade a condição de berço di 
um movimento que todo o Brasil já conhecia e ouvia.
Todos, aliás, afirmam a sedução que possuía a palavra de Martin 
Júnior, não apenas na tribuna, onde isto não seria tão relevante num; 
época de oradores, mas igualmente na cátedra. E não era só o toni 
troar da voz nem o desaforado dos anátemas: era também o encant 
da persuasão e da elegância dizente.
O sentido essencial da obra de Martins terá consistido, talvez, n 
esforço em conjuntar coisas díspares. Coisas como poesia e ciêncis 
como haeckelismo e comtismo, como historiografia e oratória. Um d 
seus elogiadores fúnebres deixou dito que ao seu espírito não agra 
dava a dúvida: tendia instintivamente a afirmar. Entretanto, teve ; 
necessidade íntima de dar inteireza às inclinações diferentes de su 
natureza: poesia, erudição, partidarismo político. Uma das soluções 
tentada para um dos dilemas, foi a saída pela “poesia científica” 
Outra, para outro problema, foi considerar o positivismo de Comt 
como regaço abraônico de onde provinham todas as concepções mo 
demás. O dilema entre erudição historiográfica e partidarismo, est 
porém não se concertou de modo satisfatório: a carreira política arras 
tou-o para longe das pesquisas, para longe do seu Dareste e do s& 
Letorneau, e daí que sua obra se deixasse ficar truncada e incomplete 
independente do fato lamentável de ter-se ido aos quarenta e pouco 
anos, quando tanto poderia ter dado ainda — na idade em que s 
iria, alguns anos depois, Euclides da Cunha.
Sua posição
A posição de Martins na Escola não foi, entretanto, a de um hete 
rodoxo, mesmo porque não havia na Escola ortodoxias: havia cons 
tantes teóricas e apegos pessoais. Teve, mais do que A rtur Orland 
por exemplo, liberdade mental para divergir de Tobias, embora cult: 
vando, tanto quanto aquele, a admiração indesfalecente pelo sergipa 
no fundamental. Foi um temperamento nervoso e irrequieto, cor 
problemas pessoais e desvios biográficos (política versus cátedra 
obra heterogênea, épocas diferentes. Sua posição, basicamente a d 
um continuador. Os autores que ainda não nos chegavam à época d 
Tobias, foram as leituras suas e de Beviláqua — que também farií 
com os estudos de direito, andanças etnográficas e historiográfica« 
Só que não teve, como Beviláqua, nem o tempo longo, nem a esta 
bilidade docente para apascentar leituras intérminas nem constru; 
obras sistemáticas de maior porte.
- 6 6 -
Foi um lírico, típico do lirismo de seus dias, m as in te r io rm e n te 
lírico: utópico e afanado por urna fantasia enorme e devoradora , que 
— como em A rtu r Orlando, e em todos de modo geral — m e tia -se 
tam bém nos trabalhos sérios, invadia as exposições erud itas e e n fe i­
tava os períodos que tratavam de temas pesados. Daí a coisa nos 
dar, hoje, a impressão de empolamento e descabim ento. Mas v a leu 
a pena.
§ 6 — Seguidores e continuadores: Clóvis Beviláqua
Olhada panorâmica
Cearense (1859-1944), Clóvis Beviláqua estudou preparatórios no 
Rio de Jane iro . Estudou direito no Recife de 1878 a 1882, e se fixou 
no Recife, tendo entrado em 1891 para o corpo docente da Faculdade 
de D ireito.
E ntretanto , já no período do Ceará, antes do Rio, conviveu com 
o grupo de Rocha Lima, que capitaneava um movimento in telectual 
renovador, ao qual estavam vinculados Capistrano de Abreu, A raripe 
Júnior, Am aro Cavalcanti, João Lopes e outros. O próprio Beviláqua 
acentuou, posteriormente, a marca recebida de Rocha Lima, que o 
levou a interessar-se por Comte, Taine, Teófilo Braga, etc.
Ainda jovem (regra quase geral no grupo) começou a escrever, 
enveredando pela literatura e pela filosofia. De literatura, por exem ­
plo, deixou o volume Frases e Fantasias (Recife, Papelaria Americana, 
1894). Eram narrativas, entre conto e novela, ao modo romântico, 
editadas com vinhetas carinhosas.
De filosofia deixou os seguintes trabalhos:
— “Emile L ittré” (1882), incluído depois em Esboços e Frag­
mentos;
— “A Filosofia Positiva no Brasil”, livro publicado em 1883 no 
Recife, ainda imaturo mas já definido nos rumos característicos da 
Escola;
— “Conceito antigo e moderno da metafísica”, prova escrita de 
concurso (1888);
— “Notas de Tangência pela filosofia” (1891);
— “Da Consciência” (1891);
— 67 —
— “Repercussão do pensamento filosófico sobre a mentalidade bra­
sileira” (1896);
— “Sobre a realidade do mundo externo” (1897);
— “Finalidade do mundo” (1897), comentário sobre o livro de 
Farias Brito, seu conterrâneo;
“A doutrina de Kant no Brasil” (1924).
Vários desses escritos foram acolhidos no volume Esboços e Frag­
mentos, de 1899.
Formação e trajetória
Começou na nebulosa de tendências negadoras que, tanto no Ceará 
como em Pernambuco, repeliam a metafísica e o espiritualismo, aco­
lhendo eongraçadamente o spencerismo, o comtismo, o monismo. 
Definiu-se pelo positivismo na década de 80.
Entretanto, como nota Paim, nunca adotou os exageros de dou­
trina, nem os de expressão, quecaracterizavam aquela geração. Jovem 
de vinte e poucos anos, já revelava equilíbrio e serenidade, aquele 
equilíbrio e aquela serenidade que lhe permitiriam construir suas 
obras com pertinácia e grandeza.
No livro “A filosofia positiva no Brasil”, mostra contudo algumas 
hesitações. Não adere totalmente ao positivismo. Chegou a dizer 
que a inteligência humana não pode ficar todo o tempo presa ao “leito 
de Procusto” que lhe impõe o positivismo: a metafísica acompanhará 
o homem até chegar a desvendar os mistérios da natureza, se é que 
ta l momento chegará. Era um pouco a idéia de seu conterrâneo 
Farias Brito, para o qual a filosofia (“atividade permanente do espí­
rito humano” ) deveria ir à frente, cedendo vez à ciência sempre que 
esta avançasse.
É de notar a preocupação de Beviláqua em fazer balanços e inven­
tários do pensamento brasileiro.
Assim no estudo “Repercussão do pensamento filosófico sobre a 
mentalidade brasileira”, onde, referindo-se particularmente ao Nor­
deste, menciona a farandulagem metafísica varrida pelo littreismo. 
E como os debates da Escola de Tobias se achavam no ar, considerava 
o monismo, distinguindo-lhe três tipos — o mecanicista, o filosófico
%
e o evolucionista. Distinção quebradiça e im p erfe ita , mas que d en o ­
tava sua preocupação de jun tar o evolucionism o com o monismo, pois 
era o terceiro tipo o que adotava. A dotava-o e n tre ta n to com reservas 
e prudéncias, sem sectarismo nem gritaria, com a p lacidez talvez um 
pouco pesada que sempre teve.
A lcântara Nogueira, em notável livro a respeito , tenta s itu a r o 
pensamento filosófico de Clóvis, em torno de algum as constantes basi­
lares. Segundo ele, a concepção que Clóvis teve da filosofia foi “sem ­
pre a m esm a”, guardando fidelidade ao seu tipo de formação intelec­
tual desde os começos:
“A orientação de Clóvis, embora apresentando determ ina­
das características de formulação pessoal, no conjunto se 
associa à grande corrente do evolucionismo na sua direção 
spenceriana” .
P ara Beviláqua, a filosofia era essencialmente síntese. Síntese e 
generalização: e com isso, as categorias alicerçais de Spencer (em bo­
ra as de Comte também) passam a caber em tudo e servir para tudo.
Sua atitude perante a metafísica se prende, quase como um p re ­
conceito, à ambiência de idéias vigente no seu meio: a ambiência 
científica, onde o saber “positivo” se ligava à idéia de um progress*) 
inexorável das coisas hum anas. Sílvio Romero, ao bradar que a 
metafísica tinha morrido pelas mãos do progresso e da civilização, 
dava um diapasão estridente às profissões de fé do grupo. Beviláqua, 
mais contido, mais pacato, preferia mastigar a crítica e encaminhá-la 
para conciliações entre os esquemas que dentro do próprio am biente 
se contradiziam.
Guardava, diante da metafísica, um resto de reverência. Mas 
era a reverência vaga do spencerismo, que joga os problemas m e ta ­
físicos para os cimos do “ ineognoscível”, como quem guarda no sótão 
um velho retrato de avó, empoeirado e desconhecido. Não se p reo ­
cupou, portanto, em te r sistema ou em fazer sistema. A lcântara 
Nogueira, no livro citado, comparou sua atitude à de Sílvio Romero, 
este também sem sistema fixo, e aliás preocupado em não ter mesmo 
um sistema definitivo.
Sua passagem por L itrré é representativa. Sentia este positivista 
dissidente como um elo em direção a outros caminhos, mas não bas­
tan te para o alimentar todo o tempo. Adotou os traços capitais da
— 69 —
atitude positivista, tomou uma concepção evolucionista do monismo, 
spencerizou-se mas não de todo, e passou adiante.
A raripe Júnior, prefaciando em 1898 seus Esboços e Fragmentos, 
jà v iu mais o jurista que o filósofo. E foi como ju ris ta (o principal 
ju rista do grupo), que Clóvis melhor se realizou. Como jurista, tam ­
bém, concluiu as tendências da Escola, marcando, p o rém ao mesmo 
tempo, sua extinção.
Interesse pela sociologia
Não podia, meio spenceriano e cheio de leituras evolucionistas, 
desinteressar-se pela sociologia, tão debatida e invocada no Recife aca­
dêmico daqueles dias. Passara o tempo da sociofobia equivocada e 
inócua de Tobias; agora cada um era sociólogo a seu modo e por sua 
conta.
Beviláqua, com a candura que Araripe Jún ior lhe apontou (can­
dura no sentido de lhaneza: diz ele que Clóvis Beviláqua não tinha 
poses do erudito), entra no terreno sociológico. Entretanto, a socio­
logia não foi para ele campo especifico: foi perspectiva e instrum ento 
para consolidar outros estudos. Foi quadro para s itu a r in terp re ta­
ções do direito, do crime e de outros temas.
Num estudo de 1895, sobre “A concepção da sociologia em Gum - 
plowicz”, constata a lentidão com que a sociologia vinha progredindo, 
comparando-a com a morosidade de outra ciência, a psicologia expe­
rim ental. Para ele, porém, cada grande sociólogo abria sua trilha : 
e todas serviam, pois Clóvis, num ecletismo bastante aberto, adm itia 
que tanto Schaeffle, como Comte, como Tarde, como Durkheim, tinham 
o que dar à interpretação do Social:
“Cada qual, tendo um ponto de vista seu, pouco aprovei­
tando do contingente de observações reunido por seus 
antecessores, vai abrindo um a trilha nova que, como as 
outras, corre o risco de ficar em olvido, à semelhança de 
um caminho traçado sobre os areais ondeantes do S aara” .
No final do trecho, a dúvida: se todos abrem trilhos, é possível 
que a confusão reciprocam ente apague a todas.
Também prestou seu culto a G ustave Le Bon, comentando am pia­
mente seu livro “Leis psicológicas da evolução dos povos” . Opunha, 
por exemplo, a opinião de Le Bon, no sentido de uma evolução p lural
— 70 —
e interrom pida (com parável aos ricorsi de Vico), à maciça le i do p ro ­
gresso continuo, de Comte.
Em 1910, no n ú m ero inicial da “R ev ista B razile ira de Sociologia’*, 
Soriano d ’A lb u q u erq u e , escrevendo so b re “A sociologia n o B rasil” , 
incluía Clóvis B ev iláqua en tre os sociólogos brasileiros, filiando-o ao 
organicismo social. Para Clóvis — segundo a exposição d e Soriano
— há um superorganism o, que é a nação , e a sociedade nacional n ão 
deve confundir-se com a hum anidade, vaga en tidade posta sobre a 
te rra .
Nos diversos artigos sobre crim inologia que escreveu, B eviláqua 
aplicou ao p ro b lem a do crim e a perspectiva sociológica. Chegou a 
publicar o volum e Criminologia e D ireito, no qual incluiu o famoso 
ensaio “F órm ula d a evolução ju ríd ica” , que trad u z , no d izer de M a­
chado Neto, um a “ otim istica filosofia d a h istó ria ju ríd ica” .
Clóvis B eviláqua, jurista
Foi entretanto como jurista que mais deu de si. Foi a problemá­
tica jurídica que lhe ensejou as produções mais significativas e mais 
importantes.
No terceiro Congresso Brasileiro de Filosofia, realizado em São 
Paulo em novembro de 1959, celebrou-se o centenário do nascimento 
do grande mestre, e algumas colaborações acentuaram a relevância 
do aspecto jurídico na obra de Clóvis. Alcântara Nogueira, por exem­
plo, situou as concepções fundamentais da teoria jurídica de Clóvis 
no quadro das tendências mais representativas de seu tempo. Paulo 
Bonavides acentuou o quanto o mestre cearense devia à obra de Ihering
— que, como se sabe, foi fonte constante para a Escola do Recife.
Não sabemos, porém, se se pode chamar Clóvis Beviláqua de “filó­
sofo do direito” . Seu forte foram, mesmo, os estudos positivos, de 
direito civil, de internacional privado, de direito comparado: as incur­
sões na teoria geral resvalam frequentemente nas vaguidades ampu­
losas, e as formulações filosóficas são quase sempre insuficientes, quan­
do não ingênuas e ocas. Nem sempre, mas quase sempre.
De qualquer sorte, andou certo Beviláqua quando cuidou de ali­
cerçar seus estudos jurídicos com o lastro da história, da etnografia, 
da sociologia.Exemplo disso é sua famosa obra sobre o direito de 
família, onde a exposição “dogmática” ou positiva se acha a cada 
passo respaldada em bibliografia etnográfica e histórica.
— 71 —
Participou, com seu espírito formado nos moldes do século XIX, 
da mania oitocentista das grandes sínteses e das tipificações forçadas: 
a religião, a filosofia, o direito, a poesia, eram vistas como intuições 
e form as de atividade com papel definido e lugar histórico próprio. 
Bem como da mania das negações drásticas e das adesões eufóricas 
— mau grado sua já citada cautela, seu já citado equilíbrio. Havia 
autores cuja chancela lhe parecia irrecusável. O que viesse assinado 
por H erm ann Post, por Joseph Kohler, por d ’Aguanno, ou, em direito 
civil, por D ernburg ou um Regelsberger, lhe parecia válido, graniti­
cam ente firm e.
Suas lições de direito comparado, publicadas no Recife em 1893, 
têm aliás elementos pioneiros, com certas antecipações dignas de nota.
Em 1897, na Bahia, aparecia seu livro Juristas Filósofos, encimado 
por uma epígrafe em latim de Pompônio, e outra em alemão de Tobias 
Barreto. No prefácio, dizia, sintomaticamente, que
“Ihering e Post re tratam as duas principais feições cien­
tíficas da jurisprudência contemporânea; Tobias e Sílvio 
refletem-nas entre nós” .
Os “juristas filósofos” em que se detém são Cícero, Montesquieu, 
lhering, Post, Tobias Barreto e Sílvio Romero. O au tor pretendeu, 
de certa forma, escrever uma história da filosofia do direito, divisada 
em seus cumes maiores, e, na Introdução, descreve como entende a 
evolução lenta e gradativa dos estudos jurídicos até chegarem às cul- 
minâncias de seu tempo. Considerando já extinta a escola do direito 
natural, entendia como algo assente e definitivo o rum o naturalístico 
imprimido à concepção do direito. Efetivamente bem informado, com 
uma erudição disciplinada e lúcida, dominando várias línguas e d is­
pondo magistralm ente das fontes, seu calcanhar de Aquiles é um cal­
canhar partilhado: partilha, de fato, as fraquezas e prism as próprios 
de seu tempo, seus preconceitos, suas utopias metodológicas, suas im ­
precisões terminológicas.
Civilista, principalmente
Preocupado desde cedo com o direito privado, Clóvis Bevilaqua 
foi o prim eiro grande comentador do Código Civil, cujo projeto d efi­
nitivo foi, precisamente o seu. Suas concepções pessoais ficaram no 
Código, mau grado os reparos extensos de Ruy Barbosa, que na v e r ­
dade eram mais tocantes à gramática do que ao direito (sem em bargo 
de ter sido Ruy grandemente entendido em direito c iv il).
— 72
Como foi dito, lastreou la rgam en te se u s traba lhos de d ire ito posi­
tivo com estudos genéricos de h is tó ria e e tn o g ra fia . No livro Estudos 
Jurídicos, de 1916, acham-se d iversos ensa io s de h istó ria , com repas­
ses do d ireito brasileiro, opiniões sobre psico.ogism o jurídico, obser­
vações sobre o elem ento cultural no d ire ito . Do m esm o modo noutra 
coletânea, Linhas e Perfis Jurídicos (Rio, 1930), onde figuras do saber 
jurídico se estudam , junto com tem as concretos e aspectos do direito 
brasileiro . Neste livro, aliás, um ensaio sobre o Código C ivil põe o 
problem a com exem plar modéstia, dizendo que um Código é obra de 
muitos, e que, se tem o Código C ivil B rasile iro ligação com seu nome, 
tem ligação com m uitos que p a rtilh a ra m dos traba lhos, inclusive seu 
crítico o Senador Ruy Barbosa. O Código, afirm ava, é prova da capa­
cidade ju ríd ica nacional:
“Expressão da alm a b rasile ira , o Código C ivil é, ao mes­
mo tempo, rebento da cu ltu ra juríd ica dos rom anos e lusos, 
e fru to da época” .
Na verdade, fru to da época m esm o: de uma geração meio verbo­
sa, meio cientificista, com sólida form ação nos civ ilistas alem ães e 
italianos, e em penho em dar ao país um a obra p e re n e .
Quando, em 1906, Clóvis publicou o livro Em D efeza do Projeto 
de Código C ivil Brasileiro (não esqueçamos o extenso parecer de Sil­
vio na Câmara dos Deputados, favorável ao projeto), em dias ainda 
anteriores à promulgação do Código, lamentou o desvio que a crítica 
do Código sofrerá, derrapando para questões de estilo e gramática:
“Desejariam os antagonistas do projeto vasá-lo numa lin­
gua hierática, impecável, que jamais existiu na realidade 
da vida, que jamais foi falada pelo povo, que eles supõem 
idealmente criada pelos escritores de sua predileção” .
Lembra o que dizia Ramalho Ortigão quando mencionava “a reles, 
a safada língua culta, entisicada pelas sensualidades solitárias da gra­
mática” .
No livro se destacam, aliás, as páginas iniciais sobre Códigos 
em geral e sobre a necessidade de uma codificação para o Brasil. 
Todo o livro, de resto, é um exemplo de cultura jurídica em termos 
teóricos e em termos técnicos.
— 73 —
Sua historia da Faculdade
Para as comemorações de 1927, relativas a o Centenário da Cria­
ção dos Cursos Jurídicos Brasileiros, Beviláqua preparou uma alen­
tada e exaustiva História da Faculdade de Direito do Recife.
Amadurecido pela idade e pela experiência, com passagem por 
todas as áreas que o professorado da Faculdade tinha cultivado (na­
quele período em que não havia formalmente universidades e todos 
os saberes das ciências do homem se tratavam nos cursos jurídicos); 
Bevilaqua pôde dar um balanço magistral, sereno e documentado da 
vida oficial e cultural da instituição. No segundo volume, trata, nos 
capítulos VII e V ili, da Escola de Tobias e de seus desdobramentos. 
Justamente haviam passado os decênios finais da Escola, e seus últi­
mos ecos haviam silenciado; somente uma ou outra manifestação podia 
ser vinculada à fonte do movimento. Ele, que fora do grupo, e que 
desde os vinte e tantos anos — na década de 80 — escrevera coisas 
de monismo e spencerismo, podia bem situar no tempo o perfil da 
Escola. Não o fez com maior brilho, que não era bem um filósofo 
e suas forças maiores estavam nos estudos de direito; mas deixou um 
depoimento válido.
A história da Faculdade é um monumento de afeto pela escola, 
pela instituição centenária, uma revisão dos nomes que passaram por 
ela e das agitações que a encheram de vida, um balanço otimista e 
animador, acentuando inclusive o significado da Faculdade para a 
evolução “mental” do Brasil.
§ 7 — Ainda Seguidores e Continuadores 
Gumersindo Ressa
Nascido no mesmo ano que Clóvis Beviláqua, sergipano como 
Tobias e Sílvio, Gumersindo Bessa (1859 1915) foi também represen­
tante típico do grupo central da E scola , na fornada dos seguidores. 
Constituiu em Sergipe uma espécie de vertente repatriada da Escola, 
reacendendo o culto por Tobias e participando da política local, embo­
ra de maneira precária. O grupo sergipano constava de Bessa, 
Oliveira Teles (jurista como ele), P rado Sampaio (ou Sampaio 
Leite), Fausto Cardoso, Samuel de O liv e ira e outros.
Um dos vínculos historigráficos e m relação a Tobias Barreto ficou 
sendo o seu depoimento sobre o c o n c u rso do mestre para a Faculdade 
do Recife, que presenciou quando estudiante.
— 74 —
Talvez Sílvio Rom ero ten h a toda razão ao dizer que o fato de 
se te r deixado ficar na pequenina Aracaju de sen tempo é q u e im pe­
d iu G um ersindo Bessa de o b te r uma nomeada m aior e mais b rilh a n te 
no país.
S em pre se cita, dentre seus trabalhos, o estudo in titu lado “Q ue 
e D ire ito ?”, editado como apêndice ao livro de Sílvio Romero, Ensaios 
de Filosofia do Direito. O estudo, datado de 1885, deve ter tido im por­
tân c ia inclusive d idática no currículo da Faculdade, porquan to , no 
ex em p la r do livro de que dispomos, que pertenceu a L iberalino C aval­
can ti e tem data de 1904, h á um a anotação a lápis, de le ito r antigo, 
dizendo: “Do ponto 15” .
Bessa cham ava o d ireito de “vínculo da sociedade hum ana, condi­
ção essencial doprogresso” . Repassando as sucessivas e p recárias 
defin ições armazenadas sobre o tema, vindo dos gregos até B en tham , 
S tu a r t M ill, Carie e Tobias Barreto, propõe enfim um conceito, que 
d iz ser fusão de Ihering , Savigny e Shopenhauer:
“É o to tal das m edidas, sugeridas pelo espírito de um a 
época, adotadas pelo caráter de um povo, e form uladas 
pelo Estado em regras coativas, fácil e inevitavelm ente 
exeqüíveis, para im pedir ou para re p a ra r os efeitos de toda 
afirm ação da v o n tad e humana, a que corresponda, ou um a 
negação da personalidade do agente, ou um sofrim ento 
imerecido de o u tre m ” .
Aliás, em passagem anterior do mesmo estudo, afirma curiosa­
mente que o Brasil
“não é terra de juristas. Não há energia moral no povo, 
não há cultura suficiente nas classes dirigentes, para que 
o direito se eleve à altura de uma coisa venerada e digna 
do culto nacional. Juizes, advogados, professores, todos 
os órgãos da vida jurídica nacional, são ganha-pães; pre­
ferem ser peitáveis a respeitáveis” .
Desmentido, de certo modo, à fama de país de juristas que temos, 
mas desmentido no sentido de exigência moral. E em parte eco, talvez, 
de suas leituras de Savigny e das observações do mestre alemão sobre 
o papel do jurista no processo histórico de cada povo.
Morto Bessa, imprimiu-se em 1916, em Aracaju, uma coletânea 
de escritos seus, com significativo prólogo assinado por Prado Sam-
— 75
paio. O título “Pela Imprensa e pelo foro’’, um volume de 235 pági­
nas. Após o frontispicio a pose aparatosa e bonachona do autor, 
re tra tad o com expressão olímpica e traje solene. O ensaio inicia- 
versa sobre Tobias Barreto. Começa dizendo que nenhum intelectual 
no B rasil teve os méritos tão contestados quanto Tobias Barreto, inclu­
sive o mérito da coerência. A propósito da coerência de Tobias, que 
se te ria reconciliado in extremis com a Igreja Católica, Bessa aduz as 
tendências místicas de Tobias. Para ele Tobias tinha sido no fundo 
um místico, com atração pelos lados positivos do catolicismo: a h ierar­
quia, a disciplina. Relata uma conversa pessoal, em que Tobias lhe 
haveria dito ser o ateismo uma tolice e uma form a de ignorância.
Acrescenta que o monismo do ilustre conterrâneo não era bem 
o de Haeckel, mecanicista, mas o de Noiré, mecânico-eticista; e que, 
por outro lado, Tobias jam ais renegara inteiram ente a metafísica.
P ara Bessa, Tobias não procurava nunca a celebridade; não cu l­
tivava a fama nem vivia preocupado em aparecer. Seu orgulho foi 
sempre arma de defesa. Neste estudo, um dos mais completos que 
na época surgiram sobre Tobias, se enfatiza a espantosa informação 
que Tobias conseguiu sobre as mais diversas temáticas de ciência 
social, com memória enorme e permanente senso crítico.
Muito representativo, no livro, é igualmente o discurso pronun­
ciado quando da inauguração da estátua do coestadano Fausto C ar­
doso, em Aracaju. Retrata o intelectual prejudicado pela politica­
gem local, o seguidor da Escola assassinado por sicários da mais 
lam entável forma.
Há também um estudo sobre Eduardo de Hartmann e sua “Filo­
sofia do Inconsciente” . Bessa, que foi interessado em Shopenhauer 
(vimos como o aproveita em sua definição do direito), se achava vol­
tado para o problema do inconsciente. Considerava, porém, artificial 
e fantasiosa a filosofia de Hartmann, que a seu ver desprezava os 
dados da experiência e da ciência positiva.
Muito curioso, na parte intitulada “Retalhos” (trechos de peque­
nos artigos), são as frases contra a gram ática e os gramáticos. A g ra ­
mática, diz Bessa, “é assassina, é parva, é ladra, é bêbada, é canalha. 
Fora com ela”. E mais: “o gramático é o animal menos sensato da 
criação” ; “gramática não ensina a escrever, como lógica não ensina 
a argumentar, nem mecânica ensina a nadar, nem fisiologia ensina a 
digerir” . E ainda: “Moços, odiai as gram áticas todas, se quereis che­
gar a escrever com acerto e graça a língua de vosso país” ; “a gramá-
tica é um túm ulo, um cenotáfio, um sarcófago” . “O gram ático quer 
descobrir regras onde só há hábitos”; “a gram ática nunca fez um só 
escritor to lerável” .
Fausto Cardoso
Detenham o-nos agora no também sergipano Fausto Cardoso (1864- 
1906). Morto cedo, assassinado no palácio do governo de sua terra 
aonde fora tra ta r de apaziguar facções, deixou pouca coisa publicada. 
Polígrafo como quase regra geral na Escola, praticou tam bém o jo rn a­
lismo e escreveu versos.
Projetou um a ampla obra de teoria naturalística do direito, com 
o título geral de Cosmos do Direito e da Moral, da qual ficaram duas 
partes, relativam ente pouco extensas: a Concepção monistica do uni­
verso (1894), publicada em São Paulo, e a Taxinomia Social (1898), 
publicada no Rio de Janeiro. Deixou ainda um discurso longo, sobre 
“A Lei e o A rb ítrio”, que publicou como Deputado em 1902.
Corresponde, Fausto Cardoso, ao haeckelismo ortodoxo e meca- 
nicista. Sua independência de atitudes pode ser vista quer na defesa 
do divórcio, que fez como deputado federal a propósito do projeto 
de Código Civil de Beviláqua, quer na posição, divergente de Tobias, 
que tomou, a respeito do monismo. Adotava o mecanicismo, embora 
mantendo perante o nome de Tobias a mesma veneração e a mesma 
exaltação. Influiu sobre Graça A ranha e sobre Almaquio Diniz.
A Taxinomia Social começa com uma citação de Tobias Barreto. 
Entretanto, logo alarga o seu naturalismo totalizador, dizendo:
“A história não é um fenômeno oposto à natureza, a mani­
festação de outra força, mas a mesma força que anima o 
universo inteiro revelada sob outro aspecto” .
Proclama então a validade de três princípios básicos: o princípio 
“darwínico” das lutas das espécies; a sobrevivência das formas desa­
parecidas; o princípio haeckeliano da “lei fundamental da biogenia, 
que apresenta a história de cada organismo como repetição sumária 
da história orgânica” .
Seu haeckelismo, portanto, embora realmente ortodoxo como sem­
pre dizem os expositores, não estava só: acompanhara-o a concepção 
darwiniana da lu ta pela vida e da sobrevivência dos mais aptos. 
Acreditava eloquentemente num transformismo social, processo básico 
na evolução do homem e das coisas históricas.
Algumas passagens, no livro, revelam todavia um pensador argu 
to, que infelizm ente — diga-se en passant — não teve condições dí 
apurar suas bases nem construir pacientem ente suas próprias idéias. 
A passagem, por exemplo, em que descreve o crim e como coisa posi­
tiva, criador do progresso e da civilização, criador da história: ums 
enorme rede de coações veio, por causa do crime, perfazendo o qu€ 
chamamos de “ordem ” e de “liberdade” . Outra passagem interessan­
te é aquela em que afirma que toda idéia grande passa por três está­
gios fatais: utopia, revolta e instituição. Este esquema, a seu mode 
dialético, encadeia as instituições com novas utopias, e estas desen­
cadeiam novo processo, sucessivamente.
Escritor expressivo, perguntão exigente, expositor mais sugestivo 
de que claro, Fausto Cardoso teria dado algo de realm ente mais sério, 
se o destino lhe tivesse deixado chance de remoer melhor seus pen­
samentos. Sua crítica a Comte e a Spencer, incluída na Taxinomia, 
é uma demonstração de liberdade e insatisfação intelectuais, e de 
capacidade analítica.
Sobre a “Concepção Monistica do universo”, Souza Bandeira (outro 
nome vinculado à Escola do Recife) deixou, no seu livro Estudos e 
Ensaios, de 1904, uma valiosa apreciação. Situação do monismo no 
Brasil com referência à “revolução” levada a cabo por Tobias Barreto 
em Pernambuco, Souza Bandeira lamentava a indiferença do público 
ledor brasileiro para com todo movimento filosófico que não o positi­
vismo. E a isso atribuía o silêncio reinante em torno do livro de 
Fausto Cardoso e de sua tentativa de haeckelianismo social:“Discípulo de Tobias (diz Souza Bandeira), o doutor 
Fausto Cardoso pertencente ao número dos que ouviram a 
palavra do grande mestre, graças à qual pôde fam ilia­
rizar-se com as doutrinas modernas” .
“Conservou prém (acrescenta) o doutor Fausto Cardoso 
toda a independência e originalidade de seu belo talento, 
e continuando a aprofundar sozinho o estudo das teorias 
em que fora iniciado, ostenta-se com a envergadura de um 
espírito fortemente culto e extremamente ousado” .
Na realidade, mais ousado de que culto, até porque muito ousado 
mesmo. Certo ou falhado, foi o seu um dos esforços doutrinários pes­
soais mais peculiares e mais inconfundíveis dentro do m ovim ento.
Samuel de Oliveira
— 78 —
Dos serg ipanos, devemos m encionar ainda Sam uel d e Oliveira 
(1868—?) e Sam paio Leite, ou P rado Sampaio.
Sam uel de O liveira cursou no Rio a Escola M ilitar, dedicou-se ao 
m agistério e à engenharia c iv il. Infelizm ente, não parecem ter-se 
conservado os trabalhos de in tenção filosófica que escreveu . Tem-se 
notícia de um liv ro seu de 1901, Concepção da Filosofia, de índole 
spenceriana, apoiando-se num evolucionism o vago . E screveu também, 
ao que consta, o u tro com o nom e de Bases de uma Filosofia, no qual, 
segundo testem unho do au to r (recolhido por A ntônio Paim ), te ria 
superado in te iram en te as posições do an terio r. Publicou ainda um as 
“C artas filosóficas ao doutor Sílvio Romero”, na im prensa, em 1901, 
e um artigo , “K antism o no B ras il”, na Revista A m ericana, em 1910.
Prado Sampaio
P rado Sam paio (Joaquim do P rado de Sam paio L eite , 1865-1028) 
exerceu a função de juiz, em Sergipe inicialm ente e em Pernam buco 
depois, publicou em 1908 um estudo sobre Tobias, e vários trabalhos 
sobre li te ra tu ra e filosofia, inclu indo colaboração de im prensa.
Sobre P rado Sampaio in fe lizm en te escasseiam certas inform ações, 
não obstan te te r sido um a fig u ra in teressante naqueles moldes de sua 
geração . D eixou, como obra principal, Ensaios de Lógica (A racaju, 
T ipografia do Estado de S erg ipe, 1907), no q u a l se estam pava um 
apêndice sobre “Os nossos filósofos” . Este tex to foi republicado, na 
R evista B rasile ira de Filosofia (voi. XVII, fascículo 67) pelo professor 
Luís W ashing ton Vita, que o considerou “a p rim e ira explicação da 
filosofia da Escola do R ecife” . Form ou-se em d ire ito no Recife p re ­
c isam en te no ano do falecim ento de Tobias, chegando a inda, porém, a 
te r con tacto com o fascínio do m estre . Fez tam bém poesia, como 
tan tos da Escola, e chegou a te n ta r a ficção.
No texto mencionado (“Os nossos filósofos”), Prado Sampaio como 
que complementa a revisão feita muito antes por Sílvio Romero, da 
qual realmente parte. Para Prado Sampaio, deve-se a Tobias a valo­
rização de Kant, pois o mestre teria mostrado que, em vez de causa 
de extravio (que era o que pensava um Balmes, por exemplo), Kant 
tinha sido fonte de Strauss, Renan, Vacherot, Fichte, Hartmann, Noiré.
Prado fez ainda o levantamento, sumário mas inteligente, de outras 
correntes de pensamento nacional até Estelita Tapajós e Farias Brito.
Tobias tinha sido, segundo ele, não apenas um reator como tam ­
bém um propagandista, demolidor de equívocos, “espirito privilegia­
do” e “ensaísta ao gosto inglés” . De Tobias, partia então para o 
exame panorâmico do pensamento do grupo que se lhe filiou, incluin­
do M artins Júnior, Almaquio Diniz e Laurindo Leão. O ensaio te r­
mina com uma vasta louvação a Sílvio Romero.
P rado Sampaio deixou, no número inicial da Revista Brasileira 
de Sociologia, um artigo sobre “A filosofia e a arte”, bem como um 
prólogo — já mencionado — à coletânea dos escritos de Gumersindo 
Bessa. Neste Prólogo, a figura de Bessa é relacionada com o movi­
mento provindo de Tobias, aquele “extraordinário movimento demo­
lidor e reconstrutor” que teve por marco definitivo o concurso do ser­
gipano para a Faculdade. Tal concurso teria aberto “uma nova era 
no evolver intelectual do pensamento brasileiro” .
Tito Livio de Castro
Uma das maiores promessas intelectuais do grupo, só muito p a r­
cialmente realizada, embora muito bem no que o tempo lhe perm itiu, 
foi Tito Livio de Castro (1864-1890), que deixou três livros: A Mulher 
e a sociogenia (1887), editado no Rio postum am ente em 1894; Aliena­
ções e ilusões, tese de doutoramento em medicina (1889); Questões e 
problemas (coletânea de artigos escritos entre 1881 e 1890), publicado 
em São Paulo em 1913.
Sílvio Romero, prefaciando devotadamente seu A Mulher e a 
sociogenia, chama-o sem rebuços de “jovem sábio de vinte e seis anos”.
Mulato, foi criança enjeitada, criado por um português, Manoel da 
Costa Pais, que aliás dirigiu paternalm ente a publicação das suas 
obras. Pôde, por esta proteção, estudar e desenvolver-se, se bem 
que, morrendo brutalm ente cedo, não tenha dado o que se esperaria 
de seu talento extraordinària e de sua formação incomum. Teve d ifi­
culdades por causa da cor (é Sílvio Romero quem o rela ta), como 
aliás Tobias as tivera. Diz Sílvio Romero:
“Ele não foi desses que aprendem diante do público, p en ' 
sando em voz alta. Quando tomou da pena, dos vinte aos 
vinte e seis anos, já se nos apresentou imensamente culto, 
e firmado em suas idéias fundam entais” .
Concentrado totalm ente em seus estudos, Tito Livio de Castro rea l­
mente construiu, para o tempo e para os seus poucos anos, urna for-
— 80 —
m ação científica excepcional. Sílvio R om ero atesta que, q u an d o o 
v isitava, encontrava-o atufado en tre os liv ro s , seletos de psicologia, 
h istória, economia, antropologia, medicina, psiqu ia tria , filosofia, poesia. 
M orreu tuberculoso.
Tito Livio de C astro sofreu funda in fluência do evolucionism o e 
do transform ism o (Sílvio o diazia “um tran sfo rm ista enrage, u m d a r­
w in ista rad ical” ), mas tam bém se in te resso u profundam ente pela 
psicologia associonista do século XIX, por M ill, H uxley e o u tro s .
A lém do in teresse pela biologia geral e social, teve Livio de C as­
tro preocupações bastan te atiladas em re lação à lite ra tu ra b rasile ira , 
preconizando, p ara sua compreensão, o pon to de vista n a tu ra lis ta , ou 
seja, como se dizia então, a “intuição” do naturalism o, e do evo lu ­
cionism o. Preocupou-se em en tender o p a ís e basicam ente com as 
questões de instrução e educação.
Seu livro m aior, A Mulher e a sociologia, pode ser considerado, 
a nosso ver, um a das m aiores produções d a vida in telectual b ra s i­
le ira no século passado. Bem escrito, com um estilo m uito su p erio r 
ao da m aioria dos grandes da Escola do R ecife, o livro é claro, seguro , 
refle tido e bem es tru tu ra d o . Se tem equívocos, se tem partipris pelo 
biologismo, são traços de seu tempo e de seu meio.
Pretendia ele que o seu livro fosse
“uma pequena contribuição para o engrandecimento da 
consciência como fator da evolução humana” .
•
Seu problema central era situar a posição social da mulher e seu 
papel como “fator sociogênico”. O ponto de vista científico lhe pare­
cia inarredável. Recorre então ao que os livros do tempo ensinavam 
sobre crânios femininos, medula, fisiologia diferencial, comparações 
arqueológicas etc. A inferioridade craniana das mulheres, coisa pro­
vada, se compensaria com a presença, nelas, de mais medula, e isso 
lhe parecia a compensação essencial. Certas ingenuidades, que hoje 
ressaltam, se acham em seu texto pagas pelo excelente estilo e pela 
tocante e exemplar severidade científica que a cada passo revela.
O importante no livro, porém, não são as investigações morfoló­
gicas, extensas e precárias, e sim o intento generoso e clarividente de 
promover a reabilitação social das mulheres, sua emancipação quase. 
Assim como, e muitoespecialmente, a ênfase que dá ao problema da 
educação feminina, prevendo problemas sociais, sugerindo reformas
— 81 —
pioneiras e vendo com olho arguto certos problemas sociais brasilei­
ro s . Para Castro, haveria um “interesse da espécie na educação da 
m ulher” (inclusive p o r causa da validade da Lei de Haeckel segundo 
a qual a filogênese se reflete na ontogênese); para o Brasil, era tempo 
de superar velhos m ales por meio de reform as pedagógicas que fos­
sem reformas de hábitos e de m entalidade. O uso de estatísticas e 
de quadros demonstrativos, com pesquisas sérias e anotações cuida­
dosas, dá ademais ao extraordinário livro um valor de antecipação 
au tên tica.
§ 8 — Outros seguidores e outros continuadores
Observação digressional
Não podemos, obviamente, incluir como “discípulos”, ou como inte­
grantes da Escola do Recife, mesmo na faixa dos seguidores e conti­
nuadores, a cada escritor que de alguma m aneira tenha elogiado Tobias 
Barreto, ou tenha concordado com alguma idéia de Sílvio Romero. 
É verdade que um dos elementos internos da Escola foi a convergência 
do apego a Tobias, a referência constante de seus componentes à obra 
de Tobias: encontramos isto em Bessa, como em Martins, como em 
A rtu r Orlando. Entretanto, muitos autores daquelas décadas (as últim as 
do oitocentos e as duas primeiras, a prim eira ao menos, do novecentos), 
muitos autores chegaram a tratar de Tobias sem ser do grupo; ou ado­
taram problemas que vinham de Tobias, ou tiveram modos intelectuais 
que eram da Escola por serem do tem po — não mais. Topamos assim 
repetidamente com a dificuldade de definir posições: as dos que foram 
efetivamente e intencionalmente filiados ao movimento, e as daqueles 
que o panorama apanha por estarem na época, e que apenas se acham 
relacionados (às vezes até em polêmica e antagonismo) com a Esscola. 
A confusão se faz possível, sobretudo, quando se tra ta de seguidores 
e continuadores de menor porte, ou então de figuras cuja biografia se 
adentra pelo século XX e se banha de outras luzes.
Estamos tentando situar os filiados restantes, aqueles que efe tiva­
mente se alinharam nas crenças dou trinárias e temáticas do grupo. 
Tentaremos depois indicar os que, de certa forma, são mais relaciona­
dos que filiados, os francamente dissidentes, os que se ligaram ao grupo 
como um guelfo de Florença estava ligado a um gibelino: por te rem 
vivido o mesmo pedaço da história.
E retornemos aos nossos personagens.
Faelante da Câmara
Francisco Faelante da Câmara Lima (1862-1909), recifense, foi dos 
igados a Tobias desde sua formação básica. Form ado em 1885, culti- 
ou a poesia e o jornalismo, praticou política, ensinou direito penal 
La Faculdade a partir de 1891. Deixou um estudo inacabado sobre o 
luelo e outro sobre o infanticidio (que tiveram certa repercussão); 
[rande parte de sua fama, ao menos nos meios universitários, lhe 
reio porém da célebre Memória Histórica que publicou em 1904, na 
‘Revista Acadêmica” da Faculdade de Direito, relativa ao ano de 1903.
Foi, no dizer de Machado Neto, “o primeiro cronista da escola”, 
.‘azendo um retrospecto realmente sugestivo da trajetó ria da faculdade 
? de sua vida docente e discente.
A ristocrata por nascimento, recusou entretanto adesão ao credo 
individualista de Spencer; recusou também (segundo o professor Eve- 
rardo Luna no estudo comemorativo que lhe dedica no volume LXIII 
da Revista Acadêmica) o credo anti-socialista radical de Garofalo; recu ­
sou finalm ente o marxismo e tendeu ao que na Alemanha se chamou 
“socialismo de cátedra” .
Sua vivacidade intelectual, um pouco diletante é certo, não lhe 
perm itindo fixar-se fecundamente num tema ou num a doutrina, deu- 
lhe certo destaque entre seus contemporâneos, tendo sido orador feste­
jado, um orador parnasiano como os de seu tempo, mas inteligente e 
eficaz.
Seu estudo sobre Tobias, do qual a Revista Acadêmica publicou 
parte, o vincula à Escola, embora não o retivessem maiormente as 
funduras filosóficas, nem indagações científicas mais áridas.
Virgílio Sá Pereira
Jurista , professor da Faculdade, Virgílio de Sá Pereira escreveu 
também sobre Tobias (que era como ir à Caaba nas iniciações e pere­
grinações do grupo). Chegou a redigir um projeto de Código Penal 
e deixou vários escritos espalhados em revistas.
Souza Bandeira
João Carneiro de Souza Bandeira, recifense (1865-1917), irmão de 
Herculano Bandeira, foi desde os anos de estudante fervoroso adepto 
de Tobias Barreto. Vida agitada teve, ensinou no Rio, entrou para
— 83 —
a Academia Brasileira de Letras (onde sucedia a M artins Júnior e 
foi recebido por Graça Aranha, tudo gente ligada ao g ru p o ) . Deixou 
várias obras, como: Estudos e Ensaios (1904), Reformas (1909), Pere­
grinações (1910), Páginas Literárias (1917) e ou tras. Coletou influên­
cias diversas, e preocupou-se intensamente com a política e com os 
sempre chamados males do país.
Um estudo de 1882, ano em que estudava ainda o segundo ano 
de direito, trata de monismo. Para o jovem de então, o monismo 
respondia à necessidade de um sistema que, à a ltu ra do século, supe­
rasse o materialismo estreito e insuficiente de Moleschott e Vogt. 
Referia-se à Germania Mater como fonte do saber novo e das novas 
verdades e destacava o “papel do transformismo na filosofia monistica”. 
Noutro estudo, glosando o livro de Clóvis sobre o positivismo no Brasil, 
adotou um ponto de vista conciliadr, que não pretendia contudo con­
fundir-se com o ecletismo “superficial” de Cousin, nem com a identi­
ficação dos opostos de Schelling; preferia aparentar-se à idéia de 
Fouillée, de que os sistemas se completam, se unem e não são neces­
sariam ente antagônicos. Neste ensaio, ainda sobrepunha o monismo ao 
positivismo.
Incluiu-se, como este, nos Estudos e Ensaios, num artigo sobre 
Tobias Barreto, que escreveu como comentário aos “Estudos de Direito” 
do mestre, e que trazia como epígrafe a famosa expressão de Dante:
“Tu duca, tu signore, tu maestro” .
Cabe anotar que Souza Bandeira escrevia realm ente bem (coisa 
pouco frequente entre os da Escola) e este ensaio sobre o mestre ser­
gipano vem de fato muito bem redigido. Evocando os ardores dos 
estudantes recifenses de seu tempo, comenta:
“Quem estivesse em contacto com a nossa mocidade de 
uns dez anos a esta parte, e observasse a legião que pare­
cia então form ar-se dos conquistadores do futuro, certo 
acreditaria que a sorte do país m udaria imensamente 
quando aquela rapaziada valente e talentosa, cheia de fé, 
e entusiasmo, chegasse a tom ar o lugar que lhe competia 
entre as classes dirigentes do Brasil” .
Mas, lamentava, a política bastarda vinha corroendo as idéias, e 
em lugar de intelectuais tínhamos no poder aventureiros. Daí a impor­
tância de voltar a cada passo ao culto a Tobias Barreto, figura da
— 84 —
m aior relevância como exem plo e fonte de ensinam entos. P ortan to , 
Souza Bandeira achava necessário conservar a unidade da Escola como 
form a de salvar o país da politicagem e d a decadência in te lec tual.
Por outro lado, se aceitava o Tobias filósofo e o Tobias ju rista , 
acom panhando-o inclusive na crítica ao d ire ito natural, não concorda­
va com sua atitude negativa diante da sociologia. P a ra Souza B an­
deira, a sociologia era inegavelm ente uma realidade científica e uma 
necessidade, contra a qual era im profícuo opor, como Tobias fizera, o 
monismo de Ludw ig N oiré.
Aprígio Guimarães
Aprígio Justin iano da Silva G uim arães, nascido no Recife em 1832 
(e portanto sete anos an tes de Tobias B a rre to ), pode se r relacionado 
à “Escola do R ecife” por certos traços de sua form ação in telectual e 
por certos contactos de seu m agistério, na Faculdade, com as ag ita ­
ções prom ovidas pelo grupo de T obias.
Deixou vários traba lhos escritos, inclusive algunsde econom ia, 
peças teatrais e ou tras coisas.
C om entarem os aqui, de preferência, um a sua Miscelânia Filosófica 
e Sociológica (publicação póstuma, 1889, R ec ife ). Logo de início, fo r­
m ulava a observação de que em A ugusto Comte “há m uito joio a 
sep ara r do trig o ” , e que a sua classificação das ciências é inaceitável, 
pois as ciências são organismos e não evoluem na ordem “se riá r ia ” 
que Comte d escrev ia . E ntretan to , falando da sociologia, que adm itia 
eomo ciência conexa à biologia, fazia esta afirm ação, q u e nos repõe 
na classificação com tista:
“O ser hum ano é ao m esm o tem po o problem a fina l da 
b iologia e o fato inicial da sociologia” .
Aceitava, com Spencer, a regra geral da passagem do homogêneo 
para o heterogêneo, bem como sua aplicação no entendimento das 
mudanças da sociedade. Também tirava de Spencer aquele vago res­
peito pelo “incognoscível”, chegando a dizer que não existe incompa­
tibilidade entre religião e ciência, pois que da ciência resulta, para 
a crença religiosa, uma base mais firme.
Quanto aos problemas sociais, por conta de cujo estudo se tornou 
um pioneiro de nossa ciência econômica, sua posição foi firmemente 
liberalista. Critica, neste sentido, o saint-sinonismo, pelo desconheci-
— 85 —
mento da liberdade, que diz ser o meio principal de revelação das 
individualidades e das capacidades.
Num célebre Discurso de Aprígio Guimarães, proferido quando do 
doutoramento de alguns professores da Faculdade do Recife (entre os 
quais José Hygino), e publicado em 1889, encontramos o mesmo credo 
liberal e meio spenceriano:
“Sim, o meu princípio primário é o homem, com sua 
natureza simultaneamente individual e social, sempre 
autônomo e sempre livre: a face individual — o concreto 
— dominando a face social — o abstrato —: o fim domi­
nando o meio, a mão dominando o instrumento: a socie­
dade para o homem e não o homem para a sociedade” .
No mesmo discurso, novamente o problema da sociologia, vista 
como interligada com a biologia, independente porém desta, e cui­
dando das “leis” da evolução social do homem.
Artur Guimarães
Artur Guimarães, amigo particular de Sílvio Romero, sobre o qual 
deixou o famoso livro-depoimento Sílvio Romero de Perfil (continuado 
ou completado de alguma forma pelo filho Argeu Guimarães, no livro 
Presença de Sílvio Romero), publicou alguns trabalhos significativos, 
dentre os quais o ensaio Problemas Brasileiros, que se republicou em 
Lisboa, em 1912, em conjunto com o ensaio de Sílvio Romero “O 
Brasil na primeira década do século XX”, com o título global de “Estu­
dos Sociais” . Trata-se de uma análise econômica dos problemas do 
país, abrangendo problemas financeiros, agrícolas etc.
Amigo devotado, deixou interessante correspondência pessoal com 
Sílvio Romero, publicada no “Sílvio Romero de perfil” e divulgada 
no livro de Sílvio Rabello sobre o autor de “Doutrina contra Doutrina”.
§ 9 — Outras figuras
Passemos a outras figuras que, de alguma forma ou em alguma 
medida, se enlaçaram ao movimento chamado Escola do Recife.
Laurindo Leão
Nascido em 1857, formado em direito em 1880, Laurindo Carneiro 
Leão não chegou a ser aluno de Tobias Barreto. Teve fracassos em 
concursos, e, depois da república, ascendeu ao magistério na Facul­
dade. Ensinou filosofia do direito durante muito tempo.
Laurindo Leão não foi propriamente membro da Escola do Recife.
— 86 —
.dotou uma filosofia fenomenista que não se coadumava com o monis- 
10 de Tobias. Entra como participante do meio e da época.
O professor Machado Neto considera que a defesa da metafísica, 
•or Laurindo Leão, o vinculava à Escola do Recife, já que Tobias 
ambém se recusara a repudiar a metafísica. Entretanto o flerte de 
Tobias com a metafísica não foi algo bastante definido, e de resto 
nuitos componentes importantes da Escola foram rasgadamente anti- 
netafísicos.
A tradição acadêmica retrata-o de roupa preta e chapéu coco, 
iistraído e bonachão; ou então enfurnado entre os livros, na Biblio- 
;eca da Faculdade.
Os livros propriamente que deixou, apesar de escrever bastante, 
foram os Estudos de Filosofia do Direito (só a primeira parte, intitu­
lada “Introdução ao Estudo das Ciências do Direito” ), editados no 
Recife em 1904, e a História da Filosofia, em dois volumes, editada 
no Rio. O resto de sua produção se acha esparramada por números 
da Revista Acadêmica da Faculdade.
Cheio do psicologismo difuso de Wundt, e também empapado de 
leituras nos psicólogos da escola de Bain, mais Spencer, Hamilton, 
Mili, e todo o time do oitocentos, tentou Laurindo Leão uma síntese 
onde entrava ainda um tanto de Kant. No livro de filosofia do direi­
to, diz “Ao leitor” que escolheu para sua exposição “o método didá­
tico, lacônico, comparado e histórico” .
Na verdade seu didatismo é duvidoso e seu laconismo precário. 
Repete-se, e volta aos problemas, como quem escreve sem plano nem 
esquema. E escreve sem encanto. Valeu, todavia, seu esforço como 
esforço de pensamento pessoal, com afinco e tenacidade, como o de 
quem tenta realmente dilucidar as questões. Na História da Filosofia, 
teve a feliz idéia de mencionar e estudar os pensadores brasileiros 
dentro de cada grande época ou escola (coisa que recentemente faria 
também Luiz Washington Vita), em vez de atirá-los para uma “outra” 
história contada no fim da primeira, como se faz em geral desde 
Leonel Franca.
Euclides da Cunha
Para Luís Washington Vita, Euclides da Cunha (1866-1909) per­
tenceu “de certo modo” à Escola do Recife. Pareceu ao grande histo-
—* 87 —
riador de idéias que o estupendo épico de Canudos, por sua atitude 
intelectual, foi parente dos do grupo.
Influenciado por Comte, e também por Spencer, incisivo mas 
nunca ortodoxo, antimetafísico convicto, comprometido com os proble- 
mas urgentes do país e cheio de consciência angustiada por eles, 
Euclides foi sem dúvida uma das m ais poderosas figuras da vida 
intelectual brasileira de sua geração. Terá sido, em relação à Escola, 
talvez, um aliado longínquo e involuntário.
Koseritz
Karl von Koseritz, amigo pessoal de Sílvio Romero (a quem este 
dedicou “A Filosofia no Brasil”, editado justamente por Koseritz em 
Porto Alegre), deixou um livro sobre nosso país, Bilder aus Brasilien 
— Imagens do Brasil. Nascido em 1830, veio para o Brasil com 21 
anos e teve várias interferências em debates culturais no Sul do país, 
atuando na im prensa. Maçon e irrequieto, criou em 1886 um jornal 
“O Combate” em Porto Alegre, que anunciava a colaboração de alguns 
dos maiores nomes das letras nacionais, inclusive Tobias Barreto e 
me combatividade polêmica. Vibrando com o germanismo bibliográ- 
Sílvio Romero. Aliou uma larga curiosidade intelectual a uma enor- 
fico da Escola do Recife, combateu o domínio francês (então ainda 
inabalado) sobre o espírito brasileiro. No fundo, Koseritz foi sobre­
tudo um político, e, como disse O beraker em estudo sobre sua figura, 
suas atitudes intelectuais decorreram sempre de sua posição política.
Samuel Martins
A influência avassaladora de Tobias Barreto aparece também num 
pequeno livro de Samuel M artins, Subsídios para a Moderna Ciência 
do Direito, editado em 1895 em Pernam buco, pelo “Pantheon das
Artes” .
A prim eira frase do livro é de Tobias, sendo o de Ihering o segun­
do nome próprio mencionado. No meio de muito palavreado confuso, 
se destaca a definição do direito, tirada de Tobias Barreto (“ilu stra ­
do e decidido propagador da Escola A lem ã” ). O direito para ele seria 
“a força organizada pelo tempo e acum ulada pelas gerações” . Ao es tu ­
do sobre o que é o direito, segue-se um a segunda parte chamade 
“Folhas Soltas”, e aqui temos um estudo sobre a pena (dita pelo autoi
— 88 —
emento estático e não dinâmico na sociedade), outro sobre o Estado, 
itro sobre a propriedade e outrosobre sugestão e hipnotismo.
Souza Pinto
Em seus Estudos Sociais e Jurídicos, editados no Recife em 1899, 
ouza Pinto diz “Ao leitor” que seus estudos se prendem “à admirá- 
b\ e imorredoura doutrina de Augusto Comte” . No segundo opus- 
ilo dos Estudos (1906), e no terceiro, a fixação por Comte continua 
rme e endeusadora. Foi, no Recife de então, um discípulo devota- 
o e, ao que parece, imune às tentações doutrinárias da Escola de 
obias.
Joaquim Pimenta
Um autor que talvez se possa relacionar à Escola foi o professor 
earense Joaquim Pimenta, que em 1915 publicava no Recife a Cosmo­
gonia do Direito Romano, baseando-se em Ihering e falando numa 
continuidade genética na evolução do mundo social” . Com algumas 
itações de Letourneau, Sumner Maine e Comte, seu trabalho revelava 
dnda característica do século XIX. No mesmo ano, editara, como 
ese para a Faculdade, os Ensaios de Sociologia e Direito. Um dos 
msaios versava justamente sobre o “darwinismo na sociologia”. Toma­
da como verdades assentes as leis de Darwin e Spencer sobre a sele- 
;ão natural e a sobrevivência dos mais aptos, fazia a crítica do orga- 
lismo, considerava como regra universal a luta pela existência. Mas 
ichava que, além da luta, a simpatia, o altruísmo e a justiça também 
pesam na formação e transformação das sociedades.
Araripe Júnior
O grande crítico cearense, ligado a Clóvis Beviláqua e a Capis­
trano de Abreu, também tem seu nome ligado episodicamente à Escola, 
já pelos debates que sustentou contra Sílvio Romero, já pela própria 
impregnação pela ambiência de idéias que vigoravam no Nordeste e 
de algum modo o tocaram.
José Higino
José Hygino Duarte Pereira (1847-1901), professor na Faculdade 
desde 1876, foi deputado à constituinte Republicana, jurista e estu­
dioso do Brasil holandês. Positivista de início, posteriormente evo­
lucionista, foi combatido duramente por Tobias e Sílvio, por conta 
da luta anti-positivista que travavam. Entre os alunos, José Hyginb,
89
difundia e defendia as teorias de Spencer, enquanto Tobias Barreto 
as atacava. Discutiu com Tobias, também, a respeito do problema 
do “sel-government” e das idéias de Gneist e de Lorenz Von Stein, 
em polêmica conduzida por Tobias com acritude pessoal e descortesia.
José Higino traduziu o famoso Tratado do Direito penai de Von 
Liszt, deixou umas Lições de Direito Natural e outras Lições de direito
administrativo, além de teses, artigos e pareceres.
João Vieira
João Vieira de Araújo (1844-1922), partidário do spencerismo e 
da variante evolucionista de Ardigó, foi também influenciado por 
Letourneau e Bagehot, e pelos criminalistas italianos da Escola Posi­
tiva (Ferri, Garofalo, Lombroso). Foi especialista em direito crimi­
nal, sendo considerado como um dos grandes crim inalistas brasileiros 
do século passado. Teve relevante atuação na Faculdade de Direito, 
apesar de, como professor (di-lo Beviláqua), fa lta r-lhe clareza expo­
sitiva .
Augusto Franco
Ramificação mineira da Escola, representou-a Augusto Franco 
(1876-1906), morto lam entavelm ente aos trin ta anos. Ligado a Sílvio 
Romero, prefaciou o livro deste, Passe Recibo. Sua vinculação à escola 
é afirm ada por Eduardo Frieiro e confirmada por Antônio Paim . 
Deixou uns Fragmentos literários (1904) e uns Estudos e escritos 
(1906).
Os Estudos e Escritos trazem por sub-título “Esboços e crônicas” 
e vêm dedicados, entre outros, a A rtur G uim arães. Nas “Observações 
Necessárias”, que abrem o volum e, menciona a nossa amada e querida 
Alemanha.
Para Franco, o direito, a lite ra tu ra , a história, a filosofia, a polí­
tica etc., eram os “múltiplos desdobram entos” da sociologia (Ensaios 
e Escritos, pág. 206). Um tan to desarrum ada, e acutilada de vez 
em quando por citações em alem ão, sua explanação poderia ser m ais 
clara, se mais tempo tivesse tido para am adurecer. A sociedade, p a ra 
ele, era um organismo (o ensaio IX se dedica justamente à “origem , 
elementos, estrutura e evolução da sociedade — concepção m ecânica 
e orgânica” ), mas, no desenvolvim ento desta idéia, entressurgem Mohl, 
Haeckel, Darwin, Duguit, sem fa la r de Spencer e Comte.
— 90 —
O ensaio XI tra ta de A rtur Orlando, que teve como am igo pes­
soal (a expressão era : “dous notáveis trabalhos do festejado e erudito 
escritor do norte” ) . O ensaio XIII constitui um ataque a José Verís­
simo, que criticara Tobias Barreto (a quem, segundo Franco, não 
podia Veríssimo ju lgar, por absoluta incapacidade in telectual), um 
ataque violento e virulento.
Almáquio Diniz
Na ramificação baiana da Escola, encontramos nomes como os de 
Leovigildo Filgueiras (spencerista) e de Almáquio Diniz. Professor 
em Salvador, escrevendo sobre vários assuntos e com uma abundân­
cia impressionante, Almáquio foi civilista, filósofo do direito, soció­
logo e tudo o m ais.
Basicamente, foi sempre evolucionista, ligando-se em grande parte 
ao haeckelismo como Fausto Cardoso. Sua vinculação ao monismo 
é que, precisamente, o relaciona à Escola do Recife. Aliás divergiu 
de Haeckel apenas ao recusar-lhe a difusa religiosidade, chegando 
sua atitude contra-religiosa a escrever um romance ousado com o 
títu lo de “A carne de Jesus”, que aliás foi anunciado pelo au to r com 
o curioso destaque do fato de ter sido excomungado pelo Arcebispo 
da Bahia.
Escreveu muito sobre teoria do direito, e nos últimos tempos 
mostrou bastante interesse pelo socialismo e pelas experiências sovié­
ticas.
Aníbal Falcão
Poderíamos citar ainda Aníbal Falcão, ligado aos acontecimentos 
da implantação da República, amigo de Martins Júnior e influenciado 
pelo positivismo. Seu livro Fórmula da Civilização Brasileira (1883) 
trazia uma interessante visão da problemática racial brasileira, com 
um ponto de vista abolicionista lúcido e certa independência crítica.
2 — Setores cultivados pela Escola
Dispersão ou enciclopedismo?
Por suas intenções teóricas, e pelo padrão intelectual vigente entre 
seus integrantes, a Escola do Recife foi onímoda. Os escritores daquele 
tempo, em maioria, eram “talentos polimorfos”, ou “polifacéticos”,
— 91 —
eram polígrafos: geralmente escreviam de literatura, cuidavam de 
filosofia, discutiam sociologia. Sem falar do direito, já que quase 
todos eram bacharéis.
Não basta dizer isso, porém . As discussões filosóficas envolviam, 
ora crítica de religião, ora problemas de cosmologia e portanto de 
ciência física; os estudos literários se montavam sobre considerações 
antropológicas, etnográficas e de comparação. Os estudos jurídicos 
implicavam frequentemente teoria política, e a sociologia significou, 
por um lado, interesse pela biologia e pela história no mais largo 
sentido, e pelo outro lado projeções sobre economia, doutrinas sociais, 
problemas financeiros, demográficos, higiênicos.
De outra forma, o alcance enciclopédico dos interesses e dos conhe­
cimentos esteve mais ou menos proporcionado .à grandeza das figuras. 
Sílvio Romero foi dos mais espalhados e Tobias, possivelmente, mais 
ainda. Mas mesmo os menores, ou os que menos escreviam e inclu­
sive os que m orreram jovens, m ostraram aquela dispersão, estranha 
e desfavarável sob certo prisma, mas, de outro ângulo, explicável e 
até natural diante do ambiente vivido e respirado por eles, naquele 
Brasil ainda mal formado, em fase de colonialismo m ental ainda 
patente, e carente de universidades.
Na verdade, na Europa também vigorava a dispersão: alguns dos 
sábios (palavra que chegou a baratear-se pelo uso, naqueles tempos) 
que os da Escola invocavam com unção e euforia, tanto falavam de 
pedagogia e lógica, como de biologia e política: foi o caso de Spencer, 
como de Mili, por exemplo.
Se a atitude intelectual dos discípulos de Tobias era por vezes 
comparável à dos ilustrados do século XVIII pela valorização do inte­
lecto, pelo sapere aude epela idéia de civilização (o que nos chama, 
mas só em parte, às teses de Roque Spencer Maciel de Barros em seu 
livro A Ilustração Brasileira e a Idéia de Universidade), tam bém pode 
ser comparada à dos contemporâneos de Rousseau pelo ca rá te r “enci­
clopedista” do movimento. Ninguém no grupo se contentava (salvo 
exceções) em ser só jurista ou apenas filósofo: era-se filósofo para ser 
crítico, era-se sociólogo por ser filósofo, era-se ju rista falando de 
evolução.
Temas de religião
Assim como Spinoza tinha visto e tinha feito, a crítica da religião 
servia como passo inicial de toda crítica de idéias. E isto viram e 
fizeram também um Feuerbach, um Strauss, um M arx m esm o.
— 92 —
Pois Tobias começou escrevendo sobre religião e teologia. Não 
talve-z por método, por achar que a análise das crenças deve antece­
d er à das idéias ou coisa parecida, mas por te r tido logo cedo a moti­
vação polêmica para tanto: atacar as posições teológicas era atacar 
as posições assentes. Foi o que fez realm ente Tobias, em sua 
ráp ida passagem pelo positivismo, aceitando como “lei”, a supe­
ração da forma teológica de pensar. Mas quando, passada sua 
fase positivista (que se mudaria depois num antipositivismo cnragé), 
abraçou o monismo, algum interesse pela religião seguiu tendo, e, 
como alguém já disse, a porção de religiosidade que o monismo pos- 
su ia deve ter ajudado Tobias a aceitá-lo, já que Tobias, repelindo as 
religiões assentes e os credos oficiais, manteve toda a vida algumas 
tendências místicas, guardadas e atuantes.
Paim observa que Tobias Barreto sempre preconizou respeito 
pelos sentimentos religiosos. Expressamente declarou que suas diver­
gências em face do catolicismo brasileiro não o impediam de valori­
zar a atitude religiosa como tal, em seu significado vital e em suas 
repercussões morais.
Vários outros integrantes da Escola tocaram também em temas 
religiosos. Sílvio Romero o fez largamente em Doutrina contra Dou­
trina, ao arrem eter contra o positivismo, em suas implicações religio­
sas na teoria e suas aplicações rituais na prática. A rtur Orlando, em 
alguns ensaios, inclusive em “O problema da morte” , excursionou por 
m atéria religiosa. O permanente debate em torno de posições funda­
mentais e de doutrinas genéricas obrigava a encarar o problema: ora 
a propósito do “incognoscível” de Spencer, ora a propósito do monis­
mo (que Haeckel mesmo chamava “traço de união entre religião e 
ciência”), ora do comtismo ou de algum estudo de Buchner, Renan, 
Vacherot ou Jules Simon.
Temas de Filosofia
Mas se a religião esteve sempre presente, a filosofia foi a tem á­
tica central nos estudos integrantes da Escola. Foram todos interes­
sados em filosofia, contribuindo ou não para o desenvolvimento do 
que se poderia dizer o “pensamento filosófico” brasileiro.
De certa forma, a Escola foi justam ente uma posição filosófica. 
Ou por outra, um tipo de posição. É verdade que não teve ortodoxia 
nem grande coesão doutrinária; fez-se e sustentou-se de constantes 
temáticas e apegos pessoais. Mas estes apegos em geral correspon-
— 93 —
diam a adesões ideológicas (no sentido genérico do term o), e as cons­
tantes temáticas redundavam em equivalências e semelhanças nas 
opiniões.
D as dissenções internas da Escola resultaram, com certa perma­
nência, três ou quatro variantes principais dentro do nível filosófico, 
entre as quais se foram repartindo os membros do grupo: a variante 
monistica, a spenceriana e a comtista. Em grande parte, entretanto, 
os pensadores do grupo não adotaram estritamente, como uma opção, 
esta ou aquela vertente: uns juntavam o evolucionismo com o monis­
mo, outros reduziam tudo ao positivismo. Em Martins Júnior, por 
exemplo, encontramos a idéia de que o evolucionismo é o melhor tipo 
de monismo, bem como a de que o positivismo comteano tinha sido 
o regaço originário de todas as posições viáveis. Em Fausto Cardoso 
temos a aceitação do monismo haeckelista tout court, que o próprio 
Tobias B arreto tinha substituído pelo monismo de Noiré, no qual o 
mecanismo seco e peco cedia vez a uma versão mais dúctil: a cisão 
do mundo em duas dimensões, ou ante-s, em duas “classes de m ani­
festações”, movimento e sentimento. Isto, que Souza Bandeira chamou 
de “bela teoria”, era aliás uma espécie de nova visão da dualidade 
cartesiana entre extensão e pensamento.
Na medida em que cada membro da Escola, continuando o padrão 
intelectual de Tobias, se acreditava vinculado ao seu legado doutri­
nário, julgava-se também obrigado a retomar o problem a das decisões 
filosóficas lim inares. Cada qual ia ler o seu Comte e o seu Spencer, 
decifrar o seu Haeckel, esquadrinhar o seu Darwin, e opinar sobre 
o transformismo ou a lei dos três estados. Uns lim itando-se a repetir 
ou sublinhar a posição que preferia, outros tentando formulações 
novas, como aquela de Fausto Cardoso referente às três fases de cada 
idéia: utopia, revolta e instituição.
Alguns acharam jeito de acasalar a “lei biogenètica fundam ental” 
com a crítica comteana da metafísica; outros se sentiram no dever 
de optar en tre ser comtista e ser evolucionista, ou entre ser monista 
e ser positivista.
Crítica
Quase todos foram críticos, neste sentido latissimo da crítica de 
idéias, que engloba análise de obras de literatura, de direito, de his­
tória, de filosofia.
Crítico foi Tobias, embora não propriam ente “m ilitante” como se 
diria hoje, e também não sistem aticamente, mas em termos ocasionais
— 94 —
e circunstanciais. Sílvio foi basicamente crítico; e se, como Tobias, 
foi mais ainda polemista de que crítico, foi crítico com constância 
e estabilidade. A rtur Orlando também foi crítico, como Clóvis o foi 
eventualm ente, como Augusto Franco o foi. Inclusive ao opinarem 
sobre as obras uns dos outros, fizeram da crítica um instrum ento de 
cimentação da Escola, e de ataque uniforme (ao menos psicologica­
m ente uniform e) aos que não faziam parte do grupo.
Em Tobias Barreto, a crítica estendida a ramos que nem todos 
puderam continuar. Por exemplo, fez crítica musical. No volume 
III de suas Obras, intitulado “Filosofia e Crítica”, temos diversos 
artigos sobre óperas: sobre Salvator Rosa, sobre a Norma, sobre o 
Fausto. E há também artigos sobre interpretação vocal, opinando 
sobre tenores e barítonos. E citando sempre coisas em alemão, além 
de en trar em detalhes técnicos e mencionar trechos de partitu ras.
Gumersindo Bessa, em 1884, escreveu um estudo sobre um quadro 
de Horacio Hora, “Pery e Cecy”, um estudo em estilo à Tobias — 
no uso de comparações, nas digressões filosóficas, na agressividade 
das citações. Dizia aliás, no estudo, que aquele pintor era “um pre­
destinado da imortalidade” .
Ciências Sociais
Questão permanente para os componentes da Escola, foi a da 
sociologia, quer dizer, sua validade e sua caracterização. A questão 
da validade da sociologia se equacionava sempre a partir do artigo 
de Tobias (“glosas heterodoxas” ), em que negava a existência da 
sociologia, ou melhor, já que em Tobias a frase estava alargada: a 
existência da ciência social.
A m aioria dos discípulos, contudo, não acompanhou o mestre a 
respeito. No caso, a reverência pelo fundador da Escola pesou menos 
de que a literatu ra sociológica que crescia, vindo da Europa.
Assim Sílvio Romero, cuidadosamente, se ocupou de fundamentar 
a sociologia, examinando sequencialmente as razões “anti-sociológicas” 
de Tobias. Já M artins não fez assim: defendendo a ciência do social 
dos “sociófobos”, pouco se preocupou em pedir vènia a Tobias. 
E todos, como foi dito acima, ou quase todos os da Escola fizeram 
sociologia. Que era uma concepção expressamente evolucionista dos 
fatos sociais e dos problemas hum anos. No setor da sociologia, foi 
possivelmente a spenceriana a influência mais marcante, ou mais 
fecunda, de quantas a Escolasofreu.
— 95 —
Quanto ao direito, o traço dominante mais perceptível no grupo 
foi a aceitação do “darwinismo” , que Tobias e Sílvio Romero haviam 
inoculado, como decorrência ou complemento do monismo universal, 
bem como a embasação da ciência jurídica numa visão evolutiva da 
sociedade. Ihering foi das influências m ais forte, dentre os juristas 
alemães, só posteriormente recoberto ou reforçado com outros autores 
europeus. Em Tobias e em Sílvio os estudos jurídicos se atêm prin­
cipalmente ao nível filosófico — embora Tobias tenha trabalhado tam ­
bém em direito positivo, m atéria penal principalm ente —, mas em 
Martins Júnior a história do direito é cultivada com destaque maior, 
e com Clóvis a “vocação” jurídica do movimento se consuma e se 
coroa.
Também a problemática política teve alguma cabida na Escola, 
se bem quase sempre em termos de polêmica ou crítica, quando não, 
por vezes, campanha e atitude. Tobias deixou excelentes anotações 
e atiladas análises políticas; do mesmo modo Sílvio. Augusto Franco 
também escreveu sobre política, como A rtu r Orlando, como inciden­
talmente Clóvis Beviláqua. A economia, que no Brasil de então quase 
não tinha lugar marcado, aparece em estudos de Sílvio e de A rtur 
Guimarães, como em Martins (seu ensaio sobre a “Função Histórica e 
Economia Política” ) e ainda, tardíam ente, em Joaquim Pim enta. 
Historiadores poucos o foram, mas o interesse pela história afetava 
a todos: todos leram Letoum eau e também Fustel de Coulanges, sem 
falar de Taine e do próprio Comte.
Ocasionalmente, partiram de membros da Escola estudos de higie­
ne social: sejam os casos de A rtur Orlando com seu livro Porto e 
Cidade do Recife (e-ditado em 1908), seja o caso de Tito Livio de 
Castro com sua obra principal, A Mulher e a sociogenia. Casos, por 
sinal, em que a estatística se achava empregada a cada passo, e em 
que as sugestões demográficas e antropológicas eram aventadas p e r­
m anentem ente.
3 — A Faculdade do Recife como berço de foco do movimento
Imaginemos agora, outra vez, o Recife de então: passando por 
transformações lentas mas definitivas, atravessando crises (lembremos 
o Congresso Agrícola de 1878, em que o engenheiro Augusto H enrique 
M ilet conjurava a crise econômica em terminologia saint-sim oniana), 
apresentando um panorama social onde certos tipos lembram figuras 
de Eça de Queiroz: uns vazios, outros deslocados, outros ociosos. Mas 
no meio, o idealismo de uma juventude que era como a de todos os 
tempos, embora pareça diferente pelo aspecto severo que ostentava 
ao retratar-se: inquieta, insatisfeita, indecisa.
— 96 —
D entro da cidade, o prestígio da Faculdade de Direito era qual­
quer coisa de ex traord inário . Como observa Gilberto Freyre em seu 
estudo Vida Social no Brasil nos meados do século XIX, tanto em São 
Paulo como no Recife as Academias de Direito recrutavam a “fina 
flor” de cada fam ília; os filhos tidos por bem dotados iam estudar 
direito para form ar na elite política, jurídica e administrativa do país. 
Por sua vez G ilberto Amado, depondo sobre sua vida no Recife em 
1905, nos dá alguns flagrantes que valem como ecos do }ue teria sido 
a cidade nas décadas anteriores, nas quais a Escola do Recife viera 
crescendo: poucas livrarias, mas cheias de coleções francesas, “repú­
blicas” de estudantes, a concentração intelectual da Faculdade, o sen­
tido de cidade im portante que o Recife possuía dentro do Nordeste, 
as efervescencias doutrinárias.
P ara Antônio Paim, o “período áureo” da Escola — ao menos no 
plano filosófico — correspondeu aos anos que foram desde um pouco 
antes da república até a publicação da revista Cultura Acadêmica 
(1904-1906). Neste caso, então, o mencionado testemunho de Gilberto 
Amado incidiria sobre o Recife de fins da Escola.
Mas fins que se estenderiam até a primeira grande guerra mais 
ou menos (1914, m orte de Sílvio Romero), quando outios desafios e 
outras motivações atrairiam as atenções da mocidade e cos estudiosos.
Por todo o período de vigência da Escola, das pontualizações ini­
ciais aos brilhos derradeiros, a Faculdade de Direito do Recife foi sem 
dúvida o polo principal do movimento e seu ponto de referência, 
tendo sido, como diz Machado Neto, o foco originário de onde ele se 
estendeu praticam ente por todo o Nordeste (e até a Minas, como foi 
visto) com irradiações que iam do Ceará à Bahia.
Na Faculdade de Direito se fizera o percurso característico da 
própria vida das idéias no nosso meio: desde o convencialismo esco­
lástico diretam ente subordinado a Coimbra, passando pelo jusnatura- 
lismo, até o materialismo e o evolucionismo. Sem fala: na vivência 
dos arrancos liberais, convivendo em contraponto com os resmungos 
conservadores, nem no espiritualismo de várias espécies (Guizot, 
Cousin, Jouffroy), ou no comtismo que, embora sem a força in stitu ­
cionalizante que adquiriu no Sul, teve também vez, voz e voto nos 
debates daqui.
Quando, em 1927, Beviláqua publicou sua História da Faculdade, 
pôde apresentar um balanço que era ao mesmo tempo, realm ente, 
balanço de todo um itinerário cultural e “m ental” (como se uasava 
dizer, ainda na data do centenário), o itinerário dos debates que foram 
a atmosfera ideológica da cidade.
- 9 7 -
O predominio das fontes francesas na cultura pernambucana do 
século XIX se reflete dentro da trajetória dos próprios estudos jurí­
dicos recifenses.
Foram os autores franceses que Tobias com bateu, ao deixar o 
comtismo pelo monismo alemão; mas ele nunca os largou de todo, 
apesar de tudo. Foram os autores franceses que influíram sobre cer­
tos componentes da Escola, em literatura por exem plo: assim Renan 
e Taine. Dentro da bibliografia jurídica, foram livros franceses que 
ensinaram à Escola a história do direito (incluindo-se aí as traduções 
de obras alemãs), bem como o direito civil, a filosofia e a teoria cons­
titucional: Domat, Pothier, Oudot, Ortolan, Lanjuinais, Ancillon. Em 
francês tinham saído os escritos de direito público de Silvestre Pinhei­
ro Ferreira.
A Faculdade de Direito, naquelas décadas heróicas, não era ape­
nas (e felizmente não o podia ser) centro de ensino de direito atricto 
sensu, mas convergência de tudo quanto era inquietação doutrinária 
e iniciativa intelectual: jornalismo, oratória, pesquisa histórica, e ru ­
dição filosófica.
Em certa medida, a Escola foi um reflexo do padrão social dos 
estudantes da Faculdade: uns aristocratas, como Faelante da Câmara, 
prestando atenção aos problemas sociais; outros — como fora o caso 
primacial de Tobias, que foi (se se permite a comparação) como que 
o Sócrates da Escola — outros ascendendo dentro da Faculdade ou 
ao sair dela, e todos vivendo uma atmosfera de conflito e rebeldia, 
propiciadora de amizades temperadas e de lealdades drásticas. D ifi­
cilmente um homem, saído da Academia e entrando na vida política 
do país ou de algum estado, esqueceria sua fonte, a Faculdade, cujo 
prestígio alim entava o de seus alunos, e se refazia pelo deles.
CAPÍTULO III 
CONSEQÜÊNCIAS E INFLUÊNCIAS 
TENTATIVA DE BALANÇO CRITICO
1 — Características Dominantes
Unidade ou heterogene idade?
Alguns autores vêem na Escola do Recife um grupo indefinido e 
heterogêneo. O próprio Beviláqua afirmou, na História da Faculdade
— 98 —
de Direito, que as orientações filosóficas eram variadas e cada um 
fazia sua solução. Outros consignam uma relevante e substancial 
unidade na orientação fundam ental dos estudos e das convicções. 
Paim por exem plo encontra na Escola uma suficiente homogeneidade 
de doutrinas e atitudes. Machado Neto, por sua vez, conclui que a 
força do movimento teve tal significação, que seus integrantes se 
sentiam vinculados como a um a corrente intelectual realmente supe­
rior às da capital, que polemicamente menosprezavam.
Essa questão da “unidade” da Escola é bastanterelativa. Uma 
“escola” pode fundar-se em ortodoxias de conteúdo maiores ou meno­
res, ou ser considerada mais como grupo de estudiosos com indepen­
dência de opiniões. Claro que tal independência não poderá compro­
m eter a sobrevivência ou o mínimo de coesão do movimento. Se houve 
uma “Escola” romana na p in tura do Renascimento, ou uma “Escola” 
verista na ópera italiana, houve variantes pessoais. A escola positi­
vista francesa teve suas faixas de dissidência.
De certa forma, a “Escola do Recife”, que alguém já propôs cha­
mar Escola de Tobias, foi um conjunto de dissidências coexistentes e 
solidárias. A lealdade e a “admiração” em relação a Tobias foram 
o cimento constante das fixações pessoais, mas muitos dissentiram 
dele em grande medida: dissentiram Martins, Fausto Cardoso, Clóvis.
Tobias mesmo, para começar, foi sempre e por estilo pessoal um 
assistemático. Neste ponto contrasta com um Tavares Bastos, que 
analisou monograficamente, metodicamente, cada um dos grandes pro­
blemas que assumiu. Contrasta também, para dar outro exemplo, 
com A lberto Torres, empenhado em sistematizar com terrível afinco 
os seus temas e as suas soluções. Sílvio também, embora talvez mais 
“organizado” no modo de produzir livros, foi sempre dispersivo e 
instável.
Evangelistas deste tipo não poderiam criar igreja maiormente 
ordeira. Eles mesmos deram o exemplo da contraditoriedade, ou 
mesmo da indecisão, da dispersão, do inacabamento.
i
Os conteúdos de que se ocuparam em geral os integrantes da 
escola eram por outro lado, por sua pluralidade, um convite à varie­
dade. Seria difícil estarem todos de acordo em filosofia, em direito, 
em literatura, em sociologia.
Monismo
Para Luiz Washington Vita, a doutrina adotada pelos “corifeus” 
da Escola teria sido uma “somatória do evolucionismo e do monismo”.
— 99 —
O monismo, que tanto seduziu e convenceu aos discípulos de 
Tobias, como a este, tinha a vantagem de ser uma teoria totalizadora; 
a referência à unidade do mundo superava dificuldades e conflitos 
cosmológicos, abrigando a necessidade, que julgava ter, de não ser 
espiritualista, e de por outro lado não enfatizar o materialismo. As 
fórmulas de Noiré, preferidas por Tobias, rachavam o monismo em 
dois, entretanto, referindo-se a duas manifestações da unidade: movi­
mento e sentimento.
Depois, para aqueles moços desejosos do insólito e prevenidos 
contra a metafísica, o monismo tinha esse mérito, que Souza Bandei­
ra sublinhou: pretendia “reponder com a ciência àquelas questões a 
que até agora se respondia com a metafísica” .
Os moços de então adotavam, diante da metafísica, a mesma ati­
tude de rancor antecipado que os de hoje adotam diante do que cha­
mam idealismo. Como os de hoje (trabalhados pelo marxismo vulga­
rizado e inoculado como crença definitiva) aplicam contra o inimigo 
o materialismo dito dialético, os de então aplicavam o materialismo 
monistico, quando não o de Büchner mesmo, ou as críticas menos 
materialistas de Herbert Spencer e de Augusto Comte.
Evolucionismo
E praticamente todos foram evolucionistas. Na realidade, o evo­
lucionismo em seu sentido ampio (considerando o de Spencer sua 
versão específica) é uma concepção que todo o século XIX abraçou, 
como muitos no século XVIII o haviam abraçado, incompleta ou imper­
feitamente. Cada grande posição oitocentista foi evolucionista a seu 
modo: o positivismo sem dúvida, o marxismo também, e o hegelismo 
mesmo tinha sido um tipo de evolucionismo. Como evolucionistas 
foram Tarde e Durkheim, Mill, Taine e de certo Nietzsche com seu 
darwinismo fulminante e transfigurado.
No evolucionismo latejava um cerne de verdades que tinha de 
seduzir a todos, e que ainda hoje se impõe, queiram ou não certos 
críticos. Há, senão evolução, evoluções, no percurso dos problemas 
humanos, e sem isto a história não teria trajetória nem linhas dife- 
renciadoras.
Só que, para os da Escola, o evolucionismo era aceito e expres­
sado com o timbre generalizante próprio do século XIX, com univer­
salizações rotundas e tipologias forçadas. E era aceito e expressado 
como arma de combate. Por outro lado, porém, o evolucionismo,
— 100 —
sendo como se disse uma constante entre os prosélitos, servia de deno 
m inador comum ou quase comum entre e les. M artins dissentiu de 
Tobias, Sílvio aceitava a sociologia contra o mestre. Fausto Cardoso 
retom ava em puridade o monismo mecânico — mas todos fiavam na 
evolução. E os juristas da Escola, crendo tanto em Darwin como 
Ihering , faziam do direito um quadro de testes temáticos que davam 
as provas reais do evolucionismo.
“Culturalismo”?
O professor Miguel Reale, em ensaio que se acha sempre citado 
a propósito, falou oportuna e sugestivam ente do “culturalismo da 
Escola do Recife” .
Entretanto o ponto pede reparos. Em prim eiro lugar o problem a 
se acha mais especialmente em Tobias, ou antes, em certas passagens 
suas, do ensaio sobre (ou contra) a sociologia. Os continuadores 
parece que de modo geral não sentiram nem retomaram o problema. 
Em segundo lugar, as frases notáveis que se lêem naquelas passagens 
de Tobias, onde diz que o mundo social é livre e distinto do d e te r­
minismo da natureza, e diz que a cultura humana refaz “artistica­
m ente” e com normas a luta fundamental pela vida, que reina, não 
norm ada, no mundo natural, tais frases se acham em contradição com 
outros pontos da obra do próprio Tobias, por exemplo os que rejeitam 
o direito natural apenas por ser o direito um fenômeno cósmico como 
qualquer. Seu darwinismo jurídico não lhe permitiu desenvolver os 
neo-kantismos latentes naquelas frases, e em realidade elas se afogam, 
no todo de sua obra, sob a maré dominante do naturalismo e do bio- 
logismo que preponderaram sempre e apesar de tudo em seu espírito.
Limitações e compensações
Como observa Paim, havia uma dificuldade primordial para que 
uma filosofia como a do neo-kantismo alemão penetrasse bastante no 
Brasil daquele tempo: é que tal filosofia arrancava de questões gno- 
seológicas para as quais não se haviam preparado as elites intelec­
tuais do país. Elas vinham cuidando mais de temas cosmológicos e 
de psicologia.
O esforço da Escola de Tobias, a começar de artigos deste próprio, 
em combater o ecletismo e o espiritualismo, era uma oposição às 
ontologias tradicionais e era uma adesão genérica ao naturalism o. 
Os materiais críticos e o que de melhor havia no legado idealista 
(hegeliano inclusive) resvalou e perdeu-se, para nossos pensadores de 
então.
— 101 —
Disto tudo resultou uma série de homogeneidades negativas unin­
do a Escola. Resultou uma porção de limitações temáticas, reforça­
das pelo tapume do tipo de leituras que o grupo basicamente culti­
vava, leituras naturalistas e biologistas a que se cosiam ensaios his­
tóricos e sociológicos.
Em compensação, desenvolveram em alta escala a capacidade crí­
tica, apesar de que, para estimá-la devidamente, o crítico de hoje 
necessite desentulhá-la dos desvios polêmicos, das super afetações retó­
ricas e dos equívocos com que tropeçavam. Muitos, da Escola (desde 
Tobias Barreto e ele sobretudo) revelaram enorme imaginação e com 
ela supriram lacunas de conhecimentos e cobriram dúvidas incômodas.
De certa forma, o im penitente naturalismo do movimento (m iti­
gado aliás num ou noutro por certas concessões à metafísica ou certa 
atenção à história) prejudicou em alguma medida o processo do pen­
sar filosófico brasileiro. Mas em medida pequena, pois o exercício 
crítico que impuseram a si e aos de fora do grupo valeu como grande 
avanço.
O ensaio como gênero
Ficou dito que a m aneira assistemática de Tobias prosseguiu carac­
terizando a maioria do grupo. Fausto Cardoso, projetando uma t r i ­
logia de filosofia do direito, só deixou duas partes e assim mesmo 
mal acabadas. Pode-se dizer que todos cultivaram o ensaio.As obras deixadas pelos integrantes da Escola são, muitas vezes, 
coletâneas de artigos: Tobias fez assim seus livros. Sílvio Romero, 
salvo a enorme história da literatura, quase sempre construiu livros 
com estudos coligióos. No caso, igualmente A rtur Orlando (exceto 
“Porto e Cidade”, “O B rasil” e “Panamericanismo” ); Martins Jún io r 
em parte , também. Tito Livio de Castro, tirando a tese e a grande 
m onografia sobre a m ulher e a sociogenia, deixou ensaios. B evilá­
qua, fo ra seus grandes livros de direito positivo e a história da F acu l­
dade, escreveu inúmeros ensaios.
Esta característica formal reforça ou confirma a condição de f ra n ­
co-atiradores que muitos da Escola conduziram, e acompanha a d is- 
persividade temática que foi, na Escola, a um tempo, fraqueza e força.
Visão do Brasil
Felizmente, porém, grande parte do esforço intelectual e te x tu a - 
lizante da Escola esteve voltado para problemas nacionais. Ainda aí,
— 102X
Tobias deu o exem plo: vim os, atrás, como entre seus estudos se encon­
tram diversos pontos onde a realidade brasileira e o povo brasileiro 
são detidam ente observados. P ara Tobias, as soluções de nossos p ro ­
blemas não deviam ser im portadas, e sim tiradas de dentro da p ró ­
pria índole de nossa h istó ria . Por isso clamava contra os falsos 
orientadores do país.
Tal clamor foi maior ainda em Sílvio Romero. Este preocupou- 
se todo o tempo com a situação do país, denunciando erros e abusos, 
pedindo análises objetivas e levantamentos racionais da realidade 
brasileira, combatendo as cam arilhas políticas, propondo soluções, 
encorajando estudos.
Tam bém A rtu r Orlando deixou um livro inteiro sobre o Brasil. 
Beviláqua ocupou-se do d ire ito brasileiro várias vezes. Martins Júnior 
escreveu a história do nosso direito.
De modo que a Escola jamais se poderia considerar como um 
corpo estranho à vida brasileira. Perm anentem ente pronunciou-se 
sobre política partidária, fez cam panha abolicionista (por intermédio 
de alguns de seus sequazes), e, sempre esteve voltada para as teorias 
européias, isso era próprio da intelligentsia do Brasil da época, como 
de todo o mundo não-europeu, como ainda hoje.
Houve realmente, neste sentido, momentos de “alienação” cultu­
ral, no sentido de se entregarem às vezes à problemática das doutri­
nas alemãs ou francesas como se fossem, eles próprios, alemães ou 
franceses. Incidiria sobre alguns da Escola a ironia de Álvaro Vieira 
Pinto quando, no seu Consciência e Realidade Nacional, alude aos 
professores que, escrevendo em língua estrangeira, “tomam parte” nos 
debates europeus sem os europeus saberem. No caso, os textos ale­
mães de Tobias se enquadrariam aí: era de sua parte uma ingenui­
dade auto-afirm adora.
Entretanto, a coisa se justificava em parte: como fazer filosofia 
sem se decidir pelas grandes posições, e como decidir-se sem viver 
mentalmente os problemas postos pelos grandes “chefes de escola” 
europeus? Como julgar o comtismo, não tangencialmente mas para 
adotá-lo ou não, sem reconsiderar a visão da história da humanidade 
que Comte propusera?
Temos portanto de entender a Escola em sua situação histórica: 
era uma elite intelectual e social que tinha de repetir o padrão lite-
Jf
— 103 —
rário e doutrinário da Europa, corno repetia da E u ro p a os figurinos, 
os chapéus, os casacos, os gostos musicais, os elem entos culturais. 
Uma espécie de autodidatismo grupai, compensado pelas influências 
recíprocas, caracterizava os membros da Escola. D a í certas imaturi- 
dades, certas desigualdades do que deixaram. Daí a deformação, aqui 
e ali, de idéias mal assimiladas; e muita coisa m a lu ca que foi escrita, 
na pretensão de originalidade ou de grandeza, m u ito equívoco, muito 
despreparo lógico, m uita indisciplina term inológica. Mas foi um 
esforço válido.
2 — Conseqüências e influências
O movimento chamado “Escola do Recife” tev e tamanha profun­
didade, dentro do contexto cultural do Nordeste de fins do século 
passado (e começo do presente), e tal força em relação ao panorama 
brasileiro como irradiação e provocação, que quem o estuda corre o 
risco de calcular mal os seus contornos. Não se pode minimizá-lo; 
sua importância foi grande. Mas há o risco de atribuir-lhe demais, 
de incluir em sua esteira, como participante, a todo intelectual daque­
les tempos que tenha andado com um livro de Taine na mão ou tenha 
escrito algo onde entrasse o nome de Spencer. É preciso portanto 
catar as influências com cuidado, e delim itar com certa discreção os 
resultados intelectuais da atuação do grupo.
Na fase final da Escola, houve naturalm ente uma dispersão e 
uma perda de unidade bastante sensíveis. As motivações intelectuais 
já não eram, ao en trar o século XX, as mesmas de 1870, e os rem a­
nescentes da Escola sentiam outras solicitações, inclusive na vida real. 
Aliás Souza Bandeira, no seu ensaio sobre Tobias Barreto, apontando 
o caso dos estudiosos arrastados pela vida material para longe das 
letras, escrevia com azedume:
“Os brilhantes escritores, os oradores nervosos, os p ro p a­
gandistas valentes, jazem enterrados na traçaria poenta da 
burocracia; tomaram, possuídos da sacra fames, o cam inho 
das finanças ou das indústrias ou quando muito con ten­
tam-se, em matéria de letras, com os triunfos fáceis da 
retórica jornalística. Os filósofos de outrora aceitam resig ­
nados a lógica terrível do primo vivere e abaixam-se t r i s ­
tem ente para ajuntar uns gravetos com que alim entam a 
exigente fornalha da v ida cotidiana”.
Era já um a visão de como o ocaso da Escola coincidia com c 
amortecimento dos entusiasmos filosóficos e com a adesão ao prag-
— 104 —
m atism o prosaico. O padrão intelectual deixado por Tobias persistia, 
m as às vezes era usado apenas corno alegação, corno confronto, ou 
seguido apenas em alguma expressão, e não inteiramente continuado 
n a árdua vida de estudos que teve.
Possivelmente havia exagero, escorado em equações pessoais, no 
desalen to de Souza Bandeira. Entretanto é inegável que com os 
p rim eiros lustros de nosso século a Escola entrava em agonia.
Na Europa, o que se discutia não era mais Darwin nem Ihering. 
A ordem de problemas era outra. A renovação néo-kantiana fru ttfi- 
cava nos ramos de Baden e Marburgo; a sociologia estava em D ur­
kheim e já Simmel constituía coisa bastante nova; as obras de Bergson 
representavam a révanche do espiritualismo, e em direito havia ta m ­
bém coisas diferentes. Além disso as crises do mundo econômico e 
político pressagiavam problemas inteiramente outros. O refinam ento 
da belle époque, que cristalizava sutilmente os sucos do oitocentos 
como o rococó cristalizara os caldos do barroco, coexistia com a incu­
bação de tempestades que ficariam varrendo o século até hoje.
A Escola, entretanto, se ramificara. Vários Estados do Nordeste 
tinham filiais suas. O Ceará, comprometido por causa de alguns 
nomes, Sergipe, berço do próprio Tobias e com um grupo agitado, a 
Bahia, com dois ou três adeptos peculiares e dissidentes. Em Minas, 
Augusto Franco. De todos os Estados próximos, vinham alunos para 
a Faculdade de Direito do Recife, e daí a irradiação das “idéias novas” 
por vários centros de então.
No Rio, após a ida de Sílvio Romero, tinha a Escola outra sucur­
sal que girava sobretudo em torno de amizades e influências pessoais 
lo autor de Doutrina contra doutrina.
Apesar disso, a permanência mais característica ficou sendo a de 
fernambuco. A própria vigência do nome de “Escola do Recife”, que 
dera de Sílvio Romero, valia como fixação maior em torno da cidade, 
t em torno da Faculdade de Direito onde Tobias tinha armado sua 
enda de pregação e polêmica.
Todo um estilo intelectual correspondeu à atuação da Escola e 
iecorreu dela. Este estilo inclui algumas notas que os integrantes, 
em comoos meramente influenciados, de modo geral apresentaram , 
mtes de tudo — o que já foi lembrado acima — a tendência poli- 
ráfica, a tendência a abarcar pluralidade de áreas. Depois o poli- 
lotismo, que aliás Tobias e Sílvio ostentavam como superioridade
— 105 —
diante de certos antagonistas (inclusive o grupo de Carlos de Laet) 
que, não sabendo alemão, não podiam discutir. O tom polêmico, 
agressivo, q u e se nota nas exposições teóricas, frequentem ente atassa- 
lhadas de digressões contra alguém . Mesmo naqueles que como pes­
soas tiveram temperamento m ais ameno (um A rtu r Orlando por 
exemplo), algumas destas características repontam nos textos deixa­
dos. Isto sem falar nas qualidades substanciais e de doutrina; o apego 
ao monismo, o evolucionismo como quase denominador comum. Em 
alguns casos, o modo de citar ficou semelhante, e o hábito de iniciar 
ensaios com alguma frase de Tobias Barreto foi m uito generalizado.
Podemos encontrar alguns ecos da Escola na revista mensal A 
Evolução, que se editou no Recife a partir de 1908 e tinha por subtí­
tulo: “Órgão Racionalista” . O ternàrio, anunciado no frontispicio, 
era vastíssimo: “Ciências, artes, letras, filosofia, política, religião, agri­
cultura, comércio e indústria” . A redação, tendo por diretor Raul 
Azedo (figura muito interessante de estudioso local) e por secretário 
Andrade Bezerra (depois líder católico), incluia os nomes de Hersílio 
de Souza, Fernando de Sá, Leal de Barros, Olinto Vitor, Joaquim 
Pim enta, Gouveia de Barros, João Barreto de Menezes e Luiz de Góis. 
Alguns, dentre estes, eram médicos.
O programa da revista era amplo e ousado:
“Trabalhar pelo desenvolvimento econômico, intelectual e 
moral e da coletividade:
— procurando despertar o interesse e o zelo pelos seus v i­
tais direitos e necessidades por ela geralm ente descurados;
— promovendo a adoção de métodos educativos da in fân­
cia e da mocidade adequados ao destino do homem m o­
derno;
— batendo-se pela policultura e pelo ensino agrícola, teó ­
rico e prático;
— contrapondo-se à ação de todos os elementos retróga- 
dos militantes no meio social;
— concorrendo para a cultura m ental e para a m elhoria 
das condições m ateriais de existência do operariado u rb a ­
no e rural;
— pregando a necessidade de elevação do nível intelectual 
da mulher;
— vulgarizando os preceitos da m oral científica” .
Um programa ilustrador, bem ao modo da convicção da Escola, 
segundo a qual a ciência seria capaz de melhorar o homem e corrig ir
— 106 —
m ales sociais. Aquela mesma convicção que fazia Sílvio Romero pedir 
estudo objetivo para os problemas nacionais, em vez de verbalismo 
e emoção.
Parece-nos poder relacionar à Escola, não diretam ente e em fun­
ção do m agistério de Tobias, mas em face do padrão intelectual e dos 
elementos doutrinários utilizados, a poesia de Augusto dos Anjos 
(1884-1913). Em 1890, prestando exames no Recife, o poeta parai, 
baño já cham ava atenção pelo preparo científico, e seu livro Eu (de 
1912) é depósito de uma poesia cientificista, não falseada por uma 
intenção de “demonstração” doutrinária, de que os versos fossem ape­
nas portadores e pretextos, mas penetrada por um a fundamentação 
específica, feita de estudos biológicos sérios e intensos. Se como poeta 
devia um pouco a Antero, talvez, e a Cesário Verde possivelmente, e 
se tinha um pessimismo lucreciano que o afastava dos otimismos da 
Escola do Recife, o fato é que foi um leitor cerrado de Darwin, Spen­
cer e Haeckel. Um transformismo básico e convicto sempre ressu- 
mou em sua personalíssima poesia. O famoso e estranho “Monólogo 
de urna Som bra”, escrito por sinal aos 17 anos, fala do “cosmopoli­
tismo das moneras” e da “simbiose das coisas”, de que o ser humano 
vinha e dependia. Noutro poema, menciona o nome do “insigne 
H erbert Spencer”, e no “Último credo”, afirma:
“Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui.
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença 
O homem particular que eu ontem fui” .
Em sua poesia, não apenas repontam termos de química, botâni­
ca e fisiologia, como também a relação en tre a consciência humana 
e as condições da matéria (“eu, filho do carbono e do amoníaco”) 
forma um tem a constante.
Assim marcou a Escola a atmosfera cultural do Recife, dos fins 
da segunda década do corrente século: o tipo de leituras, as cons­
tantes temáticas, a linguagem cientificada, a afirmatividade enfática. 
Se ainda se discute sua unidade doutrinária, realmente insuficiente, 
não se discute que ela existiu como grupo e movimento, e mais ainda, 
como lastro e fonte de uma ambiência intelectual inconfundível. Era 
em princípio a ambiência mesma do tempo, no mundo dito ocidental 
e em seus arremedos no Brasil: mas os “seguidores de Tobias” deram
— 107 —
aos seus trabalhos um cunho de esforço quase missionário. A missão 
era a de malhar adversários (o catolicismo em alguns casos, noutros 
o comtismo, noutros ecletismo), e era a de converter leitores e con­
vencer estudantes.
Por muito tempo, mesmo após extintos os ecos finais da Escola 
como grupo e como movimento, restaria na Faculdade do Recife 
alguma coisa dos padrões intelectuais postos em pauta pela Escola: 
a valorização talvez excessiva dos concursos para cátedras; a valori­
zação talvez equívoca das originalidades e da erudição nestes con­
cursos, bem como uso das provocações por parte dos seguidores e das 
irreverências e a té do excesso verbal por parte dos candidatos, argui- 
dores e candidatos loucos por m ostrar conhecimentos, fazer proezas 
em matéria de “presença de espírito” e dar exibição de m em ória.
3 — Para um balanço crítico
“Filósofos em soledad y a la intem perie”, chamou certa vez 
Francisco Romero aos pensadores latinoamericanos dos séculos XVIII 
e XIX, aludindo à carência de meios e de amparo institucional em 
que trabalharam .
Semelhante expressão se poderia aplicar, neste sentido, aos in te ­
grantes da Escola do Recife. Não foi tan ta a sua “solidão”, embora 
Tobias tivesse passado anos encafuado em Escada a estudar alemão 
e a redigir ensaios; nem estavam tanto ao desabrigo pois alguns ensi­
naram na Faculdade. Entretanto, o am biente recifense de então 
(mesmo o brasileiro em geral) não apresentava suficientes condições 
para o preparo metodológico nem p a ra a pesquisa sistemática, e daí 
um certo autodidatismo deformador e heróico que caracterizou glo­
balmente o grupo, e daí os escritos im aturos muitas vezes, ou a 
lu ta pela manutenção de revistas ou pela obtenção de editores — 
problemas que aliás ainda existem ho je na província.
O prestígio do Recife, contudo, e ra grande no mapa intelectual 
do Brasil de então. Em seu livro A r r u a r , Mário Sette chega a d izer 
que o século XIX foi o do “máximo prestígio intelectual” da cidade. 
Desde o começo do século que o liberalism o e o romantismo nos 
chegavam através dos livros europeus (quase sempre franceses), e as 
poucas mas eficazes livrarias recifenses foram efetivamente cen tro 
d e atração de jovens e velhos, de discussão e iniciação doutrinária.
— 108 —
O declínio da Escola, que se preparou de um certo modo com o 
advento da República, foi longo e correspondeu a uma dispersão do 
grupo, em term os de geografia e de ideologia. Não manteve o grupo, 
politicam ente, nem coesão nem estratégia suficientes para conservar 
um a atuação homogênea, isto é o que entende Antônio Paim em sua 
“H istória das Idéias Filosóficas no Brasil” . Mas cabe acrescentar 
que, por ou tro lado, o fim da monarquia marcou também o desloca­
m ento da im portância econômica para o Sul, em definitivo, deixando 
os estados do Norte de poder arrogar-se posição de rivais da “Corte”, 
mesmo em matéria de cultura.
A Escola correspondeu existencialmente ao mundo culturalreci- 
fense de fins de 1860 a fins de 1910: a Faculdade enchendo-se de 
“idéias novas”, os livros evolucionistas sendo cada vez mais lidos, o 
debate sobre monismo e comtismo ocupando a todos. As limitações 
bibliográficas que prejudicaram , por exemplo, um Antônio Pedro de 
Figueiredo, ou um Abreu e Lima, Tobias Barreto as superou. O a lar­
gam ento das fontes veio em definitivo na época de Sílvio Romero e 
mais ainda — para o direito por exemplo — na de Clóvis Beviláqua. 
Chamamos “época” de Sílvio Romero em vez de geração, pois que, 
como já foi dito, é difícil escalonar as gerações naquele continuum 
de estudos que veio desde os artigos de Tobias estudante às prosas 
austeras de Clóvis envelhecido.
No “meio”, entre o proselitismo inicial de Tobias e Sílvio e as 
m aturações finais do movimento, se situaram figuras nascidas entre 
o fim dos anos 50 e o começo dos anos 60: A rtur Orlando, Clóvis, 
M artins Jún io r. Tito Livio de Castro, nascido em 1864, teria evoluído 
com mais largueza se entrasse pelo século vinte, mas morreu ainda 
pensando na filogênese. É esta “geração” interm ediária que forma 
o corpo principal da Escola: confirma Tobias, mas prepara coisas 
novas, embora os que chegam depois não consigam propriamente levar 
muito avante as virtualidades preparadas, nem entrem em contato 
com as novidades européias do fim do século, para cruzar com elas 
o legado de Tobias. Tal legado é às vezes mantido teimosamente, 
mesmo quando já se podia ver que certos pontos basilares de suas 
idéias tinham definitivamente caducado. Salvaram-se muitas coisas, 
porém, inclusive aquilo que na maioria foi uma heresia em relação 
ao mestre da Escola: a crença na Sociologia.
O esforço filosófico foi válido e profícuo como motivação e exer­
cício, como denominador da coesão do grupo. Superado depois pelo
— 1C9 —
ideário de Farias Brito, ao menos momentaneamente, ficou como 
ponto d e referência de um pensamento social brasileiro autêntico: 
vejam -se a respeito as análises de Guerreiro Ramos, agressivas e 
exageradas mas em vários pontos corretas. N este sentido foi Sílvio 
Romero o grande exemplo.
O trabalho sociológico, desencontrado e sem método, mais filoso­
fia e h istória do que bem sociologia, valeu como antecipação e in tu i­
ção. O trabalho jurídico foi talvez o lado mais positivo da Escola, até 
mesmo sob o prism a quantitativo: quase todos escreveram sobre d ire i­
to, e a produção foi sempre ponderável, mais segura sem dúvida do 
que em filosofia. O trabalho de crítica literária, desigual, e prova­
velm ente o mais viciado pela polêmica externa, foi também relevante: 
tirando-se os arrepios e as negações, ficou m uita coisa aproveitável. 
A Escola deu o exemplo da crítica fundada em um ponto de vista 
filosófico, na qual o pronunciamento sobre um a obra vinha a ser 
necessariamente análise de pressupostos “de escola”, e daí ter dado 
o exem plo de uma crítica de idéias de largo espectro e amplas ap li­
cações. Esta crítica de idéias, por sinal, se encontra atuando como 
consciência crítica dentro das próprias transformações do movimen­
to: a poesia grandiloquente e “científica” de M artins distava dos 
hugoanismos de Tobias e dos “cantos” de Sílvio.
Sob certo aspecto, e no m elhor sentido, pode-se considerar o m ovi­
mento como uma formidável e ruidosa aventura intelectual, fasci­
nante sem dúvida e encantada com suas próprias rebeldias, uma av en ­
tu ra que arrastou durante decênios o interesse dos estudiosos den tre 
os mais representativos, em vários estados do Brasil.
Se passou, como tinha de passar, deixou marcas fundas e fru tos 
substanciosos. Revendo o que fizeram seus membros, temos de ad m i­
rar-lhes o esforço ilustrador e a exigência doutrinária. Se os ach a­
mos tão afastados, se vemos e n tre eles e nós tantas outras escolas 
menores interpostas, e tantos outros m ovim entos idos e vindos, isto 
deve servir para ajudar a recom por seu lugar na história do processo 
cultura do Nordeste e do Brasil. Lá estão eles, graves na carranca 
e anacrônicos nas utopias que b ran d iram ; mas o tempo que passa 
abana um pouco, se atentamos bem , a p o n ta de suas casacas, a ponto 
de descobrirmos uma franja de lirism o na vida que viveram, p re n u n ­
ciando a nossa, tão mais carregada e m ais atordoada. Podemos te r 
alguma nostalgia, e pensar no q u e d ir ia m eles hoje, e que teorias 
debateriam: cada geração tem su a p ró p ria belle époque.
— 110 —
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	NELSON SALDANHAnull
	A ESCOLA DO RECIFEnull
	A ESCOLA DO RECIFEnull
	Panorama histórico e análise do movimento
	ÍNDICE GERAL
	Explicação circunstancial
	CAPÍTULO III — Conseqüências e influências. Tentativa de balanço
	EXPLICAÇÃO CIRCUNSTANCIAL
	PROPÓSITO TEMATICO E OBSERVAÇÃO BIBLIOGRAFICA
	12 —
	— 14 —
	-15-null
	— 16 —
	— 17 —
	— 18 —
	. — A figura de Tobias Barreto e a constituição de uma “Escola”.
	21 —
	— 22 —
	— 24 —
	— 25 —
	§ 2 — Componentes iniciais: primeiro, Tobias Barreto.
	Evolução Geral
	— 29 —
	Caracteriscas intelectuaisnull
	-30-null
	— 31 —
	— 32 —
	Pensamento político
	— 36 —
	— 37 —
	— 38 —
	39 —
	— 40 —
	Sua maneira intelectualnull
	Sílvio Romero e a filosofia
	— 44 —
	— 45 —
	— 46 —
	!null
	— 47 —
	3 4 — SEGUIDORES E CONTINUADORES — ARTUR ORLANDO
	Vida e obranull
	— 51 —
	— 52 —
	Posições em geral
	-53-null
	— 54 —
	Estudos de direitonull
	— 57 —
	— 58 —
	§ 5 — Ainda seguidores e continuadores. Martins Júnior Trajetória
	— 61 —
	Orador e político
	Martins e a sociologianull
	— 62 —
	— 63 —
	— 64 —
	— 65 —
	§ 6 — Seguidores e continuadores: Clóvis Beviláqua
	Olhada panorâmica
	— 67 —
	Formação e trajetória
	— 69 —
	— 71 —
	— 72
	— 73 —
	Sua historia da Faculdadenull
	§ 7 — Ainda Seguidores e Continuadores Gumersindo Ressa
	— 75
	Fausto Cardosonull
	— 80 —
	— 81 —
	Faelante da Câmara
	Virgílio Sá Pereira
	Souza Bandeiranull
	— 83 —
	— 84 —
	Aprígio Guimarães
	— 85 —
	Artur Guimarães
	§ 9 — Outras figuras
	Laurindo Leão
	— 86 —
	Euclides da Cunhanull
	—* 87 —
	Koseritznull
	Samuel Martinsnull
	Souza Pintonull
	Joaquim Pimentanull
	Araripe Júnior
	José Higino
	89null
	— 90 —
	Almáquio Diniz
	Aníbal Falcão
	2 — Setores cultivados pela Escola
	Dispersão ou enciclopedismo?
	— 91 —
	— 92 —
	— 93 —
	Crítica
	— 94 —
	Ciências Sociais
	— 95 —
	3 — A Faculdade do Recife como berço de foco do movimento
	— 96 —
	-97-null
	1	— Características Dominantes
	Unidade ou heterogene idade?null
	— 98 —
	Monismonull
	— 99 —
	Evolucionismonull
	“Culturalismo”?
	Limitações e compensações
	Jfnull
	— 103 —
	— 104 —
	— 105 —
	— 106 —
	— 107 —
	— 108 —
	— 1C9 —
	— 112 —

Mais conteúdos dessa disciplina