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Arthur C. Clarke   As Fontes do Paraiso

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e fortuitas que anunciavam a chegada da monção. Antes que as chuvas finalmente chegassem, talvez a fome se acrescentasse a seus problemas. 
- Majestade, os enviados estão prestes a partir - disse a voz paciente do cortesão Adigar. - Desejam render-lhe suas homenagens. 
Ah, sim, aqueles dois embaixadores pálidos vindos do outro lado do oceano ocidental! Sentiria a partida deles, pois haviam trazido notícias, em seu abominável taprobani, de muitas maravilhas - ainda que nenhuma, admitiam, se equiparasse àquela fortaleza-palácio no céu. 
Kalidasa voltou as costas para a montanha coroada de neve e para a paisagem esturricada e tremeluzente, começando a descer os degraus de granito que levavam à sala de audiências. Logo atrás dele, seguiam o camarista e seus ajudantes, trazendo presentes de marfim e gemas para homens altos e orgulhosos, que esperavam para dizer adeus. 
Em breve, levariam os tesouros da Taprobana ao outro lado do mar, para uma cidade surgida séculos depois de Ranapura; e talvez, por algum tempo, eles conseguissem distrair os pensamentos taciturnos do imperador Adriano. 
Com seus mantos que adejavam com um clarão alaranjado contra o gesso branco do templo, o Mahanayake Thero caminhou vagarosamente até a amurada norte. Lá embaixo, de horizonte a horizonte, estendiam-se, como um tabuleiro de xadrez, os arrozais, as linhas escuras dos canais de irrigação, o reflexo azul do Paravana Samudra - e, além daquele mar mediterrâneo, as cúpulas santas de Ranapura, que flutuavam como bolhas fantasmagóricas, inacreditavelmente imensas, quando se levava em conta a distância real a que se encontravam. Havia trinta anos ele contemplava aquele panorama, em constante modificação, mas sabia que jamais seria capaz de apreender todos os detalhes de sua complexidade fugaz. Cores e fronteiras alteravam-se a cada estação... na verdade, a cada nuvem que passava. No dia em que ele também passasse, pensou Bodhidharma, ele ainda veria algo novo. 
Apenas uma coisa não se harmonizava com aquela paisagem delicada. Por menor que parecesse daquela altitude, o vulto cinzento do Rochedo do Demônio parecia uma intromissão descabida. Na verdade, segundo a lenda, Yakkagala era um fragmento do pico himalaio, coberto de ervas, que o deus-macaco Hanuman havia deixado cair quando apressadamente levava o remédio juntamente com a montanha a seus camaradas feridos, terminadas as batalhas do Ramayana. 
Daquela distância, naturalmente, era impossível divisar quaisquer detalhes do refúgio suntuoso de Kalidasa, exceção feita a uma tênue linha que parecia o baluarte externo dos Jardins das Delícias. No entanto, uma vez experimentado, o impacto do Rochedo do Demônio era tal que esquecê-lo era inviável. O Mahanayake Thero podia ver na imaginação, tão claramente como se estivesse entre elas, as imensas patas de leão que se projetavam da face lisa do penhasco — enquanto mais acima avultavam os muros ameados por trás dos quais, era fácil acreditar, o rei amaldiçoado ainda caminhava. .. 
O trovão precipitou-se do céu, elevando-se rapidamente a tamanho rugido que parecia sacudir a própria montanha. Numa convulsão contínua, percorreu o céu, indo morrer a leste. Longamente, os ecos rolaram pela orla do horizonte. Ninguém seria capaz de tomar aquilo como um prenuncio das chuvas que estavam por vir; só estavam previstas para dali a três semanas, e o Controle das Monções jamais errava em mais de vinte e quatro horas. Depois que as reverberações morreram, o Mahanayake voltou-se para seu companheiro. 
- Um pouco demais para corredores de reentrada regulares - disse ele, com uma irritação ligeiramente maior que a que se devia permitir um expoente do Dharma. - Foi feita uma mensuração? 
O monge mais jovem falou rapidamente em seu microfone de pulso, e esperou a resposta. 
- Foi... o máximo chegou a cento e vinte. Cinco decibéis a mais que o recorde anterior. 
- Mande o protesto habitual ao Controle Kennedy ou Gagárin, seja qual for. Aliás, pensando bem, queixe-se a ambos. Não que faça qualquer diferença, é claro. 
Enquanto seus olhos acompanhavam a trilha de vapor que lentamente se dissolvia no céu, o Bodhidharma Mahanayake Thero - o octagésimo quinto do mesmo nome - 
teve uma fantasia repentina e pouco própria de um monge. 
Kalidasa teria dado um tratamento apropriado para operadores de linhas espaciais que só pensavam em dólares por quilo em órbita... um tratamento que provavelmente envolveria empalamento, elefantes com patas de metal ou azeite fervente. 
Mas a vida, é claro, havia sido muito mais simples dois mil anos antes. 
 
 As Fontes do Para�so
 
 
 
 
 
 
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2. O engenheiro 
Seus amigos, que lamentavelmente diminuíam a cada ano, chamavam-no Johan. O mundo, quando se lembrava dele, chamava-o Rajá. Por inteiro, seu nome sintetizava quinhentos anos de história: Johan Oliver de Alwis Sri Rajasinghe. 
Em certa época, os turistas em visita ao rochedo perseguiam-no com máquinas fotográficas e gravadores, mas a nova geração nada sabia a respeito dos dias em que o rosto dele tinha sido o mais conhecido do sistema solar. Ele não lamentava sua glória passada, pois ela lhe trouxera a gratidão de toda a humanidade. Mas também havia trazido arrependimento vão pelos erros que cometera — e tristeza pelas vidas que esbanjara, quando um pouco mais de previsão ou paciência poderia tê-las salvo. Claro, era fácil agora, depois que tudo terminara, perceber o que deveria ter feito para evitar a Crise de Auckland, ou para reunir os contra-feitos signatários do Tratado de Samarcanda. Culpar-se pelos erros inevitáveis do passado era uma tolice; no entanto, havia dias em que sua consciência lhe doía mais do que as pontadas, já raras, daquela velha bala patagônia. 
Ninguém acreditara que seu exílio durasse tanto. - 
Você estará de volta dentro de seis meses - dissera-lhe o presidente mundial, Chu. - O poder vicia. 
- Não a mim - ele respondera com sinceridade. 
Pois o poder viera até ele; jamais ele o havia procurado. E sempre fora um poder muito especial, limitado - 
um cargo de assessoria, não executivo. Ele era apenas um assistente especial (embaixador interino) para assuntos políticos, subordinado diretamente ao presidente e ao Conselho, e chefiava uma equipe que jamais havia ultrapassado dez pessoas - onze, se fosse incluído Aristóteles. 
(Seu painel ainda tinha acesso direto à memória e às unidades processadoras de Ari, e eles conversavam várias vezes durante o ano.) Mas, com o passar do tempo, o Conselho se acostumara a aceitar invariavelmente seus pontos de vista, e o mundo lhe atribuíra grande parte do crédito que, a rigor, caberia aos burocratas anônimos da Divisão de Paz. 
Assim, o embaixador plenipotenciário Rajasinghe recebia toda a publicidade, ao viajar de um local crítico para outro, lisonjeando personalidades aqui, esvaziando crises ali, e sempre manipulando a verdade com exímia perícia. Jamais chegava a mentir, é claro — isso teria sido fatal. Sem a memória infalível de Ari, ele nunca poderia ter mantido controle sobre as complicadas tramas que às vezes era obrigado a tecer, a fim de que a humanidade vivesse em paz. 
Quando começou a gostar do jogo pelo jogo, chegou a hora de parar. 
Isso tinha sido vinte anos antes, e ele jamais se arrependera de sua decisão. Os que previram que o fastio haveria de lograr aquilo que as tentações do poder não haviam conseguido não conheciam aquele homem, nem compreendiam suas origens. Ele havia regressado aos campos e florestas de sua mocidade, e vivia a apenas um quilômetro do rochedo sobranceiro que dominara sua meninice. Na verdade, sua casa ficava dentro do fosso que circundava os Jardins das Delícias, e as fontes que o arquiteto de Kalidasa havia projetado jorravam agora