Direitos Humanos
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A CONTRIBUIÇÃO DE KOHLBERG ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS 
KOHLBERG\u2019S CONTRIBUTION TO SOCIAL SCIENCES 
 
Marcos Rolim 
 
 
 
Resumo 
 
A obra de Lawrence Kohlberg tem exercido uma extraordinária influência na teoria e nas práticas 
educacionais em todo o mundo. Sua teoria de desenvolvimento cognitivo a respeito dos estágios 
de moralidade, baseada nas contribuições de Piaget, foi incorporada aos debates contemporâneos 
nas ciências sociais e tem servido de inspiração para currículos de muitas escolas em diferentes 
países. Para Kohlberg, a educação comprometida com o desenvolvimento moral é uma educação 
para a justiça que deve recusar, ao mesmo tempo, tanto as visões dogmáticas quanto o relativismo 
moral. Este texto oferece um breve resumo da teoria de Kohlberg sobre o desenvolvimento moral, 
sustentando sua importância para as ciências sociais. 
 
Palavras-chave 
Kohlberg, desenvolvimento moral, atmosfera moral, princípios universais, comunidade justa 
 
Abstract 
Lawrence Kohlberg\u2019s work had an immense influence on the theory and practice of moral education 
worldwide. His cognitive-developmental theory of stages of moral reasoning, based on Piaget\u2019s 
contribution, was incorporated in the contemporary discussions in social sciences and had been 
served as a basis of numerous curricula in schools in different countries. Kohlberg argued that 
education for development through the moral stages was education for justice witch must to refute 
dogmatical perpectives as well moral relativism. This paper offers a brief synthesis of Kohlberg\u2019s 
theory about moral development, arguing their relevance to Social Sciences. 
 
Key words 
Kohlberg, moral development, moral athmosfere, universal principles, just community 
 
 
 
 
I - Introdução 
 
 
Em que pese a importância do seu trabalho sobre o desenvolvimento moral, de aplicação 
mais ampla em escolas em todo o mundo, Lawrence Kohlberg segue sendo um autor 
pouco referido pela tradição sociológica1. No Brasil, apenas alguns cientistas sociais já se 
 
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 Mesmo na Psicologia, em que pese o interesse crescente por sua teoria, não são muitas as 
referências a Kohlberg no Brasil. O trabalho de Ângela Biaggio é, neste particular, um marco cujo 
pioneirismo não foi ainda suficientemente destacado. Mais recentemente, começam a surgir 
aplicações interessantes da teoria de Kohlberg na sociologia, como, por exemplo, o interessante 
trabalho de Fedozzi (2002) a respeito da evolução moral dos conselheiros do Orçamento 
Participativo em Porto Alegre. 
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valeram da teoria de Kohlberg em suas pesquisas e, se desconsiderarmos estas 
exceções, pode-se afirmar que sua contribuição é ainda pouco valorizada entre nós. 
 
Por certo, concorrem para este distanciamento muitas razões. Primeiro, Kohlberg foi um 
psicólogo e não um sociólogo. Seu trabalho esteve sempre muito vinculado ao 
construtivismo piagetiano e à idéia da psicogênese do conhecimento. Para uma visão 
mais tradicional e estreita nas ciências sociais, esta formação e área de atuação já seriam 
motivos suficientes para o desinteresse. Em segundo lugar, a teoria de Kohlberg situa-se 
dentro de uma tradição filosófica identificada mais amplamente com as perspectivas 
morais universalistas inauguradas por Kant. Assim, sua base teórica vinculou-se ao 
estruturalismo psicogenético e inspirou-se pelo ideal humanista de uma moral universal. 
Por um lado e por outro, assim, tudo em sua reflexão parece se afastar dos temas mais 
comuns tratados pela maioria das ciências sociais e, destacadamente, do pressuposto de 
que seu objeto, o processo de formação do senso moral, pudesse ser compreendido 
enquanto um fenômeno social. 
 
Este texto pretende oferecer uma síntese da teoria de Kohlberg e, ao mesmo tempo, 
sustentar alguns argumentos pelos quais entendo que ela deva ser incorporada às 
reflexão correntes em várias disciplinas das ciências sociais, para além da psicologia, 
como uma contribuição pertinente. 
 
 
 
II - A Teoria de Kohlberg 
 
 
a) Construtivismo pós-piagetiano 
 
Quando Kohlberg propôs sua teoria a respeito da formação das noções morais, a partir de 
pesquisas empíricas com crianças e pré-adolescentes, a visão largamente predominante 
a respeito do tema era a de que a moralidade deveria ser compreendida, simplesmente, 
como uma resultante do processo de socialização. Assim, os valores morais seriam 
introjetados, \u201cde fora para dentro\u201d, na consciência. Esta compreensão era comum não 
apenas na Sociologia, mas também na Psicologia, a partir dos modelos oferecidos pela 
teoria psicanalítica, de um lado, e pelo comportamentalismo (behaviourism), de outro. A 
decorrência lógica desta forma de compreender a formação do juízo prático deveria, 
portanto, suportar a conseqüência do relativismo moral. Com efeito, se as noções morais 
são apenas o resultado de fatores sociais específicos, teremos tantas morais quantas 
forem estas influências. 
 
Para Kohlberg, entretanto, toda criança é \u201cum filósofo moral\u201d, no sentido de que ela 
constrói ativamente seu senso moral em relação com o mundo que experimenta e 
segundo certas estruturas invariantes e progressivas de moralidade. Os pressupostos 
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teóricos de Kohlberg, assim, foram definidos na linha de desenvolvimento das 
concepções de Piaget de quem ele, aliás, sempre se considerou um seguidor. 
 
Segundo Piaget, a criança formava seu pensamento e desenvolvia sua capacidade 
cognitiva a partir de um processo construtivista marcado pela interação entre estruturas 
cognitivas definidas biologicamente e a influência do meio social. Em estudos 
transculturais, Piaget e seus colaboradores identificaram quatro estágios fundamentais e 
universais que seriam percorridos pelo ser humano em sua psicogênese: um estágio 
sensório-motor, um estágio pré-operacional, um estágio de operações concretas e, por 
fim, um estágio de operações formais. 
 
No primeiro estágio, sensório-motor, a criança adquire noções espaciais e exercita 
constantemente seus órgãos sensoriais, desenvolvendo a coordenação motora. Ao longo 
dos dois primeiros anos de vida, o infante irá apreender a correlacionar sons e imagens, 
inicia a estabelecer as primeiras noções de causalidade e aprimora seus sentidos, 
vinculando as impressões olfativas, gustativas, visuais e auditivas, com os objetos que 
toca. No segundo estágio, pré operacional, entre os 2 e os 6 anos, a criança desenvolve 
a linguagem. É o momento privilegiado da afirmação dos símbolos. Nesta fase, a criança 
ainda não tem noções que requerem uma capacidade de abstração como, por exemplo, a 
idéia de conservação. No terceiro estágio, operacional concreto, a criança inicia a 
desenvolver seu pensamento lógico. Nesta fase, entre os 7 e os 12 anos, já possui a 
noção de conservação e as operações matemáticas mais simples como soma, subtração, 
multiplicação e divisão são compreendidas perfeitamente. Por fim, Piaget identificou no 
quarto estágio, o das operações formais, o período onde, já na adolescência, se tornava 
possível a realização de operações mais complexas de pensamento, que exigiam um 
grau de abstração até então inexistente. Nesta fase, passa-se a lidar com raciocínios 
hipotéticos, o que torna possível um conhecimento mais complexo. 
 
Já em 1932, em sua obra \u201cO Julgamento Moral na Criança\u201d, Piaget sustentava que o 
desenvolvimento moral das crianças seguia uma seqüência paralela de estágios. 
Observando o comportamento das crianças em jogos comuns e suas opiniões sobre as 
regras que deveriam orientar estas brincadeiras, Piaget percebeu que, em um primeiro 
momento, as crianças exercitam seus sentidos, sem que sigam propriamente qualquer