CONSTITUCIONALIZACAO DO DIREITO CIVIL_REVISTO
17 pág.

CONSTITUCIONALIZACAO DO DIREITO CIVIL_REVISTO


DisciplinaDireito Civil I61.079 materiais666.527 seguidores
Pré-visualização7 páginas
a harmonização e a uniformidade do ordenamento jurídico, a concorrência da especialização dos subsistemas, o caráter integrativo da hermenêutica constitucional, dentre outros aspectos. No epílogo da ópera, os apologetas da constitucionalização, satisfeitos, ovacionam o espetáculo. 
No repertório da cantata, invariavelmente, escutamos loas sobre a \u201cperda de referência sistêmica\u201d do Código Civil, evidenciada no advento do Código de Defesa do Consumidor, instituído pela lei nº 8078/1990, na Lei de Direitos Autorais, lei nº 9610/1998 e no Estatuto da Criança e do Adolescente, lei nº 8069/1990. 
 O Código Civil, antigo latifúndio das relações privadas, criado pela Lei nº 3.071 de 1916, foi revogado pelo atual Código Civil, instituído pela lei nº 10.406/2002. A antiga legislação civil revogada e a vigente revogadora, todavia, afiguram-se igualmente insuficientes, senão, imprestáveis à promoção da igualdade material e da dignidade da pessoa humana, na visão de alguns. 
 Na proclamação imperial, os que vão viver devem saudar a constitucionalização do direito privado. O Código Civil, feudo obsoleto, devassado e desmembrado por microssistemas, perde a centralidade, a importância. Centralidade e importância ocupada e assumida pela Magna Carta. A Constituição Federal de 1988, com seu caráter social, princípios de solidarismo e justiça social, a fazer desmoronar o antigo direito privatista e individualista do Código Civil. Uma verdadeira \u201creforma agrária\u201d com fins sociais no âmbito do direito civil patrimonialista, individualista e privatista. Destronado, o Código Civil deixa a condição de fonte legítima das relações privadas. Ungida ao trono, a Constituição, fundamentada no princípio da dignidade da pessoa e no caráter social da propriedade, promete uma nova aurora para o direito civil. 
Em suma, pela nova versão da hermenêutica constitucionalizada do direito privado, o Código Civil de 1916 já foi sepultado, enquanto a cópia ressuscitada - o Código de 2002 está a caminho da sepultura. 
Grotesco equívoco dessa crítica ao Código Civil de 1916, diploma jurídico da lavra de Clóvis Bevilácqua, vigente por quase um século sob todas as Constituições da República - 1891, 1934, 1937, 1946, 1967/69 e 1988. Nem precisa ser especialista para perceber que as relações privadas, em termos jurídicos, estavam bem mais seguras e respaldadas juridicamente que as relações jurídicas constitucionais, marcadas por sucessivos golpes de estado e rupturas institucionais.
Se aceitarmos que o longevo Código Civil 1916 tornou-se um Frankenstein para a nova ordem constitucional, como deveríamos classificar a codificação civil de 2002? O projeto dessa lei civil concebido na ditadura militar e ressuscitado das tumbas vinte e seis anos depois pelo relator-geral, Ricardo Fiúza?\ufffd 
Em matéria de referências históricas, a doutrina jurídica não discrepa, tampouco vai além da mera descrição argumentativa. As mudanças de \u201cconteúdo\u201d do direito privado ocorrem depois da primeira Guerra Mundial na esteira das grandes transformações do mundo. Mudanças que se refletiram nas novas concepções do direito de propriedade, do equilíbrio nos contratos, da tutela da pessoa humana, do conceito de família e de outros institutos do direito privado. 
Nesse diaspasão, assinala-se a viragem da tutela precipuamente patrimonialista à tutela da pessoa humana; dos valores patrimonialistas individuais aos valores do solidarismo social. Nesse diapasão e das novas concepções do direito privado, o antigo privatismo subsume diante da crescente presença estatal na vida social, inclusive nas relações de particulares. Nesta conformidade, atos, negócios e institutos, antes regulados, exclusivamente, pelo direito privado, no novo contexto histórico, submetem-se às normas e princípios do direito constitucional, em especial, mandamentos relativos à dignidade da pessoa humana, à finalidade social da propriedade e a proteção à entidade familiar.
 Nessa perpectiva, a interpretação do princípio constitucional aplicada como norma cogente ao caso modifica radicalmente a concepção privatista civil do passado. Se o oráculo da Constituição proclamar que tal regra civilista privada, na casuística, apresenta-se incompatível com o princípio da dignidade da pessoa humana, essa regra da vacaria civilista vai ao brejo. A hermenêutica - não há que se falar em integrativa porquanto não precisa ser caso de lacuna ou omissão legal - dar-se-á pela hierarquia da Constituição. A regra hermenêutica da especialização é engolida pela regra da unicidade do sistema normativo que passa pela Constituição. Em suma, a constitucionalização do direito civil, para o bem ou para o mal, não apenas interfere no direito material como também em princípios clássicos de hermenêutica.
 E a missão do hermeneuta \u201cmoderno\u201d consiste, exatamente, em aplicar diretamente os princípios da Constituição em todas as situações jurídicas, inclusive, nas situações particulares não mais regidas pelo norte do Código de Direito Civil, e sim, pela Constituição.
Na ressaca da preamar da constitucionalização do direito privado, resta à hermenêutica do Art. 5º, da Lei de Introdução ao Código Civil \u2013 Decreto Lei nº 4.657/1942 verbis: \u201cNa aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige, e às exigências do bem comum\u201d ser aplicada com vista nos princípios da Constituição.
Em resumo, a unicidade do sistema jurídico se alcança através da interpretação e aplicação dos valores e princípios constitucionais a todas as normas jurídicas em vigor no país. A constitucionalização é uma realidade consumada, lógica, racional e \u201csalutar\u201d. 
Nos palcos Assim é, se lhe parece, comédia de Pirandello, diverte o respeitável público com as hilárias contradições da busca da verdade, com as ilusões do real ou a realidade ilusória, as modificações dos fatos a depender das perspectivas dos atores da trama. Em sendo a realidade policênica e as palavras, polissêmicas, ficamos com a seguinte dúvida: qual obra afigura-se mais cômica - a do teatro de Luigi Pirandello ou a dos hermenêutas apologetas das favas contadas? 
Oráculos da pós-modernidade
O meio jurídico costuma fazer boa imagem de si próprio: o advogado se diz essencial à justiça; o juiz, o pretor da justiça; o Ministério Público, o paladino da sociedade. Enfim, todos são indispensáveis à própria sobrevivência da civilização, assim se diz. Todos estão longe dessa autoidealização satisfatória.
 
Na antiguidade clássica, os oráculos eram essenciais e indispensáveis à vida da sociedade. Nada se fazia na polis sem consultar os deuses. E oráculos eram as divindades, o local sagrado e, também, o tradutor dos conselhos divinais. Um oráculo profetizou que o belo Narciso teria vida longa desde que jamais visse a própria imagem. Narciso morreu em um descuido, extasiado e imobilizado diante da própria imagem projetada nas águas. 
 
A autoimagem da magistratura brasileira faz de Narciso um deprimido de baixa autoestima. Tem de si própria uma imagem que não corresponde à opinião da sociedade? O problema está na sociedade, desinformada e manipulada pela imprensa sensacionalista. Não raramente, o otimismo expressado com a atividade jurídica nos faz pensar que vivemos no melhor dos mundos do Pangloss voltairiano. 
Traduz bem essa linha autoavaliativa de otimismo da magistratura brasileira Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, recém-nomeado ao Superio Tribunal de Justiça:
\u201cEu sou completamente encantado com a minha profissão, com o meio jurídico. Tenho orgulho da magistratura nacional, sempre dedicada, eficiente e preocupada com o jurisdicionado e a efetividade do trabalho. Nosso juiz é o que mais produz no mundo\u201d (grifei.)\ufffd
Os Tribunais de Justiça estaduais do Brasil possuem informativos e pagam matérias em jornais de grande circulação com avaliações positivas sobre a produtividade do órgão. Nos panegíricos, os juízes brasileiros estão entre os campeães mundiais em processos julgados, pela disposição laboral e competência dos juízes e pelo fato