CONSTITUCIONALIZACAO DO DIREITO CIVIL_REVISTO
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CONSTITUCIONALIZACAO DO DIREITO CIVIL_REVISTO


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em lei e defende interesses econômicos e políticos de quem a faz. 
Nesse sentido, a história das classes antagônicas conhece o direito escravista, o direito senhorial e o direito capitalista, servindo todos eles às respectivas classes dominantes.
Mas devemos distinguir as ideias e concepções jurídicas e as filosofias do direito das relações jurídicas existentes na sociedade. As concepções e filosofias refletem as contradições existentes na sociedade, os antagonismos.
 A filosofia representa a atitude das pessoas, as suas ideias a respeito do legal e do ilegal, do lícito e do ilícito.
Mas, para impor a dominação da classe dirigente, o Estado utiliza-se não só do aparelho repressivo, da polícia, do exército, mas também das ideias jurídicas. Procura esconder, ocultar o caráter de classe do direito. Apresenta o direito como de todos, instrumento da justiça, do bem comum, da paz, do progresso social, etc.
Nas sociedades regidas pelo direito liberal da burguesia, esta procura demonstrar que não pode existir direito mais justo, mais imparcial, mais impessoal e mais democrático. Para tanto, arma uma gigantesca estrutura judiciária qual a cobertura de um grande circo. Mas o espetáculo real não é aberto ao público, é encoberto: o direito burguês, essencialmente, serve aos interesses dos capitalistas, defende a propriedade privada capitalista, regula as relações de trabalho de exploração capitalista e persegue as forças sociais contrárias à dominação capitalista. 
 Des/considerações finais
Desvendar os significados dos oráculos e os truques mágicos das palavras que transformam desiguais em iguais, a ordem injusta em ordem justa representa uma atitude comprometida e ética tal qual a do filósofo da caverna de Platão. Curiosamente, o mais idealista dos filósofos, Platão, concebeu um filósofo transformador, ativo e ousado: o homem que sai das sombras da caverna e encontra a luz não se intimida com as retaliações dos habitantes das sombras. 
 	As perspectivas gnoseológicas de buscas dos significados e dos valores embutidos nos textos jurídicos através de conhecimentos da linguagem afastam as cortinas de fumaça que ocultam os truques da dominação persuasiva, a inversão da câmara escura ideológica, a dominação retórica possível com a mágica das palavras. 
Contudo, a episteme linguística, se bem possibilita o conhecimento da polissemia e a crítica da trama textual, não tem como chegar à raiz do processo histórico, ao custo social da produção do espetáculo.
Para se desnudar a produção do espetáculo do direito, é preciso alcançar os mecanismos da exploração econômica, da dominação política, estudar o contexto histórico da trama produzida na arte textual do direito tranformado em lei ou interpretado como tal. 
Nessa perspectiva, concluimos que a teoria crítica do direito, baseada em uma gnoseologia de totalidade e em uma metodologia dialética de interpretação da história, é a que melhor permite uma aproximação do conhecimento do direito e da lei. Nesse sentido, sobre uma explicação \u201cpós-moderna\u201d do direito, estamos falando da crítica do liberalismo jurídico burguês e do modo de produção capitalista formulada por Marx e Engels já no século XIX.
No século XX, dentre as várias contribuições à tradição de totalidade marxista, destacamos a obra do italiano Antonio Gramsci. Esse marxista e fundador do PCI desenvolveu a noção de hegemonia e, nesta, a norma jurídica reflete e expressa a hegemonia cultural ou ideológica \u201csuperestrutural\u201d de determinado bloco histórico. O direito e as leis refletem, assim, a cultura hegemônica e as contradições da sociedade, em dado momento.\ufffd
Numa análise de totalidade, porém de tradição anarquista, Guy Debord\ufffd critica a sociedade do espetáculo, caracterizada na sociedade consumista capitalista moderna. Debord relaciona a alienação humana e a produção do espetaculo à organização social capitalista, na qual: 
\u201cToda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação\u201d [...] 
\u201cO espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada\u201d.
 	O debate, aparentemente nas estepes, sobre a constitucionalização do direito privado, promovido por águias do direito, todavia circunscrito aos parâmetros e limites da ciência jurídica - da técnica jurídica aplicável, dos príncípios de hermenêutica - traz toda a retórica oficial ao campo dos voos das aves de rapina.
 
O direito não tem história, isto é, não é um ator social com vida própria autônoma, não existe, nem jamais existirá sozinho, desvinculado de uma determinada sociedade, de um tempo. Será sempre o direito de uma sociedade em certo grau de desenvolvimento histórico. O vulgo explica mais facilmente: se o tatu está no telhado da casa, alguém o colocou lá. 
Portanto, uma análise do direito deve, necessariamente, incorporar conhecimentos e saberes outros além da técnica jurídica para melhor compreender certos processos como o da constitucionalização do direito privado no Brasil dos dias atuais. É necessário revolver as condições materias e intelectuais dessa produção, as bases econômicas, sociais, políticas e culturais das interseções jurídicas do direito público e do privado no ser social para se poder dimensionar com alguma validade ditas repercussões. 
	Dizer que o fenômeno da constitucionalização do direito privado é um fato consumado no Brasil, em face da prevalência hierárquica e principiológoca da Constituição de 1988 no sistema jurídico e da perda de referenciais normativos do Código Civil pela proliferação dos microssistemas, é dizer muita coisa. Ao mesmo tempo, é não dizer absolutamente nada. Na magia das palavras, releva desvendar o dito e o não dito para se compreender exatamente o que é dito e o que é oculto nos templos e palcos da retórica do direito. Cada vez mais convencidos da importância e, sobretudo, da contemporaneidade da teoria da praxis: \u201cOs filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transformá-lo\u201d.\ufffd 
 
 
 
\ufffd Dr. Prof. Titular Direito Civil da Universidade Católica de Pernambuco -UNICAP
\ufffd Cf. ROCHA, Renato Amaral Braga. Teoria Geral do direito civil. Brasília/DF: Wpós, 2010, p.7. 
\ufffd Distribuição aceita, didaticamente, pela quase totalidade dos autores. Para alguns, em posição especial, a discrepar dessa classificação o direito do trabalho e o aeronáutico, Cf. PEREIRA, Caio Mario. Instituições de direito civil. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 7. 
\ufffd Ob.cit. p.15.
\ufffd Id.Ib.
\ufffd Mazzilli, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo: meio ambiente, consumidor e outros interesses difusos e coletivos. São Paulo: Saraiva, 1996, p.3
\ufffd Id.ib.
\ufffd Cabo temido pelos navegadores e rodeado de histórias fantasiosas e fantásticas em virtude do elevado número de naufrágios ocorrido no local no auge do expansionismo marítimo, século XVI.
\ufffd PEREIRA, Ob.cit. p.23.
\ufffd Id.Ib.
\ufffd PERLINGIERI, Pietro. Perfis de direito civil: introdução ao direito civil constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p.11.
\ufffd LOBO, Paulo Luiz Neto. Constitucionalização do direito civil. Belo Horizonte:Del Rey, 2004, p. 216.
\ufffd TEPEDINO, Gustavo. Normas constitucionais e relação de direito civil in Temas de Direito Civil. Rio de Janeiro, 2006.
\ufffd LEITE, Glauber Salomão. O novo direito civil, oriunda da constitucionalização do direito privado in Constituição e efetividade constitucional. Salvador/BA: Editora JusPodivm,2008,p.92-96.
\ufffd Considerando que o relator do novo CC foi o deputado Ricardo Fiúza, político pernambucano ligado à tradição conservadora e de direita: ARENA e PFL. Ricardo