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Arthur C. Clarke   As Fontes do Paraiso

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na vida - respondeu Sarath 
imediatamente. - É bom que seja importante, já que me fez voltar de Maharamba. Estávamos prestes a abrir a Câmara das Relíquias. 
- E eu tive de abandonar meu trimarã no começo das regatas no lago Saladino - disse Maxine Duval, com sua famosa voz de contralto, que encerrava a dose exata de enfado para pôr qualquer pessoa mais suscetível que o professor Sarath em seu lugar. - E eu o conheço, é claro. Por acaso quer construir uma ponte da Taprobana ao Hindustão? 
Rajasinghe riu. 
- Não... faz dois séculos que temos uma estrada perfeitamente satisfatória. E sinto muito ter arrastado vocês dois até aqui... muito embora você, Maxine, prometa vir faz vinte anos. 
- É verdade - suspirou ela. - Mas tenho de passar tanto tempo no estúdio que às vezes me esqueço de que existe um mundo real lá fora, ocupado por cerca de cinco mil amigos e cinqüenta milhões de conhecidos íntimos. 
- Em qual categoria você colocaria o dr. Morgan? 
- Eu já estive com ele... umas três ou quatro vezes. 
Tivemos uma entrevista especial quando a ponte terminou. É 
uma pessoa muito interessante. 
Partindo de Maxine Duval, pensou Rajasinghe, isso era uma verdadeira consagração. Fazia mais de trinta anos que ela era, talvez, o membro mais respeitado de sua exaustiva profissão, que lhe concedera todas as honrarias possíveis. O 
Prêmio Pulitzer, o Troféu Global Times, a medalha David Frost 
- e tudo isso era apenas a ponta do iceberg. Só recentemente voltara ao trabalho ativo, depois de passar dois anos como mestre de jornalismo eletrônico na Universidade de Colúmbia. 
Tudo isso a acalmara um pouco, embora não lhe tivesse tirado a energia. Maxine Duval não era mais a chauvinista, às vezes feroz, que certa vez observara: "Já que as mulheres conseguem produzir bebês, é de se presumir que a natureza tenha dado aos homens algum talento como compensação. Mas, no momento, não imagino qual seja". 
- Desculpe-me pela regata - disse Rajasinghe -, mas notei que o Marlin III ganhou com folga sem você. Acho que admitirá que isso é mais importante... Mas vamos deixar que Morgan fale por si mesmo. 
Soltou o botão PAUSA no projetor, e a estátua congelada imediatamente ganhou vida. 
- Meu nome é Vannevar Morgan. Sou engenheiro-chefe da Divisão Terrestre da Construção Terráquea. Meu último projeto foi a Ponte de Gibraltar. Agora desejo falar sobre uma coisa incomparavelmente mais ambiciosa. 
Rajasinghe olhou em torno da sala. Morgan os havia fascinado, tal como ele esperara. 
Recostou-se na poltrona e ficou à espera de que fosse apresentado o plano, já familiar, mas ainda quase inacreditável. Era esquisito, pensou, que se aceitassem prontamente as convenções da projeção, desprezando-se enormes falhas dos controles Vertical e Nível. Nem mesmo o fato de Morgan "mover-se", enquanto permanecia no mesmo lugar, bem como as perspectivas totalmente falsas das cenas exteriores, destruía a sensação de realidade. 
- A era espacial já tem quase duzentos anos. Há mais de metade desse tempo, nossa civilização depende inteiramente da legião de satélites que atualmente orbita em torno da Terra. Comunicações globais, previsão e controle do clima, bancos de recursos terrestres e oceânicos, serviços postais e de informações... se alguma coisa acontecesse a seus sistemas espaciais, voltaríamos a uma idade de trevas. No caos resultante, a doença e a fome destruiriam grande parte da raça humana. 
"E, olhando para além da Terra, agora que possuímos colônias autônomas em Marte, em Mercúrio e na Lua, e que exploramos as incalculáveis riquezas minerais dos asteróides, vislumbramos o começo do verdadeiro comércio interplanetário. Ainda que isso tenha exigido um pouco mais de tempo do que previam os otimistas, tornou-se óbvio que a conquista do ar foi, realmente, apenas um modesto prelúdio à conquista do espaço.” 
"Agora, entretanto, estamos diante de um problema fundamental, um obstáculo que poderá impedir todo o progresso futuro. Embora gerações de pesquisadores tenham transformado o foguete na forma de propulsão mais segura que já se inventou..." 
- Será que ele pensou na bicicleta? - murmurou Sarath. 
- ...os veículos espaciais ainda são grosseiramente ineficientes. Pior ainda, o efeito que causam sobre o meio ambiente é assustador. Apesar de todas as tentativas no sentido de controlar os corredores de aproximação, o ruído da decolagem e da reentrada perturba milhões de pessoas. Os resíduos de escapamento lançados na estratosfera já precipitaram mudanças climáticas que podem ter as mais sérias conseqüências. Todos se lembram da crise do câncer de pele, na década de 20, causada pela invasão de radiação ultravioleta... e dos custos astronômicos dos produtos químicos necessários para restaurar a ozonosfera. 
"No entanto, se estimarmos o crescimento do tráfego até o fim do século, verificaremos que a tonelagem transportada da Terra à órbita terá de aumentar em quase cinqüenta por cento. Isso não pode ser realizado sem um custo insuportável para nosso modo de vida... e talvez para nossa própria existência. E não há nada que os engenheiros possam fazer. Já quase atingiram os limites absolutos de desempenho estabelecidos pelas leis da física.” 
"Qual é a alternativa? Há séculos, os homens vêm sonhando com a antigravidade ou com métodos análogos. 
Ninguém jamais descobriu o menor sinal de que sejam possíveis. Hoje em dia, acreditamos que não passem de fantasia. No entanto, na própria década em que se lançou o primeiro satélite, um imaginoso engenheiro russo concebeu um sistema que tornaria o foguete obsoleto. Passaram-se anos antes que alguém levasse a sério as idéias de Iúri Artsutanov. 
Foram necessários dois séculos para que nossos engenheiros chegassem às mesmas conclusões que ele." 
A cada vez que passava a gravação, Rajasinghe tinha a impressão de que Morgan realmente se animava nesse ponto. 
Era fácil ver por quê. Agora ele estava em seu território, e não apenas transmitindo informações obtidas num campo alheio de conhecimentos. E, apesar de reservas e temores, Rajasinghe não deixava de partilhar um pouco do seu entusiasmo. Aquela era uma sensação que, hoje em dia, raramente perturbava sua vida pacata. 
- Saiam de casa, em qualquer noite clara - continuava Morgan -, e verão aquela maravilha cotidiana do nosso tempo: os astros que nunca nascem ou se põem, mas que permanecem fixos no céu. Nós... e nossos pais e os pais deles... estamos há muito habituados com satélites síncronos e estações espaciais que se movem ao longo do equador na mesma velocidade de rotação da Terra, de modo que permanecem fixos no mesmo lugar. 
"A pergunta que Artsutanov fez para si tinha o brilho infantil da verdadeira genialidade. Um homem simplesmente inteligente nunca poderia ter pensado nela... ou a poria de lado imediatamente, como uma questão absurda.” 
 "Se as leis da mecânica celeste possibilitam a um objeto permanecer fixo no céu, não seria possível baixar um cabo até a superfície... de modo a criar um sistema de elevadores ligando a Terra ao espaço?” 
"Não havia nada de errado na teoria, mas os problemas práticos eram fantásticos. Os cálculos mostravam que nenhum dos materiais existentes seria suficientemente forte. O aço mais resistente se romperia sob seu próprio peso muito antes de conseguir cobrir os trinta e seis mil quilômetros que medeiam a Terra e a órbita sincrônica.” 
"Contudo, os melhores aços não se encontravam sequer perto dos limites teóricos de resistência. Em escala microscópica, tinham sido criados, em laboratório, materiais com resistência à ruptura muito maior. Se pudessem ser produzidos em massa, o sonho de Artsutanov poderia tornar-se realidade, e os custos do transporte espacial se transformariam inteiramente.” 
"Antes do fim do século XX, materiais super-resistentes, chamados hiperfilamentos, tinham começado a sair dos limites dos laboratórios. No entanto,