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Arthur C. Clarke   As Fontes do Paraiso

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aquele ainda era o dia mais reverenciado do calendário da Taprobana. Na lua cheia de maio, segundo a lenda, o Buda nascera, chegara à iluminação e morrera. Ainda que, para a maioria das pessoas, o Vesak não significasse mais do que outro importante feriado anual, o Natal ainda era uma época de meditação e tranqüilidade. 
Durante muitos anos, o Controle das Monções conseguira que não houvesse chuva nas noites de Vesak, com poucas exceções. Quase sempre, Rajasinghe visitava a Cidade Real dois dias antes da lua cheia, numa peregrinação que a cada ano rejuvenescia seu espírito. Ele evitava o Vesak propriamente dito. Nesse dia, Ranapura ficava cheia demais de visitantes, alguns dos quais com certeza o reconheceriam, perturbando sua solidão. 
Só o olho mais agudo podia perceber que a imensa lua amarela que se erguia sobre os domos em forma de sino dos antigos dagobas ainda não era um círculo perfeito. A luz que emitia era tão intensa, que apenas alguns dos satélites e estrelas mais brilhantes estavam visíveis no céu sem nuvens. 
E não havia sinal de vento. 
Duas vezes, ao que se dizia, Kalidasa se detivera naquela estrada, quando deixou Ranapura para sempre. A primeira parada fora no túmulo de Hanuman, o companheiro querido de sua infância; a segunda, no Santuário do Buda Agonizante. Rajasinghe, muitas vezes, imaginara o alívio que o rei angustiado havia sentido - talvez houvesse estado naquele exato lugar, para melhor contemplar a imensa figura talhada na rocha maciça. O vulto reclinado tinha proporções tão perfeitas que era preciso chegar até junto dele para perceber suas dimensões reais. À distância, era impossível compreender que a almofada em que o Buda repousava a cabeça era mais alta que um homem. 
Embora Rajasinghe houvesse visitado a maior parte do mundo, não conhecia outro local tão cheio de paz. Às vezes, tinha a impressão de que podia permanecer ali para sempre, sob a lua fulgurante, inteiramente esquecido das preocupações e do tumulto da vida. Nunca tentara sondar profundamente a magia do santuário, temendo destruí-lo, mas alguns de seus elementos eram bastante óbvios. A própria posição do Iluminado, que repousava de olhos fechados, depois de levar uma vida longa e nobre, irradiava serenidade. As linhas ondulantes de seu traje eram muito calmas, e descansavam a vista. Pareciam fluir de dentro da pedra, formando ondas de rocha congelada. E, tal como as ondas do mar, o ritmo natural de suas curvas apelava para instintos sobre os quais o espírito racional nada conhecia. 
Em momentos como aquele, sozinho com o Buda e com a lua quase cheia, Rajasinghe acreditava entender finalmente o significado do nirvana — aquele estado que só pode ser definido por negativas. Emoções como raiva, desejo e cobiça já não tinham lugar; na verdade, tornavam-se quase inconcebíveis. Até mesmo a sensação de identidade pessoal parecia quase esvaída, como uma bruma diante do sol matutino. 
Mas não podia durar muito, naturalmente. Daí a pouco, Rajasinghe tomou consciência do zumbido dos insetos, dos latidos distantes de alguns cães, e da dureza fria da pedra em que estava sentado. A tranqüilidade não era um estado de espírito que pudesse ser mantido por muito tempo. Com um suspiro, Rajasinghe pôs-se de pé e caminhou de volta para seu carro, estacionado cerca de cem metros fora do terreno do templo. 
Estava acabando de entrar no veículo quando notou a pequena mancha branca, tão nítida que parecia pintada no céu, e que subia por sobre as árvores a oeste. Era a nuvem mais estranha que já tinha visto — um elipsóide perfeitamente simétrico, de arestas tão marcadas que parecia quase um sólido. Imaginou se alguém estaria voando num dirigível pelos céus da Taprobana; mas não via aletas, nem havia ruído de motores. 
Depois, por um instante fugaz, passou por sua cabeça uma fantasia ainda mais louca. Os construtores de Sideronauta chegaram finalmente... 
Mas aquilo, naturalmente, era absurdo. Mesmo que tivessem conseguido viajar mais rápido que seus sinais de rádio, não teriam podido atravessar todo o sistema solar... 
chegando aos céus da Terra!... sem despertar a atenção de todos os radares de tráfego existentes. As notícias teriam sido divulgadas horas antes. 
Para sua própria surpresa, Rajasinghe teve uma ligeira sensação de desapontamento. E agora, quando a aparição se aproximava mais, constatava que era mesmo uma nuvem, pois começava a se esgarçar nos cantos. Sua velocidade era impressionante. Parecia impulsionada por um vento particular, do qual ainda não havia sinal ao nível do solo. 
Então, os cientistas do Controle das Monções estavam em ação outra vez, experimentando seu domínio dos ventos. 
Em que, imaginou Rajasinghe, pensariam a seguir? 
27. Estação Ashoka 
Como a ilha parecia pequena daquela altitude! De trinta e seis mil quilômetros de distância acima do equador, a Taprobana não parecia muito maior do que a Lua. Todo o país dava a impressão de um alvo pequeno demais para ser atingido; no entanto, ele estava apontando para uma área em seu centro mais ou menos do tamanho de uma quadra de tênis. 
Morgan ainda não estava inteiramente certo de suas motivações. Tendo em vista aquela demonstração, poderia ter operado com a mesma facilidade da Estação Kinte, usando como alvo o monte Quênia ou o Kilimanjaro. O fato de Kinte ser um dos pontos mais instáveis em toda a órbita estacionaria, sempre se desviando do rumo da África Central, não teria relevância nos poucos dias em que a experiência haveria de durar. Por algum tempo, ele se sentira tentado a usar como alvo o Chimborazo; os americanos haviam se oferecido para transferir a Estação Columbus para sua longitude exata, o que representava uma despesa considerável. 
Mas, apesar disso, ele acabara escolhendo seu objetivo original, o Sri Kanda. 
Para felicidade de Morgan, naquela era de decisões assistidas por computadores, até mesmo um veredicto da Corte Mundial podia ser obtido em questão de semanas. O 
Vihara havia protestado, é claro. Morgan argumentou que uma rápida experiência científica, realizada fora das terras do templo, e que não provocaria ruído, poluição ou qualquer outra forma de interferência, não poderia representar um agravo. Se fosse impedido de realizá-la, todo o seu trabalho anterior estaria comprometido, e não teria como verificar seus cálculos - desse modo, um projeto vital para a República de Marte sofreria um grave revés. 
Tratava-se de uma argumentação bastante plausível, e o próprio Morgan tinha acreditado nela. O mesmo havia acontecido aos juizes, que lhe deram ganho de causa por cinco votos a dois. Embora legalmente os juizes não levassem isso em conta, a menção aos marcianos, envolvidos em vários litígios, havia sido uma manobra hábil. A RM já estava com três processos em juízo, e a Corte estava um tanto cansada de fixar precedentes em direito interplanetário. 
Mas Morgan sabia, no recesso friamente analítico de sua mente, que a decisão que havia tomado não era ditada apenas pela lógica. Não costumava aceitar a derrota com espírito esportivo. Os gestos de desafio lhe davam certa satisfação. No entanto, num nível ainda mais profundo, rejeitava aquela motivação mesquinha; aquele gesto de colegial não era digno dele. Estava procurando ganhar autoconfiança e reafirmar sua convicção no êxito final. Embora não soubesse como, nem quando, estava proclamando para o mundo, e para os monges cabeçudos dentro de suas muralhas vetustas: "Eu vou voltar". 
A Estação Ashoka controlava praticamente todas as comunicações, a meteorologia, a monitoração ambiental e o tráfego espacial na região indochinesa. Se algum dia parasse de funcionar, um bilhão de vidas estaria ameaçado pelo desastre, e, se não voltasse a operar rapidamente, pela morte.