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Arthur C. Clarke   As Fontes do Paraiso

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Evidentemente, tratava-se de um defeito nos próprios circuitos de alarme, e a explicação do professor Sessui foi recebida com alívio geral. O veículo já não se encontrava no ambiente de vácuo puro para que tinha sido projetado. O 
turbilhão ionosférico em que havia entrado estava acionando os sensíveis detectores dos sistemas de advertência. 
- Alguém devia ter pensado nisso - resmungara Chang. 
No entanto, restava menos de uma hora de viagem, e ele não estava realmente preocupado. Faria constantes verificações manuais de todos os parâmetros críticos. A Intermediaria aprovou. De qualquer maneira, não havia outra alternativa. 
A carga da bateria talvez fosse o que mais o preocupava. O ponto de recarga mais próximo ficava a dois mil quilômetros, e se não pudessem subir novamente até aquele ponto estariam em apuros. Mas Chang não via motivos de preocupação. Durante o processo de frenagem, os motores do transportador tinham funcionado como dínamos, e noventa por cento de sua energia gravitacional havia sido retransferida para as baterias. Agora que estas estavam plenamente carregadas, as centenas de quilowatts excedentes que ainda estavam sendo geradas seriam desviadas para o espaço, graças às grandes aletas de refrigeração na ré. Aquelas aletas, como os colegas de Chang muitas vezes haviam comentado, faziam com que o veículo parecesse uma antiga bomba aérea. 
Àquela altura, ao fim do processo de frenagem, deviam estar quase avermelhadas. Chang teria ficado realmente preocupado se soubesse que ainda estavam perfeitamente frias. Pois a energia nunca pode ser destruída; tem de ir para algum lugar. 
E, muitas vezes, vai para o lugar errado. 
Quando o aviso de INCÊNDIO - COMPARTIMENTO DE 
BATERIAS - acendeu pela terceira vez, Chang não hesitou em apagá-lo. Um incêndio real, sabia, teria acionado os extintores. 
Na verdade, um de seus maiores receios era o de que os extintores começassem a funcionar sem necessidade. Havia agora várias anomalias a bordo, principalmente nos circuitos de carga de bateria. Assim que a viagem acabasse e ele tivesse desligado o transportador, Chang subiria na sala de máquinas e daria em tudo uma boa inspeção visual, à maneira antiga. 
Quando seu nariz o alertou, faltava menos de um quilômetro para o fim da jornada. Enquanto fitava incredulamente o fio de fumaça que subia do painel de controle, a parte puramente analítica da mente de Chang dizia: "Que sorte isso só ter acontecido no fim da viagem!" 
Lembrou-se, então, de toda a energia produzida durante a frenagem final e teve um palpite bastante correto quanto à seqüência dos acontecimentos. Os circuitos de proteção com certeza não haviam funcionado, e as baterias estavam supercarregadas. Um sistema de proteção após outro havia falhado. Ajudada pela tempestade ionosférica, a perversidade das coisas inanimadas voltara a atuar. 
Chang apertou o botão do extintor de incêndio do compartimento de baterias. Pelo menos ÍJJO funcionou, pois ele escutou o rugido abafado das rajadas de nitrogênio no outro lado da cabina. Dez segundos depois, ele acionou o botão de DESCARGA NO VÁCUO, que soltaria o gás para o espaço, juntamente, assim esperava, com a maior parte do calor causado pelo fogo. O procedimento também funcionou corretamente; era a primeira vez que Chang ouvia com alívio o ruído inequívoco da atmosfera que escapava de um veículo espacial. Esperava também que fosse a última. 
Não ousou confiar na seqüência automática de frenagem, enquanto o veículo finalmente entrava no terminal. 
Por felicidade, ele fora bem treinado e reconhecia todos os sinais visuais, de modo que conseguiu parar a um centímetro do adaptador de acoplamento. Numa pressa frenética, as escotilhas foram engatadas, as provisões e o equipamento, arremessados pelo tubo de conexão... 
E o mesmo aconteceu com o professor Sessui, devido aos esforços reunidos do piloto, do engenheiro assistente e do comissário de bordo, quando tentou voltar para buscar seus preciosos instrumentos. As portas das escotilhas se fecharam apenas alguns segundos antes que o escudo da sala de máquinas finalmente cedesse. 
Depois disso, os refugiados nada puderam fazer, senão esperar na câmara sombria, de quinze metros quadrados, muito menos confortável do que uma cela de prisão bem-mobiliada, e esperar que o fogo terminasse. Para sossego dos passageiros, somente Chang e o engenheiro estavam a par de um lado importante: plenamente carregadas, as baterias continham a energia de uma grande bomba química, que agora tiquetaqueava do lado de fora da torre. 
Dez minutos depois de sua chegada apressada, a bomba detonou. Houve uma explosão abafada, que provocou apenas ligeiras vibrações na torre, seguida pelo som de metal rasgado e dilacerado. Embora os ruídos não fossem muito altos, gelaram os corações dos que os escutaram; seu único meio de transporte estava sendo destruído, deixando-os naufragados a vinte e cinco mil quilômetros da segurança. 
Houve outra explosão, mais tarde... e depois, silêncio. 
Os refugiados compreenderam que o veículo havia se desprendido da face da torre. Ainda atônitos, começaram a fazer um levantamento dos recursos de que dispunham. E, lentamente, surgiu neles a compreensão de que a fuga milagrosa tinha sido em vão. 
44. Uma caverna no céu 
Nas profundezas da montanha, entre os equipamentos de computação e comunicação do Centro Terrestre de Operações, Morgan e seu grupo técnico estavam reunidos em torno do holograma da seção inferior da torre, em escala de um por dez. A reprodução era perfeita em todos os detalhes, inclusive as quatro fitas estreitas que se estendiam ao longo de cada uma das faces. Desapareciam no ar pouco acima do solo, e era difícil imaginar que, mesmo naquela escala diminuta, devessem prosseguir para baixo mais sessenta quilômetros - 
varando completamente a crosta do planeta. 
- Dê o corte - disse Morgan - e ilumine a base ao nível dos olhos. 
A torre perdeu sua aparente solidez e tornou-se um espectro luminoso - uma caixa quadrada, longa e de paredes finas, que só continha os cabos supercondutores do suprimento de força. Sua parte mais baixa — "Porão" era mesmo um bom termo - havia sido lacrada, formando uma única câmara quadrada, com quinze metros de lado. 
- Acesso? - indagou Morgan. 
Dois pedaços da imagem começaram a brilhar mais. 
Viam-se claramente, nas faces norte e sul, entre as fendas dos trilhos de direção, as portas externas das escotilhas em duplicata - o mais distante possível uma da outra, segundo as habituais precauções de segurança para todos os habitats espaciais. 
- Eles entraram pela porta sul, é claro - explicou o oficial de dia. - Não sabemos se foi danificada com a explosão. 
Bem, havia mais três entradas, pensou Morgan, e era o par inferior que o interessava. Aquela fora uma solução incorporada tardiamente no projeto. Na verdade, toda a base havia sido imaginada depois. Numa certa época, tinham julgado desnecessário construir um refúgio ali, na parte da torre que por fim se tornaria parte do próprio Terminal Terrestre. 
- Incline a parte inferior para mim - ordenou Morgan. 
A torre descaiu num arco de luz, passando a flutuar horizontalmente no ar, com a extremidade inferior voltada para Morgan. Agora, ele podia ver todos os detalhes a partir do piso de vinte metros de lado. Ou a partir do teto, se alguém o olhasse do ponto de vista de seus construtores orbitais. 
Perto dos cantos norte e sul estavam as duas escotilhas que davam acesso por baixo, levando a duas câmaras estanques independentes. O único problema consistia em chegar a elas, a seiscentos quilômetros de altitude. 
- Manutenção da vida? 
As câmaras estanques se dissolveram na estrutura. O 
foco visual passou para um pequeno gabinete no meio da câmara. 
- Esse é o problema, doutor - respondeu o oficial de dia, sombriamente. - Só há um sistema de