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Arthur C. Clarke   As Fontes do Paraiso

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Não era de admirar que Ashoka tivesse dois subsatélites completamente independentes, Bhaba e Sarabhai, a cem quilômetros de distância. Mesmo que uma catástrofe inimaginável destruísse todas as três estações, Kinte e Imhotep, a oeste, ou Confúcio, a leste, poderiam assumir as operações provisoriamente. A raça humana tinha aprendido, pela dura experiência, que sempre devia confiar desconfiando. 
Não havia turistas ou passageiros em trânsito ali, tão longe da Terra. O pessoal trabalhava ou passeava a apenas alguns milhares de quilômetros do planeta, deixando as órbitas geossincrônicas elevadas para os cientistas e engenheiros - nenhum dos quais tinha visitado Ashoka numa missão tão insólita ou com equipamento tão estranho. 
O núcleo da Operação Filandra flutuava, naquele momento, numa das câmaras de acoplagem de porte médio da estação, aguardando a verificação final antes do lançamento. 
Não havia nada de muito espetacular nele, nem seu aspecto insinuava a enorme quantidade de trabalho e de dinheiro necessários para sua criação. 
O cone de um cinzento opaco, com quatro metros de comprimento e dois de diâmetro na base, parecia feito de metal sólido. Era preciso um exame atento para se perceber a fibra apertada que recobria toda a sua superfície. Com efeito, salvo uma coluna central e as tiras de plástico intercaladas, separando as centenas de camadas, o cone era feito apenas de fios de hiperfilamento, numa extensão de quarenta mil quilômetros. 
Duas tecnologias obsoletas e inteiramente diferentes tinham sido retomadas para a construção daquele cone cinzento de aspecto comum. Trezentos anos antes, telégrafos submarinos tinham começado a operar no fundo dos oceanos, ligando continentes, e homens haviam perdido fortunas antes de dominar a arte de desenrolar milhares de quilômetros de cabo no fundo do mar, apesar das tempestades e dos outros perigos do mar. Mais tarde, apenas cem anos depois, alguns dos primeiros mísseis teleguiados foram operados por fios finos, que se desenrolavam de carretilhas enquanto os foguetes voavam em direção ao alvo, numa velocidade de algumas centenas de quilômetros por hora. Morgan estava tentando um alcance mil vezes maior que o daquelas relíquias do Museu da Guerra, bem como uma velocidade cinqüenta vezes maior. No entanto, o projeto tinha algumas vantagens. 
Seu míssil operaria num ambiente de vácuo perfeito até as poucas centenas de quilômetros finais, e não era provável que o alvo se deslocasse. 
O diretor de operações do Projeto Filandra chamou a atenção de Morgan com uma tossezinha embaraçada. 
- Ainda temos um pequeno problema, doutor - disse ele. — Temos toda a confiança com relação à descida. Todos os testes e simulações por computador foram satisfatórios, como o senhor viu. O que está preocupando o setor de segurança da estação é o recolhimento do filamento. 
Morgan piscou. Tinha dado pouca atenção àquela questão. Parecia evidente que enrolar de novo o filamento era uma coisa trivial, comparada a descê-lo até a Terra. Para isso bastava um guincho motorizado, com as modificações especiais necessárias para trabalhar com um material tão fino, de espessura variável. Mas ele sabia que no espaço nada se podia considerar simples, e que a intuição - principalmente a intuição de um engenheiro terrestre - podia ser um guia traiçoeiro. 
Vejamos... quando os testes estiverem concluídos, cortamos a extremidade terrestre, e Ashoka começa a recolher o filamento. Evidentemente, quando se puxa, mesmo que com força, a ponta de uma linha com quarenta mil quilômetros de comprimento, nada acontece durante horas. Seria necessário a metade de um dia para o impulso chegar à extremidade oposta, e o sistema começar a funcionar como um todo. Por isso, mantém-se a tensão... Ah!... 
- Alguém fez alguns cálculos - continuou o engenheiro 
- e descobriu que, quando finalmente começássemos a operar rapidamente, teríamos várias toneladas voando em direção à estação a uma velocidade de milhares de quilômetros por hora. 
Não gostamos nada disso. 
- É compreensível... O que querem que façamos? 
- Devemos programar um recolhimento mais lento, com um ritmo controlado... Se ocorrer o pior, podemos sair da estação para que o recolhimento seja automatizado. 
- Isso vai retardar a operação? 
- Não. Já preparamos um plano de emergência para jogar tudo pela escotilha em cinco minutos, se for preciso. 
- E será fácil recuperar o material? 
- Claro. 
- Espero que o senhor tenha razão. Essa linhazinha de pesca custa dinheiro... e quero usá-la outra vez. 
Mas onde?, perguntava-se Morgan, fitando a Terra em minguante. Talvez fosse melhor completar o projeto de Marte primeiro, mesmo que isso significasse vários anos de exílio. 
Assim que Pavonis estivesse em plena atividade, a Terra teria de construir sua torre, e ele não tinha dúvidas de que, de alguma maneira, os últimos obstáculos seriam vencidos. 
Então, o abismo que agora contemplava estaria transposto, e a fama que Gustave Eiffel havia conquistado três séculos antes seria ultrapassada, sem termos de comparação. 
 
 As Fontes do Para�so
 
 
 
 
 
 
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28. Primeira descida 
Não haveria nada para ver nos próximos vinte minutos. Entretanto, todos os que não eram necessários na cabina de controle já estavam do lado de fora, olhando para o céu. Até Morgan achava difícil resistir àquele impulso, e a todo momento se via caminhando para a porta. 
A apenas alguns metros dele estava o mais recente colaborador de Maxine Duval, um jovem corpulento de vinte e tantos anos. Sobre os ombros, levava o instrumental costumeiro de seu ofício - câmeras duplas, preparadas segundo o arranjo tradicional de "câmera direita para a frente", 
"câmera esquerda para trás", e acima delas uma esfera não muito maior que uma laranja grande. A antena no interior daquela esfera oscilava milhares de vezes por segundo, de modo que estava sempre voltada para o satélite de comunicações mais próximo, qualquer que fosse a posição assumida por seu portador. E, na outra extremidade daquele circuito, sentada confortavelmente no escritório do estúdio, Maxine Duval via através dos olhos de seu distante alter ego e escutava com os ouvidos dele... sem precisar forçar os próprios pulmões no ar frígido. Dessa vez, estava no lugar mais cômodo. Nem sempre era o caso. 
Morgan havia aceitado essa interferência com alguma relutância. Sabia que aquela era uma ocasião histórica, e aceitava a garantia de Maxine de que "meu rapaz não vai atrapalhar". Mas ele tinha aguda consciência de todas as coisas que podiam sair erradas numa experiência tão drasticamente nova - principalmente nas últimas centenas de quilômetros de penetração na atmosfera. Por outro lado, sabia também que Maxine era capaz de veicular uma notícia, de triunfo ou fracasso, sem sensacionalismo. 
Como todos os grandes repórteres, Maxine Duval não se sentia emocionalmente alheia aos acontecimentos que observava. Conseguia apresentar todos os pontos de vista, sem distorcer ou omitir os fatos que considerava essenciais. 
Entretanto, não procurava ocultar seus sentimentos, nem deixava que se intrometessem na notícia. Admirava Morgan profundamente, com o respeito matizado de inveja de uma pessoa que carecia de real capacidade criativa. Desde a construção da Ponte de Gibraltar, esperava um novo feito do engenheiro, e não se decepcionara. Mas, embora desejasse boa sorte a Morgan, na verdade não gostava dele. Em sua opinião, a força e a inexorabilidade da ambição de Morgan o tornavam ao mesmo tempo sobre-humano e subumano. Não podia deixar de compará-lo a seu colaborador imediatamente abaixo dele no comando, Warren Kingsley. Ali estava uma pessoa gentilíssima, simpática. ("E é um engenheiro melhor do que eu", Morgan lhe