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I NELSON SALDANHA A ESCOLA DO RECIFE EDIÇÃO DA FACULDADE DE DIREITO DE CARUARU CARUARU PERNAMBUCO — BRASIL — RECIFE — NELSON SALDANHA A ESCOLA DO RECIFE CADERNO N° 66 EDIÇÃO DA FACULDADE DE DIREITO DE CARUARU CARUARU PERNAMBUCO — BRASIL — RECIFE — PARA MAURO MOTA e MILTON MELO E TAMBÉM PARA PINTO FERREIRA, ANTONIO PAIM, MIGUEL REALE e WILLIAM FERRER COELHO A E S C O L A DO R E C I F E Nelson Nogueira Saldanha (*) Panorama histórico e análise do movimento ÍNDICE GERAL Explicação circunstancial Propósito temático e observação bibliográfica CAPÍTULO I — Ambiência e formação 1 — O ambiente recifense ao tempo da gestação ou for mação da Escola do Recife-. 2 — A vida cultural no Recife pelos anos 60 e 70. 3 — A figura de Tobias Barreto e a constituição de um “Escola” . CAPITULO II — Composição da Escola: integrantes e aspectos. 1 — Os componentes da Escola, desde o tempo de Tobic Barreto até a morte de Sílvio Romero. § 1 — Vista geral. § 2 — Componentes iniciais: primeiro, Tobias Ba] reto. § 3 — Componentes iniciais: segundo, Sílvio Römer § 4 — Seguidores e continuadores: Artur Orlando. ( * ) Professor Adjunto de Teoria do E stad o e Titular de História i Pensamento Social e Político da Universidade Federal de Pernambuco. § 5 — Ainda seguidores e continuadores: M artins Júnior. § 6 — Seguidores e continuadores: Clóvis Bevilaqua. § 7 — Ainda seguidores e continuadores. § 8 — Outros seguidores e continuadores. § 9 — Outras figuras. 2 — Setores cultivados pela Escola. 3 — A Faculdade do Recife como berço e foco do movi mento. CAPÍTULO III — Conseqüências e influências. Tentativa de balanço crítico. 1 — Características dominantes. 2 — Conseqüências e influências. 3 — Para um balanço crítico. BIBLIOGRAFIA UTILIZADA EXPLICAÇÃO CIRCUNSTANCIAL Este trabalho foi escrito, entre novembro e dezembro de 1970, como monografia apresentada para concorrer ao “Prêmio Cidade do Recife — 1970” . Elaborado no exíguo prazo de cinco semanas, em meio aos trabalhos docentes do autor, este é o primeiro a reconhecer que o estudo poderia, noutras condições, ter sido mais aprofundado. Reconhecendo o quanto a premência do tempo utilizado afetou a construção do livro, mas crendo-o válido como homenagem historio- gráfica ao movimento que visou focalizar, o autor agradece profun damente o incentivo que recebeu de alguns amigos, que não o deixa ram desistir da tarefa, durante o período em que trabalhou. Falando de homenagem à Escola do Recife mesma, o autor não quer furtar-se a afirmar que o trabalho historiográfico pede sempre uma compreensão existencial do passado e de sua relação com o pre sente. Os homens de carne e osso que fizeram a Escola do Recife, vivendo como viveram numa cidade que hoje nos parece tão peque na como antecipação de nossos problemas urbanos, pensaram intensa mente e intensamente escreveram, assumindo as questões de seu tem po com sofreguidão. Olhando as páginas dos livros daquele tempo, notamos a solidariedade entre os tipos gráficos — mais as vinhetas e as reliures — e a linguagem mesma que traziam, mais as idéias que expressavam. A morte dos estilos, como a das vestes e a dos problemas, é mais recuperável que a das pessoas, e um pouco para isso serve a tarefa de historiar: para recuperar o que se pode, de dentro dos longos e sucessivos enterros das gerações. Retomando o texto, quase um ano depois, p a ra a presente edição, tivemos agora oportunidade de fazer uns poucos, pouquíssimos repa- ros na terminologia. Basicamente, o livro vai tal como foi concebido e redigido. O padrão intelectual da “Escola do Recife” constituiu realmente uma atitude intelectual bastante característica. Entre os modos de filosofar que têm ocorrido em nosso país, aquele padrão teve sua eficácia, cuja compreensão e valorização, diante da circunstância cor respondente, nos compete tentar. Seja esta a intenção de nosso trabalho. Aproveito para agradecer, como sempre, às pessoas que me deram ajuda datilográfica: desta vez Severina de Lourdes Lima, Carolina Alcides, Maria José Costa Pinto, Zélia Alves e Albanete Florencio. Recife, setembro de 1971. PROPÓSITO TEMATICO E OBSERVAÇÃO BIBLIOGRAFICA A chamada Escola do Recife constitui sem dúvida um dos títulos de gloria da tradição intelectual de Pernambuco, e, de certa forma, do Nordeste inteiro. Carregando semelhante responsabilidade, é natu ral que tenha sido tema de tantos estudos, e que já exista em torno dela uma bibliografia realmente vastíssima. Acontece, entretanto, que o vastíssimo dessa bibliografia corre a troco de uma certa hete- rogeneidade, ou antes, digamos, de uma certa dispersão. O numeroso material existente, numeroso até demais possivelmente, tem sido insu ficientemente sintetizado. Os esforços que têm incidido sobre ele trazem mui poucas vezes intenção didática. Somente uma ou duas obras possuem o sentido de síntese e sumarização do que foi efeti vamente a Escola; com a grande maioria dos trabalhos referentes sucede que são vistas parciais, tocantes quer a algum aspecto quer a alguns nomes mais altos, ou então includentes do episódio, que foi a Escola, em algum panorama cultural maior. Das sínteses disponíveis, com alcance global e conteúdo realmente completo, embora sem enxúndias nem prolixidades, destaca-se inques tionavelmente o livro de Antônio Paim, A Filosofia da Escola do Recife, lançado pela Editora Saga em 1966. Este estudo, completo quanto ao aspecto que elege, ou seja, o filosófico, deixa — como decor rência lógica de seu enfoque — deixa de parte toda uma série de aspectos e lados que a Escola apresentou. Há também o fato de que grande parte da bibliografia existente se centra sobre as figuras pros- ceniais do movimento, particularmente Tobias Barreto e Sílvio Rome ro. Ora, são figuras, estas duas, que de ta l modo tentam o biógrafo, pelo tumultuado de suas vidas, ou mesmo o expositor crítico, pela complexa riqueza das obras que deixaram , que os livros sobre eles são em muito pouca medida livros sobre a Escola. São livros “sobre Tobias”, ou “sobre Sílvio”, nomes próprios que aliás o apego dos estu diosos tem feito independentes dos sobrenomes; contrapartida daquele 12 — irioso uso de escritores lusos e brasileiros, de a té uma ou duas gera- cs, de se fazerem conhecer pelos sobrenom es sem o cognato. Por outro lado, o comportamento doutrinário e proselitístico da scola, desde o exem plo de Tobias B arreto, sempre ensejou atitudes paixonadas a respeito. Atitudes polarizadas, contra ou a favor, con- mdindo-se as figuras com as idéias, confundindo-se determ inadas léias com o “progresso” intelectual, ou recusando-se os m éritos do rupo por idiossincrasias e crenças. Se se aplicar ao caso a famosa istinção de Ortega acerca de idéias e crenças ( “as idéias se têm, nas "enças se está” ; “das crenças, às vezes não se tem nem idéia” ), se ê justam ente isso: as idéias do grupo, que aliás eram ao mesmo impo crenças, ou antes repousavam em crenças, vêm sendo v a lo n adas ou desvalorizadas, como crenças, mais que como idéias. Tudo isso significa, se se permite, a necessidade de uma recon- ideração da Escola. Ao mesmo tempo, de uma reexposição de seus ravejamentos intelectuais e de seus suportes históricos, com uma essistematização de sua trajetória na evolução cultural do Recife. )essa evolução ela foi, por um lado, produto e manifestação; por o tro lado, elemento propulsor durante muitos anos — ou antes, turante algumas gerações. Ver a Escola do Recife no Recife: esta seria a tarefa necessária. ‘No Recife” significa dentro de uma certa fase da vida da cidade, iquela em que a metrópole concentrava um sentido maior (ao menos geograficamente) que o que lhe cabe hoje: o Recife era considerado:omo o centro da vida do “Norte” . Quando Franklin Távora, ap prefaciar seu próprio romance O Cabeleira, dividiu o território lite rário nacional em Norte e Sul (levantando um problema chato mas necessàrio que ainda hoje agita e incomoda os críticos literários), teve a intenção de situar no “Norte” a ambiência do romance; e a suges tão daquela distinção ficaria atuanclo no sentido de fazer concentrar em Pernambuco a condição de ponto de referência do “nortism o” : tinha sido o estado mais trabalhado pelas lutas emancipacionistas. E o Recife, como capital, confirmava semelhante condição pela p r i mazia intelectual que entre os estados vizinhos nenhuma outra cidade pretenderia negar, nem disputar. A consolidação desta hegemonia do Recife, entre as cidades da região, correspondeu a uma série de circunstâncias, das quais se poderia mencionar a situação econômica de Pernambuco, ainda vivendo dias de bom açúcar e esplendor comer cial. No Recife de então, a importação de coisas européias se fazia Ccrriqueira e generalizada. Então ímportaram-se também livros e idéias, em quantidade m aior. P a r te digeridos, parte indigeridos, esses livros e essas idéias resultaram , de alguma forma, na Escola do Recife. - ❖ - Mencionamos, atrás, o problem a bibliográfico. Voltemos a ele. Desde logo para dizer que não temos a pretensão de, com o presente ensaio, preencher as lacunas porventura existentes na lista, que já qualificamos de vastíssima, dos títulos tocantes ao tem a. Nem, por outra parte, pretendemos dar conta, utilizando ou citando, de quantos estudos já se consagraram à Escola, ou a seus integrantes, ou a seus aspectos. Há, realm ente, estudos excelentes sobre determinadas figuras, como o de Hermes Lima sobre Tobias Barreto ou o de Sílvio Rabello sobre Sílvio Romero. O aspecto filosófico da Escola foi analisado por Paim. o jurídico está enfocado em trabalhos de Machado Neto e Vamireh Chacon. E, se faltam síntese outras (sobre o positivismo existem umas três obras de porte, globais), falta também outra coisa: uma discriminação compreensível da verdadeira c-omposição da Escola. Quem a integrou realmente? Quem foi co-fundador, além de Tobias Barreto e Sílvio Romero? Quais foram os seguidores (habitualm ente ditos “epígonos” na retórica historiográfica) propriam ente, quais os meros simpatizantes, os que aproveitaram idéias do movimento ou os apenas relacionados por questões polêmicas, ou por serem da m es ma hora, dos mesmos assuntos e das mesmas leituras? Tentaremos rever essas coisas. Um pequeno balanço, como este, não pode ter maiores veleidades. De qualquer sorte, o que faz falta para repor certos nomes em seu momento certo é um critério adequado. Certas exposições, excelentes como apresentação doutrinária ou n o tí cia bibliográfica, deixam indeciso o desenho das posições dos vários “integrantes” do grupo, e o leitor se perde um pouco. Na verdade a Escola, como um eco que se esmaece lentamente e lentam ente se modifica, modificou-se e esmaeceu-se ao passar de geração a geração Uma coisa eram as motivações da década 70 do século XIX, quandc Tobias Barreto estava preocupado com Guizot e Haeckel, outra eram as investigações jurídicas de Bevilaqua e os desafios objetivos que Sílvio Romero apontava em 1910. Um pequeno balanço como este, repita-se, não pode ter maiorei veleidades, que as referentes à “compendiar” e “aq u ila ta r” os an v er — 14 — ; e reversos da Escola. De resto, se dizemos que a Escola se alte- ì ao passar por distintas motivações históricas, isto supõe que se 3 atribua um perfil inicial definido, senão definitivo, um núcleo de racterísticas p róprias. Isto porém será visto adiante: se ela teve não a denom inada unidade interna. E teve. Teve-a sem ser orto- xamente, que é a boa maneira de se te r unidade interna. CAPÍTULO I AMBIÊNCIA E FORMAÇÃO — O ambiente recifense ao tempo da formação da Escola do Recife. Não se pode, conforme foi afirmado acima, entender as etapas de ansformação que a Escola do Recife atravessou, sem situá-la a par- r de sua gênese num determinado cenário histórico. Também não i pode considerar seu cenário histórico sem ter em conta a atemosfera ►ciai e cultural v ivida pelo Recife, com suas características de m etró- )le regional então inconteste (mais do que h o je ) . Características íe sob o prism a econômico correspondiam ao. fato de ser a cidade 3saguadouro de uma economia agrária ainda plenamente vigorosa — Desar de se prepararem as crises e problemas que desembocariam 3 Congresso Agrícola Regional de 1878 —, e de ser, por outro lado, »co de um comércio nacional e internacional considerável. Sob o risma político, o Recife continuava sentindo-se a própria cabeça do Leão do Norte”, impávido e rebelde, cheio dos ecos e dos gestos e várias revoluções libertárias: no século dezenove mesmo, tinha feito Revolução de 1817, a Confederação do Equador e a Praieira, alimen- mdo uma tradição de liberalismo e inconformismo verdadeiramente npar. Socialmente, Pernambuco apresentava um quadro que se pode- ia tomar como típico da brasilidade oitocentista em seu aspecto bási- o, ou seja, antropológico: a miscigenação racial, se por um lado avoreceu exem plarmente a mobilidade social, permitindo que pardos mulatos subissem na escala social, por outro lado ensejou dialetica- aente um processo de preconceitualização que, mau grado nossa apre- oada democracia racial (só em parte existente), continua a medrar errivelmente en tre nós. O lado positivo da mestiçagem foi aliás, em boa hora e em te r nos convincentes, enfatizado por G ilberto Freyre. Desde seu juvenil nas definitivo estudo sobre a “Vida Social no Brasil nos meados do éculo X IX ” o problema está posto, mas seu completo tratam ento em timensão de história social se encontra em “Sobrados e Mucambos”, >nde vemos retratada a figura do m ulato que se habilita e se nobi- - 1 5 - lita pela transformação em padre ou em bacharel: e para Gilberto Freyre, o mulato do romance famoso de Aluízio de Azevedo teria sido modelado sobre casos reais, como um tipo. Vale lembrar, todavia, o lado negativo da mestiçagem, correspon dente à formação dos preconceitos de raça e aos ressenteimentos correlatos. Ambos os lados, de resto, vamos encontrar no «aso fundamental e exem plar de Tobias Barreto. O padrão mestiço existente na socie dade permitiu-lhe “subir” na hierarquia social, vindo a ser professor da Faculdade, condição que no tempo correspondia a um status social de enorme prestígio. Mas teve de haver-se com um mundo de anti patías e reações por conta de seus caracteres somáticos. Donde, ao menos em parte, sua agressividade perm anente. r Intelec-tualmente, dá para se dizer que as duas grandes forças do Recife de então eram a Faculdade de Direito e a Imprensa. Como a de São Paulo, a Faculdade do Recife exerceu função por assim dizer catalizadora, centralizando o prestígio social e cultural num meio urba no bisonho e limitado, como era o das províncias de então, onde aos poucos entravam as vias férreas e os costumes novos. Ser bacharel tinha de ser grande coisa; ser acadêmico já era muito, era ser um personagem . A importação de idéias européias — francesas em maioria, como se sabe — era um processo cultural antigo no país, e vinha desde o período colonial, mas agora era mais intenso, agora era uma notícia mais completa e mais direta a que se tinha dos debates ideológicos e científicos travados na Europa. No Recife, semelhante processo foi dos mais representativos: jornalistas e professores, políticos, padres, militares, bacharéis, toda a intelligentsia local se debruçava sobre os volumes vindos de P aris . Quando Vauthier chegou ao Recife, onde construiria o Teatro e outras edificações inconfundíveis, já encontrou ebulições intelectuais patentes,que talvez lhe tenham parecido con traditórias em relação ao nível global da cultura do povo, e ao aca nhado da mentalidade em term os genéricos. A elite, que Pernam buco até então tivera como portadora de rebeldías e leonismos, existia, ainda, nos anos 60; e àquela a ltu ra a pobreza urbana da cidade e as limitações do ambiente como periferia não impediam que ta l elite estivesse cada vez mais interessada em ismos do velho mundo, como socialismo, romantismo, liberalismo etc. — 16 — Foi quando chegaram Os ismos filosóficos. V inham liderados pelo positivismo e pelo evolucionismo. E logo se revelaram avessos à metafísica, ao direito natural e às tradições (que por si mesmos não se chamariam de “ismos” se não fossem desafiados e espicaçados pelos “ismos” heréticos que chegavam). 2. — A vida cultural no Recife pelos anos 60 e 70 Os anos sessenta e setenta, do século XIX, são o m om ento prepa ratório para a eclosão do movimento que se cham ou Escola do Recife. Foram anos agitados: basta mencionar que ainda soavam polêmicas ligadas à Revolução Praieira de 1848. Mas havia um surto de polê micas novas e novos polemistas. Foi em 1867 que Borges da Fonseca, antigo agitador praieiro, publicou no Recife o seu “M anifesto Político”, com o subtítulo de “Apontamentos de m inha vida política e da vida política do Dr. Urbano Sabino Pessoa de M elo”; em 1862 Antônio Herculano de Souza Bandeira publicara, prefaciando-a, um a im portan te coletânea sobre a reforma eleitoral e a eleição direta; por aqueles anos, o alagoano Melo Morais publicava, no Rio, suas furiosas obras, meio jornalism o-diatribe meio historiografia-denúncia. Foi também o tempo em que, no Recife, Afonso de A lbuquerque Melo editou sua catilinària anti-lusitana: “A liberdade no B rasil — seu nascimento, vida, morte e sepultura” . A revolução praieira, impregnada de doutrinagem européia e de intenções genéricas, não deixou de ser entranhadam ente recifense pelas motivações sociais que carregou (evoque-se a respeito o decisivo estudo do professor Amaro Quintas a respeito). Mas o Recife dos anos 60 e 70 não constava apenas de ressonâncias heróicas nem de permanências polêmicas: era também uma cidade que se alterava aos poucos, se bem num ritmo que hoje, ao nosso pulso histórico sempre acelerado, possa parecer bem lento. Já não era o Recife dos revo lucionários ainda meio coloniais de 1817 ou mesmo de 1824, cidadela bitolada e esconsa: era uma cidade com pretensões novas. As figuras humanas mudavam. Os “gamenhos” que Lopes Gama satirizou, como um Daumier de outra forma (sobre Lopes Gama é impossível ignorar o livre exaustivo do professor Valdemar Valente, publicado em 1969), os gamenhos da prim eira e trêmula floração romântica cediam o passo a novos tipos; esses tipos correspondiam a um começo de classe média urbana, a uma nova fixação antropológica resultante de nova fase da miscigenação, e a uma nova mentalidade social. Ao falar em tipos humanos e em mentalidade social, temos for- çosamente de retom ar o tema do bacharel. Dito foi, acima, que o — 17 — bacharel e ra um personagem: dava-se ares, assumia um papel espe cífico, e com um pouco de desenho a crítica histórica acabou por pregar-lhe sentido caricato. O certo é que tal crítica já vinha sendo feita no século passado mesmo, e que a antipatia posterior contribuiu para criar, sobre um equívoco, um pesado preconceito terminológico. Bacharéis fo ram os que deram passos decisivos na nossa história, pen saram coisas novas, fizeram levantes. Bacharéis fizeram a Escola de Recife — precisamente um movimento de bacharéis. Bacharelismo (o ismo como afocinhamento na fisionomia da palavra com fins nega tivos) já é ou tra coisa, e se existiu com os bacharéis de direito naque le tempo, e a té bem pouco, existe hoje com outras áreas profissionais. Essa afirm atividade da “intervenção dos juristas” foi por sinal, há pouco, oportunam ente sublinhada por Luís Delgado num dos me lhores capítulos de seu livro “Gestos e Vozes de Pernam buco”. Eram os formados pelas academias de direito que iam — m ostra ele — lidar com os problemas novos e urgentes da vida real do país, desde a independência, e orientar sua vida institucional da maneira mais equilibrada. Se o Recife, por aqueles anos, era uma cidade com pretensões novas, isto não pode ser descrito como um processo evolutivo tran quilo e pacífico. As novas atitudes, sobretudo as intelectuais e aca dêmicas, se topavam com resistências e reações, de um a maneira que talvez possa ser atingida pela expressão ambígua “conflito de gerações” . Os representantes do tomismo ou do catolicismo, guardando o hábito metodológico da escolástica e o critério doutrinário da metafísica, não podiam aceitar novidades inquietantes, e é natural que os pregoeiros destas novidades se sentissem como juventude e criatividade em face de idéias velhas e gente repetidora. Antônio Paim , evocando a origem da Escola de Recife, menciona a Questão Coimbra, que por volta de 1865 tinha revelado o estupendo poderio especulativo de Antero, atirando-se sobre Castilho, ou antes, sobre o que Castilho representava como coisa arcaica. Fonte e mode lo para os Anteros locais, ou não, o movimento português serve como comparação. Também houve, na insurreição literária representada pelo movimento de Tobias Barreto, uma dimensão de lu ta de gerações. E com isto não se tira o mérito dos que a Escola combateu: sem dúvida que se tratava de professores idôneos. O que se tem a con siderar é o cará ter de novidade, como elemento decisivo, que Tobias e seus sequazes anunciavam no que defendiam. Argum ento insufi ciente, mas psicologicamente forte, e, para o tempo, compreensível: nossas idéias são boas porque são novas, as dos nossos detratores — 18 — 0 ruins porque são velhas. Um socratismo estranho e tosco se icontrava no âmago das pretensiosidades erudicionais de Tobias e lvio Romero: pretendiam saber mais que os adversários, e se sabiam ais, estavam mais certos, pois que enquanto se sabe menos, se conhe- ■ menos a verdade. Restava perguntar qual a medida para contar 1 saberes. Para eles, a medida estaria justam ente na novidade dos yros e dos autores que aduziam, como pour épater e como uma ¡plica, também estranha e tosca, do clássico argum ento de autoridade, uanto mais nova uma idéia, melhor; e quanto mais autores a este- im adotando, melhor. Este critério, a té certo ponto, vigorou como ¡ndência psicológica central no grupo de Tobias. Por isso se cita ;mpre a frase de Sílvio Romero, que, aludindo às origens da cam- anha intelectual do fundador da Escola, dizia que “um bando de léias novas” tinha começado a esvoaçar no horizonte. A Escola de ecife (nome que começa a circular por conta de Sílvio Romero) retendia-se iniciadora, em verdade, do autêntico sopro de vida cul- jra l em Pernambuco. Exagero patente. E um pouco exagero de )vens. . — A figura de Tobias Barreto e a constituição de uma “Escola” . A figura de Tobias Barreto ficou sendo, em relação à Escola do tecife, não apenas centro e ponto de partida, como também modelo, xemplo de estilo intelectual, multiplicidade de conhecimentos, ten encia polêmica, pretensão literária. Com respeito a ele é difícil descartar o biográfico, não só porque ua obra se acha toda marcada pelo circunstancial, como porque a magem que a historiografia habitualmente faz dele está sempre vin- ulada ao biográfico. Nascido em 1839, em Sergipe (numa vilazinha chamada Campos), íerdou do pai as características físicas do mestiço e certas inclinações joêmias e estouvadas. Estudou por lá as chamadas primeiras letras, endo estado inclusive em Lagarto (terra de Sílvio Romero). Apren- leu latim, o que, como observou Hermes Lima, o nivelava de certo nodo aos filhos de ricos, ele que vinha de um paiescrivão de cartó rio, pobre e modesto. Jovem ainda, tocou flauta em charangas locais, asando cabeleira enorme e compondo versos. Jam ais deixou o gosto pelas diversões, pelo violão, pelas mulheres. Saiu de Sergipe para a Bahia à procura de um meio mais condizente com suas virtualidades. Em 1861 foi para a Bahia. Teve atropelos iniciais. Estudou filosofia, inclusive assistindo aulas do célebre Frei Itaparica, mas sobretudo mergulhando na Biblioteca Pública. Ali conheceu inclusive as obras de Victor Hugo, que a ele, como a Castro Alves, influenciariam de form a profunda. Hermes Lima, no magnífico livro que dedica ao estudo de Tobias Barreto, assim se refere às suas leituras na Biblio teca Pública baiana: “Ali passava o m elhor do seu tempo, lendo os românticos, deslumbrando-se com Victor Hugo, que é, verdadeiramen te, a sua grande, a sua máxima descoberta na Bahia. Pela voz do poeta, o rapaz humilde e sonhador do sertão de Sergipe entra a participar do drama do mundo, dos seus anseios, da sua inquietação” . Voltou a Campos numa crise de vida, e dali resolveu dar o g ran de passo, ir para o Recife. Sofreu outros contratempos iniciais, inclu sive alguns grotescos (como o coice de um burro que os autores sem pre relembram, e que o pegou bru ta lm en te). Fez um concurso de latim para o Ginásio Pernambucano, perdendo-o; fez outro de F ilo sofia, que venceu, mas viu nomeado outro candidato. Ainda desco nhecido e desamparado, essas adversidades, preparam -lhe o acervo de ressentimentos e queixas que nunca deixariam de m anifestar-se pelo resto de sua vida. Como aliás aconteceria com outros mestiços de nossa história literária, qual foi o caso, menos ostensivo, de Machado de Assis, ou o caso, mais ostensivo e mais amargo, de Lima B arreto . Na Faculdade de Direito, como acadêmico, formou aos poucos, entretanto, um grupo de amigos e admiradores, conquistando um nome conceituado e um prestígio intelectual considerável. Prestígio in icial mente de poeta, obtido nas disputas com Castro Alves, nas declam a- ções típicas da época, na luta lírica em torno de atrizes de T eatro . Várias oportunidades de aparecimento social se apresentavam aos e-stu- dantes naquela sociedade que aos poucos adquiria hábitos novos, e em que as festas acompanhadas a piano incluíam recitativos rom ân ticos. Sua rivalidade com Castro Alves, talvez acentuada demais pelos zelos bairristas de Sílvio Romero em sua “H istória da L ite ra tu ra Brasileira”, não teria talvez passado de episódio momentâneo. N a verdade, Castro Alves sempre foi basicamente poeta, e muito m ais poeta que Tobias, inquestionavelmente. Tobias, porém, utilizando uma experiência maior em termos de existência e de estudos, conse guia enfrentar a parada. E para ele aquilo e ra um a grande opo rtu nidade, no sentido de fazer-se aceitar pela sociedade — a ele m estiço e pobre —, de se fazer adm irar e impor. De seu s concursos, e o u tra s tentativas específicamente intelectuais, Tobias posterio rm ente faria u m juízo zombeteiro, chegando a dizer, em estudo contido depois no volume “Filosofia e Crítica”, que não sabia m esm o Filosofia quando concorreu, como o seu oponente tam bém não sabia. Mas destas lutas lítero-sociais não fez juízo negativo: ele sabia que eram o seu cam i nho, p ara subir na província. N em sempre, entretanto, teve êxito na escalada. Teve inclusive fracassos sentimentais, que lhe doíam como provenientes de sua infe rioridade social. Destes desastres, curava-se pelo tem peram ento comu nicativo e por uma certa leviandade, mesmo, que o impedia de se concentrar todo tempo numa pessoa, como num a teoria ou numa m a téria . T inha um jeitão transbordante e falastrão, que com o tempo se tornou desinibição total. Não era um tímido, como o são geral mente os ressentidos; aproveitava toda ocasião de aparecer, falar, ser ouvido, te r êxito. Tanto apreciava a conversa chã e as anedotas prosaicas, como a discussão erud ita . Conseguia passar da concentra ção paciente debruçada em cima dos clássicos e dos grossos tomos alemães e franceses, para o cavaco informal, o “papo” inconseqüente e a in triga política. Adorava fazer discursos: destemperado, exage rado, sem o aplomb de um Nabuco nem as correções de tantos outros, mas eficiente e persuasivo: homem do povo, alimentado de conheci mentos europeus, voltado de novo para o povo. Tornou-se membro do partido liberal. Mas suas convicções polí ticas nunca foram muito claras. Conservou hábitos desorganizados por toda a vida: Luiz W ashington Vita, em sua notável síntese “Pano ram a da Filosofia no Brasil”, m ostra-o em bailes e serestas, com pouco apreço pelas coisas práticas e até mesmo pela higiene. Conser vava também o hábito da polêmica. Sempre se cita sua polêmica contra o conselheiro Autran, representativo da velha guarda dos pro fessores de direito, conservador, católico, jus-naturalista, bien-pensant. No volum e “Polêmicas”, das obras de Tobias Barreto, inclui-se a famosa “Crônica dos disparatos”, onde dirigiu a Autran os versos seguintes: Mote: Fradecos, tocai o sino Que o Católico m orreu. Glosa: Um velho feito menino por força de caduquice, Quiz lutar — oh que sandice! Fradecos, tocai o sino Não julgueis que é desatino Taxá-lo assim de sandeu. Se em discussões se meteu, 21 — Para tornar uma sóva Carolas, abri-lhe a cóva, Que o católico morreu. Tal é na terra o destino Das ciencias passageiras: morreu vomitando asneiras... Fradecos, tocai o sino! Não teve auxílio divino Nem a Suma lhe valeu. Como é que assim se perdeu Tão sábio guia das almas? Quem for ímpio, bata palmas, Que o Católico m orreu. O “Católico” era o jornal onde Pedro A utran escrevia (Tobias replicava no “Americano”) . As ciências passageiras mencionadas na segunda estrofe aludem evidentem ente à teologia e à metafísica, e mostram um Tobias ainda meio positivista, pois segundo a Lei dos Três Estados, de Comte, a teologia foi substituída pela metafísica, e esta pelas ciências positivas. Note-se ainda a referência à Suma — seguramente a “Suma Teológica” de Tomás de Aquino. Concluído o curso de D ireito, Tobias Barreto, como todos sabem, vai ser promotor em Escada, in terior de Pernam buco. Ia-se em bre nhar, não apenas na distância geográfica, como na concentração da leitura. Conta-se que antes de v ia jar comprou por acaso, numa liv ra ria da rua do Imperador, um dicionário de alem ão. Diz Luiz W ashi ngton Vita que aquela visita à liv raria foi uma “visita histórica”, pois dali dataram suas “núpcias com o germanismo” . Realmente, núpcias férteis. Este germanismo seria, daí por diante, a g ran d e constante, senão mesmo a grande alegação in telectual de sua v ida de pensador. Em Escada redige um jo rn a l em alemão, o Deutscher Kampfei (“Lutador Alemão” ), que pouca gente te rá lido, incluindo-se os a le mães da Alemanha para os q uais o rem etia, e incluindo-se o pròprie Haeckel, que, ao que consta, te r ia um d ia elogiado sua redação en língua tedesca. — 22 — De certa form a, o jornal alem ão marcava o início da formação ca Escola. In telectuais do sul, à frente* Carlos de Laet, chamariam depois o grupo de “escola tcu to-serg ipana”, sublinhando nom inalm en te a dcsi^roporção entre o elem ento alemão e o elemento sergipano. Tobias e seu grupo redarguiriam designando o grupo de Laet (que nem era um a escola, e não o p retend ia) como escola galo-fluminense. Nesta designação, ia o intento de apontar a limitação dos intelectuais da corte, apenas lidos nos franceses, e isto traduzia um duplo precon ceito de Tobias: o preconceito segundo o qual a verdadeira cultura citava na A lem anha (“não tendo deixado sucursal na F rança”), e o preconceito nortista contra os intelectuais do Sul, no caso tidos como folgados e avessosaos estudos pesados. A famosa frase de A raripe Júnior, segundo o qual Tobias, lan çando pela prim eira vez en tre nós os nomes de Darwin e Haeckel, “lançava as prim eiras tarrafadas na pesca dos prosélitos”, ficou como uma imagem definitiva: era uma ascendência ímpar, a que Tobias Barreto conquistava aos poucos, e indubitavelmente mantinha, dentro do meio culto rccifense; senão mesmo, já que o Recife era o centro da região, dentro da cultura nordestina. Isto através da Faculdade de Direito. Na verdade, só depois de tornado professor da Faculdade é que :u a atuação, já fru tífera e exemplar, se projetou em chefia de escola e em proselitismo definido e caracterizado. Para Antônio Paim, passou a Escola do Recife por quatro fases. Teria sido, a prim eira, um esforço genérico de renovar idéias, rejei tando a metafísica, o ecletismo e a escolástica. Tal fase iria mais ou menos de 1860 a 1875. A segunda fase, segundo Paim, teria tido início quando — já Tobias intelectual conceituado — Sílvio Romero, no conhecido incidente acadêmico da defesa de tese, gritou e debla- terou que a metafísica estava morta, afirmação que provocaria inda gações no próprio Tobias. Esta segunda fase tem outra marca da presença de Sílvio Romero: a publicação (1878) de seu livro “A Filo sofia no Brasil”, imaturo e desigual mas expressivo e válido. A ter ceira iria de meados da década de 80 aos primeiros anos do século XX: Tobias m orre aos 50 anos em 1889; refundem-se os fundamentos doutrinários; os arrancos polêmicos iniciais se mudam em desdobra mentos temáticos, incluindo-se cada vez mais o ângulo sociológico na consideração dos problemas. A chamada quarta fase seria a dos brilhos finais, onde as discussões filosóficas já pouco contavam. Deixa de circular a revista Cultura Acadêmica, que se divulgara em 1905 e 1906. O ano 1914, com a morte de Silvio Romero, balizaria o fim da trajetória da Escola. Talvez seja esm iuçar demais a existência da Escola, dividir seu ciclo vital em quatro fases; de certa forma, o que ela teve mesmo, como de resto todo movimento intelectual aqui ou no velho mundo, foi um período de formação, um de apogeu e outro de declínio. Todavia podemos aceitar em parte o esquema proposto por Paim . De qualquer sorte, um momento decisivo na caracterização inicial da Escola, no sentido de uma definição interior de sua doutrina foi o abandono, por Tobias Barreto, do positivismo (ou da parte do posi tivismo que viera aceitando) e sua adesão gradativa ao haeckelismo. É verdade que antes tinha feito a crítica do espiritualismo francês de Royer-Collard, de Jouffroy, de Guizot e de Cousin, em diversos estu ; dos, e tinha também combatido o teologismo e o tomismo. Sejam lembrados os estudos “A propósito de uma teoria de São Tomás de Aquino” (1868, incluindo nos Estudos Alemães e depois posto no tomo III das Obras Completas editadas pelo governo de Sergipe em 1926) e “Teologia e Teodicéia não são ciências” (1868), abrigado no tomo II das Obras Completas. Mas com o artigo sobre o “H aecke lismo em Zoologia” (1880), que comentava a obra homônima de C arl Semper, Tobias colocava Haeckel no cimo mais alto da in telectuali dade, como um sábio inconteste e incontestável, cujas idéias faziam parte do que de mais sólido e mais definitivo existe ou pode existir no patrimônio da filosofia e da ciência. O culto a Haeckel se con funde, nas páginas de Tobias e em suas entrelinhas, com o culto à própria superioridade cultural alemã. Com ambas as coisas se con funde, de certa forma, o culto ao monismo e a uma certa concepção cientificista da filosofia, que não deixava de ser também uma con cepção filosofante da ciência e do trabalho científico. Antônio Paim considera que a rejeição do positivismo por Tobias resultou da procura de uma solução para um problema fundam ental com que ele se debatia desde o contacto inicial com as idéias de Comte: o problema dos limites em que se poderia aceitar a m etafí sica, retirando-se-lhe desde logo o fam igerado problema da “causs p rim eira” . Isto nos põe na pista das dúvidas e críticas feitas ao: autores franceses; e explica que diante do brado destambocado d< Silvio Romero sobre a morte da metafísica, Tobias se pusesse a pen sar m elhor no assunto. Tanto que, em 1875, escreveu o texto “Dev< a metafísica ser considerada morta?” , publicando-o no seu jo rn a — 24 — eutscher Kampfer. O texto é hesitante: arrasa a metafísica tradi- onal, atribuí a Hume e a Kant a sua destruição, mas também criti ca a ingenuidade dos que falam da metafísica sem conhecê-la. Por sinal, que situar certos pontos do pensamento de Tobias sem- re é algo difícil. Se Sílvio Romero praticou a instabilidade quase amo uma profissão de fé, dizendo-se ora isto e ora aquilo, Tobias iarreto, de modo visível, tinha também certa heterogeneidade, ou ntes, certas hesitações no tocante às convicções. O que era, na rea- dade, uma forma de ser eclético, embora o ecletismo fosse expres amente repelido pela Escola, como hoje repelem a própria idéia de cletismo vários críticos que malgré tout fazem seus ecletismos também. A propósito de política, por exemplo, Tobias Barreto sempre hesi- ou. Segundo Sílvio Romero, Tobias escreveu certa vez: “Não sou, íão posso ser conservador e isto por índole. Liberal, não sei se sou; 10 menos entre nós os liberais me repelem, e eu de minha parte os icho sofrivelmente ridículos, desde os chefes que comprometem o p a r ido, até qualquer desses desfrutáveis quarentacoitistas que têm na >arede o retrato de Nunes Machado abaixo do registro de N . S . da Penha, sem falar no resto” . E dizia mais, ainda segundo o testem unho de Silvio Romero: ‘O que eu sou, pois? Talvez uma dessas naturezas problemáticas, a :juem nada contenta, senão desmontar todas as peças dos velhos p re conceitos e por tudo em questão; nunca e nunca, porém, um evangelist of waste, na frase de Buchanan” . Dizia-se liberal (e filiou-se ao partido) e criticava os liberais. Suas instabilidades doutrinárias, que ele urna vez (em frase um tanto leviana) comparou às próprias sentimentais, sempre foram um a cons tante sua, embora, repita-se, não tão desconcertantemente como as de Sílvio Romero. As vicissitudes de sua vida marcaram o evolver de seu pensa mento: escrevendo sobre coisas seríssimas em periódicos efêmeros, conciliando estudos profundos com hábitos boêmios, enfurnando-se em Escada para escrever em alemão, sempre deixou que o bias subjetivo de sua auto-imagem afetasse o crescimento interior de seu pensa m ento. E nisto, como modelo, iria influir sobre os outros da escola, discípulos e continuadores, particularm ente sobre Sílvio Romero, que, — 25 — se bem homem de hábitos pessoais muito diferentes, conservou sem- pre o eriçado polêmico em tudo o que escrevia, bem como a sempre disponível dimensão pessoal por dentro das idéias. Em ambos, a abertura às idéias e às teorias as mais diversas (que aliás se facili tava pelo convite ao enciclopedismo, próprio da época) foi algo fecun do: cada um dos dois praticou a seu modo a regra “je prends mon bien où je le trouve” . CAPÍTULO II COMPOSIÇÃO DA ESCOLA: INTEGRANTES E ASPECTOS 1. — Os componentes da Escola, desde o tempo de Tobias Barreto até a morte de Sílvio Romero. 8 1 — Vista geral Uma das coisas que fazem falta ao leitor, nas exposições sobre a Escola do Recife, é um quadro mais ou menos claro da seriação de nomes que a integraram, bem como (o que foi mencionado atrás) das posições que cada um ocupou. Na verdade, uns têm colocação central, estão na linha principal dos temas e das inclinações da Esco la; outros, sem que isto signifique maior ou menor “importância” de sua parte em relação aos primeiros, estão na periferia da atuação do grupo. A Escola do Recife, se a consideramos como tendo durado dos anos60 do século XIX até pelo menos a segunda década do nosso século, atravessou sessenta anos, o que significa duas gerações. Gera ções, porém, não são demarcações cronológicas fáceis de situar; sem pre há restos de gerações anteriores convivendo com gerações em ascensão, de modo que, efetivamente, a Escola correspondeu a umas três gerações: a de Tobias, nascido em 1839 e começando a publicar seus trabalhos no fim dos anos 60; a de Sílvio Romero, apenas doze anos mais moço, mas com vida mais longa e mais variada evolução; a que atua depois de 1890 e chega às primeiras décadas do século vinte. Foi Sílvio Romero que deu o nome de “Escola do Recife” ao grupo, ele, que sempre se disse mais companheiro do que discípulo de Tobias, era no fundo um influenciado por Tobias. O fascínio de Tobias sobre a mocidade da Academia era realmente avassalador: le representava a irreverencia dentro de uma sociedade estática, epresenta a novidade, o ruido polémico, a extroversão e a espon- aneidade. H erm es Lima frisou o encanto que aquele hom em tão pouco esté- ico exerceu sobre os jovens. “A mocidade — diz ele — adorava-o. Ela só lhe descobria vir- udes: o arrojado e o moderno das concepções, a irreverência do saber, i capacidade de demolir, a liberdade de dizer o q u e bem entendia e i flam a capaz de comunicar a outrem o próprio entusiasm o. Tinha im riso largo, sacudido, uma voz sonora e nuançada, uma simplici- lade ex trem a de m aneiras. Na livraria do Q uintas, à Rua Nova, lepois do meio-dia, era certo encontrá-lo na sua cadeira, o braço ¡squerdo apoiado no balcão, cercado de ouvintes. Aquecido e esti pulado pela simpatia e admiração da roda, deslum brava com o seu aber, seu espírito não afeito às convenções, sua jovialidade” . Realmente, esta jovialidade de Tobias Barreto foi em grande parte ;eu condão para seduzir as classes na Faculdade, os leitores em geral ; as pessoas no convívio. Naquele tempo, aliás, as obrigações de professor não eram absorventes: ser lente da Faculdade significava »anhar razoavelmente, te r um prestígio social enorme e um número le horas de ócio bastante para realmente estudar e produzir — tão liversam ente da situação de hoje, quando aos professores se impõem rada vez mais aulas, ficando o tempo restante para a leitura e a Desquisa simplesmente nulo. Sílvio Romero, portanto, como dizíamos, representou em verdade ím seguidor, um continuador, embora o mais privilegiado, o mais •epresentativo, o mais especial de todos, pois era um contemporâneo le Tobias, um companheiro das primeiras lutas, e, se não foi o fun- iador da Escola, foi seu padrinho, pois lhe deu o nome. O Recife, por aqueles tempos, crescia na pachorra desordenada e enta de cidade já cheia de problemas, com ruas estreitas, carroças le bois pelas ruas, dois ou três centros de atração (entre os quais d Teatro Santa Isabel). A diversão dos estudantes consistia nos saraus, ias farras, nos bailes, nas pequenas intrigas, nos grandes sonhos. ^ aparição das estradas de ferro no Brasil, dando a certas cidades üsionomia nova, correspondeu no Recife ao domínio da Great Western, nas nem tudo mudava — ou eram mudanças muito lentas para nossos olhos hoje tão acostumados a alterações céleres —, nem tudo m udava no ambiente urbano pequeno e singelo. § 2 — Componentes iniciais: primeiro, Tobias Barreto. Evolução Geral Cremos que se pode dizer, a Escola inicialmente foi o mero con vívio de Tobias Barreto e Sílvio Romero, embora a caracterização efetiva só viesse quando a influência de Tobias “transbordasse” sobre outros, e quando as lealdades pessoais de Sílvio tingissem de cores ásperas as suas críticas e seus destemperos contra inimigos adqu iri dos em comum, numa espécie de definitivo condomínio polêmico que os uniu toda a vida, nos ganhos e nas perdas, e que prosseguiu depois mesmo da morte do m estre. O rol de integrantes da Escola é longo, e deve ser entendido em termos, já que houve adesões de diferentes graus. Clóvis Beviláqua, no capítulo VII da segunda parte de sua História da Faculdade de Direito, menciona, como “discípulos imediatos”, os seguintes nomes: A rtur Orlando, Gumercindo Bessa, Martins Júnior, Adelino Filho, Fausto Cardoso, Urbano Santos, Benedito Leite, Francisco José de Viveiros Castro, Phaelante da Câmara, Oliveira Teiles, Graça Aranha, Anísio de Abreu, João Freitas, Hygino Cunha, César do Rego M on teiro, Prado Sampaio, Nobre de Lacerda, Virgílio de Sá Pereira, A be lardo Lobo. E acrescenta reticente: “e muitos outros” . São, como se vé, nomes de projeções diferentes, alguns caídos hoje no esquecimento. Naqueles dias, porém, uniu-os a efervescência dos entusiasmos intelectuais, e todos, encascados em seus palitos escu ros e na gravidade bigoduda que o padrão social pedia aos bacharéis, viam nas idéias de Tobias Barreto o grande exem plo, a grande m oti vação do saber e do pensar. Mas retornemos a Tobias. Clóvis Beviláqua, historiando a evolução do pensamento na Facul dade, atribui a Tobias um período inicial, espiritualista, vinculado às idéias de Guizot e outros escritores franceses, e logo depois um perío do positivista. Este teria começado com o famoso artigo “Teologia e Teodicéia não são ciências” (1868), onde havia algo de L ittré , bem como com o pequeno ensaio “Moisés e Laplace”, que aproveitava hábil e im agi- osamente a lei dos trds estados no tocante ao advento do mono- ìismo hebraico. Vem desta época, por sinai, o apego de Tobias arre to a Vacherot, pensador filosòfico e político muito típico daquela ise do esplritualismo francês, com toques de positivismo e de ecle- ismo. Tobias Barreto, detendo-se pouco no positivismo, passa ao haecke- ismo. Para o autor da História da Faculdade de Direito, a influén- ia de Comte teria sido, sobre Tobias, m enor do que a de um Cousin, m Vacherot, um Jouffroy, um Scherer. É aliás curioso notar que, auitas vezes, Tobias não se apegava tan to a um autor de maior aonta, deixando-se empolgar por divulgadores menores. Isto se pas- a, um pouco, com o fato a que alude a observação de Clóvis; passa-se, nais ainda e estranham ente até com o apego de Tobias às obras de ..udwig Noirè, simples divulgador de Haeckel, a cujas obras, mais iue às deste, se atinha e se referia quando de suas andanças pelo nonismo. Àquela altura, Tobias Barreto assimilara os conteúdos mais subs- anciosos da literatura filosófica francesa (Renan, Jules Simon, /achero t etc. e tc .) e se iniciava na alem ã. Sua conversão ao ger- nanism o não é apenas um fato explicável em termos sistemáticos ou lilosóficos. Explica-se em termos psicológicos. Adesão ao germanis- no e c-onversão ao monismo ou ao haeckelismo foram em sua traje- ória coisas conjuntas: para um homem como Tobias, aprender alemão :inha de parecer proeza pessoal definitiva; fam iliarizar-se com a lín gua alemã devia significar passar-se para as tendências alemãs. E ocorreu que o pensamento de Haeckel era pouco conhecido no Brasil; ser adepta do Haeckel era um modo de ser diferente, algo muito importante para um m ulato necessitado de afirmação e de imparidade. Renunciar ao positivismo era uma sacudidela de independência, era um gesto de recusa às disciplinas religiosas, gregarizantes e “ecle siásticas” do positivismo. O que, no sistema de Haeckel, havia de religioso, bastava para as tendências de eclético sui generis que ele sempre foi, um eclético muito barulhento e muito pouco conciliador nas atitudes externas. No sistema de Haeckel, não só havia muita clareza e m uita ordem expositiva (e até talvez uma certa superficia lidade fácil, segunco certos autores), como também muito ressumar de cientismo, o típico cientismo do século X IX . Acompanhando Haec kel, e com ele outros autores alemães, Tobias estava além disso acom panhando uma outra disciplina, que nãoa gregarizante e ritualizante do positivismo: a d.sciplina germânica do saber, consagrada como dis ciplina acadêmica e representada nas glórias universitárias alemãs. — 29 — Que justo prêmio — diga-se de passagem — não teria sido para Tobias te r podido ir à Alemanha (aonde só foi através da euforia gráfica de seu jornal de Escada), ter visitado as instituições e os sábios que venerava e aplaudia, daqui, vassalo orgulhoso e desconhecido. Na trajetória literária de Tobias, é m arcante o ponto correspon dente à polêmica contra o professor Pedro Autran, que ficou cha mada de “Crônica dos Disparates”, título inventado pelo próprio Autran ao referir-se a um artigo de Tobias. Esta polêmica foi muito valorizada por Clóvis Beviláqua, como representativa de um instante decisivo na evolução da Faculdade de Direito. Significava a oposição contra o tomismo e a escolástica, por p arte de um estudioso novo e inquieto. De um estudioso, acrescentaríamos, em quem o incandes cente das pretensões ia às vezes além das conveniências, mas geral mente traduzia uma necessidade imperiosa de auto-afirmação e um auto-conhecimento sempre instintivamente seguro. Caracteriscas intelectuais Falastrão e enciclopédico, Tobias Barreto personificou e encerrou o líder intelectual de província destinado a impressionar fundam ente em tempos como aquele. Sabia várias línguas incluindo o distan ciador alemão; conhecia m atéria religiosa, filosofia, história, direito, literatura, música, e mais coisas.. O enciclopedismo de “O Progres so”, de Antônio Pedro Figueiredo, que tempos antes discutia, no Reci fe, política, economia, filosofia, história, repetia-se agora com mais estridência e mais eficácia, trazendo citações germânicas, nomes mais arrevezados e sobretudo um a agressividade insólita. O ideal do saber, Tobias já o expressara no final do seu artigo ainda estudantil “Teo logia e Teodicóia não são ciências”, encerrando-o com a frase, modes ta mas taxativa e desafiadora: “Meu fito é saber, nada mais” . Esse ide-al do saber fazia-o referir-se aos sábios europeus com ênfases sintomáticas; de Haeckel e de outros alemães dizia “sábios reconhecidos, consagrados pela crítica”, etc. Per volta de 1881, regressando de Escada para o Recife, Tobias consuma a sua virada dou trinária . Já siderado pelos rovos au to res alemães, mas ainda agarrado a K ant e a Schopenhauer, bem como a Eduard von Hartmann, au to r de um a interpretação especial de K ant, - 3 0 - vai o futuro chefe da Escola voltando-se para a solução monistica, através das obras do pròprio Haeckel, das do zoòlogo Sem per e das de Noiré. O evolucionismo spenceriano com eçava também a ser conhecido. Consta que o artigo “Palestra científica” de Jerónimo Muniz, publi cado na Autoridade em 1875, foi um dos passos iniciais da divulgação da obra de Spencer no Recife. Do mesmo modo começava-se a le r Taine, cuja fórm ula “raça, meio e momento” seria aliás, de certa forma, adotada por Sílvio Romero no em basamento de sua H istória da Literatura Brasileira. Também os livros dos materialistas alem ães começam a conhecer-se, sobretudo por via das traduções francesas: Büchner, Vogt, Molleschot. Como estudiosos que começam a despontar no Recife, dentro desta área, citam-se — além dos que já foram mencionados — Barros Pimentel, Marcos de Souza, Aitino de A raújo, Aníbal Falcão, Meira e Sá, Muniz Freire, Afonso Cláudio, Leovigildo Filgueiras, Gii Amora, Amazonas de Almeida, Pedro de Queiroz, Clodoaldo de F reitas. Em 1882 Tobias faz o seu concurso para professor da Faculdade. Esta existia ainda no antigo e antiquado prédio da rua do Hospício, imponente mas insuficiente para o m om ento. Apresentou um estudo sobre “A extensão da idéia de mandato, de que trata o artigo quatro do Código C rim inal” . A fonte geralm ente utilizada para conheci mento do concurso é, ainda hoje, a carta em que Gumercindo Bessa, futuro componente da Escola, o descreve pormenorizada e impressio- nadamente a um amigo (carta incluída no tomo VII das Obras de Tobias publicadas pelo Governo de Sergipe). • V I . • * ' ■ Á * < ' v *—. «(>. » Tobias jurista Com a alusão ao concurso de Tobias para a Faculdade de Direito, cabe acentuar que somente após diversas incursões em estudos filo sóficos, e amplas contribuições à crítica de idéias em geral, é que Tobias Barreto efetivam ente se atirou aos estudos jurídicos. É certo que escreveu sobre direito antes do concurso, mas os estudos filosó ficos vieram antes, e disso beneficiou-se a solidez e a clarividência crítica com que viu a problemática jurídica, jamais se perdendo em questiúnculas m iúdas demais nem perdendo de vista a relação entre as questões positivas e as linhas de fundo da história e dos princípios — 31 — Para Machado Neto, são quatro, basicamente, os textos de Tobias Barreto sobre tem as de teoria do direito . São textos breves. Prim ei ro, o célebre ensaio “Sobre uma intuição do direito” (1881). Segundo, a prova escrita do concurso para a Faculdade, sobre a pergunta: Conforma-se com os princípios da ciência social a doutrina dos direi tos naturais e originários do homem?” . Terceiro, o discurso de para ninfo denominado “Idéia do Direito” . Quarto, o escrito intitulado “Introdução ao Estudo do Direito” (1887-1888). Entretanto, acrescentaríamos tam bém o conteúdo do estudo “Juris prudência da vida diária”, que é um comentário à margem do livro homônimo de Ihering . Foi publicado inicialmente no Recife em 1878, e depois, com alterações, no Rio em 1879, sendo incluído nas Questões Vigentes. Tal artigo é representativo porque, desde logo, exemplifica o hábito de Tobias de bordar glosas a obras alemãs (sobretudo ale mãs, depois de certa fase), como atitude de divulgação e, ao mesmo tempo, de repensam ento. Também porque Ihering ficou como uma das fixações do Tobias jurista. Se — como A rtur Orlando enfatiza, ao prefaciar o volum e das Questões Vigentes — a “Nova Intuição do Direito” representou a concepção de Darwin e de Haeckel aplicada ao Direito, Tobias viu em Ihering e no específico finalismo de suas idéias uma versão jurídica do darwinismo, filtrada e burilada. De qualquer sorte, Tobias jamais procurou adaptar-se aos padrões referentes ao “ju ris ta” como sabedor de leis e conhecedor de fontes. Antes procurou impor, à problemática jurídica, o enfoque das concep ções que adotava. Por sinal, toda a Escola do Recife foi de juristas. A tentação dos estudos jurídicos em relação aos seus integrantes se explica, não apenas pelo “Bacharelismo” que tivesse sido dominante no tempo, entre nós, mas também pelo fato de que na própria Europa do século XIX os grandes problemas das ciências hum anas estiveram marcadamente ligados aos estudos jurídicos: assim se deu com o pensamento histórico, com o etnográfico e com o sociológico. Naqueles anos, a problemática do D ireito Natural, que na Euro pa tinha sido recolocada pelas críticas dos historicistas rom ân ticos, parecia ainda carecente de diária e renovada discussão. O ata que de Tobias ao jusnaturalism o, com a idéia de que o D ireito “não é um filho do céu”, e sim um produto da história hum ana, agradou aos prosélitos como irreverência e convenceu como argumentação: era uma novidade viável considerar as coisas humanas como obra da seleção n a tu ra l. Pra ele, sempre aguilhoado por sua equação pessoal e suas velhas mágoas, era um prazer sempre novo desm antelar idéias tradicionais». — 32 — 'ílho, como dizia, da “fulgurante plebe”, e ra estim ulante atacar os elhos odres cervantescos que representavam o assentado, o reconhe- ido pela sociedade de então. Tam bém do ano de 1881 (como a “Nova Intuição” ) é o estudo Fundam entos do Direito de Punir”, que m arca as inclinações pena- istas e crim inalistas de Tobias. Tobiase a sociologia Dos escritos de Tobias, convém ainda dar destaque ao seu estudo aparentem ente descolocado e equivocado sobre a sociologia. Seu títu lo, m uito típico, “Glosas heterodoxas a um dos motes do dia ou variações anti-sociológicas”, sua frase inicial cortante e negativa (“eu não creio na existência de uma ciência social” ), realm ente mostram um Tobias azedo e im pertinente, chateado com algo e disposto a negar coisas. Entretanto, o estudo, em prim eiro lugar, se dirige antes à concepção comteana da sociologia, ou a um aspecto dela, do que à idéia mesma da ciência social. Em segundo lugar, o estudo contras ta com a “vocação” de sociólogo que Tobias Barreto sempre teve: seu realismo social, manifestado aliás em diversos estudos, inclusive nos que escreveu sobre problemas locais ou nacionais. O estudo em causa diz, talhadamente: “A sociologia é apenas o nome de uma aspiração tão elevada, quão pouco realizável” . A sociolo gia seria apenas um “postulado do coração”, querendo encontrar leis na sociedade hum ana como nos organismos. E o estudo dos fenôme nos sociais, considerados como totalidade e unificados num só sistema científico, resultaria numa “estupenda pantosofia” . Na verdade, eram de certo modo os argumentos de Von den Stein (e os que Dilthey posteriormente retom aria em parte) contra a con cepção da vasta ciência social abarcadora de todos os conhecimentos referentes ao humano. Havia um lado salutar naquela recusa de leis para os fenômenos sociais. Não se pense porém que Tobias se insurgia contra elas por causa de uma rejeição coerente do mecanismo que a idéia de leis sociais implica. Recusava-as por conta de um preconceito natura lista, provindo de seu monismo já enraizado: ele queria que os soció logos apresentassem “resultados” positivos e não meras “frases” . Discutindo, ainda no mesmo estudo, o “Problema da liberdade” ele diz que esta “não se deixa explicar mecanicamente”, mas é um fato da ordem natural. Neste ensaio entram considerações de índole cultural, antecipadoras e pioneiras em nossa cultura (dai o professor Miguel Reale ter falado no “culturalismo da Escola do Recife”), quan do, por exemplo, diz ser “a sociedade o grande aparato da cultura humana”, feito de uma teia de normas. Distinguindo entre cultura (ou sociedade) e natureza, com uma nitidez impressionante, reafirma a inexistencia de um direito natural pelo fato de só na sociedade (e não na natureza) ixistirem normas. Estes trechos do estudo são de incontestável e imperecível mérito, embora a nosso ver contradi gam o propósito do próprio título do estudo, já que são, no fundo, sociologia. Estas magníficas intuições, entretanto, conviviam, no pensamento de Tobias, e colidiam, com preconceitos pesados e opacos hauridos no naturalismo monista. Os homens são seres naturais, mas fazem uma organização que não é mais natural. Numa fórmula extremamente feliz, Tobias exprimiu esta situação ao dizer: “A sociedade é uma série de combates contra o geral com bate pela existência, é um conjunto de seleções artísticas, que melhoram, modificam, alteram a grande lei da seleção natural” . Fórmula feliz, porque exprime a ordem social como um diríamos, redimensionamento da ordem natural; a luta bruta que nesta rege se faz, na sociedade, luta “artística” (arte vai ali num sentido amplís simo) que coloca os problemas humanos numa rede normativa. Embora misturando Noiré com Kant e Hartmann com Haeckel no tocante ao problema da liberdade, este estudo de Tobias tem enorme importância. Pensamento político Lucidez muito grande demonstrou Tobias como pensador político. Um de seus estudos mais representativos neste campo é o intitulado “Os homens e os princípios”, onde relaciona o liberalismo com a democracia e faz o elogio do povo como suporte das formas políticas. O hesitante, que jamais foi republicano propriamente nem se pro nunciou claramente sobre o abolicionismo, faz ali observações francas e firmes sobre o Brasil, cuja situação descreve em cores fortes: “O Brasil, encarado pela face do seu governo, é um corpo que se move entre dois abismos, sempre mais inclinado para o lado do absolutismo. Encarado como povo, como nação, como sociecade, o Brasil é um país am orfo, pela m istura variável de elem entos radicalm ente antagônicos, tolerados e aquecidos no seio da opinião pública” . No mesmo ensaio, afirmava que, “onde o povo não é tudo, ele torna-se nada” . E criticava o messianismo da idéia liberal no Brasil, que só fazia prom eter reinos futuros nos momentos de crise, om itin do-se e calando-se nos períodos serenos. Muito sério é o ensaio “Política B rasile ira”, onde tam bém toma o problema do povo. “im porta-nos mais saber o que pensa o homem do povo, sensato e magnânimo, sobre os negócios do país, do que saber o que dizem os em presários da política, interessei- ros e fatuos. Por isso, é sobre o povo que devemos con vergir o nosso estudo e atenção” . Retomando o elogio do liberalismo, acentuava que a grandeza de um povo se media pelo grau de liberdade que possui. Embora jam ais tivesse acerido ao credo republicano, não parava de zombar do Im perador. Recusava-se a aceitar a imagem de um Pedro II sábio, erudito, misto de Salomão e Platão, que certos áulicos pintavam . Sobre o problema servil om itiu-se de modo que tem sido estranhado por diversos críticos. E se elogiava o liberalismo como tese geral, não privava os liberais brasileiros de críticas pontudas. Como não poupava também, é claro, aos conservadores. A mesma indisposição que Sílvio Romero m anifestaria mais tarde contra as oligarquias da prim eira república, Tobias expressava contra os con servadores rígidos e empedernidos. Por outro lado, nunca aderiu ao socialismo. Num Recife ainda embebido das ressonâncias da pregação de Borges da Fonseca e das doutrinas de A breu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, Tobias Barreto, embora inimigo ferrenho dos professores mais conservadores e com um temperamento talhado para a insurreição e a rebeldia em geral, manteve sempre uma desconfiança fundamental em relação ao socialismo. Desde logo, a democracia de que falava não era o igualitarismo total. Isto já estava no ensaio “Os homens e os princípios”, onde falava numa democracia sensata. Aliás, como Hermes Lima já obser- vou, este desigualitarismo básico provinha de certa forma do darwi nismo e do haeckelismo, que contra toda intenção niveladora ante punham a imagem da seleção natural e do combate permanente como regra e como critério. No famoso “Discurso em mangas de camisa”, analisando os ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade, tanto denuncia as amarguras do povo brasileiro, afligido por castas e injustiças, como duvida de um perfeito arranjo da liberdade e da igualdade. Um artigo de 1874, chamado “Socialismo em literatura”, Tobias propõe aplicar o socialismo na literatura, como um liquidação. Ali, dizia que lhe causava horror a idéia de uma “liquidação social”, e era isto o que lhe parecia ser o socialismo. E acrescentava: “O instituto da Internacional é para mim a organização da loucura” . Entre equilíbrio e hesitação, passam estas linhas do pensamento de Tobias. Nem liberal radical, nem republicano, nem socialista, nem conservador: mas sempre radical no modo de negar o que nega va. Sincero diante dos problemas do povo, reticente porém no tocante a pontos que tangiam de perto certas mágoas suas ou idios sincrasias temáticas. Dominantemente, a irreverência como reação. Essa irreverência se mostra nas polêmicas. Seja agora mencio nada a polêmica contra os autores que haviam tratado do Poder Moderador. No estudo sobre o assunto, encontramos por sinal a observação de que o Brasil não era um país com governo parlamen tarista, pois que não se podiam entre nós repetir as estruturasingle sas, tese ainda discutida (mas a nosso ver correta) e que recente mente seria retomada por Afonso Arinos de Melo Franco. A crítica de Tobias ao problema do poder moderador é dirigida desde logo à validade do tema, que a seu ver nem merece tanta aten ção científica: tudo o que se escrevera a respeito provinha, ou do equívoco ou do servilismo político. Para ele, o padrão ortodoxo em 1 teoria política (e nisso antecipava notavelmente Carl Schmitt) é sem pre reflexo do padrão ortodoxo em religião: o ponto de vista católico fazia a fé na monarquia como entidade moral e dogma de crença. Denunciava (quase, dir-se-ia hoje, como uma “alienação”) o diletan tismo parlamentar que existia em verdade no Brasil. Este ensaio estava marcadamente voltado contra o professor Braz Florentine Henrique de Souza, que em 1864 publicara no Recife seu alentado — 36 — volume sobre o poder m oderador. Os outros autores estudados eram o Visconde de Uruguai e Zacarias de Gois e Vasconcelos. § 3 — Componentes iniciais: segundo, Silvio Romero Os dias e os trabalhos Sílvio Romero (1851-1914) foi o grande “batalhador” da Escola; deu-lhe o nome, fez-lhe a propaganda, corrigiu-lhe algo, estendeu-a, perenizou-a. Sergipano, como Tobias B arreto, considerou-se sempre em relação a este antes um companheiro de estudos do que um discí pulo, se bem seja possível sentir que o padrão e a inclinação de seus estudos deveram a Tobias, ao menos na fase inicial, grande p arte do impulso e da motivação. Polígrafo como Tobias, pratica- m ente só não cultivou a ficção. Se não entrou bastante em certos campos como o autor das “Questões Vigentes”, em compensação cul tivou ertudos que o outro não havia tentado, como folclore, etnogra fia, economia e — ao menos mais expressam ente — sociologia. Sílvio Romero foi realmente um homem dotado de extraordinária capacidade criadora, profusa e dispersa às vezes, ou equivocada e apressada, mas sempre honesta e sempre fecunda. Foi o que a re tó rica das apresentações antológicas costuma cham ar um grande “trab a lhador intelectual” . Poesia, crítica, história literária, crônica, ensaio, filosofia, direito, tudo fez. Foi, como Tobias, parlam entar militante, e não deixou de reunir seus discursos, não vãos e aguados como os de tantos políticos que reúnem suas falas apenas para ter nome numa capa impressa, mas substanciosos e cheios, com efeito, de empenho “ilustrador” e sério. Também teve seus concursos. Ao contrário de Tobias, não ficou no Recife: foi em 1876 para o Rio. Um dos seus biógrafos e estu diosos de sua evolução intelectual, Carlos Sussekind de Mendonça, considera que foi um passo que se im punha a Sílvio Romero essa ida para a Corte: faltava-lhe ambiente no Recife, onde atraiu an ti patías demais. Segundo este autor, no seu segundo concurso para a Faculdade de Direito (para a cadeira de filosofia do curso anexo, chamado Colégio das A rtes), Sílvio foi vítim a de uma injustiça cla morosa, e mais ainda, de uma covardia por parte dos julgadores. Indo para a “Corte”, Sílvio Romero desenraizava-se, mas em compensação abria-se para contactos mais amplos. Ficando como juiz municipal em Parati, no Estado do Rio, demo rou-se aí dois anos e meio, num am biente pequeno, limitado, inade- — 37 — quado para seu porte intelectual, e não produziu praticam ente nada: apenas leu — e sempre foi leitor voraz —, estudou e reestudou o quanto pôde. Consta que este período foi, também, o de intenso contacto com o povo, as coisas do povo, conversas e hábitos dos homens comuns. Nesta época projetou a sistematização de sua obra, embora não tivesse podido realizar seguramente a form a como a teria projetado, inclusive porque lhe faltaram materiais e papéis que na sua mudança se perderam. Argeu Guimarães, filho de A rtur Guimarães (que foi amigo pes soal e biógrafo apologista de Sílvio), em seu livro “Presença de Sílvio Romero”, conta algo sobre Sílvio Romero professor. Em suas aulas, diz, havia um a larga dose de improvisação, e de tentativa de interpretação nova de cada tema; por mais árida que fosse a matéria, o professor a amenizava com a m aneira informal e bem-humorada de prelecionar. Mas impressionava sobretudo pela liberdade desas - sombrada, pela crítica implacável que ixibia e exercia diante de toda opinião vigente e assente. Adquiriu entre os estudantes um a simpa tia paralela à que Tobias conseguia no Recife: como Tobias, era jovial e franco, cordial, desempertigado e acessível. Não tinha o aprumo distanciador que, em muitos casos, denota no professor certa insegu rança e certo tem or do diálogo. Ao contrário: vivia para o diálogo, que se transform aria em entendimento ou em polêmica conforme o caso, mas isto é outro problema. Sua independência crítica, que transparecia nas aulas como cora gem interpretativa, e que em suas inúmeras polêmicas se fazia exi gência e agressividade, também se manifestou no caso do panam eri canismo: Sílvio sempre foi, a respeito, desconfiado e insubmisso, embora não chegasse às posições, por exemplo, de um Eduardo Prado. Indo para o Rio em 1879, fixa-se definitivamente na capital. Sua fama (ou pretensão) de sabedor e erudito levantou-lhe várias anti patías e adversidades pessoais, como se ele tivesse vindo para desa fios gerais. Um de seus mais célebres opositores, Lafaiette Rodrigues Pereira, que usava o pseudônimo de Labieno, descreveu-o certa vez como “um bárbaro, que estudou em alguma escola de província”, cu ja lingua gem ainda estava “contaminada da ferrugem da aldeia” . Tudo isso reforçou a dificuldade de adaptação, já que, desde os tempos iniciais do Recife, Sílvio (como Tobias) guardava algumas reservas contra a corte e contra seus intelectuais acasquilhados e posudos. A figura — 3 8 — de Tobias, escrito r plantado em sua província e alim entado-se dire tam en te de cu ltu ra européia, sem a mediação da capital, era para ele m odelo e incentivo: tam bém ele poderia m a n te r sua liberdade crítica. E ste era portan to o problem a de Sílvio em seu período de adap tação à corte: sabia ser necessário ficar, po rque no Recife tinha fecha do os horizontes e porque no Sul teria chances intelectuais mais am plas; sabia porém que despertaria rancores, despeitos, atritos, e não se d ispunha a adotar os figurinos cortesãos no tocante às re la ções pessoais, às atitudes literárias, ao cu ltivo dos estilos. A liás, no prefácio aos “Vários Escritos” de Tobias, ele bem o disse, reconhecendo que poderia te r tido cam inho m ais fácil, se quisesse: “Ah, se também eu tivesse querido agradar! P o r cue não poderia ter concorrido com os outros? A receita foi sem pre fácil aos escritores provincianos que têm vindo ao Rio te n ta r fo rtuna. N ada m ais do q u e procurarem a ccnfraria dos chefes da época, fazer-lhes zum baias, t r a ta r de lhes cair em graça” . Considere-se a época, em que a separação geográfica e intelectual entre Norte e Sul funcionava como uma cerca de arame farpado e como um motivo de diferenciação total. Hoje as coisas são algo diferentes, a comunicação se faz melhor, embora não tenham cessado as diferenças nem os desníveis. Ao tempo de Sílvio, o hábito da polêmica como que fazia parte do tirocinio dos escritores, e o precon ceito recíproco entre Sul e Norte funcionava em toda a plenitude. Daí os entreveros polêmicos de Sílvio Romero contra Lafaiette e contra José Veríssimo — este talvez o seu oponente principal, ou ao menos o que mais lhe fez gastar papel e tinta. Acusava a José Veríssimo, que era paraense, de ter tido êxito no Rio à custa de concessões, salamaleques e habilidades diplomáticas. As polêmicas Seria precisamente o caso de se indagar se, num autor como Sílvio, 0 estilo polêmico não teria desvirtuado e descaracterizado o exercício da crítica.Sílvio Rabelo põe este problema em seu “Itinerário de Sílvio Romero” (capítulo V II). Para ele, o que Sílvio Romero foi, basicamente, foi crítico, embora sua obra apresente um leque temá tico tão amplo, um naipe de interesses tão variado. E sobretudo, 39 — crítico de idéias é o que ele teria sido, erudito como poucos, ou como nenhum dos de seu tempo, dispondo dos conhecimentos com segu rança e facilidade. Para Sílvio Rabelo, entretanto, o seu enorme aparato de conhe cimentos contrastava com sua falta de intuição artística. E isto teria defeituado sua obra m aior (aliás uma obra ainda de juventude, dos 37 anos), a vasta História da Literatura Brasileira. Seus conhecimen tos tendiam mais a servir à polêmica do que à análise serena e ab er ta: parece que o esforço de Os te r adquirido precisava ser pago com o prazer de mostrar que a maioria não os tinha. Também suas mudanças de posição doutrinária têm que ver com seu vezo polêmico. Passando do determinismo biológico ao socioló gico, como passaria do spencenismo ao leplayismo, Sílvio defendia polemicamente suas metamorfoses, com uma agressividade que era de índole e de formação, mas que servia ao propósito de não prestar muitas contas sobre as coerências que lhe cobrassem. No livro “Minhas Contradições”, respondendo a Laudelino Freire, alegava que suas mudanças de opinião vinham com o tempo, com os estudos, com a reflexão, não eram mudanças inconseqüentes nem gratuitas nem repentinas. Sua mania polêmica, invadindo sua atividade crítica, transform ou- se por vezes em azedume e rudeza, dando lições, bancando o ensina- dor, lembrando conhecimentos. Era o que chamamos, atrás, de socra» tismo tosco: Sílvio, como Tobias, considerava o próprio saber um a garantia de “estar certo” ; estava certo quem sabia mais, e sabia m ais ele próprio. O adversário são chegara a saber tanto, e sua ignorân cia lhe vedava o acesso ao ponto de vista correto. Como diz Sílvio Rabello, “Sílvio Romero às vezes procurava con vencer aos brados, e, não raro, com vaia e assovio” . E isso, ac res centa, o inferiorizou em certas ocasiões, peran te contendores mais serenos (inclusive Laet, Teófilo Braga, Veríssimo e Lafaiette), que insistiam exatamente sobre seus pontos vulneráveis. Sua prevenção contra Machado de Assis, evidentem ente injusta e injustificável, veio desse vezo polêmico. E ra-lhe necessário atacai Machado (como atacar Castro Alves), para ressa lta r o valor do se i caro Tobias. E falava de Tobias a propósito de tudo. Aliás ele mesmo confessou a A rtur Guim arães, em carta , que defendia Tobias primeiro, pelo mérito intrínseco; segundo, para justificar suas própria: — 4 0 — posições; terceiro, como meio de guerra. E por isso Lafaiette, ironi camente, sugeriu que o título do livro “Machado de Assis”, de Sílvio, fosse substituído por “Tobias B arreto” . Também atacou Nabuco (“Hermafrodita da inteligência” ), atacou Francisco Otaviano, sempre tendendo ao ataque pessoal. A velha e boa divisa, que um jornal pernambucano do século XIX exibia: “Prin cípios, não homens”, tinha utilização inversa nestas polêmicas: Sílvio derrapara na dimensão pessoal e investia contra as pessoas, deixando de visar obras ou idéias. Fases da obra Podemos, grosso modo, adotar a seqüência estabelecida por Anto nio Paim para dividir em etapas a produção bibliográfica de Sílvio. Prim eiro, a fase pernambucana, consistente sobretudo em artigos de crítica. Artigos que depois se coligiram em livros (Etnologia sel vagem, 1875; Cantos do Fim do Século, 1878; A lite ra tu ra brasileira e a crítica moderna, 1880). A esta fase pertenceriam igualmente, de algum modo, os seguin tes trabalhos: — “A poesia contemporânea e sua intuição naturalística” (1896), publicado em jornal, no Recife. — “Idealismo e Realismo” (1870), no jornal Movimento, no Reci fe. Reproduzido nos “Estudos de Literatura Contemporânea”, que surgiram no sul em 1885. — “Se a economia política é uma ciência” (1873). Foi uma prova escrita produzida na Faculdade e incluiu-se nos mesmos “Estudos de L iteratura Contemporânea” . — “O Espírito novo em filosofia”, “Os princípios fundamentais da evolução” e “A concepção monistica do Universo”, artigos de 1874. Fase posterior seria a iniciada em 1876, correspondendo de alguma forma à presença no Rio, e significando uma certa acomodação entre evolucionismo e positivismo. Aqui caberiam as produções seguintes: — 41 — — “A Filosofia no Brasil”, publicado em Porto Alegre em 1878, na tipografia da “Deutsche Zeitung” . Paim atribui a esta obra, hoje, caráter de rarissima, com certo exagero. No alto do frontispicio, o sobretítulo: “Apontamentos para a história da literatura brasileira no século XIX” . — “A filosofia no Brasil e o Sr. Dr. Herculano Bandeira” (1879), artigo de jornal, no Rio. — “Interpretação filosòfica dos fatos históricos” (1880), tese para o concurso de filosofia do Colégio Pedro II. Incluído nos “Estudos de Literatura Contemporânea”. — “A História do Brasil e o Dr. Mèlo Morais” (1883). — “A filosofia e o ensino secundário” (1885), incluído, como o anterior, nos “Novos Estudos de Literatura Contemporânea” . Outra fase, seguindo o esquema de Paim, teria sido a de 1888 ao fim do século. Começa com a publicação de seu “megatério tipo gráfico” (para usar a expressão que Ortega empregou para designar o Study of History de Toynbee): a monumentai “História da Litera tura Brasileira” . Esta obra, fundada num certo determinismo meso- etnográfico, embora mitigado por outras considerações, traduzia certa influência de Taine e manipulava um conceito bastante amplo de literatura. Por sinal que José Veríssimo chegou a dizer que de Varnhagen tirara Sílvio esta noção ampla de literatura, sendo por tanto pouco original. Quer-nos parecer, porém, que não precisaria Sílvio ter ido a Varnhagen para isso. Vários autores do tempo (inclu sive Taine e Domingos Magalhães, senão mesmo o próprio Tobias) usavam e justificavam o uso do termo literatura abrangendo toda a produção intelectual de um povo. E foi, apesar de imatura, desigual, apaixonada e apressada, sua obra maior e a maior obra do gênero no Brasil de até bem pouco. Pois o volume de pesquisa que envolveu, o empenho interpretativo, a amplitude do estudo que representava, deram-lhe dimensões enormes. Seria, ainda, desta terceira fase: — “O problema brasileiro em 1891” (1891), série de artigos de jornal. Incluída nos “Outros Estudos” . — “A m ulher e a sociogenia” (1893), estudo sobre o notável livro de Tito Livio de Castro. — “D outrina contra doutrina — o evolucionismo e o positivismo no Brasil” (1894), um de seus livros m ais im portantes, inclusive como reposição de idéias. — “Ensaios de filosofia do Direito” (1895), que aliás, ao reed itar se, ficaria no singular: Ensaio. — “A festa do Trabalho” (1895), artigo cheio de consciência social. — “Uma suposta lei sociológica” (1896). — “O haeckelismo em sociologia” (1899). — “A classificação dos fenômenos em sociologia” (1898). — “O Direito brasileiro no século X V I” (1899). Finalmente, uma fase final iria a té sua morte, em 1914. Aqui encontramos os escritos seguintes: — “Concepção da filosofia” (1901), referente a um estudo de Samuel de Oliveira, nome aliás vinculado à Escola de Recife. — “Origem, elementos, estrutura e evolução da sociedade” (1904), referente a um ensaio de Augusto Franco, outro nome vinculado à Escola. — “A classificação das ciências” (1904), escrito como prefácio a um livro de Liberato Bitencourt. — “Concurso de Lógica” (1909), espécie de memória dirigida ao Colégio Pedro II, e abrigado nas “Provocações e Debates” que sairiam em 1910. — “Prefácio” ao livro “Questões e Problemas” de Tito Livio de Castro (1913). São desta fase novecentista, também, algunsestudos que corres pondem à sua adesão à escola de Leplay e que inclusive tentam apli car ao Brasil, ou a coisas brasileiras, o método monográfico do famoso sociólogo francês. Sua maneira intelectual Como um Tobias dissidente, Silvio Romero se parece com ele pela agressividade, pelo culto da erudição, pelo polemismo, pela capa- cidade de trabalho e pela tendência geral dos estudos e das idéias. Entretanto, algo de sua índole era diferente. Nada de boêmias, como Tobias: ao contrário, caseiro e casadouro, criando família três vezes sucessivas, cheio de filhos e aparentando o feitio de cidadão subur bano e pacato. Nordestinão impertinente, não se amaneirou ao contacto da corte: ficou um recifense (ou um lagartense) todo o tempo, embora atuasse no Rio e partilhasse das especulações que a Europa mais culta cultivou inquietamente. Conta-se de sua voracidade de leitor, de seu modo bonachão e desabrido, de seus cuidados de pai e avô, de suas lhanezas entremeadas de destemperos. Trabalhava incansavelmente, com método e afinco, quer tivesse paz e silêncio quer não. Sílvio Romero e a filosofia Segundo a exposição de Clóvis Beviláqua, Sílvio Romero teve por linha evolutiva fundamental a passagem do positivismo — na versão de Littré — para o criticismo kantiano e para o evolucionismo spen- ceriano. Neste evolucionismo, porém, é que parece ter criado mais raízes. E se, em sociologia, passou de Combate a Spencer e a Le Play e Tourville, nunca desamarrou totalmente do evolucionismo. Em direito, foi também evolucionista. Seu livro de 1878, A Filosofia no Brasil, combativo e ainda verde, é bem um reflexo, já, de suas inclinações e de suas aversões. Neste livro, uma “Nota inicial” diz ao leitor que a intenção do autor é dar um balanço crítico: vendo o quão pouco se tem feito de filosofia no país, se poderá medir o esforço a fazer para preencher a lacuna. O livro se ocupa das seguintes obras: o Compêndio de Filosofia de Frei Francisco de Mont’Alverne; as Investigações de Psicologia, de Eduar do França; os Fatos de Espirito humano de Domingos de Magalhães; a Teoria da Afirmação pura de Patrício Muniz; as Lições de Filosofia elementar, de Soriano de Souza; La science et les systèmes, de Pedro Américo (o pintor); As Três Filosofias de Luiz Pereira Barreto (aliás figura hoje em plena reabilitação como expoente de nosso positi vismo); O Fim da Criação, do Visconde do Rio Grande; as Funções do Cérebro, de Guedes Cabral; os Ensaios e Estudos de Filosofia e — 4 4 — Crítica de Tobias Barreto, bem como, deste também, o escrito a rre gladamente germânico Brasilien wie es ist in literarischer Hinsicht >etrachtet. N aturalm ente que, à parte Tobias, os outros autores ali estavam ’orno réus num banco, ou como alunos num a parede, para tom ar palm atória. Os escritos de Tobias, vindo no fim, pareciam dar ao Livro um ritm o de julgamento por seleção crescente; os Ensaios e Estudos seriam como o estalo de Vieira da inteligência nacional e a confortadora prova de que enfim havia alguém no país capaz de filo sofar. O tom do livro é áspero e acre, irreverente, agressivo, ponti- ficial e polêmico. Sílvio Romero e o Direito A pesar de já ter sido dito que Sílvio Romero foi um juiz muito mais preocupado com a antropologia do que com as leis processuais, sua atuação como juiz sempre foi eficiente e não se lhe pode atribuir ignorância em matéria ju ríd ica . Não foi um jurista técnico propria m ente, como Clóvis por exemplo o seria depois, embrenhando-se em estudos dogmáticos e produzindo obras de direito positivo. Mas teve cu ltura jurídica equiparável à de Tobias, e, como no caso de Tobias, sua cu ltu ra jurídica se situava no bojo de um a cultura geral assom brosa, para a época. Se ser culto — como disse Ortega — é estar “a a ltu ra dos tempos”, Sílvio dominou panoramicamente tudo o que foi preciso para se achar à altura dos seus. Na obra que deixou sobre Filosofia do Direito (o livro “Ensaios”, depois singularizado para “Ensaio” ), o Prefácio confessa a influência de Taine, Renan, Scherer e Spencer, que teriam segundo ele liquidado a concepção católica “e especialmente jouffroyanesca” sobre proble mas “do mundo moral” . No mesmo Prefácio, reivindica Sílvio a prim azia de ter, antes de qualquer outro, citado Ihering no Recife, em 1875, quando de sua defesa de tese, na qual falou também na darwinização do direito. Reconhece entretanto que o que fez foi m era indicação, e que a Tobias coube realmente, em 1882, o ter iniciado o desenvolvimento efetivo destas idéias em estudos jurídicos. Ainda neste prefácio, realmente interessantíssimo como confiteor doutrinário (dentre tantos que Sílvio deixou), está dito que, tentando pensar em uma filosofia que não tivesse nem “os anatemas do positivismo”, nem tampouco as “manias sistemáticas do haeckelismo”, escolheria Spen cer — nas linhas gerais de seu pensar, embora afastando algumas de suas idéias. — 45 — D iga-se de passagem, que o Ihering de Tobias e de Silvio era sobretudo o Ihering da Luta pelo D ireito. Naquela obra, dissera Tobias (em trecho que Sílvio estusiasticamente encampa), naquela obra de Ihering “a genial concepção darw inica do Struggle foi life é transportada do domínio da natureza para o domínio da sociedade, e o direito se resigna a ser um capítulo da história natural” . O Ihering do “Espírito do Direito Romano”, e principalm ente o do “Fim do Direito”, se ac-ha praticamente ausente das darwinices jurídicas de ambos. A estranha frase, do direito se resignando a ser um capítulo da historia na tu ra l chega aliás a discrepar do “cu ltu ra lismo” que em boa hora o pròprio Tobias esboçou, e que foi m en cionado páginas acima no presente estudo. Em parte, a enfatização deste darwinismo e deste “iheringism o” era um modo de fazer a apologia do Recife, de sua Faculdade e do grupo de Tobias. Mas nunca faltou a Sílvio Romero disposição nem personalidade para divergir de Tobias em certos pontos. Assim, ao recusar as “manias sistem áticas” do monismo; assim tam bém ao recu sar o anti-sociologismo do au to r dos Dias e Noites. Ainda naquele prefácio, Sílvio rejeita a idéia de ter sido “discí pulo” de Tobias. Este, afirm a, era quase de sua idade: era um p a trí cio, um camarada, um amigo; nunca foi seu mestre. Ele próprio e Tobias teriam sido, diz ele, “dois obreiros amigos, mas independen tes”, “ele todo haeckelista, e eu mais spenceriano” . Nesta espécie de sed magis amica veritas, as assertivas de Sílvio puxavam um pouco para si. Tobias não era exatamente todo haeke- lista. E no fundo houve influência deste sobre Sílvio Romero, ao menos uma influência inicial e genérica. O mesmo naturalism o de Tobias que tropeçava em sua idéia de cultura, se acha em Sílvio Romero, para quem não cabia distinguir uma ciência da natureza e outra do homem: “o homem é apenas fenômeno no imenso mundo dos fenômenos” . Ainda Sílvio Romero e o direito Quando deputado, teve Sílvio Romero oportunidade de ser rela tor do parecer da comissão Especial da Câmara, a respeito do proje to do Código Civil. Neste parecer, teceu amplas considerações sobre o diretto brasileiro, denunciando, inclusive, o “demasiado aferro ao — 4 6 — pírito e tradições do direito romano, em que nos temos mantido, s relações civis”, agravado, segundo ele, pela “incontestável infe- Dridade em que, até bem pouco andou o ensino das ciências ju ríd i- s entre nós” . O parecer inclui a citação de extensíssimos trechos de Tobias ► “sábio e saudoso m estre” ). Aliás, no mesmo trabalho, Sílvio chega dizer que o saber jurídico no Brasil teve três pontos culm inantes, > século XIX: a Introdução da “Consolidação das Leis Civis” de eixeira de Freitas (1857), o estudo “sobre uma nova concepção do ireito”, de Tobias Barreto (1882), e o ensaio “Fórmulada evolução irídica”, de Clóvis Beviláqua (1894). Note-se que duas, das três ilminações, correspondem a nomes da Escola do Recife. Incluído depois na edição de seus Discursos (e também no livro e M artinho Garcez, “Da Teoria Geral do Direito segundo o projeto 0 Código Civil Brasileiro”, Rio, 1914), este parecer revela um Sílvio òm ero altam ente identificado com problemas jurídicos. Sílvio Romero e as ciências sociais Na opinião de Machado Neto, a obra de Sílvio Romero, embora irm ã” da de Tobias, supera-a “pela amplitude e complemento, e obretudo pela paixão pela problemática nacional” . ! 1 De fato, como já observamos em nossa História das Idéias Polí- icas no Brasil, Sílvio Romero teve sempre suas atenções voltadas jara os problemas brasileiros. Se adotou o Leplayismo, tentou ana- isar com ele os fatos sociais brasileiros. Se foi crítico literário, preo- •upou-se basicamente com a vida intelectual do país. Se não teve as ntuições quase geniais de Tobias, nem as iluminadas expressões deste, eve a paciência enorme de estudar e inventariar coisas nacionais. Se não tinha o pathos dramático de um Euclides da Cunha, nem sua :ompenetrada concentração, teve uma energia inesgotável para pro por soluções, rever sugestões, denunciar abusos, acusar oligarquias e caudilhismos — os turbulentos que atrasavam e comprometiam o pro gresso do país. Porque Sílvio foi — como aliás a Escola do Recife em geral — um ilustrado, neste sentido essencial de considerar que o saber e a civilização eram valores suficientemente fortes para vencer as maze las do país. Acreditava que a difusão do saber (inclusive por obra das polêmicas e dos debates que nunca perdeu chance de acender) — 47 — era bastante, e sobretudo era necessária, para o progresso do país, meta principal de suas preocupações. Tudo isso, por sinai, paga e compensa seus destemperos, suas imodéstias e suas agressividades. * A preocupação com problemas concretos do país consolidou sua crença (já arrimada em Spencer) na sociologia e na viabilidade dos estudos sociológicos. E como respeitava sobremaneira as idéias de Tobias, e como Tobias negava a sociologia, não se limitou a defender a sociologia com qual quer desaforo como teria feito noutro caso. Cuidou de defendê-la, ponto por ponto, atendendo aplicadamente às negações do outro. Tanto nos pontos correspondentes a implicações filosóficas, como nos atinen tes a viabilidades concretas e até ao uso de leis na esfera social — leis a que Sílvio dava grande crédito. Aliás, Clóvis Beviláqua, em sua História da Faculdade de Direito do Recife, lembra que muita coisa dita depois por autores como Raoul de la Grasserie e Raymond Saleilles, tinham sido já, em matéria de interpretação social do direito, afirmadas no Recife, por obra do grupo de Tobias e Sílvio. Aliás Clóvis acrescenta que, no tocante à teoria jurídica, a Escola do Recife não foi um grupo fechado nem ortodoxo: a idéia básica, em torno da qual se girava, era a de que o direito, como forma de coexistência humana, devia ser estudado como fenô meno objetivo no meio dos fenômenos universais. Caberia por sinal ao próprio Clóvis ampliar as filiações neste campo, indo a outros autores, como Hermann Post, Kohler, Ardigò, Letourneau e outros. Voltando porém aos estudos sociais de Sílvio, um de seus livros fundamentais neste setor foi, como todos sabem, “Doutrina contra doutrina” . Trata-se basicamente de uma contraposição do evolucio nismo ao positivismo, cheia de empenho polêmico e de inquietação pelo Brasil: “No Brasil (diz na Introdução), representa-se agora um desses dramas raros, que nem a todas as gerações é dado apreciar. O esboroar de um trono, a queda de institui ções quase quatro vezes seculares, pois que essa é a ver dadeira data do governo régio no Brasil; o levantar de novas organizações, de novas fórmulas, de novas doutri nas, com seus moldes e suas necessidades novas, tudo isto constitui para os sociólogos e am adores de estudos de psi cologia popu lar um momento verdadeiram ente excepcio nal” (grifos nossos). No Brasil, acrescentava, “tudo é indisciplina”; e mais, “a ignorán- :ia dos doutores é só com parável à sua original companheira — a /aidade, a desenfreada petulância dos politiqueiros” . Adm itia plenam ente, nesse livro, a lei da evolução, na fórm ula de Spencer, e mais a lei da “inter-dependência” dos fenômenos sociais, o “concensus, que preside à evolução to tal dos acontecimentos da história” . Na mesma Introdução do livro, tra ta da questão do ope rariado nacional: para Sílvio, os pregoeiros do movimento obreiro no Brasil não tinham capacidade de entender as diferenças entre a s itu a ção brasileira e a da Europa. Econômica e demograficamente, está- vamos em condições in teiram ente distintas daquelas que haviam cer cado a formação de partidos proletários no velho mundo. Critica ainda os nossos militares (o “partido m ilitar’” ), quer os de credo libe ral quer os de credo conservador, por lhe faltarem os princípios da ciência política. Seu objetivo, porém, era combater o positivismo. Dai dizer, abrindo o corpo do livro: “O positivismo é uma coisa perigosa e deve ser com bati do com seriedade” . Nada de levá-lo na troça: tratava-se de atacá-lo sistematicamente, com todo o empenho crítico. E por que? Porque o positivismo só servia, no Brasil, para a criação de ilusões, para novas religiosidades vãs, e para desviar dos estudos adequados os espíritos nacionais. Um pouco de spencerismo, de resto, exibia Sílvio na sua esque m ática seriação das “espécies dos fatos culturais” . No mencionado parecer sobre o Projeto do Código, dizia ele, lá para as tantas (D is cursos, 1904, pág. 254), que tais espécies são sete: religião, arte, ciência, política, direito, moral, indústria. “Tais são, rematava, o que se deve cham ar as criações fundamentais e irredutíveis da hum ani dade” . Seriação imperfeita e discutível, sem dúvida, mas que em seu tempo se explicava, e que vinha de um esforço de repensar (via Spencer) o quadro das realizações do homem na sociedade. Tanto quanto Tobias, Sílvio Romero praticou o que se poderia cham ar um darwinismo doutrinário e até bibliográfico. As teorias, ao se sucederem, operam uma como que seleção natural, o que justi ficaria a preocupação de estar sempre up to date; os livros “melhores” sobrevivem, e os mais recentes valem mais, como numa sobrevivên cia dos mais aptos. Um dos mais importantes trabalhos de Sílvio Romero sobre o país foi “O Brasil na primeira década do século XX”, que aliás apa receu junto com o estudo de seu amigo Artur Guimarães, “Problemas Brasileiros” . Começa desancando os grupos oligárquicos e os caudilhos do tipo de Pinheiro Machado (a quem jamais perdoou), “chefes dos clãs em que anda dividida a gentalha politicamente do país, arruinadores de negócios, que vivem de manipular nossa política alimentària, todos eles expoentes da desorientação intrínseca que nos devora, na sua surdez aos ensinamentos das sãs doutrinas, julgam-se chefes e dire tores desta pobre terra e deste desventurado povo” . Note-se o ponto de vista intelectualista e ilustrador: à míngua de instrução nas boas doutrinas é que os caudilhos se endurecem nas pretensões e nos erros. Propõe, justamente, que as atitudes emocio nais, a respeito, sejam substituídas por atitudes críticas, pelo estudo sério dos elementos que formam o quadro real do país. Para ele, as soluções puramente políticas eram inteiramente inócuas, desde que o problema do Brasil era orgânico, étnico, em um problema de psico logia popular e de “estrutura social do povo” . “É desmontando em todas as peças a sociedade brasileira que se há de achar a chave do enigma: a razão porque a nação marca passo num eterno messianismo que se não realiza; o motivo porque as panacéiasdos políticos de nada valem, senão para aum entar a confusão” . Neste livro, que foi um de seus derradeiros depoimentos de pen sador social e de brasileiro inquieto, há observações dignas de nota sobre a psicologia do brasileiro. Observações como, por exemplo, a de que o brasileiro, por mais que ame e aplauda os retóricos e ora dores, ama e segue mais ainda os homens da força e da espada. Tam bém levanta o problema do ensino, atropelado de reformas im aturas e inócuas. Uma das constantes fundam entais do livro era, todavia e sempre, o ataque às oligarquias locais, que cham ava “a mais hedion da forma de escravidão política” . No Epílogo, concluía melancólica mente: “Aos que exerceram o monopólio de nos governar em nome do direito divino dos reis, sucederam os que exer cem o mesmo monopolio em nome da esperteza, da audá cia, da m entira, da corrução” . 3 4 — SEGUIDORES E CONTINUADORES — ARTUR ORLANDO Vida e obra A rtu r Orlando da Silva, recifense (1858-1916) pode ser visto, não propriam ente como fundador, mas já como seguidor ou continuador da obra dos iniciadores da Escola. Pouco mais moço que Silvio, como este pouco mais de que Tobias, nunca reivindicou como Sílvio Rome ro a condição de co-fundador da Escola, e realm ente a imagem histo- riográfica que dele temos é a de um consolidador de tendencias, de um “prosélito” convicto e operoso, eficiente, independente até certo ponto, fiel em grande medida, enfim um intelectual cuja “organiza ção m ental” (conforme se usava dizer naqueles tempos) acompanhava exatam ente o molde dos criadores do grupo. Teve relações pessoais excelentes com Tobias Barreto e com Sílvio Romero. Tobias, dedicando-lhe seus Ensaios e Estudos de Filosofia e crítica, disse dele: “amigo incomparável e companheiro de trabalho, do qual bem pudera dizer o que disse Hugo de Lamartine, que somos uma espécie de par homérico, sendo ele quem traz a lança e eu quem dirige os corcéis” . Também experimentou a frustração em concurso na Faculdade. Foi inspetor de instrução em Pernambuco. Desinteressado do magis tério quando lhe teria sido mais fácil praticá-lo, ou seja, com o advento da República, foi deputado e senador. Tal como Tobias e Sílvio, teve também, portanto, a experiência política. Vivendo no Rio, ingressando na Academia Brasileira de Letras, não desligou sua vida de sua província; conservou sempre o contato com a imprensa per nambucana (pois foi por muitos anos redator-chefe do Diário de Pernambuco) e com os amigos locais. Também como Tobias, e como Sílvio Romero, A rtur Orlando cul tivou diversos campos de estudo. Foi, como eles, um polígrafo (pala vra que naquela época ainda tinha dimensão de elogio e não adqui rira o sentido pejorativo que lhe deram depois) . Não nas proporçõ/ts enciclopédicas dos outros dois, porém, tratou de filosofia, sociologia e direito, além do famoso livro sobre a cidade do Recife, obra de ecologia, demografia e higiene. — 51 — Foi jornalista de intensa produtivdade, tendo participado da publi cação intitulada Cultura Acadêmica, que documentou os estudos e produções da Escola do Recife nos anos de 1905 e 1906. A defesa que Sílvio Romero fizera da sociologia, Artur Orlando toma-a como que por ponto de partida. Aceita, deste modo, a corri genda que fizera a Tobias o autor da História da Literatura. Também, como Sílvio, Artur Orlando se inclinou para o padrão sociológico da Escola de Le Play e Tourville. Tal inclinação se manifestou, por exemplo, na famosa obra Brasil, a terra e o homem. Ali, como nos estudos de Sílvio, o mesologismo geográfico encontra aplicação e uso, tanto no tocante ao zoneamento regional do país, revisto em termos novos, como no tocante ao exa me dos tipos físicos ou antropológicos nacionais — o tapuio amazô nico, o sertanejo nordestino, o pernambucano (desdobramento talvez um tanto bairrista e desnecessário), o baiano, o paulista, o gaúcho, o mineiro e o teuto-brasileiro. Além do livro sobre o Brasil, e do sobre a cidade do Recife, dei xou A rtur Orlando os Ensaios de Crítica, editados no Recife em 1904 pelo Diário de Pernambuco, livro dedicado precisamente a Sílvio Romero e feito de estudos divulgados anteriormente pela imprensa. Um dos ensaios do livro estuda a figura de Sílvio Romero, a quem chama de “reformador dos hábitos intelectuais” brasileiros. Inclui-se no livro, também, um estudo intitulado “Pernambuco”, que começa com o rómpante reivindicador e lírico: “Outros estados reclamarão para si os vôos da águia, o rugido do leão pertencerá a Pernambuco. Deitado sobre o coral dós arrecifes, o Leão do Norte dis tende o olhar calmo, melancólico, sobre o horizonte enig mático do m ar, enquanto o oceano, outro indomável, a ti rando vagas furiosas contra os céus, vem beijar-lhes os pés” . Neste estudo sobre Pernambuco encontra-se, também, a preocu pação mesológica (aliás sempre misturada a engastes literários de valor duvidoso). Encontram-se igualmente curiosas considerações sobre a alma da mulher pernambucana e sua participação na estru tura da mentalidade local. — 52 — Um dos estudos mais célebres de A rtur Orlando foi en tretan to a ¡'ilocrítica, editada em Pernambuco (1886) com uma introdução feita >or M artins Júnior, já então integrante, também, da Escola. Publicou ainda a Propedêutica política-jurídica (Recife 1904), •ápida m isturada de temas, desigual mas expressiva. Outro coquetel le temas são os Novos Ensaios (Recife 1905), onde há escritos de ülosofia, de direito, de medicina social e de teoria literária. Muito representativo foi, ainda, o livro Pan-americanismo, saído io Rio em 1906. Aqui topamos, outra vez, com o mesologismo: decla- ra-se desde logo que o territorio é elemento decisivo na vida dos povos, e que toda a vida social se lhe acha subordinada, tanto nos aspectos morais, políticos e jurídicos, como nos religiosos e estéticos. Posições em geral Filosoficamente, A rtu r Orlando não teve, nem de longe, as g ran dezas de Tobias Barreto, suas clarividências, sua capacidade criadora. Nem teve a capacidade reflexiva e crúica de Sílvio Romero, sua insa tisfação itinerante, seu empenho investigador. Foi mais um divulga dor, relativam ente sossegado e indubitavelmente probo, limitado em bo ra seguro. Para A rtur Orlando, o problema do conhecimento devia ser en ten dido superando-se tanto o agnosticismo (aquele fundo inacessível de que tratou Spencer) quanto o esplritualismo (o fácil e horizontal espl ritualism o, que a Escola se empenhava em desancar, desde Tobias). Preocupou-se com o problema do Idealismo e do Realismo, aceitando em grande medida a dose de Kantismo que Tobias Barreto durante certas fases de sua vida adotou. Ao mesmo tempo, admitia os postu lados centrais do monismo e do evolucionismo, ao menos ao passar dos problemas gnoseológicos para as questões cosmológicas. P reocu pou-se, sintomaticamente, com temas de ciência, de física por exemplo. Semelhante dispersão temática não chegava a ser algo desarrumado: A rtu r Orlando conseguia comportar seus estudos em ordem aceitável. É frequente citar-se o discurso de Oliveira Lima, ao recebê-lo na Academia Brasileira de Letras (dezembro de 1907), para confirm ar a validade do título de filósofo, aplicado ao pensador pernambucano. Filósofo no sentido m aior e mais fundo do termo, não sabemos se te ria sido; foi sem dúvida, porém, um cultivador de estudos filosó ficos sério e generoso, aceitando idé.as (sempre como os da Escola: - 5 3 - je prends mon bien où je le troiive), aceitando-as com uma certa “disponibilidade” doutrinária e manipulando-as com intenção cons trutiva e positiva. Seu temperamento, precisamente, tem sido evocado como com provante ou correlato de suas aberturas intelectuais: afável pessoal mente, accessível, disposto ao diálogo, recebendodiscípulos, orientan do neófitos. Desistindo do concurso à Faculdade de Direito, para o qual redi giu uma tese tobiaticamente fundada na idéia haeckeliana da Onto genese e da filogênese (as ordálias como provas ontogenéticas do desenvolvimento filogenètico do direito através da luta), Artur Orlan do permaneceu fiel aos postulados fundamentais da Escola. E fiel às amizades do grupo: Sílvio, Tobias já falecido, Martins Júnior e outros. O professor Luiz Delgado, em ensaio relativo ao Centenário do Nascimento de Artur Orlando, interpreta de modo positivo a linha que vai de Tobias ao nosso século, através de Sílvio Romero e do autor da Filocrítica. Para Delgado, a “diluição” e o “apagamento” do espiritualismo é que tornaram insatisfeito um espírito como o de Tobias, que exigiu “certezas mais claras e mais firmes” . E o mate rialismo, que tentou Tobias, não pôde arrancá-lo do apego a Kant, ficando em indecisões que foram também partilhadas pelos compa nheiros e seguidores da Escola: assim em Sílvio, assim em Artur Orlando. Tentando reunir o determinismo geográfico com as teses de Gobi- neau sobre a importância do elemento étnico, A rtur Orlando ader- nava, de qualquer modo, para considerar largamente os componentes m ateriais. Daí dizer, naquela pompa que foi o estilo de sua geração (salvo exceções), e naquele esforço generalizador que foi a sedução de seu tempo: “é da comunhão da terra e do homem, da combinação do território e da população, que surge a sociedade. Mas não basta esta interpretação global: resta determinar o traço característico da fenomenalidade social, considerada esta como o produto da fusão de todos os elementos — físicos, orgânicos e psíquicos” . — 54 — Era, de certa forma, o tipo de formulação que encerrava os tra- alhos básicos da Escola do Recife, os trabalhos de investigação filo- Dfica e a ten tativa de fundamentação da ciencia social. Fundá-la )bre o cientificismo determinista eis o escopo de seus integrantes, las havia considerações de outra ordem, e ingredientes não mate- lalistas que, desde Tobias Barreto, teimavam em entrar na receita. Figura e circunstância Provinciano feito metropolitano, ou político nacional com am i- ides de alto coturno e raízes na província, A rtur Orlando guardou >da a vida os hábitos do estudioso naquele padrão de voracidade vresca de que Tobias e Sílvio tinham dado o definitivo exemplo. Menciona-se sempre, a propósito, o depoimento de Oliveira Lima, ue narra a abundância de livros que encontrou na residência de r tu r Orlando (em qualquer das residências onde esteve). Ensaios, sicología, ciência, todas as áreas de leitura. Uma certa noção do feminismo ocupou também A rtur Orlando - não caberia aqui deslindar se por motivações pessoais ou se por mvicção objetiva. Chegou a escrever um estudo sôbre “A alma da ulher russa” (que seria um “estudo de psicofilia fem inina” ), m en- onando os movimentos emancipacionistas das senhoras eslavas, liás, no ensaio sobre Pernambuco, mencionado linhas atrás, também ítraram em cena as mulheres do Estado. Outro membro da Escola •eocupado (e este basicamente) com o problema feminino foi Tito ívio de Castro, cujo livro maior, “A M ulher e a Sociogenia”, será tudado adiante. É im portante situar a figura de A rtu r Orlando em seu tempo: aturação e saturação dos ideais do século dezenove com seus mate- alismos enfáticos e seus sintetismos vistosos; crises de idéias e de »temas, advento de novos problemas, desequilíbrios políticos e eco- >micos no mundo; uma onda de renovação em matéria de estilos ; vida, com as pré-figurações da modernidade. Transição para o culo vinte, com um a maior flexibilidade de pensamento e aberturas ira soluções novas em m atéria de concepção do mundo, da educação, i higiene pessoal, de tudo. A rtur Orlando, jurista como os da .cola eram quase todos, filósofo como todos pretendiam ser, repre- ntou bem essa transação: repositório de tendências, conciliador de idas, herdeiro de Tobias mas amigo de Nabuco. Áreas de interesse Interessado basicamente em geografia. Uma geografia ainda à Ratzel e à Lapouge, feita de determinismo e de referências enigmáti cas ao território. Interessado em literatura (aquele mesmo conceito amplo de literatura, que fora de Varnhagen e de Sílvio Romero), bem como em sociologia: a sociologia recebia os dados da geografia e ten tava articulá-los com a psicologia (e a psicofilia), com o estudo das populações, com o estudo do direito. Tudo isto pressupunha um a visão do universo, e então era preciso saber coisas sobre o éter, sobre a m atéria, sobre os átomos. Não esqueçamos a enorm e gama de assuntos de que tratavam os livros de Gustave Le Bon, tão influente na época, e que ía da Revo lução Francesa à equitação, passando pelo estudo da matéria e pela psicologia das massas e das multidões. Assim A rtur Orlando: sofrego de informações, lendo desabalada- mente, inquieto com a deterioração do monismo que parecera a Tobias a formulação definitiva da verdade, e com o advento de novos e te i mosos probleminhas, pululando por todas as áreas do conhecimento hum ano. D iante da chamada Questão Social (nome que em seu tempo se dava aos problemas políticos, econômicos e sociais ligados às lu tas de classes e ao socialismo), parece que adotou posição de simpatia, como por sinal sucedera com Sílvio Romero: viu com moderada aceitação a necessidade de intervenção do Estado, e a de um a redistribuição de bens que não redundasse em supressão total da propriedade individual. Seu pensamento político se apresentou bastan te caracterizado no volume sobre o Panamericanismo. Ali, encontam os muitas idéias ainda hoje válidas sobre economia e sobre direito, muitas conside rações sensatas sobre a relação entre economia e d ireito : basta lem b ra r suas referências, inegavelm ente pioneiras, à “ Economia jurídica” , equ i valen te de um “Direito Econômico” . Muito m aterial histórico bem utilizado, e muita inform ação segura sobre o d ireito público n o rtea m ericano — inclusive a trav és das obras clássicas (e então ind ispen sáveis) de Boutmy. Há também, entretanto, m uito equívoco e m uita preocupação de não c ria r caso, diferindo, por exem plo, das posições bem definidas de um O liveira Lima, para não fa la r, está claro, dos radicalism os de um E duardo Prado. D eixava-se navegar n a re tó rica do panamericanismo, vendo o grande país do norte como “ o colosso anglosaxônico” (tal como sucedeu com Euclides da Cunha), com o o im ponente modelo de self-made grandeza que devíamos imi ta r e acom panhar. Estudos de direito D entre seus estudos jurídicos, podemos destacar aqueles que com põem o pequeno livro Propedêutica político-jurídica, de 1904. Em seus “Estudos Jurídicos”, publicado em 1916, Clóvis Bevilá qua inclui (cap. VII) um a análise do livro de A rtur Orlando. Para Clóvis, parecia definitiva conquista a idéia de A rtur Orlando, de que “os problemas de direito são estudos de sociologia d inâ mica” . Desta frase, cuja veracidade considerava absoluta e indiscutível, Beviláqua deduzia, por sua vez, que o jurista deve antes de tudo “des cobrir a relação en tre os fatores da evolução cultural humana e as form as jurídicas” . Realmente o corolário de Clóvis é aceitável, em bora a formulação de A rtu r Orlando fosse, na verdade, passível de sérias críticas. A Propedêutica contém, efetivamente, um grande número de suges tões, pontos dignos de nota e frases cheias de ressonância. Pena que não tenha dado ao seu conteúdo maior desenvolvimento, deixando tudo ali esboçado e abreviado. Os estudos a que deu maiores espi- chamentos textuais são, ao contrário, muitas vezes palhudos e ingênuos, como certos escritos palavrosos incluídos nos Ensaios de Crítica, ou certas partes do livro sobreo Brasil. Sua formação jurídica era boa, e frequentemente sua idéia de um realce do direito em face da sociedade chegava perto das con cepções de Giuseppe Carle, para quem o direito era a parte principal do “edificio social” . Semelhante tipo de idéia não correria tanto, ou apenas, por conta do “bacharelismo” que hoje se costuma apontar nos da geração, mas era antes corrente em muitos autores europeus que tiveram grande voga no Recife. O capítulo IV da Propedéutica, por exemplo, tem interessantes observações sobre constituições, direito não escrito e regimes políti cos. Sua fonte é quase sempre Boutmy, mas a assimilação das idéias é correta e sua expressão adequada. No seu capítulo V ili se encon tra a discussão sobre a “Questão Social” (que considera “antos de — 5 7 — tudo como uma questão m oral” ). Em um semi-monista e adepto do determinismo geográfico, é en tre tan to confortador encontrar um tópico em que se diz que a universalização da civilização ocidental é que faz que as outras sociedades adquiram “uma contextura mais ou menos comum de relações econômicas, jurídicas, morais e políticas” (Prope dêutica, cap. V ili) . Outros aspectos Cometeu algumas injustiças. Uma delas, a que escreveu sobre Tavares Bastos (no ensaio “Tobias Barreto”, incluído nos Ensaios de Crítica). Para A rtur Orlando, Tobias Barreto tivera razão em criti car Tavares Bastos: o livro deste, A Província, era “tudo, menos um livro” . E acrescentava: “Sente-se que o livro é despido de todo senso científico. Na Província, ao lado de pomposas tiradas oratórias, encontram-se apenas fracos e tíbios raciocínios” . Pavorosa e clamorosa injustiça, cometida contra o escritor a quem recentemente José Honorio Rodrigues chamou de “maior pensador político” já havido no Brasil. Descontado o possível exagero desta outra frase, ere de qualquer modo desnecessário, a A rtu r Orlando, acompanhar a Tobias na ojeriza a Tavares Bastos, sem dúvida nenhu ma um extraordinário analista de problemas nacionais. M artins Júnior, prefaciando amistosamente a Filocrítica de A rtur Orlando, delinecu-lhe a evolução intelectual: “Vi-o positivista com Émile Littré e H erbert Spencer, assisti a sua passagem para os arraiais do darw inism o e do haekelismo puros, testemunhei a sua conversão ao monismo de Noiré, e vejo todos os dias o seu espírito irre quieto oscilar entre Schopenhauer e D uehring, entre Hartmann e Lange” . Parece que assistimos a uma série de manobras: ora um a posição, ora outra, uma inquietação realm ente inquietante. De tan tas m eta morfoses, ficaria um rendilhado doutrinário — típico dos grandes ledo- res livre-pensadores daquela geração (como da nossa) —, um rendi lhado que se revela em cada escrito, em cada ensaio. Aquelas balizas que Martins Júnior apontou, foram rea lm en te as constantes do pensamento de A rtur Orlando, que de resto jam ais teve — 58 — tem po, nem talvez condições psicológicas, para dar ordem e prum o às idéias, aparar os resíduos e configurar uma posição filosófica d efi n ida . P o liticam ente foi conciliatório, atendendo amenamente a um socialism o onde a disciplina jurídica tirasse a economia das av en tu ras p lu tocráticas (cf. ensaio sobre “Sílvio Romero”); filosoficamente, porém, foi um indeciso, menos eclético do que hesitante, a lim en tando-se de d iferen tes dietas em diferentes épocas da vida. Se teve coerência, foi a coerência heterogênea de todos os da Escola, vinda de um a certa unidade de estilo, de temperamento ou de resultados, no tom da obra, nas atitudes pessoais ou na posição adquirida. § 5 — Ainda seguidores e continuadores. Martins Júnior Trajetória M orto prem aturam ente aos 44 anos, recifense, Izidoro M artins Jún io r realizou algumas das constantes típicas dos da Escola: a passa gem pela política (nele aliás m arcante), os brilhos precoces, o cien tificism o, a aliança entre literatura e direito. Sua vida (1860-1904) se colocou paralela à de A rtur Orlando, de quem aliás foi amigo constante — outro “par Homérico”, para lançar mão da suntuosa metáfora de Tobias, citada a propósito deste último. Vida intensa, atribulada, cheia de problemas e de projetos. Martins foi jornalista m ilitante e ardoroso combatente na campanha abolicio nista e, mais ainda, na republicana. Foi orador dos que se dizem habitualm ente “ inflamados”, qualidade que aliás prejudicou algumas vezes seus trabalhos, onde o vêzo retórico despontava frequentem ente onde menos devia. Poeta ainda condoreiro de certa forma, mas já parnasiano também, e cientificista na intenção, publicou em plena juventude o im portante livro Visões de Hoje (1886). No ano anterior publicara Estilhaços. Aos 23 anos editou o opúsculo A Poesia Científica, com o subtí tulo: “Escorço de um livro futuro” . Não era apenas um trabalho de teoria literária; tinha implicações patrióticas. Dizia, no capítulo inicial: “A pátria brasileira, hoje, tem a alma em fusão. Olha-se- lhe para o íntimo, e enterra-se a vista em alguma coisa de profundamente am orfo que dá uma sensação de agonia ou, quando muito, de dolorosa esperança” . “Enfim: a anarquia nos cráneos e nos peitos” . A dota a divisão que Sílvio Romero fizera, da história da litera tura brasileira, em quatro períodos: formação, desenvolvimento, trans formação romântica e reação positiva. Todavia, tentava ajustá-la à idéia comteana das três “modalidades capitais de concepção do mundo — a teológica, a metafísica e a positiva” . Moço e impressionável, com enormes projetos, M artins Júnior se tornou professor da Faculdade de Direito depois de diversas tentati vas, em que se viu rejeitado por obra de suas pregações republicanas. Só depois da República é que conseguiu nom ear-se. P airava ainda, na casa, a ressonância dos dias de Tobias — morto justam ente no ano em que Martins Júnior ascendia ao magistério (1889). Para o temperamento nervoso e ardoroso de Martins, a rebel dia era a tônica: com igual sentido combatia a m onarquia e discutia idéias filosóficas; aceitava a monismo (embora tam bém se deixasse influenciar pelo positivismo), aceitava a “lei biogenètica fundamen tal” de Haeckel, e tudo isso acendia em seu espírito a impressão de estar num a grande batalha doutrinária . E estava mesmo. A fase dos debates fundam entais passava à dos desdobramentos. Ou, se se permite a metáfora sediça, o facho passara das mãos de Tobias para as de Sílvio, cuja ida para o Sul jam ais o desligou das campanhas intelectuais da província, nem daquela espécie de engaja mento recíproco que era o cimento formador da Escola. Jornalista, orador, político, sobrou pouco tempo a Martins para am adurecer e verticalizar seus estudos, construir obras mais substan tivas. O que deixou, porém, m ostra uma capacidade intelectual das maiores dentre os componentes do grupo. Foi injusto Tobias Barreto, e profundamente, quando em frase dirigida a Sílvio, desfazia de M artins, chegando a considerá-lo um “bobete” . Martins Júnior jornalista. Talvez tenha sido o mais ligado, dentre os da Escola, ao jo rn a lismo, atividade que o prendeu desde os arrancos de adolescente. Meninote, escreveu prosa e verso na “América Ilustrada” . Rapaz de preparatórios, com 15 anos, foi co-fundador do “Progresso”, iniciado em 1875. Em 1878 publicou poesias na “Província” . No ano seguinte, - 6 0 - redigiu com outros o “Correio da Noite”, já e s tu d a n te de D ireito, começando a encrespar seu republicanismo por t r á s de u m a expressa e impossível prom essa de imparcialidade po lítica . Trabalhou depois na “Opinião”, repetindo a p reg açã o rep u b lica na, dem onstrando que só a mudança de regime d a r ia ao p a ís e s tru tu ra constitucional. Segundo Luís do Nascimento, q u e pesqu isou aquelas publicações, m an tinha àsvezes o pseudônimo d e Junio, m as às vezes assinava o nom e real. Ao lado de Clóvis Bevilaqua, trabalhou na “ Idéia N o v a”, e depois no “Escalpelo”, revista burlona um tanto ao m odo das F arp as de Eça e Ram alho. Toda a década de oitenta o viu escrevendo em jornais, acenden do e reacendendo a propaganda republicana, fazendo crítica literária, publicando poesias, preparando a opinião pública para as grandes mudanças de sua utopia. Com Francisco Campeio e Faelante da Câmara, dirigiu a “Folha do Norte”, desde 1883, combatendo pela abolição e pela república. Àqueles tempos, o Recife vivia dias tremendamente agitados, com campanhas de imprensa e discurseiras ferozes, onde um parnasianismo fulgurante dava expressão a esperanças exageradas e a acusações intermináveis. Em 1887, por exemplo, com Nilo Peçanha e outros, redigiu “A República”, que incluía doutrinação genérica e também comentários de fatos. Era um reflexo das atividades do Partido Republicano. No mesmo ano, em janeiro, surgira a “Revista do Norte”, na qual colaborou ao lado de Artur Orlando, Adelino Freire e Pardal Mallet. Com Maciel Pinheiro, dirigiu o diário “O Norte”, em 1889. Era no mais quente da luta pela república, e inclusive o jornal teve ocasião de dar grande ênfase à presença, em Pernambuco, de Silva Jardim, o célebre tribuno republicano. No período republicano, teve oportunidade de se meter em ques tões de política local, como a campanha que moveu na “Gazeta da Tarde”, cm 1892, contra o governo Barbosa Lima — mau grado as perseguições e agressões aos redatores, com empastelamento das má quinas e outras violências típicas. — 61 — Deputado Federal, à época, Martins deu am plitude nacional campanha. Orador e político Veemente, dentro do padrão dos faladores característicos do terr po, e ao mesmo tempo elegante e cheio de imagens, Martins foi ur exemplo de orador de sua geração. A vocação política, que o tentou toda a vida, disputando-o a magistério e mesmo ao trabalho intelectual, revelou nele uma enorm capacidade de liderança popular. Objeto de ódios e admirações irre; tritas, provocando adesões radicais e radicais antipatias, viveu no Ri de Janeiro os últimos tempos, sem desligar-se de Pernam buco. E a m orrer, a cena de seu enterro, acompanhado por um a multidão imer sa (sobretudo para a demografia do Recife de 1904), é sempre citad como demonstração de extraordinária popularidade. Mas não teve, com a república — fora o fato im ediato de have finalmente obtido nomeação para “lente” da Faculdade —, os bene fícios que poderia ter tido. Ao contrário, parece que foi então q i as complicações de sua vida redobraram . Martins e a sociologia Em ensaio chamado “Sociologia e Sociófobos”, inserido nos Fraj mentos Jurídico-filosóficos, M artins Júnior estabeleceu sua plena adí são à sociologia. Era, para quem vinha incluir-se no rol dos cont nuadores de Tobias, uma rebeldia, embora autorizada pela posiçí anterior de Sílvio Romero, que também desaceitara a recusa de Tobi; à ciência do social. Mas a rebeldia era maior pelo fato de que artigo praticam ente não dava bolas ao estudo anti-sociológico c Tobias. Apenas mencionava os “adversários da sociologia”, os “soei fobos”, os “negadores da ciência social” . Trazia à tona o argumen maior, aduzido contra a sociologia, o “cavalo de m adeira” dos soei fobos: e ra o apego ao livre arbítrio, à liberdade, que os sociófobc viam am eaçada pelo determinismo carregado pela sociologia. Pa Martins, ía p a ra r em Schopenhauer ta l apego à vontade, essencializa< pelos an tagonistas da ciência social. Na realidade, diz ele, não sabe bem o que é a sociologia tal como a entendem seus detrator« tal a deform ação que lhe imprimem ao argum entar. Sua defesa da sociologia, expressamente, era uma colossal defe de A ugusto Comte: — 62 — “A p artir do dia em que se publicou, em Paris, o últim o volum e do Cours de Philosophie Positive, a m entalidade européia começou a agitar-se nervosamente, sob a im pul- são que acabava de com unicar-lhe o maior dos filósofos a té hoje existentes” . E prosseguia: “Foi dessa profunda elaboração, provocada por Comte, que saíram , logo depois, todas as escolas ou sistemas atuais de filosofia, desde o evolucionismo de Spencar até o mo nismo naturalista e o realism o científico dos escritores alem ães” . Enfim, Comte tinha sido o marco maior: note-se a hiperbólica e enorme frase: “o maior dos filósofos até hoje existentes” . Comte criara as condições para auto-interpretação do espírito humano a rever e entender seus percursos anteriores, seu estágio presente e suas pers pectivas. De Comte teriam vindo todas as teorias vigentes (o que era evidentemente um exagero); e então (eis aí outra rebeldia) o próprio monismo te ria saído das amplas dobras do sistema comteano. Tanto assim que Roberty (positivista de origem eslava a que M artins pres tava grande atenção) chamara à doutrina de Spencer, de “positivismo monistico” . O esforço de síntese, que vimos em Tobias como rejeição do ecle tismo e como ten tativa esconsa de ju n ta r K ant e Haeckel; que em Sílvio dera prim azia a Spencer; que em A rtur Orlando procurou ficar entre as manias do monismo e a rigidez do positivismo, esse esforço aparece também em Martins Júnior. Nele, o critério consiste em adotar o positivismo como posição genérica, alma mater dos outros sistemas do século. Afirmando sua crença na sociologia, Martins enfatizava precisa- mente — contra o ensaio “sociófobo” de Tobias — possibilidade cien tífica da mesma. Mesmo na Alemanha, acrescentava significativa mente, aceitava-se a sociologia. Teve, portanto, mais do que Tobias, sem ter tido os brilhos e vôos maiores que este teve (ou, no caso em tela, por isso mesmo), senso comum para adm itir a ciência do social. Em Tobias, a recusa à sociologia tinha sido uma forma de aderir ao monismo alemão. Martins Júnior, atendo-se mais às fontes francesas, e pregando em Comte uns olhos alargadamente admirados, aceitou a ciência social — 6 3 — como uma natural decorrência do positivismo, da superação da meta física e da teologia. P ara M artins, o monismo, ao invés de repelir a sociologia, devia precisamente desembocar nela, já que do monismo vinha a idéia de entender os fatos sociais como fatos inteligíveis por meio de leis fundam entais. Posição em direito Basicamente, Martins Júnior admitiu em direito o haeckelismo, supondo uma ontogênese e uma filogênese jurídicas. E como foi poi excelência historiador do direito, teve chance de aplicar largamente esta crença nuclear. • • ' V r r r J s ' Um dos ensaios mais famosos, incluídos nos Fragmentos, é o in ti tulado “Intuições romana e germânica do processo” . Neste ensaio M artins via o direito como um organismo, cuja evolução se aperfeiçoa pelo processo: “Assim como no homem os órgãos locomotores e apreen sivos se desenvolvem pela marcha e pelo trabalho manual assim como os respectivos músculos enrijecem pelo exer cício, e o corpo inteiro recebe a influência benéfica dc funcionamento dos órgãos; assim tam bém no organismc jurídico a atividade processual desenvolve e aperfeiçoa c direito, concorre-lhe para a riqueza da plástica, em bele za-o e robustece-o” . Metodologicamente seu ponto de partida era sempre o histórico- social. Mas a história era, para M artins, evolução: mutação orgânica transformação biológica, cientificização crescente. Com certa pompa, mas de modo expressivo, Beviláqua escrevei dele: “Foi com o espírito form ado pela emoção estética, des pertada pela ciência; foi com a inteligência preparadí pela harmonia altíssona das frases, cantando em alexan drinos triunfais; disciplinado pelo método severo do posi tivismo, em sua feição puram ente científica, e pela con cepção do mundo,deduzida da observação dos fenômenos nesse intérmino encadeiam ento que desce das alturas dc mundo estelar para as obscuras combinações da vida social — 6 4 — ou prende as sutilezas do pensam ento hum ano aos estos grandiosos da m atéria m ultiform e; foi com essa m entali dade que M artins Jú n io r se entregou ao estudo do direito” . M u ita coisa certam ente, m uita altissonância para es tu d ar o direito; mas e ra m coisas daquele tempo ainda parnasiano na form a e ingênuo no con teúdo , im peniten tem ente palavroso . No seu Compêndio de História Geral do Direito, de 1899, M artins u tilizou la rg am en te a bibliografia de língua francesa, particu larm en te L eto u rn eau , A hrens e Dareste, m as tam bém os italianos D’Aguanno e C a rie . A pesar das pretensões p rim ordialm ente d idáticas, o liv ro se m o n tav a sobre um a série de consu ltas severas e anotações deta lha das. J á na História do Direito Nacional, publicada em 1895, M artins fizera tra b a lh o m ais pessoal, desdobrando esm iuçadam ente os tem as, pesquisando fontes, repassando todos os detalhes e de ixando inclusive a obra inconclusa, pois chega apenas à época do B rasil-re in o . A p ro b lem ática dos prim ordios e das antecipações ibéricas se acha, inclusive, am p iam en te estudada . Em am bas as obras, o prism a evolucionista se en con tra acentuado: na História do Direito Nacional, a Introdução tra ta p rec isam en te da “Filogenia Ju r íd ic a ” e das “Leis superiores d a evolução re sp ec tiv a” . O s d ep o im en tos d e 1904 Morto no Sul, e vindo em esquife para enterrar-se gloriosamente em sua terra, Martins Júnior foi objeto de um número especial da revista Cultura Acadêmica, em 1904. Aliás este número trás, no final, uma impressionante fotografia do prèstito ao passar pela rua do Hos pício, com uma compacta multidão perdendo-se longe, cujo aspecto, empretecido na chapa, dá um ar de compunção realmente tocante. Neste volume, Faelante da Câmara trata da atividade jornalística de Martins, Carlos Porto Carreiro, de Martins poeta (“o último poeta da república”). França Pereira, da “sua influência na vida mental brasileira” . A. G. Araújo Jorge, do “meio em que apareceu” Martins Júnior (onde se encontra a evocação a Tobias, ao monismo e aos deba tes do tempo). Virgílio de Sá Pereira, de “Martins Júnior, íntimo” . Teotônio Freire colaborava com um artigo genérico sobre o morto. Artur Muniz, com “O orador”. Osvaldo Machado, com “Martins Júnior, o político” . Artur Orlando, com “o filósofo”, artigo desigual mas inte ressante. Gervásio Fioravanti com “o poeta”, estudando os Estilhaços, as Visões de Hoje e a Tela Polícroma. Clóvis Beviláqua, estudando “o jurista” . — 65 — No artigo de Clóvis se põe a figura de Martins dentro da Escol: do Recife, reivindicando para a Faculdade a condição de berço di um movimento que todo o Brasil já conhecia e ouvia. Todos, aliás, afirmam a sedução que possuía a palavra de Martin Júnior, não apenas na tribuna, onde isto não seria tão relevante num; época de oradores, mas igualmente na cátedra. E não era só o toni troar da voz nem o desaforado dos anátemas: era também o encant da persuasão e da elegância dizente. O sentido essencial da obra de Martins terá consistido, talvez, n esforço em conjuntar coisas díspares. Coisas como poesia e ciêncis como haeckelismo e comtismo, como historiografia e oratória. Um d seus elogiadores fúnebres deixou dito que ao seu espírito não agra dava a dúvida: tendia instintivamente a afirmar. Entretanto, teve ; necessidade íntima de dar inteireza às inclinações diferentes de su natureza: poesia, erudição, partidarismo político. Uma das soluções tentada para um dos dilemas, foi a saída pela “poesia científica” Outra, para outro problema, foi considerar o positivismo de Comt como regaço abraônico de onde provinham todas as concepções mo demás. O dilema entre erudição historiográfica e partidarismo, est porém não se concertou de modo satisfatório: a carreira política arras tou-o para longe das pesquisas, para longe do seu Dareste e do s& Letorneau, e daí que sua obra se deixasse ficar truncada e incomplete independente do fato lamentável de ter-se ido aos quarenta e pouco anos, quando tanto poderia ter dado ainda — na idade em que s iria, alguns anos depois, Euclides da Cunha. Sua posição A posição de Martins na Escola não foi, entretanto, a de um hete rodoxo, mesmo porque não havia na Escola ortodoxias: havia cons tantes teóricas e apegos pessoais. Teve, mais do que A rtur Orland por exemplo, liberdade mental para divergir de Tobias, embora cult: vando, tanto quanto aquele, a admiração indesfalecente pelo sergipa no fundamental. Foi um temperamento nervoso e irrequieto, cor problemas pessoais e desvios biográficos (política versus cátedra obra heterogênea, épocas diferentes. Sua posição, basicamente a d um continuador. Os autores que ainda não nos chegavam à época d Tobias, foram as leituras suas e de Beviláqua — que também farií com os estudos de direito, andanças etnográficas e historiográfica« Só que não teve, como Beviláqua, nem o tempo longo, nem a esta bilidade docente para apascentar leituras intérminas nem constru; obras sistemáticas de maior porte. - 6 6 - Foi um lírico, típico do lirismo de seus dias, m as in te r io rm e n te lírico: utópico e afanado por urna fantasia enorme e devoradora , que — como em A rtu r Orlando, e em todos de modo geral — m e tia -se tam bém nos trabalhos sérios, invadia as exposições erud itas e e n fe i tava os períodos que tratavam de temas pesados. Daí a coisa nos dar, hoje, a impressão de empolamento e descabim ento. Mas v a leu a pena. § 6 — Seguidores e continuadores: Clóvis Beviláqua Olhada panorâmica Cearense (1859-1944), Clóvis Beviláqua estudou preparatórios no Rio de Jane iro . Estudou direito no Recife de 1878 a 1882, e se fixou no Recife, tendo entrado em 1891 para o corpo docente da Faculdade de D ireito. E ntretanto , já no período do Ceará, antes do Rio, conviveu com o grupo de Rocha Lima, que capitaneava um movimento in telectual renovador, ao qual estavam vinculados Capistrano de Abreu, A raripe Júnior, Am aro Cavalcanti, João Lopes e outros. O próprio Beviláqua acentuou, posteriormente, a marca recebida de Rocha Lima, que o levou a interessar-se por Comte, Taine, Teófilo Braga, etc. Ainda jovem (regra quase geral no grupo) começou a escrever, enveredando pela literatura e pela filosofia. De literatura, por exem plo, deixou o volume Frases e Fantasias (Recife, Papelaria Americana, 1894). Eram narrativas, entre conto e novela, ao modo romântico, editadas com vinhetas carinhosas. De filosofia deixou os seguintes trabalhos: — “Emile L ittré” (1882), incluído depois em Esboços e Frag mentos; — “A Filosofia Positiva no Brasil”, livro publicado em 1883 no Recife, ainda imaturo mas já definido nos rumos característicos da Escola; — “Conceito antigo e moderno da metafísica”, prova escrita de concurso (1888); — “Notas de Tangência pela filosofia” (1891); — “Da Consciência” (1891); — 67 — — “Repercussão do pensamento filosófico sobre a mentalidade bra sileira” (1896); — “Sobre a realidade do mundo externo” (1897); — “Finalidade do mundo” (1897), comentário sobre o livro de Farias Brito, seu conterrâneo; “A doutrina de Kant no Brasil” (1924). Vários desses escritos foram acolhidos no volume Esboços e Frag mentos, de 1899. Formação e trajetória Começou na nebulosa de tendências negadoras que, tanto no Ceará como em Pernambuco, repeliam a metafísica e o espiritualismo, aco lhendo eongraçadamente o spencerismo, o comtismo, o monismo. Definiu-se pelo positivismo na década de 80. Entretanto, como nota Paim, nunca adotou os exageros de dou trina, nem os de expressão, quecaracterizavam aquela geração. Jovem de vinte e poucos anos, já revelava equilíbrio e serenidade, aquele equilíbrio e aquela serenidade que lhe permitiriam construir suas obras com pertinácia e grandeza. No livro “A filosofia positiva no Brasil”, mostra contudo algumas hesitações. Não adere totalmente ao positivismo. Chegou a dizer que a inteligência humana não pode ficar todo o tempo presa ao “leito de Procusto” que lhe impõe o positivismo: a metafísica acompanhará o homem até chegar a desvendar os mistérios da natureza, se é que ta l momento chegará. Era um pouco a idéia de seu conterrâneo Farias Brito, para o qual a filosofia (“atividade permanente do espí rito humano” ) deveria ir à frente, cedendo vez à ciência sempre que esta avançasse. É de notar a preocupação de Beviláqua em fazer balanços e inven tários do pensamento brasileiro. Assim no estudo “Repercussão do pensamento filosófico sobre a mentalidade brasileira”, onde, referindo-se particularmente ao Nor deste, menciona a farandulagem metafísica varrida pelo littreismo. E como os debates da Escola de Tobias se achavam no ar, considerava o monismo, distinguindo-lhe três tipos — o mecanicista, o filosófico % e o evolucionista. Distinção quebradiça e im p erfe ita , mas que d en o tava sua preocupação de jun tar o evolucionism o com o monismo, pois era o terceiro tipo o que adotava. A dotava-o e n tre ta n to com reservas e prudéncias, sem sectarismo nem gritaria, com a p lacidez talvez um pouco pesada que sempre teve. A lcântara Nogueira, em notável livro a respeito , tenta s itu a r o pensamento filosófico de Clóvis, em torno de algum as constantes basi lares. Segundo ele, a concepção que Clóvis teve da filosofia foi “sem pre a m esm a”, guardando fidelidade ao seu tipo de formação intelec tual desde os começos: “A orientação de Clóvis, embora apresentando determ ina das características de formulação pessoal, no conjunto se associa à grande corrente do evolucionismo na sua direção spenceriana” . P ara Beviláqua, a filosofia era essencialmente síntese. Síntese e generalização: e com isso, as categorias alicerçais de Spencer (em bo ra as de Comte também) passam a caber em tudo e servir para tudo. Sua atitude perante a metafísica se prende, quase como um p re conceito, à ambiência de idéias vigente no seu meio: a ambiência científica, onde o saber “positivo” se ligava à idéia de um progress*) inexorável das coisas hum anas. Sílvio Romero, ao bradar que a metafísica tinha morrido pelas mãos do progresso e da civilização, dava um diapasão estridente às profissões de fé do grupo. Beviláqua, mais contido, mais pacato, preferia mastigar a crítica e encaminhá-la para conciliações entre os esquemas que dentro do próprio am biente se contradiziam. Guardava, diante da metafísica, um resto de reverência. Mas era a reverência vaga do spencerismo, que joga os problemas m e ta físicos para os cimos do “ ineognoscível”, como quem guarda no sótão um velho retrato de avó, empoeirado e desconhecido. Não se p reo cupou, portanto, em te r sistema ou em fazer sistema. A lcântara Nogueira, no livro citado, comparou sua atitude à de Sílvio Romero, este também sem sistema fixo, e aliás preocupado em não ter mesmo um sistema definitivo. Sua passagem por L itrré é representativa. Sentia este positivista dissidente como um elo em direção a outros caminhos, mas não bas tan te para o alimentar todo o tempo. Adotou os traços capitais da — 69 — atitude positivista, tomou uma concepção evolucionista do monismo, spencerizou-se mas não de todo, e passou adiante. A raripe Júnior, prefaciando em 1898 seus Esboços e Fragmentos, jà v iu mais o jurista que o filósofo. E foi como ju ris ta (o principal ju rista do grupo), que Clóvis melhor se realizou. Como jurista, tam bém, concluiu as tendências da Escola, marcando, p o rém ao mesmo tempo, sua extinção. Interesse pela sociologia Não podia, meio spenceriano e cheio de leituras evolucionistas, desinteressar-se pela sociologia, tão debatida e invocada no Recife aca dêmico daqueles dias. Passara o tempo da sociofobia equivocada e inócua de Tobias; agora cada um era sociólogo a seu modo e por sua conta. Beviláqua, com a candura que Araripe Jún ior lhe apontou (can dura no sentido de lhaneza: diz ele que Clóvis Beviláqua não tinha poses do erudito), entra no terreno sociológico. Entretanto, a socio logia não foi para ele campo especifico: foi perspectiva e instrum ento para consolidar outros estudos. Foi quadro para s itu a r in terp re ta ções do direito, do crime e de outros temas. Num estudo de 1895, sobre “A concepção da sociologia em Gum - plowicz”, constata a lentidão com que a sociologia vinha progredindo, comparando-a com a morosidade de outra ciência, a psicologia expe rim ental. Para ele, porém, cada grande sociólogo abria sua trilha : e todas serviam, pois Clóvis, num ecletismo bastante aberto, adm itia que tanto Schaeffle, como Comte, como Tarde, como Durkheim, tinham o que dar à interpretação do Social: “Cada qual, tendo um ponto de vista seu, pouco aprovei tando do contingente de observações reunido por seus antecessores, vai abrindo um a trilha nova que, como as outras, corre o risco de ficar em olvido, à semelhança de um caminho traçado sobre os areais ondeantes do S aara” . No final do trecho, a dúvida: se todos abrem trilhos, é possível que a confusão reciprocam ente apague a todas. Também prestou seu culto a G ustave Le Bon, comentando am pia mente seu livro “Leis psicológicas da evolução dos povos” . Opunha, por exemplo, a opinião de Le Bon, no sentido de uma evolução p lural — 70 — e interrom pida (com parável aos ricorsi de Vico), à maciça le i do p ro gresso continuo, de Comte. Em 1910, no n ú m ero inicial da “R ev ista B razile ira de Sociologia’*, Soriano d ’A lb u q u erq u e , escrevendo so b re “A sociologia n o B rasil” , incluía Clóvis B ev iláqua en tre os sociólogos brasileiros, filiando-o ao organicismo social. Para Clóvis — segundo a exposição d e Soriano — há um superorganism o, que é a nação , e a sociedade nacional n ão deve confundir-se com a hum anidade, vaga en tidade posta sobre a te rra . Nos diversos artigos sobre crim inologia que escreveu, B eviláqua aplicou ao p ro b lem a do crim e a perspectiva sociológica. Chegou a publicar o volum e Criminologia e D ireito, no qual incluiu o famoso ensaio “F órm ula d a evolução ju ríd ica” , que trad u z , no d izer de M a chado Neto, um a “ otim istica filosofia d a h istó ria ju ríd ica” . Clóvis B eviláqua, jurista Foi entretanto como jurista que mais deu de si. Foi a problemá tica jurídica que lhe ensejou as produções mais significativas e mais importantes. No terceiro Congresso Brasileiro de Filosofia, realizado em São Paulo em novembro de 1959, celebrou-se o centenário do nascimento do grande mestre, e algumas colaborações acentuaram a relevância do aspecto jurídico na obra de Clóvis. Alcântara Nogueira, por exem plo, situou as concepções fundamentais da teoria jurídica de Clóvis no quadro das tendências mais representativas de seu tempo. Paulo Bonavides acentuou o quanto o mestre cearense devia à obra de Ihering — que, como se sabe, foi fonte constante para a Escola do Recife. Não sabemos, porém, se se pode chamar Clóvis Beviláqua de “filó sofo do direito” . Seu forte foram, mesmo, os estudos positivos, de direito civil, de internacional privado, de direito comparado: as incur sões na teoria geral resvalam frequentemente nas vaguidades ampu losas, e as formulações filosóficas são quase sempre insuficientes, quan do não ingênuas e ocas. Nem sempre, mas quase sempre. De qualquer sorte, andou certo Beviláqua quando cuidou de ali cerçar seus estudos jurídicos com o lastro da história, da etnografia, da sociologia.Exemplo disso é sua famosa obra sobre o direito de família, onde a exposição “dogmática” ou positiva se acha a cada passo respaldada em bibliografia etnográfica e histórica. — 71 — Participou, com seu espírito formado nos moldes do século XIX, da mania oitocentista das grandes sínteses e das tipificações forçadas: a religião, a filosofia, o direito, a poesia, eram vistas como intuições e form as de atividade com papel definido e lugar histórico próprio. Bem como da mania das negações drásticas e das adesões eufóricas — mau grado sua já citada cautela, seu já citado equilíbrio. Havia autores cuja chancela lhe parecia irrecusável. O que viesse assinado por H erm ann Post, por Joseph Kohler, por d ’Aguanno, ou, em direito civil, por D ernburg ou um Regelsberger, lhe parecia válido, graniti cam ente firm e. Suas lições de direito comparado, publicadas no Recife em 1893, têm aliás elementos pioneiros, com certas antecipações dignas de nota. Em 1897, na Bahia, aparecia seu livro Juristas Filósofos, encimado por uma epígrafe em latim de Pompônio, e outra em alemão de Tobias Barreto. No prefácio, dizia, sintomaticamente, que “Ihering e Post re tratam as duas principais feições cien tíficas da jurisprudência contemporânea; Tobias e Sílvio refletem-nas entre nós” . Os “juristas filósofos” em que se detém são Cícero, Montesquieu, lhering, Post, Tobias Barreto e Sílvio Romero. O au tor pretendeu, de certa forma, escrever uma história da filosofia do direito, divisada em seus cumes maiores, e, na Introdução, descreve como entende a evolução lenta e gradativa dos estudos jurídicos até chegarem às cul- minâncias de seu tempo. Considerando já extinta a escola do direito natural, entendia como algo assente e definitivo o rum o naturalístico imprimido à concepção do direito. Efetivamente bem informado, com uma erudição disciplinada e lúcida, dominando várias línguas e d is pondo magistralm ente das fontes, seu calcanhar de Aquiles é um cal canhar partilhado: partilha, de fato, as fraquezas e prism as próprios de seu tempo, seus preconceitos, suas utopias metodológicas, suas im precisões terminológicas. Civilista, principalmente Preocupado desde cedo com o direito privado, Clóvis Bevilaqua foi o prim eiro grande comentador do Código Civil, cujo projeto d efi nitivo foi, precisamente o seu. Suas concepções pessoais ficaram no Código, mau grado os reparos extensos de Ruy Barbosa, que na v e r dade eram mais tocantes à gramática do que ao direito (sem em bargo de ter sido Ruy grandemente entendido em direito c iv il). — 72 Como foi dito, lastreou la rgam en te se u s traba lhos de d ire ito posi tivo com estudos genéricos de h is tó ria e e tn o g ra fia . No livro Estudos Jurídicos, de 1916, acham-se d iversos ensa io s de h istó ria , com repas ses do d ireito brasileiro, opiniões sobre psico.ogism o jurídico, obser vações sobre o elem ento cultural no d ire ito . Do m esm o modo noutra coletânea, Linhas e Perfis Jurídicos (Rio, 1930), onde figuras do saber jurídico se estudam , junto com tem as concretos e aspectos do direito brasileiro . Neste livro, aliás, um ensaio sobre o Código C ivil põe o problem a com exem plar modéstia, dizendo que um Código é obra de muitos, e que, se tem o Código C ivil B rasile iro ligação com seu nome, tem ligação com m uitos que p a rtilh a ra m dos traba lhos, inclusive seu crítico o Senador Ruy Barbosa. O Código, afirm ava, é prova da capa cidade ju ríd ica nacional: “Expressão da alm a b rasile ira , o Código C ivil é, ao mes mo tempo, rebento da cu ltu ra juríd ica dos rom anos e lusos, e fru to da época” . Na verdade, fru to da época m esm o: de uma geração meio verbo sa, meio cientificista, com sólida form ação nos civ ilistas alem ães e italianos, e em penho em dar ao país um a obra p e re n e . Quando, em 1906, Clóvis publicou o livro Em D efeza do Projeto de Código C ivil Brasileiro (não esqueçamos o extenso parecer de Sil vio na Câmara dos Deputados, favorável ao projeto), em dias ainda anteriores à promulgação do Código, lamentou o desvio que a crítica do Código sofrerá, derrapando para questões de estilo e gramática: “Desejariam os antagonistas do projeto vasá-lo numa lin gua hierática, impecável, que jamais existiu na realidade da vida, que jamais foi falada pelo povo, que eles supõem idealmente criada pelos escritores de sua predileção” . Lembra o que dizia Ramalho Ortigão quando mencionava “a reles, a safada língua culta, entisicada pelas sensualidades solitárias da gra mática” . No livro se destacam, aliás, as páginas iniciais sobre Códigos em geral e sobre a necessidade de uma codificação para o Brasil. Todo o livro, de resto, é um exemplo de cultura jurídica em termos teóricos e em termos técnicos. — 73 — Sua historia da Faculdade Para as comemorações de 1927, relativas a o Centenário da Cria ção dos Cursos Jurídicos Brasileiros, Beviláqua preparou uma alen tada e exaustiva História da Faculdade de Direito do Recife. Amadurecido pela idade e pela experiência, com passagem por todas as áreas que o professorado da Faculdade tinha cultivado (na quele período em que não havia formalmente universidades e todos os saberes das ciências do homem se tratavam nos cursos jurídicos); Bevilaqua pôde dar um balanço magistral, sereno e documentado da vida oficial e cultural da instituição. No segundo volume, trata, nos capítulos VII e V ili, da Escola de Tobias e de seus desdobramentos. Justamente haviam passado os decênios finais da Escola, e seus últi mos ecos haviam silenciado; somente uma ou outra manifestação podia ser vinculada à fonte do movimento. Ele, que fora do grupo, e que desde os vinte e tantos anos — na década de 80 — escrevera coisas de monismo e spencerismo, podia bem situar no tempo o perfil da Escola. Não o fez com maior brilho, que não era bem um filósofo e suas forças maiores estavam nos estudos de direito; mas deixou um depoimento válido. A história da Faculdade é um monumento de afeto pela escola, pela instituição centenária, uma revisão dos nomes que passaram por ela e das agitações que a encheram de vida, um balanço otimista e animador, acentuando inclusive o significado da Faculdade para a evolução “mental” do Brasil. § 7 — Ainda Seguidores e Continuadores Gumersindo Ressa Nascido no mesmo ano que Clóvis Beviláqua, sergipano como Tobias e Sílvio, Gumersindo Bessa (1859 1915) foi também represen tante típico do grupo central da E scola , na fornada dos seguidores. Constituiu em Sergipe uma espécie de vertente repatriada da Escola, reacendendo o culto por Tobias e participando da política local, embo ra de maneira precária. O grupo sergipano constava de Bessa, Oliveira Teles (jurista como ele), P rado Sampaio (ou Sampaio Leite), Fausto Cardoso, Samuel de O liv e ira e outros. Um dos vínculos historigráficos e m relação a Tobias Barreto ficou sendo o seu depoimento sobre o c o n c u rso do mestre para a Faculdade do Recife, que presenciou quando estudiante. — 74 — Talvez Sílvio Rom ero ten h a toda razão ao dizer que o fato de se te r deixado ficar na pequenina Aracaju de sen tempo é q u e im pe d iu G um ersindo Bessa de o b te r uma nomeada m aior e mais b rilh a n te no país. S em pre se cita, dentre seus trabalhos, o estudo in titu lado “Q ue e D ire ito ?”, editado como apêndice ao livro de Sílvio Romero, Ensaios de Filosofia do Direito. O estudo, datado de 1885, deve ter tido im por tân c ia inclusive d idática no currículo da Faculdade, porquan to , no ex em p la r do livro de que dispomos, que pertenceu a L iberalino C aval can ti e tem data de 1904, h á um a anotação a lápis, de le ito r antigo, dizendo: “Do ponto 15” . Bessa cham ava o d ireito de “vínculo da sociedade hum ana, condi ção essencial doprogresso” . Repassando as sucessivas e p recárias defin ições armazenadas sobre o tema, vindo dos gregos até B en tham , S tu a r t M ill, Carie e Tobias Barreto, propõe enfim um conceito, que d iz ser fusão de Ihering , Savigny e Shopenhauer: “É o to tal das m edidas, sugeridas pelo espírito de um a época, adotadas pelo caráter de um povo, e form uladas pelo Estado em regras coativas, fácil e inevitavelm ente exeqüíveis, para im pedir ou para re p a ra r os efeitos de toda afirm ação da v o n tad e humana, a que corresponda, ou um a negação da personalidade do agente, ou um sofrim ento imerecido de o u tre m ” . Aliás, em passagem anterior do mesmo estudo, afirma curiosa mente que o Brasil “não é terra de juristas. Não há energia moral no povo, não há cultura suficiente nas classes dirigentes, para que o direito se eleve à altura de uma coisa venerada e digna do culto nacional. Juizes, advogados, professores, todos os órgãos da vida jurídica nacional, são ganha-pães; pre ferem ser peitáveis a respeitáveis” . Desmentido, de certo modo, à fama de país de juristas que temos, mas desmentido no sentido de exigência moral. E em parte eco, talvez, de suas leituras de Savigny e das observações do mestre alemão sobre o papel do jurista no processo histórico de cada povo. Morto Bessa, imprimiu-se em 1916, em Aracaju, uma coletânea de escritos seus, com significativo prólogo assinado por Prado Sam- — 75 paio. O título “Pela Imprensa e pelo foro’’, um volume de 235 pági nas. Após o frontispicio a pose aparatosa e bonachona do autor, re tra tad o com expressão olímpica e traje solene. O ensaio inicia- versa sobre Tobias Barreto. Começa dizendo que nenhum intelectual no B rasil teve os méritos tão contestados quanto Tobias Barreto, inclu sive o mérito da coerência. A propósito da coerência de Tobias, que se te ria reconciliado in extremis com a Igreja Católica, Bessa aduz as tendências místicas de Tobias. Para ele Tobias tinha sido no fundo um místico, com atração pelos lados positivos do catolicismo: a h ierar quia, a disciplina. Relata uma conversa pessoal, em que Tobias lhe haveria dito ser o ateismo uma tolice e uma form a de ignorância. Acrescenta que o monismo do ilustre conterrâneo não era bem o de Haeckel, mecanicista, mas o de Noiré, mecânico-eticista; e que, por outro lado, Tobias jam ais renegara inteiram ente a metafísica. P ara Bessa, Tobias não procurava nunca a celebridade; não cu l tivava a fama nem vivia preocupado em aparecer. Seu orgulho foi sempre arma de defesa. Neste estudo, um dos mais completos que na época surgiram sobre Tobias, se enfatiza a espantosa informação que Tobias conseguiu sobre as mais diversas temáticas de ciência social, com memória enorme e permanente senso crítico. Muito representativo, no livro, é igualmente o discurso pronun ciado quando da inauguração da estátua do coestadano Fausto C ar doso, em Aracaju. Retrata o intelectual prejudicado pela politica gem local, o seguidor da Escola assassinado por sicários da mais lam entável forma. Há também um estudo sobre Eduardo de Hartmann e sua “Filo sofia do Inconsciente” . Bessa, que foi interessado em Shopenhauer (vimos como o aproveita em sua definição do direito), se achava vol tado para o problema do inconsciente. Considerava, porém, artificial e fantasiosa a filosofia de Hartmann, que a seu ver desprezava os dados da experiência e da ciência positiva. Muito curioso, na parte intitulada “Retalhos” (trechos de peque nos artigos), são as frases contra a gram ática e os gramáticos. A g ra mática, diz Bessa, “é assassina, é parva, é ladra, é bêbada, é canalha. Fora com ela”. E mais: “o gramático é o animal menos sensato da criação” ; “gramática não ensina a escrever, como lógica não ensina a argumentar, nem mecânica ensina a nadar, nem fisiologia ensina a digerir” . E ainda: “Moços, odiai as gram áticas todas, se quereis che gar a escrever com acerto e graça a língua de vosso país” ; “a gramá- tica é um túm ulo, um cenotáfio, um sarcófago” . “O gram ático quer descobrir regras onde só há hábitos”; “a gram ática nunca fez um só escritor to lerável” . Fausto Cardoso Detenham o-nos agora no também sergipano Fausto Cardoso (1864- 1906). Morto cedo, assassinado no palácio do governo de sua terra aonde fora tra ta r de apaziguar facções, deixou pouca coisa publicada. Polígrafo como quase regra geral na Escola, praticou tam bém o jo rn a lismo e escreveu versos. Projetou um a ampla obra de teoria naturalística do direito, com o título geral de Cosmos do Direito e da Moral, da qual ficaram duas partes, relativam ente pouco extensas: a Concepção monistica do uni verso (1894), publicada em São Paulo, e a Taxinomia Social (1898), publicada no Rio de Janeiro. Deixou ainda um discurso longo, sobre “A Lei e o A rb ítrio”, que publicou como Deputado em 1902. Corresponde, Fausto Cardoso, ao haeckelismo ortodoxo e meca- nicista. Sua independência de atitudes pode ser vista quer na defesa do divórcio, que fez como deputado federal a propósito do projeto de Código Civil de Beviláqua, quer na posição, divergente de Tobias, que tomou, a respeito do monismo. Adotava o mecanicismo, embora mantendo perante o nome de Tobias a mesma veneração e a mesma exaltação. Influiu sobre Graça A ranha e sobre Almaquio Diniz. A Taxinomia Social começa com uma citação de Tobias Barreto. Entretanto, logo alarga o seu naturalismo totalizador, dizendo: “A história não é um fenômeno oposto à natureza, a mani festação de outra força, mas a mesma força que anima o universo inteiro revelada sob outro aspecto” . Proclama então a validade de três princípios básicos: o princípio “darwínico” das lutas das espécies; a sobrevivência das formas desa parecidas; o princípio haeckeliano da “lei fundamental da biogenia, que apresenta a história de cada organismo como repetição sumária da história orgânica” . Seu haeckelismo, portanto, embora realmente ortodoxo como sem pre dizem os expositores, não estava só: acompanhara-o a concepção darwiniana da lu ta pela vida e da sobrevivência dos mais aptos. Acreditava eloquentemente num transformismo social, processo básico na evolução do homem e das coisas históricas. Algumas passagens, no livro, revelam todavia um pensador argu to, que infelizm ente — diga-se en passant — não teve condições dí apurar suas bases nem construir pacientem ente suas próprias idéias. A passagem, por exemplo, em que descreve o crim e como coisa posi tiva, criador do progresso e da civilização, criador da história: ums enorme rede de coações veio, por causa do crime, perfazendo o qu€ chamamos de “ordem ” e de “liberdade” . Outra passagem interessan te é aquela em que afirma que toda idéia grande passa por três está gios fatais: utopia, revolta e instituição. Este esquema, a seu mode dialético, encadeia as instituições com novas utopias, e estas desen cadeiam novo processo, sucessivamente. Escritor expressivo, perguntão exigente, expositor mais sugestivo de que claro, Fausto Cardoso teria dado algo de realm ente mais sério, se o destino lhe tivesse deixado chance de remoer melhor seus pen samentos. Sua crítica a Comte e a Spencer, incluída na Taxinomia, é uma demonstração de liberdade e insatisfação intelectuais, e de capacidade analítica. Sobre a “Concepção Monistica do universo”, Souza Bandeira (outro nome vinculado à Escola do Recife) deixou, no seu livro Estudos e Ensaios, de 1904, uma valiosa apreciação. Situação do monismo no Brasil com referência à “revolução” levada a cabo por Tobias Barreto em Pernambuco, Souza Bandeira lamentava a indiferença do público ledor brasileiro para com todo movimento filosófico que não o positi vismo. E a isso atribuía o silêncio reinante em torno do livro de Fausto Cardoso e de sua tentativa de haeckelianismo social:“Discípulo de Tobias (diz Souza Bandeira), o doutor Fausto Cardoso pertencente ao número dos que ouviram a palavra do grande mestre, graças à qual pôde fam ilia rizar-se com as doutrinas modernas” . “Conservou prém (acrescenta) o doutor Fausto Cardoso toda a independência e originalidade de seu belo talento, e continuando a aprofundar sozinho o estudo das teorias em que fora iniciado, ostenta-se com a envergadura de um espírito fortemente culto e extremamente ousado” . Na realidade, mais ousado de que culto, até porque muito ousado mesmo. Certo ou falhado, foi o seu um dos esforços doutrinários pes soais mais peculiares e mais inconfundíveis dentro do m ovim ento. Samuel de Oliveira — 78 — Dos serg ipanos, devemos m encionar ainda Sam uel d e Oliveira (1868—?) e Sam paio Leite, ou P rado Sampaio. Sam uel de O liveira cursou no Rio a Escola M ilitar, dedicou-se ao m agistério e à engenharia c iv il. Infelizm ente, não parecem ter-se conservado os trabalhos de in tenção filosófica que escreveu . Tem-se notícia de um liv ro seu de 1901, Concepção da Filosofia, de índole spenceriana, apoiando-se num evolucionism o vago . E screveu também, ao que consta, o u tro com o nom e de Bases de uma Filosofia, no qual, segundo testem unho do au to r (recolhido por A ntônio Paim ), te ria superado in te iram en te as posições do an terio r. Publicou ainda um as “C artas filosóficas ao doutor Sílvio Romero”, na im prensa, em 1901, e um artigo , “K antism o no B ras il”, na Revista A m ericana, em 1910. Prado Sampaio P rado Sam paio (Joaquim do P rado de Sam paio L eite , 1865-1028) exerceu a função de juiz, em Sergipe inicialm ente e em Pernam buco depois, publicou em 1908 um estudo sobre Tobias, e vários trabalhos sobre li te ra tu ra e filosofia, inclu indo colaboração de im prensa. Sobre P rado Sampaio in fe lizm en te escasseiam certas inform ações, não obstan te te r sido um a fig u ra in teressante naqueles moldes de sua geração . D eixou, como obra principal, Ensaios de Lógica (A racaju, T ipografia do Estado de S erg ipe, 1907), no q u a l se estam pava um apêndice sobre “Os nossos filósofos” . Este tex to foi republicado, na R evista B rasile ira de Filosofia (voi. XVII, fascículo 67) pelo professor Luís W ashing ton Vita, que o considerou “a p rim e ira explicação da filosofia da Escola do R ecife” . Form ou-se em d ire ito no Recife p re c isam en te no ano do falecim ento de Tobias, chegando a inda, porém, a te r con tacto com o fascínio do m estre . Fez tam bém poesia, como tan tos da Escola, e chegou a te n ta r a ficção. No texto mencionado (“Os nossos filósofos”), Prado Sampaio como que complementa a revisão feita muito antes por Sílvio Romero, da qual realmente parte. Para Prado Sampaio, deve-se a Tobias a valo rização de Kant, pois o mestre teria mostrado que, em vez de causa de extravio (que era o que pensava um Balmes, por exemplo), Kant tinha sido fonte de Strauss, Renan, Vacherot, Fichte, Hartmann, Noiré. Prado fez ainda o levantamento, sumário mas inteligente, de outras correntes de pensamento nacional até Estelita Tapajós e Farias Brito. Tobias tinha sido, segundo ele, não apenas um reator como tam bém um propagandista, demolidor de equívocos, “espirito privilegia do” e “ensaísta ao gosto inglés” . De Tobias, partia então para o exame panorâmico do pensamento do grupo que se lhe filiou, incluin do M artins Júnior, Almaquio Diniz e Laurindo Leão. O ensaio te r mina com uma vasta louvação a Sílvio Romero. P rado Sampaio deixou, no número inicial da Revista Brasileira de Sociologia, um artigo sobre “A filosofia e a arte”, bem como um prólogo — já mencionado — à coletânea dos escritos de Gumersindo Bessa. Neste Prólogo, a figura de Bessa é relacionada com o movi mento provindo de Tobias, aquele “extraordinário movimento demo lidor e reconstrutor” que teve por marco definitivo o concurso do ser gipano para a Faculdade. Tal concurso teria aberto “uma nova era no evolver intelectual do pensamento brasileiro” . Tito Livio de Castro Uma das maiores promessas intelectuais do grupo, só muito p a r cialmente realizada, embora muito bem no que o tempo lhe perm itiu, foi Tito Livio de Castro (1864-1890), que deixou três livros: A Mulher e a sociogenia (1887), editado no Rio postum am ente em 1894; Aliena ções e ilusões, tese de doutoramento em medicina (1889); Questões e problemas (coletânea de artigos escritos entre 1881 e 1890), publicado em São Paulo em 1913. Sílvio Romero, prefaciando devotadamente seu A Mulher e a sociogenia, chama-o sem rebuços de “jovem sábio de vinte e seis anos”. Mulato, foi criança enjeitada, criado por um português, Manoel da Costa Pais, que aliás dirigiu paternalm ente a publicação das suas obras. Pôde, por esta proteção, estudar e desenvolver-se, se bem que, morrendo brutalm ente cedo, não tenha dado o que se esperaria de seu talento extraordinària e de sua formação incomum. Teve d ifi culdades por causa da cor (é Sílvio Romero quem o rela ta), como aliás Tobias as tivera. Diz Sílvio Romero: “Ele não foi desses que aprendem diante do público, p en ' sando em voz alta. Quando tomou da pena, dos vinte aos vinte e seis anos, já se nos apresentou imensamente culto, e firmado em suas idéias fundam entais” . Concentrado totalm ente em seus estudos, Tito Livio de Castro rea l mente construiu, para o tempo e para os seus poucos anos, urna for- — 80 — m ação científica excepcional. Sílvio R om ero atesta que, q u an d o o v isitava, encontrava-o atufado en tre os liv ro s , seletos de psicologia, h istória, economia, antropologia, medicina, psiqu ia tria , filosofia, poesia. M orreu tuberculoso. Tito Livio de C astro sofreu funda in fluência do evolucionism o e do transform ism o (Sílvio o diazia “um tran sfo rm ista enrage, u m d a r w in ista rad ical” ), mas tam bém se in te resso u profundam ente pela psicologia associonista do século XIX, por M ill, H uxley e o u tro s . A lém do in teresse pela biologia geral e social, teve Livio de C as tro preocupações bastan te atiladas em re lação à lite ra tu ra b rasile ira , preconizando, p ara sua compreensão, o pon to de vista n a tu ra lis ta , ou seja, como se dizia então, a “intuição” do naturalism o, e do evo lu cionism o. Preocupou-se em en tender o p a ís e basicam ente com as questões de instrução e educação. Seu livro m aior, A Mulher e a sociologia, pode ser considerado, a nosso ver, um a das m aiores produções d a vida in telectual b ra s i le ira no século passado. Bem escrito, com um estilo m uito su p erio r ao da m aioria dos grandes da Escola do R ecife, o livro é claro, seguro , refle tido e bem es tru tu ra d o . Se tem equívocos, se tem partipris pelo biologismo, são traços de seu tempo e de seu meio. Pretendia ele que o seu livro fosse “uma pequena contribuição para o engrandecimento da consciência como fator da evolução humana” . • Seu problema central era situar a posição social da mulher e seu papel como “fator sociogênico”. O ponto de vista científico lhe pare cia inarredável. Recorre então ao que os livros do tempo ensinavam sobre crânios femininos, medula, fisiologia diferencial, comparações arqueológicas etc. A inferioridade craniana das mulheres, coisa pro vada, se compensaria com a presença, nelas, de mais medula, e isso lhe parecia a compensação essencial. Certas ingenuidades, que hoje ressaltam, se acham em seu texto pagas pelo excelente estilo e pela tocante e exemplar severidade científica que a cada passo revela. O importante no livro, porém, não são as investigações morfoló gicas, extensas e precárias, e sim o intento generoso e clarividente de promover a reabilitação social das mulheres, sua emancipação quase. Assim como, e muitoespecialmente, a ênfase que dá ao problema da educação feminina, prevendo problemas sociais, sugerindo reformas — 81 — pioneiras e vendo com olho arguto certos problemas sociais brasilei ro s . Para Castro, haveria um “interesse da espécie na educação da m ulher” (inclusive p o r causa da validade da Lei de Haeckel segundo a qual a filogênese se reflete na ontogênese); para o Brasil, era tempo de superar velhos m ales por meio de reform as pedagógicas que fos sem reformas de hábitos e de m entalidade. O uso de estatísticas e de quadros demonstrativos, com pesquisas sérias e anotações cuida dosas, dá ademais ao extraordinário livro um valor de antecipação au tên tica. § 8 — Outros seguidores e outros continuadores Observação digressional Não podemos, obviamente, incluir como “discípulos”, ou como inte grantes da Escola do Recife, mesmo na faixa dos seguidores e conti nuadores, a cada escritor que de alguma m aneira tenha elogiado Tobias Barreto, ou tenha concordado com alguma idéia de Sílvio Romero. É verdade que um dos elementos internos da Escola foi a convergência do apego a Tobias, a referência constante de seus componentes à obra de Tobias: encontramos isto em Bessa, como em Martins, como em A rtu r Orlando. Entretanto, muitos autores daquelas décadas (as últim as do oitocentos e as duas primeiras, a prim eira ao menos, do novecentos), muitos autores chegaram a tratar de Tobias sem ser do grupo; ou ado taram problemas que vinham de Tobias, ou tiveram modos intelectuais que eram da Escola por serem do tem po — não mais. Topamos assim repetidamente com a dificuldade de definir posições: as dos que foram efetivamente e intencionalmente filiados ao movimento, e as daqueles que o panorama apanha por estarem na época, e que apenas se acham relacionados (às vezes até em polêmica e antagonismo) com a Esscola. A confusão se faz possível, sobretudo, quando se tra ta de seguidores e continuadores de menor porte, ou então de figuras cuja biografia se adentra pelo século XX e se banha de outras luzes. Estamos tentando situar os filiados restantes, aqueles que efe tiva mente se alinharam nas crenças dou trinárias e temáticas do grupo. Tentaremos depois indicar os que, de certa forma, são mais relaciona dos que filiados, os francamente dissidentes, os que se ligaram ao grupo como um guelfo de Florença estava ligado a um gibelino: por te rem vivido o mesmo pedaço da história. E retornemos aos nossos personagens. Faelante da Câmara Francisco Faelante da Câmara Lima (1862-1909), recifense, foi dos igados a Tobias desde sua formação básica. Form ado em 1885, culti- ou a poesia e o jornalismo, praticou política, ensinou direito penal La Faculdade a partir de 1891. Deixou um estudo inacabado sobre o luelo e outro sobre o infanticidio (que tiveram certa repercussão); [rande parte de sua fama, ao menos nos meios universitários, lhe reio porém da célebre Memória Histórica que publicou em 1904, na ‘Revista Acadêmica” da Faculdade de Direito, relativa ao ano de 1903. Foi, no dizer de Machado Neto, “o primeiro cronista da escola”, .‘azendo um retrospecto realmente sugestivo da trajetó ria da faculdade ? de sua vida docente e discente. A ristocrata por nascimento, recusou entretanto adesão ao credo individualista de Spencer; recusou também (segundo o professor Eve- rardo Luna no estudo comemorativo que lhe dedica no volume LXIII da Revista Acadêmica) o credo anti-socialista radical de Garofalo; recu sou finalm ente o marxismo e tendeu ao que na Alemanha se chamou “socialismo de cátedra” . Sua vivacidade intelectual, um pouco diletante é certo, não lhe perm itindo fixar-se fecundamente num tema ou num a doutrina, deu- lhe certo destaque entre seus contemporâneos, tendo sido orador feste jado, um orador parnasiano como os de seu tempo, mas inteligente e eficaz. Seu estudo sobre Tobias, do qual a Revista Acadêmica publicou parte, o vincula à Escola, embora não o retivessem maiormente as funduras filosóficas, nem indagações científicas mais áridas. Virgílio Sá Pereira Jurista , professor da Faculdade, Virgílio de Sá Pereira escreveu também sobre Tobias (que era como ir à Caaba nas iniciações e pere grinações do grupo). Chegou a redigir um projeto de Código Penal e deixou vários escritos espalhados em revistas. Souza Bandeira João Carneiro de Souza Bandeira, recifense (1865-1917), irmão de Herculano Bandeira, foi desde os anos de estudante fervoroso adepto de Tobias Barreto. Vida agitada teve, ensinou no Rio, entrou para — 83 — a Academia Brasileira de Letras (onde sucedia a M artins Júnior e foi recebido por Graça Aranha, tudo gente ligada ao g ru p o ) . Deixou várias obras, como: Estudos e Ensaios (1904), Reformas (1909), Pere grinações (1910), Páginas Literárias (1917) e ou tras. Coletou influên cias diversas, e preocupou-se intensamente com a política e com os sempre chamados males do país. Um estudo de 1882, ano em que estudava ainda o segundo ano de direito, trata de monismo. Para o jovem de então, o monismo respondia à necessidade de um sistema que, à a ltu ra do século, supe rasse o materialismo estreito e insuficiente de Moleschott e Vogt. Referia-se à Germania Mater como fonte do saber novo e das novas verdades e destacava o “papel do transformismo na filosofia monistica”. Noutro estudo, glosando o livro de Clóvis sobre o positivismo no Brasil, adotou um ponto de vista conciliadr, que não pretendia contudo con fundir-se com o ecletismo “superficial” de Cousin, nem com a identi ficação dos opostos de Schelling; preferia aparentar-se à idéia de Fouillée, de que os sistemas se completam, se unem e não são neces sariam ente antagônicos. Neste ensaio, ainda sobrepunha o monismo ao positivismo. Incluiu-se, como este, nos Estudos e Ensaios, num artigo sobre Tobias Barreto, que escreveu como comentário aos “Estudos de Direito” do mestre, e que trazia como epígrafe a famosa expressão de Dante: “Tu duca, tu signore, tu maestro” . Cabe anotar que Souza Bandeira escrevia realm ente bem (coisa pouco frequente entre os da Escola) e este ensaio sobre o mestre ser gipano vem de fato muito bem redigido. Evocando os ardores dos estudantes recifenses de seu tempo, comenta: “Quem estivesse em contacto com a nossa mocidade de uns dez anos a esta parte, e observasse a legião que pare cia então form ar-se dos conquistadores do futuro, certo acreditaria que a sorte do país m udaria imensamente quando aquela rapaziada valente e talentosa, cheia de fé, e entusiasmo, chegasse a tom ar o lugar que lhe competia entre as classes dirigentes do Brasil” . Mas, lamentava, a política bastarda vinha corroendo as idéias, e em lugar de intelectuais tínhamos no poder aventureiros. Daí a impor tância de voltar a cada passo ao culto a Tobias Barreto, figura da — 84 — m aior relevância como exem plo e fonte de ensinam entos. P ortan to , Souza Bandeira achava necessário conservar a unidade da Escola como form a de salvar o país da politicagem e d a decadência in te lec tual. Por outro lado, se aceitava o Tobias filósofo e o Tobias ju rista , acom panhando-o inclusive na crítica ao d ire ito natural, não concorda va com sua atitude negativa diante da sociologia. P a ra Souza B an deira, a sociologia era inegavelm ente uma realidade científica e uma necessidade, contra a qual era im profícuo opor, como Tobias fizera, o monismo de Ludw ig N oiré. Aprígio Guimarães Aprígio Justin iano da Silva G uim arães, nascido no Recife em 1832 (e portanto sete anos an tes de Tobias B a rre to ), pode se r relacionado à “Escola do R ecife” por certos traços de sua form ação in telectual e por certos contactos de seu m agistério, na Faculdade, com as ag ita ções prom ovidas pelo grupo de T obias. Deixou vários traba lhos escritos, inclusive algunsde econom ia, peças teatrais e ou tras coisas. C om entarem os aqui, de preferência, um a sua Miscelânia Filosófica e Sociológica (publicação póstuma, 1889, R ec ife ). Logo de início, fo r m ulava a observação de que em A ugusto Comte “há m uito joio a sep ara r do trig o ” , e que a sua classificação das ciências é inaceitável, pois as ciências são organismos e não evoluem na ordem “se riá r ia ” que Comte d escrev ia . E ntretan to , falando da sociologia, que adm itia eomo ciência conexa à biologia, fazia esta afirm ação, q u e nos repõe na classificação com tista: “O ser hum ano é ao m esm o tem po o problem a fina l da b iologia e o fato inicial da sociologia” . Aceitava, com Spencer, a regra geral da passagem do homogêneo para o heterogêneo, bem como sua aplicação no entendimento das mudanças da sociedade. Também tirava de Spencer aquele vago res peito pelo “incognoscível”, chegando a dizer que não existe incompa tibilidade entre religião e ciência, pois que da ciência resulta, para a crença religiosa, uma base mais firme. Quanto aos problemas sociais, por conta de cujo estudo se tornou um pioneiro de nossa ciência econômica, sua posição foi firmemente liberalista. Critica, neste sentido, o saint-sinonismo, pelo desconheci- — 85 — mento da liberdade, que diz ser o meio principal de revelação das individualidades e das capacidades. Num célebre Discurso de Aprígio Guimarães, proferido quando do doutoramento de alguns professores da Faculdade do Recife (entre os quais José Hygino), e publicado em 1889, encontramos o mesmo credo liberal e meio spenceriano: “Sim, o meu princípio primário é o homem, com sua natureza simultaneamente individual e social, sempre autônomo e sempre livre: a face individual — o concreto — dominando a face social — o abstrato —: o fim domi nando o meio, a mão dominando o instrumento: a socie dade para o homem e não o homem para a sociedade” . No mesmo discurso, novamente o problema da sociologia, vista como interligada com a biologia, independente porém desta, e cui dando das “leis” da evolução social do homem. Artur Guimarães Artur Guimarães, amigo particular de Sílvio Romero, sobre o qual deixou o famoso livro-depoimento Sílvio Romero de Perfil (continuado ou completado de alguma forma pelo filho Argeu Guimarães, no livro Presença de Sílvio Romero), publicou alguns trabalhos significativos, dentre os quais o ensaio Problemas Brasileiros, que se republicou em Lisboa, em 1912, em conjunto com o ensaio de Sílvio Romero “O Brasil na primeira década do século XX”, com o título global de “Estu dos Sociais” . Trata-se de uma análise econômica dos problemas do país, abrangendo problemas financeiros, agrícolas etc. Amigo devotado, deixou interessante correspondência pessoal com Sílvio Romero, publicada no “Sílvio Romero de perfil” e divulgada no livro de Sílvio Rabello sobre o autor de “Doutrina contra Doutrina”. § 9 — Outras figuras Passemos a outras figuras que, de alguma forma ou em alguma medida, se enlaçaram ao movimento chamado Escola do Recife. Laurindo Leão Nascido em 1857, formado em direito em 1880, Laurindo Carneiro Leão não chegou a ser aluno de Tobias Barreto. Teve fracassos em concursos, e, depois da república, ascendeu ao magistério na Facul dade. Ensinou filosofia do direito durante muito tempo. Laurindo Leão não foi propriamente membro da Escola do Recife. — 86 — .dotou uma filosofia fenomenista que não se coadumava com o monis- 10 de Tobias. Entra como participante do meio e da época. O professor Machado Neto considera que a defesa da metafísica, •or Laurindo Leão, o vinculava à Escola do Recife, já que Tobias ambém se recusara a repudiar a metafísica. Entretanto o flerte de Tobias com a metafísica não foi algo bastante definido, e de resto nuitos componentes importantes da Escola foram rasgadamente anti- netafísicos. A tradição acadêmica retrata-o de roupa preta e chapéu coco, iistraído e bonachão; ou então enfurnado entre os livros, na Biblio- ;eca da Faculdade. Os livros propriamente que deixou, apesar de escrever bastante, foram os Estudos de Filosofia do Direito (só a primeira parte, intitu lada “Introdução ao Estudo das Ciências do Direito” ), editados no Recife em 1904, e a História da Filosofia, em dois volumes, editada no Rio. O resto de sua produção se acha esparramada por números da Revista Acadêmica da Faculdade. Cheio do psicologismo difuso de Wundt, e também empapado de leituras nos psicólogos da escola de Bain, mais Spencer, Hamilton, Mili, e todo o time do oitocentos, tentou Laurindo Leão uma síntese onde entrava ainda um tanto de Kant. No livro de filosofia do direi to, diz “Ao leitor” que escolheu para sua exposição “o método didá tico, lacônico, comparado e histórico” . Na verdade seu didatismo é duvidoso e seu laconismo precário. Repete-se, e volta aos problemas, como quem escreve sem plano nem esquema. E escreve sem encanto. Valeu, todavia, seu esforço como esforço de pensamento pessoal, com afinco e tenacidade, como o de quem tenta realmente dilucidar as questões. Na História da Filosofia, teve a feliz idéia de mencionar e estudar os pensadores brasileiros dentro de cada grande época ou escola (coisa que recentemente faria também Luiz Washington Vita), em vez de atirá-los para uma “outra” história contada no fim da primeira, como se faz em geral desde Leonel Franca. Euclides da Cunha Para Luís Washington Vita, Euclides da Cunha (1866-1909) per tenceu “de certo modo” à Escola do Recife. Pareceu ao grande histo- —* 87 — riador de idéias que o estupendo épico de Canudos, por sua atitude intelectual, foi parente dos do grupo. Influenciado por Comte, e também por Spencer, incisivo mas nunca ortodoxo, antimetafísico convicto, comprometido com os proble- mas urgentes do país e cheio de consciência angustiada por eles, Euclides foi sem dúvida uma das m ais poderosas figuras da vida intelectual brasileira de sua geração. Terá sido, em relação à Escola, talvez, um aliado longínquo e involuntário. Koseritz Karl von Koseritz, amigo pessoal de Sílvio Romero (a quem este dedicou “A Filosofia no Brasil”, editado justamente por Koseritz em Porto Alegre), deixou um livro sobre nosso país, Bilder aus Brasilien — Imagens do Brasil. Nascido em 1830, veio para o Brasil com 21 anos e teve várias interferências em debates culturais no Sul do país, atuando na im prensa. Maçon e irrequieto, criou em 1886 um jornal “O Combate” em Porto Alegre, que anunciava a colaboração de alguns dos maiores nomes das letras nacionais, inclusive Tobias Barreto e me combatividade polêmica. Vibrando com o germanismo bibliográ- Sílvio Romero. Aliou uma larga curiosidade intelectual a uma enor- fico da Escola do Recife, combateu o domínio francês (então ainda inabalado) sobre o espírito brasileiro. No fundo, Koseritz foi sobre tudo um político, e, como disse O beraker em estudo sobre sua figura, suas atitudes intelectuais decorreram sempre de sua posição política. Samuel Martins A influência avassaladora de Tobias Barreto aparece também num pequeno livro de Samuel M artins, Subsídios para a Moderna Ciência do Direito, editado em 1895 em Pernam buco, pelo “Pantheon das Artes” . A prim eira frase do livro é de Tobias, sendo o de Ihering o segun do nome próprio mencionado. No meio de muito palavreado confuso, se destaca a definição do direito, tirada de Tobias Barreto (“ilu stra do e decidido propagador da Escola A lem ã” ). O direito para ele seria “a força organizada pelo tempo e acum ulada pelas gerações” . Ao es tu do sobre o que é o direito, segue-se um a segunda parte chamade “Folhas Soltas”, e aqui temos um estudo sobre a pena (dita pelo autoi — 88 — emento estático e não dinâmico na sociedade), outro sobre o Estado, itro sobre a propriedade e outrosobre sugestão e hipnotismo. Souza Pinto Em seus Estudos Sociais e Jurídicos, editados no Recife em 1899, ouza Pinto diz “Ao leitor” que seus estudos se prendem “à admirá- b\ e imorredoura doutrina de Augusto Comte” . No segundo opus- ilo dos Estudos (1906), e no terceiro, a fixação por Comte continua rme e endeusadora. Foi, no Recife de então, um discípulo devota- o e, ao que parece, imune às tentações doutrinárias da Escola de obias. Joaquim Pimenta Um autor que talvez se possa relacionar à Escola foi o professor earense Joaquim Pimenta, que em 1915 publicava no Recife a Cosmo gonia do Direito Romano, baseando-se em Ihering e falando numa continuidade genética na evolução do mundo social” . Com algumas itações de Letourneau, Sumner Maine e Comte, seu trabalho revelava dnda característica do século XIX. No mesmo ano, editara, como ese para a Faculdade, os Ensaios de Sociologia e Direito. Um dos msaios versava justamente sobre o “darwinismo na sociologia”. Toma da como verdades assentes as leis de Darwin e Spencer sobre a sele- ;ão natural e a sobrevivência dos mais aptos, fazia a crítica do orga- lismo, considerava como regra universal a luta pela existência. Mas ichava que, além da luta, a simpatia, o altruísmo e a justiça também pesam na formação e transformação das sociedades. Araripe Júnior O grande crítico cearense, ligado a Clóvis Beviláqua e a Capis trano de Abreu, também tem seu nome ligado episodicamente à Escola, já pelos debates que sustentou contra Sílvio Romero, já pela própria impregnação pela ambiência de idéias que vigoravam no Nordeste e de algum modo o tocaram. José Higino José Hygino Duarte Pereira (1847-1901), professor na Faculdade desde 1876, foi deputado à constituinte Republicana, jurista e estu dioso do Brasil holandês. Positivista de início, posteriormente evo lucionista, foi combatido duramente por Tobias e Sílvio, por conta da luta anti-positivista que travavam. Entre os alunos, José Hyginb, 89 difundia e defendia as teorias de Spencer, enquanto Tobias Barreto as atacava. Discutiu com Tobias, também, a respeito do problema do “sel-government” e das idéias de Gneist e de Lorenz Von Stein, em polêmica conduzida por Tobias com acritude pessoal e descortesia. José Higino traduziu o famoso Tratado do Direito penai de Von Liszt, deixou umas Lições de Direito Natural e outras Lições de direito administrativo, além de teses, artigos e pareceres. João Vieira João Vieira de Araújo (1844-1922), partidário do spencerismo e da variante evolucionista de Ardigó, foi também influenciado por Letourneau e Bagehot, e pelos criminalistas italianos da Escola Posi tiva (Ferri, Garofalo, Lombroso). Foi especialista em direito crimi nal, sendo considerado como um dos grandes crim inalistas brasileiros do século passado. Teve relevante atuação na Faculdade de Direito, apesar de, como professor (di-lo Beviláqua), fa lta r-lhe clareza expo sitiva . Augusto Franco Ramificação mineira da Escola, representou-a Augusto Franco (1876-1906), morto lam entavelm ente aos trin ta anos. Ligado a Sílvio Romero, prefaciou o livro deste, Passe Recibo. Sua vinculação à escola é afirm ada por Eduardo Frieiro e confirmada por Antônio Paim . Deixou uns Fragmentos literários (1904) e uns Estudos e escritos (1906). Os Estudos e Escritos trazem por sub-título “Esboços e crônicas” e vêm dedicados, entre outros, a A rtur G uim arães. Nas “Observações Necessárias”, que abrem o volum e, menciona a nossa amada e querida Alemanha. Para Franco, o direito, a lite ra tu ra , a história, a filosofia, a polí tica etc., eram os “múltiplos desdobram entos” da sociologia (Ensaios e Escritos, pág. 206). Um tan to desarrum ada, e acutilada de vez em quando por citações em alem ão, sua explanação poderia ser m ais clara, se mais tempo tivesse tido para am adurecer. A sociedade, p a ra ele, era um organismo (o ensaio IX se dedica justamente à “origem , elementos, estrutura e evolução da sociedade — concepção m ecânica e orgânica” ), mas, no desenvolvim ento desta idéia, entressurgem Mohl, Haeckel, Darwin, Duguit, sem fa la r de Spencer e Comte. — 90 — O ensaio XI tra ta de A rtur Orlando, que teve como am igo pes soal (a expressão era : “dous notáveis trabalhos do festejado e erudito escritor do norte” ) . O ensaio XIII constitui um ataque a José Verís simo, que criticara Tobias Barreto (a quem, segundo Franco, não podia Veríssimo ju lgar, por absoluta incapacidade in telectual), um ataque violento e virulento. Almáquio Diniz Na ramificação baiana da Escola, encontramos nomes como os de Leovigildo Filgueiras (spencerista) e de Almáquio Diniz. Professor em Salvador, escrevendo sobre vários assuntos e com uma abundân cia impressionante, Almáquio foi civilista, filósofo do direito, soció logo e tudo o m ais. Basicamente, foi sempre evolucionista, ligando-se em grande parte ao haeckelismo como Fausto Cardoso. Sua vinculação ao monismo é que, precisamente, o relaciona à Escola do Recife. Aliás divergiu de Haeckel apenas ao recusar-lhe a difusa religiosidade, chegando sua atitude contra-religiosa a escrever um romance ousado com o títu lo de “A carne de Jesus”, que aliás foi anunciado pelo au to r com o curioso destaque do fato de ter sido excomungado pelo Arcebispo da Bahia. Escreveu muito sobre teoria do direito, e nos últimos tempos mostrou bastante interesse pelo socialismo e pelas experiências sovié ticas. Aníbal Falcão Poderíamos citar ainda Aníbal Falcão, ligado aos acontecimentos da implantação da República, amigo de Martins Júnior e influenciado pelo positivismo. Seu livro Fórmula da Civilização Brasileira (1883) trazia uma interessante visão da problemática racial brasileira, com um ponto de vista abolicionista lúcido e certa independência crítica. 2 — Setores cultivados pela Escola Dispersão ou enciclopedismo? Por suas intenções teóricas, e pelo padrão intelectual vigente entre seus integrantes, a Escola do Recife foi onímoda. Os escritores daquele tempo, em maioria, eram “talentos polimorfos”, ou “polifacéticos”, — 91 — eram polígrafos: geralmente escreviam de literatura, cuidavam de filosofia, discutiam sociologia. Sem falar do direito, já que quase todos eram bacharéis. Não basta dizer isso, porém . As discussões filosóficas envolviam, ora crítica de religião, ora problemas de cosmologia e portanto de ciência física; os estudos literários se montavam sobre considerações antropológicas, etnográficas e de comparação. Os estudos jurídicos implicavam frequentemente teoria política, e a sociologia significou, por um lado, interesse pela biologia e pela história no mais largo sentido, e pelo outro lado projeções sobre economia, doutrinas sociais, problemas financeiros, demográficos, higiênicos. De outra forma, o alcance enciclopédico dos interesses e dos conhe cimentos esteve mais ou menos proporcionado .à grandeza das figuras. Sílvio Romero foi dos mais espalhados e Tobias, possivelmente, mais ainda. Mas mesmo os menores, ou os que menos escreviam e inclu sive os que m orreram jovens, m ostraram aquela dispersão, estranha e desfavarável sob certo prisma, mas, de outro ângulo, explicável e até natural diante do ambiente vivido e respirado por eles, naquele Brasil ainda mal formado, em fase de colonialismo m ental ainda patente, e carente de universidades. Na verdade, na Europa também vigorava a dispersão: alguns dos sábios (palavra que chegou a baratear-se pelo uso, naqueles tempos) que os da Escola invocavam com unção e euforia, tanto falavam de pedagogia e lógica, como de biologia e política: foi o caso de Spencer, como de Mili, por exemplo. Se a atitude intelectual dos discípulos de Tobias era por vezes comparável à dos ilustrados do século XVIII pela valorização do inte lecto, pelo sapere aude epela idéia de civilização (o que nos chama, mas só em parte, às teses de Roque Spencer Maciel de Barros em seu livro A Ilustração Brasileira e a Idéia de Universidade), tam bém pode ser comparada à dos contemporâneos de Rousseau pelo ca rá te r “enci clopedista” do movimento. Ninguém no grupo se contentava (salvo exceções) em ser só jurista ou apenas filósofo: era-se filósofo para ser crítico, era-se sociólogo por ser filósofo, era-se ju rista falando de evolução. Temas de religião Assim como Spinoza tinha visto e tinha feito, a crítica da religião servia como passo inicial de toda crítica de idéias. E isto viram e fizeram também um Feuerbach, um Strauss, um M arx m esm o. — 92 — Pois Tobias começou escrevendo sobre religião e teologia. Não talve-z por método, por achar que a análise das crenças deve antece d er à das idéias ou coisa parecida, mas por te r tido logo cedo a moti vação polêmica para tanto: atacar as posições teológicas era atacar as posições assentes. Foi o que fez realm ente Tobias, em sua ráp ida passagem pelo positivismo, aceitando como “lei”, a supe ração da forma teológica de pensar. Mas quando, passada sua fase positivista (que se mudaria depois num antipositivismo cnragé), abraçou o monismo, algum interesse pela religião seguiu tendo, e, como alguém já disse, a porção de religiosidade que o monismo pos- su ia deve ter ajudado Tobias a aceitá-lo, já que Tobias, repelindo as religiões assentes e os credos oficiais, manteve toda a vida algumas tendências místicas, guardadas e atuantes. Paim observa que Tobias Barreto sempre preconizou respeito pelos sentimentos religiosos. Expressamente declarou que suas diver gências em face do catolicismo brasileiro não o impediam de valori zar a atitude religiosa como tal, em seu significado vital e em suas repercussões morais. Vários outros integrantes da Escola tocaram também em temas religiosos. Sílvio Romero o fez largamente em Doutrina contra Dou trina, ao arrem eter contra o positivismo, em suas implicações religio sas na teoria e suas aplicações rituais na prática. A rtur Orlando, em alguns ensaios, inclusive em “O problema da morte” , excursionou por m atéria religiosa. O permanente debate em torno de posições funda mentais e de doutrinas genéricas obrigava a encarar o problema: ora a propósito do “incognoscível” de Spencer, ora a propósito do monis mo (que Haeckel mesmo chamava “traço de união entre religião e ciência”), ora do comtismo ou de algum estudo de Buchner, Renan, Vacherot ou Jules Simon. Temas de Filosofia Mas se a religião esteve sempre presente, a filosofia foi a tem á tica central nos estudos integrantes da Escola. Foram todos interes sados em filosofia, contribuindo ou não para o desenvolvimento do que se poderia dizer o “pensamento filosófico” brasileiro. De certa forma, a Escola foi justam ente uma posição filosófica. Ou por outra, um tipo de posição. É verdade que não teve ortodoxia nem grande coesão doutrinária; fez-se e sustentou-se de constantes temáticas e apegos pessoais. Mas estes apegos em geral correspon- — 93 — diam a adesões ideológicas (no sentido genérico do term o), e as cons tantes temáticas redundavam em equivalências e semelhanças nas opiniões. D as dissenções internas da Escola resultaram, com certa perma nência, três ou quatro variantes principais dentro do nível filosófico, entre as quais se foram repartindo os membros do grupo: a variante monistica, a spenceriana e a comtista. Em grande parte, entretanto, os pensadores do grupo não adotaram estritamente, como uma opção, esta ou aquela vertente: uns juntavam o evolucionismo com o monis mo, outros reduziam tudo ao positivismo. Em Martins Júnior, por exemplo, encontramos a idéia de que o evolucionismo é o melhor tipo de monismo, bem como a de que o positivismo comteano tinha sido o regaço originário de todas as posições viáveis. Em Fausto Cardoso temos a aceitação do monismo haeckelista tout court, que o próprio Tobias B arreto tinha substituído pelo monismo de Noiré, no qual o mecanismo seco e peco cedia vez a uma versão mais dúctil: a cisão do mundo em duas dimensões, ou ante-s, em duas “classes de m ani festações”, movimento e sentimento. Isto, que Souza Bandeira chamou de “bela teoria”, era aliás uma espécie de nova visão da dualidade cartesiana entre extensão e pensamento. Na medida em que cada membro da Escola, continuando o padrão intelectual de Tobias, se acreditava vinculado ao seu legado doutri nário, julgava-se também obrigado a retomar o problem a das decisões filosóficas lim inares. Cada qual ia ler o seu Comte e o seu Spencer, decifrar o seu Haeckel, esquadrinhar o seu Darwin, e opinar sobre o transformismo ou a lei dos três estados. Uns lim itando-se a repetir ou sublinhar a posição que preferia, outros tentando formulações novas, como aquela de Fausto Cardoso referente às três fases de cada idéia: utopia, revolta e instituição. Alguns acharam jeito de acasalar a “lei biogenètica fundam ental” com a crítica comteana da metafísica; outros se sentiram no dever de optar en tre ser comtista e ser evolucionista, ou entre ser monista e ser positivista. Crítica Quase todos foram críticos, neste sentido latissimo da crítica de idéias, que engloba análise de obras de literatura, de direito, de his tória, de filosofia. Crítico foi Tobias, embora não propriam ente “m ilitante” como se diria hoje, e também não sistem aticamente, mas em termos ocasionais — 94 — e circunstanciais. Sílvio foi basicamente crítico; e se, como Tobias, foi mais ainda polemista de que crítico, foi crítico com constância e estabilidade. A rtur Orlando também foi crítico, como Clóvis o foi eventualm ente, como Augusto Franco o foi. Inclusive ao opinarem sobre as obras uns dos outros, fizeram da crítica um instrum ento de cimentação da Escola, e de ataque uniforme (ao menos psicologica m ente uniform e) aos que não faziam parte do grupo. Em Tobias Barreto, a crítica estendida a ramos que nem todos puderam continuar. Por exemplo, fez crítica musical. No volume III de suas Obras, intitulado “Filosofia e Crítica”, temos diversos artigos sobre óperas: sobre Salvator Rosa, sobre a Norma, sobre o Fausto. E há também artigos sobre interpretação vocal, opinando sobre tenores e barítonos. E citando sempre coisas em alemão, além de en trar em detalhes técnicos e mencionar trechos de partitu ras. Gumersindo Bessa, em 1884, escreveu um estudo sobre um quadro de Horacio Hora, “Pery e Cecy”, um estudo em estilo à Tobias — no uso de comparações, nas digressões filosóficas, na agressividade das citações. Dizia aliás, no estudo, que aquele pintor era “um pre destinado da imortalidade” . Ciências Sociais Questão permanente para os componentes da Escola, foi a da sociologia, quer dizer, sua validade e sua caracterização. A questão da validade da sociologia se equacionava sempre a partir do artigo de Tobias (“glosas heterodoxas” ), em que negava a existência da sociologia, ou melhor, já que em Tobias a frase estava alargada: a existência da ciência social. A m aioria dos discípulos, contudo, não acompanhou o mestre a respeito. No caso, a reverência pelo fundador da Escola pesou menos de que a literatu ra sociológica que crescia, vindo da Europa. Assim Sílvio Romero, cuidadosamente, se ocupou de fundamentar a sociologia, examinando sequencialmente as razões “anti-sociológicas” de Tobias. Já M artins não fez assim: defendendo a ciência do social dos “sociófobos”, pouco se preocupou em pedir vènia a Tobias. E todos, como foi dito acima, ou quase todos os da Escola fizeram sociologia. Que era uma concepção expressamente evolucionista dos fatos sociais e dos problemas hum anos. No setor da sociologia, foi possivelmente a spenceriana a influência mais marcante, ou mais fecunda, de quantas a Escolasofreu. — 95 — Quanto ao direito, o traço dominante mais perceptível no grupo foi a aceitação do “darwinismo” , que Tobias e Sílvio Romero haviam inoculado, como decorrência ou complemento do monismo universal, bem como a embasação da ciência jurídica numa visão evolutiva da sociedade. Ihering foi das influências m ais forte, dentre os juristas alemães, só posteriormente recoberto ou reforçado com outros autores europeus. Em Tobias e em Sílvio os estudos jurídicos se atêm prin cipalmente ao nível filosófico — embora Tobias tenha trabalhado tam bém em direito positivo, m atéria penal principalm ente —, mas em Martins Júnior a história do direito é cultivada com destaque maior, e com Clóvis a “vocação” jurídica do movimento se consuma e se coroa. Também a problemática política teve alguma cabida na Escola, se bem quase sempre em termos de polêmica ou crítica, quando não, por vezes, campanha e atitude. Tobias deixou excelentes anotações e atiladas análises políticas; do mesmo modo Sílvio. Augusto Franco também escreveu sobre política, como A rtu r Orlando, como inciden talmente Clóvis Beviláqua. A economia, que no Brasil de então quase não tinha lugar marcado, aparece em estudos de Sílvio e de A rtur Guimarães, como em Martins (seu ensaio sobre a “Função Histórica e Economia Política” ) e ainda, tardíam ente, em Joaquim Pim enta. Historiadores poucos o foram, mas o interesse pela história afetava a todos: todos leram Letoum eau e também Fustel de Coulanges, sem falar de Taine e do próprio Comte. Ocasionalmente, partiram de membros da Escola estudos de higie ne social: sejam os casos de A rtur Orlando com seu livro Porto e Cidade do Recife (e-ditado em 1908), seja o caso de Tito Livio de Castro com sua obra principal, A Mulher e a sociogenia. Casos, por sinal, em que a estatística se achava empregada a cada passo, e em que as sugestões demográficas e antropológicas eram aventadas p e r m anentem ente. 3 — A Faculdade do Recife como berço de foco do movimento Imaginemos agora, outra vez, o Recife de então: passando por transformações lentas mas definitivas, atravessando crises (lembremos o Congresso Agrícola de 1878, em que o engenheiro Augusto H enrique M ilet conjurava a crise econômica em terminologia saint-sim oniana), apresentando um panorama social onde certos tipos lembram figuras de Eça de Queiroz: uns vazios, outros deslocados, outros ociosos. Mas no meio, o idealismo de uma juventude que era como a de todos os tempos, embora pareça diferente pelo aspecto severo que ostentava ao retratar-se: inquieta, insatisfeita, indecisa. — 96 — D entro da cidade, o prestígio da Faculdade de Direito era qual quer coisa de ex traord inário . Como observa Gilberto Freyre em seu estudo Vida Social no Brasil nos meados do século XIX, tanto em São Paulo como no Recife as Academias de Direito recrutavam a “fina flor” de cada fam ília; os filhos tidos por bem dotados iam estudar direito para form ar na elite política, jurídica e administrativa do país. Por sua vez G ilberto Amado, depondo sobre sua vida no Recife em 1905, nos dá alguns flagrantes que valem como ecos do }ue teria sido a cidade nas décadas anteriores, nas quais a Escola do Recife viera crescendo: poucas livrarias, mas cheias de coleções francesas, “repú blicas” de estudantes, a concentração intelectual da Faculdade, o sen tido de cidade im portante que o Recife possuía dentro do Nordeste, as efervescencias doutrinárias. P ara Antônio Paim, o “período áureo” da Escola — ao menos no plano filosófico — correspondeu aos anos que foram desde um pouco antes da república até a publicação da revista Cultura Acadêmica (1904-1906). Neste caso, então, o mencionado testemunho de Gilberto Amado incidiria sobre o Recife de fins da Escola. Mas fins que se estenderiam até a primeira grande guerra mais ou menos (1914, m orte de Sílvio Romero), quando outios desafios e outras motivações atrairiam as atenções da mocidade e cos estudiosos. Por todo o período de vigência da Escola, das pontualizações ini ciais aos brilhos derradeiros, a Faculdade de Direito do Recife foi sem dúvida o polo principal do movimento e seu ponto de referência, tendo sido, como diz Machado Neto, o foco originário de onde ele se estendeu praticam ente por todo o Nordeste (e até a Minas, como foi visto) com irradiações que iam do Ceará à Bahia. Na Faculdade de Direito se fizera o percurso característico da própria vida das idéias no nosso meio: desde o convencialismo esco lástico diretam ente subordinado a Coimbra, passando pelo jusnatura- lismo, até o materialismo e o evolucionismo. Sem fala: na vivência dos arrancos liberais, convivendo em contraponto com os resmungos conservadores, nem no espiritualismo de várias espécies (Guizot, Cousin, Jouffroy), ou no comtismo que, embora sem a força in stitu cionalizante que adquiriu no Sul, teve também vez, voz e voto nos debates daqui. Quando, em 1927, Beviláqua publicou sua História da Faculdade, pôde apresentar um balanço que era ao mesmo tempo, realm ente, balanço de todo um itinerário cultural e “m ental” (como se uasava dizer, ainda na data do centenário), o itinerário dos debates que foram a atmosfera ideológica da cidade. - 9 7 - O predominio das fontes francesas na cultura pernambucana do século XIX se reflete dentro da trajetória dos próprios estudos jurí dicos recifenses. Foram os autores franceses que Tobias com bateu, ao deixar o comtismo pelo monismo alemão; mas ele nunca os largou de todo, apesar de tudo. Foram os autores franceses que influíram sobre cer tos componentes da Escola, em literatura por exem plo: assim Renan e Taine. Dentro da bibliografia jurídica, foram livros franceses que ensinaram à Escola a história do direito (incluindo-se aí as traduções de obras alemãs), bem como o direito civil, a filosofia e a teoria cons titucional: Domat, Pothier, Oudot, Ortolan, Lanjuinais, Ancillon. Em francês tinham saído os escritos de direito público de Silvestre Pinhei ro Ferreira. A Faculdade de Direito, naquelas décadas heróicas, não era ape nas (e felizmente não o podia ser) centro de ensino de direito atricto sensu, mas convergência de tudo quanto era inquietação doutrinária e iniciativa intelectual: jornalismo, oratória, pesquisa histórica, e ru dição filosófica. Em certa medida, a Escola foi um reflexo do padrão social dos estudantes da Faculdade: uns aristocratas, como Faelante da Câmara, prestando atenção aos problemas sociais; outros — como fora o caso primacial de Tobias, que foi (se se permite a comparação) como que o Sócrates da Escola — outros ascendendo dentro da Faculdade ou ao sair dela, e todos vivendo uma atmosfera de conflito e rebeldia, propiciadora de amizades temperadas e de lealdades drásticas. D ifi cilmente um homem, saído da Academia e entrando na vida política do país ou de algum estado, esqueceria sua fonte, a Faculdade, cujo prestígio alim entava o de seus alunos, e se refazia pelo deles. CAPÍTULO III CONSEQÜÊNCIAS E INFLUÊNCIAS TENTATIVA DE BALANÇO CRITICO 1 — Características Dominantes Unidade ou heterogene idade? Alguns autores vêem na Escola do Recife um grupo indefinido e heterogêneo. O próprio Beviláqua afirmou, na História da Faculdade — 98 — de Direito, que as orientações filosóficas eram variadas e cada um fazia sua solução. Outros consignam uma relevante e substancial unidade na orientação fundam ental dos estudos e das convicções. Paim por exem plo encontra na Escola uma suficiente homogeneidade de doutrinas e atitudes. Machado Neto, por sua vez, conclui que a força do movimento teve tal significação, que seus integrantes se sentiam vinculados como a um a corrente intelectual realmente supe rior às da capital, que polemicamente menosprezavam. Essa questão da “unidade” da Escola é bastanterelativa. Uma “escola” pode fundar-se em ortodoxias de conteúdo maiores ou meno res, ou ser considerada mais como grupo de estudiosos com indepen dência de opiniões. Claro que tal independência não poderá compro m eter a sobrevivência ou o mínimo de coesão do movimento. Se houve uma “Escola” romana na p in tura do Renascimento, ou uma “Escola” verista na ópera italiana, houve variantes pessoais. A escola positi vista francesa teve suas faixas de dissidência. De certa forma, a “Escola do Recife”, que alguém já propôs cha mar Escola de Tobias, foi um conjunto de dissidências coexistentes e solidárias. A lealdade e a “admiração” em relação a Tobias foram o cimento constante das fixações pessoais, mas muitos dissentiram dele em grande medida: dissentiram Martins, Fausto Cardoso, Clóvis. Tobias mesmo, para começar, foi sempre e por estilo pessoal um assistemático. Neste ponto contrasta com um Tavares Bastos, que analisou monograficamente, metodicamente, cada um dos grandes pro blemas que assumiu. Contrasta também, para dar outro exemplo, com A lberto Torres, empenhado em sistematizar com terrível afinco os seus temas e as suas soluções. Sílvio também, embora talvez mais “organizado” no modo de produzir livros, foi sempre dispersivo e instável. Evangelistas deste tipo não poderiam criar igreja maiormente ordeira. Eles mesmos deram o exemplo da contraditoriedade, ou mesmo da indecisão, da dispersão, do inacabamento. i Os conteúdos de que se ocuparam em geral os integrantes da escola eram por outro lado, por sua pluralidade, um convite à varie dade. Seria difícil estarem todos de acordo em filosofia, em direito, em literatura, em sociologia. Monismo Para Luiz Washington Vita, a doutrina adotada pelos “corifeus” da Escola teria sido uma “somatória do evolucionismo e do monismo”. — 99 — O monismo, que tanto seduziu e convenceu aos discípulos de Tobias, como a este, tinha a vantagem de ser uma teoria totalizadora; a referência à unidade do mundo superava dificuldades e conflitos cosmológicos, abrigando a necessidade, que julgava ter, de não ser espiritualista, e de por outro lado não enfatizar o materialismo. As fórmulas de Noiré, preferidas por Tobias, rachavam o monismo em dois, entretanto, referindo-se a duas manifestações da unidade: movi mento e sentimento. Depois, para aqueles moços desejosos do insólito e prevenidos contra a metafísica, o monismo tinha esse mérito, que Souza Bandei ra sublinhou: pretendia “reponder com a ciência àquelas questões a que até agora se respondia com a metafísica” . Os moços de então adotavam, diante da metafísica, a mesma ati tude de rancor antecipado que os de hoje adotam diante do que cha mam idealismo. Como os de hoje (trabalhados pelo marxismo vulga rizado e inoculado como crença definitiva) aplicam contra o inimigo o materialismo dito dialético, os de então aplicavam o materialismo monistico, quando não o de Büchner mesmo, ou as críticas menos materialistas de Herbert Spencer e de Augusto Comte. Evolucionismo E praticamente todos foram evolucionistas. Na realidade, o evo lucionismo em seu sentido ampio (considerando o de Spencer sua versão específica) é uma concepção que todo o século XIX abraçou, como muitos no século XVIII o haviam abraçado, incompleta ou imper feitamente. Cada grande posição oitocentista foi evolucionista a seu modo: o positivismo sem dúvida, o marxismo também, e o hegelismo mesmo tinha sido um tipo de evolucionismo. Como evolucionistas foram Tarde e Durkheim, Mill, Taine e de certo Nietzsche com seu darwinismo fulminante e transfigurado. No evolucionismo latejava um cerne de verdades que tinha de seduzir a todos, e que ainda hoje se impõe, queiram ou não certos críticos. Há, senão evolução, evoluções, no percurso dos problemas humanos, e sem isto a história não teria trajetória nem linhas dife- renciadoras. Só que, para os da Escola, o evolucionismo era aceito e expres sado com o timbre generalizante próprio do século XIX, com univer salizações rotundas e tipologias forçadas. E era aceito e expressado como arma de combate. Por outro lado, porém, o evolucionismo, — 100 — sendo como se disse uma constante entre os prosélitos, servia de deno m inador comum ou quase comum entre e les. M artins dissentiu de Tobias, Sílvio aceitava a sociologia contra o mestre. Fausto Cardoso retom ava em puridade o monismo mecânico — mas todos fiavam na evolução. E os juristas da Escola, crendo tanto em Darwin como Ihering , faziam do direito um quadro de testes temáticos que davam as provas reais do evolucionismo. “Culturalismo”? O professor Miguel Reale, em ensaio que se acha sempre citado a propósito, falou oportuna e sugestivam ente do “culturalismo da Escola do Recife” . Entretanto o ponto pede reparos. Em prim eiro lugar o problem a se acha mais especialmente em Tobias, ou antes, em certas passagens suas, do ensaio sobre (ou contra) a sociologia. Os continuadores parece que de modo geral não sentiram nem retomaram o problema. Em segundo lugar, as frases notáveis que se lêem naquelas passagens de Tobias, onde diz que o mundo social é livre e distinto do d e te r minismo da natureza, e diz que a cultura humana refaz “artistica m ente” e com normas a luta fundamental pela vida, que reina, não norm ada, no mundo natural, tais frases se acham em contradição com outros pontos da obra do próprio Tobias, por exemplo os que rejeitam o direito natural apenas por ser o direito um fenômeno cósmico como qualquer. Seu darwinismo jurídico não lhe permitiu desenvolver os neo-kantismos latentes naquelas frases, e em realidade elas se afogam, no todo de sua obra, sob a maré dominante do naturalismo e do bio- logismo que preponderaram sempre e apesar de tudo em seu espírito. Limitações e compensações Como observa Paim, havia uma dificuldade primordial para que uma filosofia como a do neo-kantismo alemão penetrasse bastante no Brasil daquele tempo: é que tal filosofia arrancava de questões gno- seológicas para as quais não se haviam preparado as elites intelec tuais do país. Elas vinham cuidando mais de temas cosmológicos e de psicologia. O esforço da Escola de Tobias, a começar de artigos deste próprio, em combater o ecletismo e o espiritualismo, era uma oposição às ontologias tradicionais e era uma adesão genérica ao naturalism o. Os materiais críticos e o que de melhor havia no legado idealista (hegeliano inclusive) resvalou e perdeu-se, para nossos pensadores de então. — 101 — Disto tudo resultou uma série de homogeneidades negativas unin do a Escola. Resultou uma porção de limitações temáticas, reforça das pelo tapume do tipo de leituras que o grupo basicamente culti vava, leituras naturalistas e biologistas a que se cosiam ensaios his tóricos e sociológicos. Em compensação, desenvolveram em alta escala a capacidade crí tica, apesar de que, para estimá-la devidamente, o crítico de hoje necessite desentulhá-la dos desvios polêmicos, das super afetações retó ricas e dos equívocos com que tropeçavam. Muitos, da Escola (desde Tobias Barreto e ele sobretudo) revelaram enorme imaginação e com ela supriram lacunas de conhecimentos e cobriram dúvidas incômodas. De certa forma, o im penitente naturalismo do movimento (m iti gado aliás num ou noutro por certas concessões à metafísica ou certa atenção à história) prejudicou em alguma medida o processo do pen sar filosófico brasileiro. Mas em medida pequena, pois o exercício crítico que impuseram a si e aos de fora do grupo valeu como grande avanço. O ensaio como gênero Ficou dito que a m aneira assistemática de Tobias prosseguiu carac terizando a maioria do grupo. Fausto Cardoso, projetando uma t r i logia de filosofia do direito, só deixou duas partes e assim mesmo mal acabadas. Pode-se dizer que todos cultivaram o ensaio.As obras deixadas pelos integrantes da Escola são, muitas vezes, coletâneas de artigos: Tobias fez assim seus livros. Sílvio Romero, salvo a enorme história da literatura, quase sempre construiu livros com estudos coligióos. No caso, igualmente A rtur Orlando (exceto “Porto e Cidade”, “O B rasil” e “Panamericanismo” ); Martins Jún io r em parte , também. Tito Livio de Castro, tirando a tese e a grande m onografia sobre a m ulher e a sociogenia, deixou ensaios. B evilá qua, fo ra seus grandes livros de direito positivo e a história da F acu l dade, escreveu inúmeros ensaios. Esta característica formal reforça ou confirma a condição de f ra n co-atiradores que muitos da Escola conduziram, e acompanha a d is- persividade temática que foi, na Escola, a um tempo, fraqueza e força. Visão do Brasil Felizmente, porém, grande parte do esforço intelectual e te x tu a - lizante da Escola esteve voltado para problemas nacionais. Ainda aí, — 102X Tobias deu o exem plo: vim os, atrás, como entre seus estudos se encon tram diversos pontos onde a realidade brasileira e o povo brasileiro são detidam ente observados. P ara Tobias, as soluções de nossos p ro blemas não deviam ser im portadas, e sim tiradas de dentro da p ró pria índole de nossa h istó ria . Por isso clamava contra os falsos orientadores do país. Tal clamor foi maior ainda em Sílvio Romero. Este preocupou- se todo o tempo com a situação do país, denunciando erros e abusos, pedindo análises objetivas e levantamentos racionais da realidade brasileira, combatendo as cam arilhas políticas, propondo soluções, encorajando estudos. Tam bém A rtu r Orlando deixou um livro inteiro sobre o Brasil. Beviláqua ocupou-se do d ire ito brasileiro várias vezes. Martins Júnior escreveu a história do nosso direito. De modo que a Escola jamais se poderia considerar como um corpo estranho à vida brasileira. Perm anentem ente pronunciou-se sobre política partidária, fez cam panha abolicionista (por intermédio de alguns de seus sequazes), e, sempre esteve voltada para as teorias européias, isso era próprio da intelligentsia do Brasil da época, como de todo o mundo não-europeu, como ainda hoje. Houve realmente, neste sentido, momentos de “alienação” cultu ral, no sentido de se entregarem às vezes à problemática das doutri nas alemãs ou francesas como se fossem, eles próprios, alemães ou franceses. Incidiria sobre alguns da Escola a ironia de Álvaro Vieira Pinto quando, no seu Consciência e Realidade Nacional, alude aos professores que, escrevendo em língua estrangeira, “tomam parte” nos debates europeus sem os europeus saberem. No caso, os textos ale mães de Tobias se enquadrariam aí: era de sua parte uma ingenui dade auto-afirm adora. Entretanto, a coisa se justificava em parte: como fazer filosofia sem se decidir pelas grandes posições, e como decidir-se sem viver mentalmente os problemas postos pelos grandes “chefes de escola” europeus? Como julgar o comtismo, não tangencialmente mas para adotá-lo ou não, sem reconsiderar a visão da história da humanidade que Comte propusera? Temos portanto de entender a Escola em sua situação histórica: era uma elite intelectual e social que tinha de repetir o padrão lite- Jf — 103 — rário e doutrinário da Europa, corno repetia da E u ro p a os figurinos, os chapéus, os casacos, os gostos musicais, os elem entos culturais. Uma espécie de autodidatismo grupai, compensado pelas influências recíprocas, caracterizava os membros da Escola. D a í certas imaturi- dades, certas desigualdades do que deixaram. Daí a deformação, aqui e ali, de idéias mal assimiladas; e muita coisa m a lu ca que foi escrita, na pretensão de originalidade ou de grandeza, m u ito equívoco, muito despreparo lógico, m uita indisciplina term inológica. Mas foi um esforço válido. 2 — Conseqüências e influências O movimento chamado “Escola do Recife” tev e tamanha profun didade, dentro do contexto cultural do Nordeste de fins do século passado (e começo do presente), e tal força em relação ao panorama brasileiro como irradiação e provocação, que quem o estuda corre o risco de calcular mal os seus contornos. Não se pode minimizá-lo; sua importância foi grande. Mas há o risco de atribuir-lhe demais, de incluir em sua esteira, como participante, a todo intelectual daque les tempos que tenha andado com um livro de Taine na mão ou tenha escrito algo onde entrasse o nome de Spencer. É preciso portanto catar as influências com cuidado, e delim itar com certa discreção os resultados intelectuais da atuação do grupo. Na fase final da Escola, houve naturalm ente uma dispersão e uma perda de unidade bastante sensíveis. As motivações intelectuais já não eram, ao en trar o século XX, as mesmas de 1870, e os rem a nescentes da Escola sentiam outras solicitações, inclusive na vida real. Aliás Souza Bandeira, no seu ensaio sobre Tobias Barreto, apontando o caso dos estudiosos arrastados pela vida material para longe das letras, escrevia com azedume: “Os brilhantes escritores, os oradores nervosos, os p ro p a gandistas valentes, jazem enterrados na traçaria poenta da burocracia; tomaram, possuídos da sacra fames, o cam inho das finanças ou das indústrias ou quando muito con ten tam-se, em matéria de letras, com os triunfos fáceis da retórica jornalística. Os filósofos de outrora aceitam resig nados a lógica terrível do primo vivere e abaixam-se t r i s tem ente para ajuntar uns gravetos com que alim entam a exigente fornalha da v ida cotidiana”. Era já um a visão de como o ocaso da Escola coincidia com c amortecimento dos entusiasmos filosóficos e com a adesão ao prag- — 104 — m atism o prosaico. O padrão intelectual deixado por Tobias persistia, m as às vezes era usado apenas corno alegação, corno confronto, ou seguido apenas em alguma expressão, e não inteiramente continuado n a árdua vida de estudos que teve. Possivelmente havia exagero, escorado em equações pessoais, no desalen to de Souza Bandeira. Entretanto é inegável que com os p rim eiros lustros de nosso século a Escola entrava em agonia. Na Europa, o que se discutia não era mais Darwin nem Ihering. A ordem de problemas era outra. A renovação néo-kantiana fru ttfi- cava nos ramos de Baden e Marburgo; a sociologia estava em D ur kheim e já Simmel constituía coisa bastante nova; as obras de Bergson representavam a révanche do espiritualismo, e em direito havia ta m bém coisas diferentes. Além disso as crises do mundo econômico e político pressagiavam problemas inteiramente outros. O refinam ento da belle époque, que cristalizava sutilmente os sucos do oitocentos como o rococó cristalizara os caldos do barroco, coexistia com a incu bação de tempestades que ficariam varrendo o século até hoje. A Escola, entretanto, se ramificara. Vários Estados do Nordeste tinham filiais suas. O Ceará, comprometido por causa de alguns nomes, Sergipe, berço do próprio Tobias e com um grupo agitado, a Bahia, com dois ou três adeptos peculiares e dissidentes. Em Minas, Augusto Franco. De todos os Estados próximos, vinham alunos para a Faculdade de Direito do Recife, e daí a irradiação das “idéias novas” por vários centros de então. No Rio, após a ida de Sílvio Romero, tinha a Escola outra sucur sal que girava sobretudo em torno de amizades e influências pessoais lo autor de Doutrina contra doutrina. Apesar disso, a permanência mais característica ficou sendo a de fernambuco. A própria vigência do nome de “Escola do Recife”, que dera de Sílvio Romero, valia como fixação maior em torno da cidade, t em torno da Faculdade de Direito onde Tobias tinha armado sua enda de pregação e polêmica. Todo um estilo intelectual correspondeu à atuação da Escola e iecorreu dela. Este estilo inclui algumas notas que os integrantes, em comoos meramente influenciados, de modo geral apresentaram , mtes de tudo — o que já foi lembrado acima — a tendência poli- ráfica, a tendência a abarcar pluralidade de áreas. Depois o poli- lotismo, que aliás Tobias e Sílvio ostentavam como superioridade — 105 — diante de certos antagonistas (inclusive o grupo de Carlos de Laet) que, não sabendo alemão, não podiam discutir. O tom polêmico, agressivo, q u e se nota nas exposições teóricas, frequentem ente atassa- lhadas de digressões contra alguém . Mesmo naqueles que como pes soas tiveram temperamento m ais ameno (um A rtu r Orlando por exemplo), algumas destas características repontam nos textos deixa dos. Isto sem falar nas qualidades substanciais e de doutrina; o apego ao monismo, o evolucionismo como quase denominador comum. Em alguns casos, o modo de citar ficou semelhante, e o hábito de iniciar ensaios com alguma frase de Tobias Barreto foi m uito generalizado. Podemos encontrar alguns ecos da Escola na revista mensal A Evolução, que se editou no Recife a partir de 1908 e tinha por subtí tulo: “Órgão Racionalista” . O ternàrio, anunciado no frontispicio, era vastíssimo: “Ciências, artes, letras, filosofia, política, religião, agri cultura, comércio e indústria” . A redação, tendo por diretor Raul Azedo (figura muito interessante de estudioso local) e por secretário Andrade Bezerra (depois líder católico), incluia os nomes de Hersílio de Souza, Fernando de Sá, Leal de Barros, Olinto Vitor, Joaquim Pim enta, Gouveia de Barros, João Barreto de Menezes e Luiz de Góis. Alguns, dentre estes, eram médicos. O programa da revista era amplo e ousado: “Trabalhar pelo desenvolvimento econômico, intelectual e moral e da coletividade: — procurando despertar o interesse e o zelo pelos seus v i tais direitos e necessidades por ela geralm ente descurados; — promovendo a adoção de métodos educativos da in fân cia e da mocidade adequados ao destino do homem m o derno; — batendo-se pela policultura e pelo ensino agrícola, teó rico e prático; — contrapondo-se à ação de todos os elementos retróga- dos militantes no meio social; — concorrendo para a cultura m ental e para a m elhoria das condições m ateriais de existência do operariado u rb a no e rural; — pregando a necessidade de elevação do nível intelectual da mulher; — vulgarizando os preceitos da m oral científica” . Um programa ilustrador, bem ao modo da convicção da Escola, segundo a qual a ciência seria capaz de melhorar o homem e corrig ir — 106 — m ales sociais. Aquela mesma convicção que fazia Sílvio Romero pedir estudo objetivo para os problemas nacionais, em vez de verbalismo e emoção. Parece-nos poder relacionar à Escola, não diretam ente e em fun ção do m agistério de Tobias, mas em face do padrão intelectual e dos elementos doutrinários utilizados, a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1913). Em 1890, prestando exames no Recife, o poeta parai, baño já cham ava atenção pelo preparo científico, e seu livro Eu (de 1912) é depósito de uma poesia cientificista, não falseada por uma intenção de “demonstração” doutrinária, de que os versos fossem ape nas portadores e pretextos, mas penetrada por um a fundamentação específica, feita de estudos biológicos sérios e intensos. Se como poeta devia um pouco a Antero, talvez, e a Cesário Verde possivelmente, e se tinha um pessimismo lucreciano que o afastava dos otimismos da Escola do Recife, o fato é que foi um leitor cerrado de Darwin, Spen cer e Haeckel. Um transformismo básico e convicto sempre ressu- mou em sua personalíssima poesia. O famoso e estranho “Monólogo de urna Som bra”, escrito por sinal aos 17 anos, fala do “cosmopoli tismo das moneras” e da “simbiose das coisas”, de que o ser humano vinha e dependia. Noutro poema, menciona o nome do “insigne H erbert Spencer”, e no “Último credo”, afirma: “Creio, como o filósofo mais crente, Na generalidade decrescente Com que a substância cósmica evolui. Creio, perante a evolução imensa, Que o homem universal de amanhã vença O homem particular que eu ontem fui” . Em sua poesia, não apenas repontam termos de química, botâni ca e fisiologia, como também a relação en tre a consciência humana e as condições da matéria (“eu, filho do carbono e do amoníaco”) forma um tem a constante. Assim marcou a Escola a atmosfera cultural do Recife, dos fins da segunda década do corrente século: o tipo de leituras, as cons tantes temáticas, a linguagem cientificada, a afirmatividade enfática. Se ainda se discute sua unidade doutrinária, realmente insuficiente, não se discute que ela existiu como grupo e movimento, e mais ainda, como lastro e fonte de uma ambiência intelectual inconfundível. Era em princípio a ambiência mesma do tempo, no mundo dito ocidental e em seus arremedos no Brasil: mas os “seguidores de Tobias” deram — 107 — aos seus trabalhos um cunho de esforço quase missionário. A missão era a de malhar adversários (o catolicismo em alguns casos, noutros o comtismo, noutros ecletismo), e era a de converter leitores e con vencer estudantes. Por muito tempo, mesmo após extintos os ecos finais da Escola como grupo e como movimento, restaria na Faculdade do Recife alguma coisa dos padrões intelectuais postos em pauta pela Escola: a valorização talvez excessiva dos concursos para cátedras; a valori zação talvez equívoca das originalidades e da erudição nestes con cursos, bem como uso das provocações por parte dos seguidores e das irreverências e a té do excesso verbal por parte dos candidatos, argui- dores e candidatos loucos por m ostrar conhecimentos, fazer proezas em matéria de “presença de espírito” e dar exibição de m em ória. 3 — Para um balanço crítico “Filósofos em soledad y a la intem perie”, chamou certa vez Francisco Romero aos pensadores latinoamericanos dos séculos XVIII e XIX, aludindo à carência de meios e de amparo institucional em que trabalharam . Semelhante expressão se poderia aplicar, neste sentido, aos in te grantes da Escola do Recife. Não foi tan ta a sua “solidão”, embora Tobias tivesse passado anos encafuado em Escada a estudar alemão e a redigir ensaios; nem estavam tanto ao desabrigo pois alguns ensi naram na Faculdade. Entretanto, o am biente recifense de então (mesmo o brasileiro em geral) não apresentava suficientes condições para o preparo metodológico nem p a ra a pesquisa sistemática, e daí um certo autodidatismo deformador e heróico que caracterizou glo balmente o grupo, e daí os escritos im aturos muitas vezes, ou a lu ta pela manutenção de revistas ou pela obtenção de editores — problemas que aliás ainda existem ho je na província. O prestígio do Recife, contudo, e ra grande no mapa intelectual do Brasil de então. Em seu livro A r r u a r , Mário Sette chega a d izer que o século XIX foi o do “máximo prestígio intelectual” da cidade. Desde o começo do século que o liberalism o e o romantismo nos chegavam através dos livros europeus (quase sempre franceses), e as poucas mas eficazes livrarias recifenses foram efetivamente cen tro d e atração de jovens e velhos, de discussão e iniciação doutrinária. — 108 — O declínio da Escola, que se preparou de um certo modo com o advento da República, foi longo e correspondeu a uma dispersão do grupo, em term os de geografia e de ideologia. Não manteve o grupo, politicam ente, nem coesão nem estratégia suficientes para conservar um a atuação homogênea, isto é o que entende Antônio Paim em sua “H istória das Idéias Filosóficas no Brasil” . Mas cabe acrescentar que, por ou tro lado, o fim da monarquia marcou também o desloca m ento da im portância econômica para o Sul, em definitivo, deixando os estados do Norte de poder arrogar-se posição de rivais da “Corte”, mesmo em matéria de cultura. A Escola correspondeu existencialmente ao mundo culturalreci- fense de fins de 1860 a fins de 1910: a Faculdade enchendo-se de “idéias novas”, os livros evolucionistas sendo cada vez mais lidos, o debate sobre monismo e comtismo ocupando a todos. As limitações bibliográficas que prejudicaram , por exemplo, um Antônio Pedro de Figueiredo, ou um Abreu e Lima, Tobias Barreto as superou. O a lar gam ento das fontes veio em definitivo na época de Sílvio Romero e mais ainda — para o direito por exemplo — na de Clóvis Beviláqua. Chamamos “época” de Sílvio Romero em vez de geração, pois que, como já foi dito, é difícil escalonar as gerações naquele continuum de estudos que veio desde os artigos de Tobias estudante às prosas austeras de Clóvis envelhecido. No “meio”, entre o proselitismo inicial de Tobias e Sílvio e as m aturações finais do movimento, se situaram figuras nascidas entre o fim dos anos 50 e o começo dos anos 60: A rtur Orlando, Clóvis, M artins Jún io r. Tito Livio de Castro, nascido em 1864, teria evoluído com mais largueza se entrasse pelo século vinte, mas morreu ainda pensando na filogênese. É esta “geração” interm ediária que forma o corpo principal da Escola: confirma Tobias, mas prepara coisas novas, embora os que chegam depois não consigam propriamente levar muito avante as virtualidades preparadas, nem entrem em contato com as novidades européias do fim do século, para cruzar com elas o legado de Tobias. Tal legado é às vezes mantido teimosamente, mesmo quando já se podia ver que certos pontos basilares de suas idéias tinham definitivamente caducado. Salvaram-se muitas coisas, porém, inclusive aquilo que na maioria foi uma heresia em relação ao mestre da Escola: a crença na Sociologia. O esforço filosófico foi válido e profícuo como motivação e exer cício, como denominador da coesão do grupo. Superado depois pelo — 1C9 — ideário de Farias Brito, ao menos momentaneamente, ficou como ponto d e referência de um pensamento social brasileiro autêntico: vejam -se a respeito as análises de Guerreiro Ramos, agressivas e exageradas mas em vários pontos corretas. N este sentido foi Sílvio Romero o grande exemplo. O trabalho sociológico, desencontrado e sem método, mais filoso fia e h istória do que bem sociologia, valeu como antecipação e in tu i ção. O trabalho jurídico foi talvez o lado mais positivo da Escola, até mesmo sob o prism a quantitativo: quase todos escreveram sobre d ire i to, e a produção foi sempre ponderável, mais segura sem dúvida do que em filosofia. O trabalho de crítica literária, desigual, e prova velm ente o mais viciado pela polêmica externa, foi também relevante: tirando-se os arrepios e as negações, ficou m uita coisa aproveitável. A Escola deu o exemplo da crítica fundada em um ponto de vista filosófico, na qual o pronunciamento sobre um a obra vinha a ser necessariamente análise de pressupostos “de escola”, e daí ter dado o exem plo de uma crítica de idéias de largo espectro e amplas ap li cações. Esta crítica de idéias, por sinal, se encontra atuando como consciência crítica dentro das próprias transformações do movimen to: a poesia grandiloquente e “científica” de M artins distava dos hugoanismos de Tobias e dos “cantos” de Sílvio. Sob certo aspecto, e no m elhor sentido, pode-se considerar o m ovi mento como uma formidável e ruidosa aventura intelectual, fasci nante sem dúvida e encantada com suas próprias rebeldias, uma av en tu ra que arrastou durante decênios o interesse dos estudiosos den tre os mais representativos, em vários estados do Brasil. Se passou, como tinha de passar, deixou marcas fundas e fru tos substanciosos. Revendo o que fizeram seus membros, temos de ad m i rar-lhes o esforço ilustrador e a exigência doutrinária. Se os ach a mos tão afastados, se vemos e n tre eles e nós tantas outras escolas menores interpostas, e tantos outros m ovim entos idos e vindos, isto deve servir para ajudar a recom por seu lugar na história do processo cultura do Nordeste e do Brasil. Lá estão eles, graves na carranca e anacrônicos nas utopias que b ran d iram ; mas o tempo que passa abana um pouco, se atentamos bem , a p o n ta de suas casacas, a ponto de descobrirmos uma franja de lirism o na vida que viveram, p re n u n ciando a nossa, tão mais carregada e m ais atordoada. Podemos te r alguma nostalgia, e pensar no q u e d ir ia m eles hoje, e que teorias debateriam: cada geração tem su a p ró p ria belle époque. — 110 — BIBLIOGRAFIA UTILIZADA A) Livros e artigos com interesse para o estudo da “Escola do Recife” : 01. AMADO, G ilberto — Minha formação no Recife. Rio de Janeiro, J . Olympio, 1955. 928. 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Porto Alegre, Globo, 1968. B) Livros e artigos de membros e remanescentes da “Escola do Recife”. 38. BARRETO, Tobias — Obras completas. Ed. do Estado de Sergipe, 1926. 39. BESSA, Gumersindo — Pela imprensa e pelo Fòro. Ed. póstuma. Aracaju, Imprensa Popular, 1916. 40. BEVILÁQUA, Clóvis — Em defesa do projecto do código civil brasileiro- Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1906. 41. -------------- — Esboços e fragmentos. Pref. de Araripe Júnior. Rio de Janeiro, Laemmert, 1899. 42. — Estudos jurídicos (história, philosophia e crítica). Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1916. 43. --------------- — História da Faculdade de Direito do Recife; 11 de agosto de 1827. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1927. 2 v. 378.81341 B 571 h Í44. --------------- — Juristas philosophos. Bahia, Liv. Magalhães, 1897- 45. — Linhas e perfis jurídicos. Rio de Janeiro, Ed Freitas Bastos, 1930. 46. 1894. Phrases e phantasias. Recife, Papelaria Americana, NELSON SALDANHAnull A ESCOLA DO RECIFEnull A ESCOLA DO RECIFEnull Panorama histórico e análise do movimento ÍNDICE GERAL Explicação circunstancial CAPÍTULO III — Conseqüências e influências. Tentativa de balanço EXPLICAÇÃO CIRCUNSTANCIAL PROPÓSITO TEMATICO E OBSERVAÇÃO BIBLIOGRAFICA 12 — — 14 — -15-null — 16 — — 17 — — 18 — . — A figura de Tobias Barreto e a constituição de uma “Escola”. 21 — — 22 — — 24 — — 25 — § 2 — Componentes iniciais: primeiro, Tobias Barreto. Evolução Geral — 29 — Caracteriscas intelectuaisnull -30-null — 31 — — 32 — Pensamento político — 36 — — 37 — — 38 — 39 — — 40 — Sua maneira intelectualnull Sílvio Romero e a filosofia — 44 — — 45 — — 46 — !null — 47 — 3 4 — SEGUIDORES E CONTINUADORES — ARTUR ORLANDO Vida e obranull — 51 — — 52 — Posições em geral -53-null — 54 — Estudos de direitonull — 57 — — 58 — § 5 — Ainda seguidores e continuadores. Martins Júnior Trajetória — 61 — Orador e político Martins e a sociologianull — 62 — — 63 — — 64 — — 65 — § 6 — Seguidores e continuadores: Clóvis Beviláqua Olhada panorâmica — 67 — Formação e trajetória — 69 — — 71 — — 72 — 73 — Sua historia da Faculdadenull § 7 — Ainda Seguidores e Continuadores Gumersindo Ressa — 75 Fausto Cardosonull — 80 — — 81 — Faelante da Câmara Virgílio Sá Pereira Souza Bandeiranull — 83 — — 84 — Aprígio Guimarães — 85 — Artur Guimarães § 9 — Outras figuras Laurindo Leão — 86 — Euclides da Cunhanull —* 87 — Koseritznull Samuel Martinsnull Souza Pintonull Joaquim Pimentanull Araripe Júnior José Higino 89null — 90 — Almáquio Diniz Aníbal Falcão 2 — Setores cultivados pela Escola Dispersão ou enciclopedismo? — 91 — — 92 — — 93 — Crítica — 94 — Ciências Sociais — 95 — 3 — A Faculdade do Recife como berço de foco do movimento — 96 — -97-null 1 — Características Dominantes Unidade ou heterogene idade?null — 98 — Monismonull — 99 — Evolucionismonull “Culturalismo”? Limitações e compensações Jfnull — 103 — — 104 — — 105 — — 106 — — 107 — — 108 — — 1C9 — — 112 —