NOTAS SOBRE A INCAPACIDADE CIVIL DOS EXCEPCIONAIS E DOS PRÓDIGOS
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NOTAS SOBRE A INCAPACIDADE CIVIL DOS EXCEPCIONAIS E DOS PRÓDIGOS


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instituto há muito tem suscitado debates acalorados sobre a sua permanência. O cerne da questão está em saber até que ponto é justo restringir alguém de dispor livremente do próprio patrimônio em nome da salvaguarda desse mesmo patrimônio? Não será a dosagem do remédio demasiada forte de modo a mutilar o doente? As opiniões doutrinais sobre esse assunto se dividem. 
Quando da elaboração do Código Civil de 1916, esse debate emergiu com força, sendo notável a tendência na supressão inclusive pelo grande mentor da codificação e revisor Clóvis Beviláqua, para quem a prodigalidade \u201cou era caso manifesto de alienação mental, e não há necessidade de destacá-la para constituir uma classe distinta de incapacidade, pois entra na regra comum; ou tal não é positivamente, e não há justo motivo para feri-la com a interdição". O revisor foi vencido, e o Código de 1916 prescreve a figura da prodigalidade numa situação de incapacidade intermediária, nem absolutamente incapaz, nem totalmente capaz, art. 6º. O legislador da lei civil vigente, 10.406/2002, com tempo suficiente para amplos debates \u2013 o projeto do código foi apresentado ao Congresso no ano de 1975 \u2013 conservou o instituto no rol dos relativamente incapazes, art. 4º, IV. 
Contudo, a prodigalidade não é tema pacífico, nem a mera previsão legal supera certas dificuldades e imprecisões à sua caracterização, nem muito menos um debate superficial sobre o tema complexo. De fato, apenas lecionar que o pródigo é a pessoa perdulária, aquele que dissipa de maneira imoderada o patrimônio, vulgata de gastador contumaz, decerto não elucida as controvérsias ensejadas nos campos da ética, da moral, do direito, da medicina e, enfim, trazida pela vida individual e social da pessoa humana. Resulta que a interdição de uma pessoa na esteira da prodigalidade envolve princípios e valores meta patrimoniais, alcançando esferas não menos caras ao ordenamento jurídico, como a dignidade da pessoa, como a liberdade de agir e reagir em nome próprio, enfim, de dispor daquilo que lhe pertence e assim por diante. Como regra, o ser humano tem capacidade de direito, goza de direitos e deveres na ordem civil, sem exceção. O ordenamento jurídico impõe restrições ao exercício de direitos pelos incapazes e o faz com sentido de proteção dos interesses materiais e morais dos incapazes. Tanto para os excepcionais quanto para os pródigos - esses últimos se equivalem ao mentecapto, ao idiota, relativamente aos bens \u2013, promove-se a curatela a evitar prejuízos, já que a capacidade plena e livre de ação na esfera civil colocaria em risco a integridade de seus direitos e das suas próprias pessoas. Não pairam dúvidas quanto à justeza e a necessidade de interdição de incapazes, institutos jurídicos existentes desde o direito romano clássico. No que diz respeito ao pródigo, a problemática reside em se tratar de pessoa mentalmente capaz de exercer todos os atos civis, salvo os relativos ao próprio patrimônio, e se encontrar o pretendido equilíbrio entre os princípios e os bens jurídicos em colisão: liberdade, dignidade, salvaguarda patrimonial. A prodigalidade não se presume, há de ser demonstrada através de perícia e declarada pelo juiz em sentença. Sujeito à curatela, art. 1767, V, a pessoa do pródigo não mais tem liberdade para ela mesma decidir a destinação dos seus bens, medida que visa evitar a dissipação inelutável do seu patrimônio. Mas a perícia médico-legal que serve de suporte à sentença deve mencionar a presença do \u201canimus\u201d temerário, não cabendo interditar uma pessoa capaz como pródiga em face da idade avançada por si só, da baixa escolaridade, analfabetismo, se ela possui o sem senso comum das pessoas. A prodigalidade exige comprovação judicial, firma-se no exame da pessoa e na apreciação de fatos da sua vida, nunca é presumida. Leva-se em conta a contumácia, a habitualidade dos gastos, observando-se princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Obviamente, gastos proporcionais e que não excedem o razoável não caracterizam a prodigalidade. A prodigalidade decorre de atos de disposição excessivos, de doações desproporcionais, de vendas por preço vil, quando reiterados, e importam mais que eventual negócio prejudicial, que representem, efetivamente, a incapacidade do agente dispor livremente de próprios bens. Nesse caso, a evitar a ruína, a perda ou comprometimento do patrimônio da pessoa, a lei prevê a interdição e a consequente nomeação do curador.
Em resumo, sobre a capacidade civil do pródigo e a sua interdição, a lei 10.406/2002, que institui o Código Civil dispõe: 
Pródigos são considerados pessoas relativamente incapazes, dicção do art. 4º, IV;
Pródigos estão sujeitos à curatela, regra do art. 1.767, V;
A interdição do pródigo pode ser promovida pelos pais, tutores, cônjuge, qualquer parente e Ministério Público, pela regência do art. 1.768, I, II e III. 
Quanto ao exercício da curatela do pródigo, a que se aplicam as regras a respeito da tutela (art.1.781), dispõe o Código Civil no art. 1.782: A interdição do pródigo só o privará de, sem o curador, emprestar, transigir, dar quitação, alienar, hipotecar, demandar ou ser demandado, e praticar, em geral, os atos que não sejam de mera administração. O curador se obriga a prestar contas dos seus atos em nome do curatelado, exceto quando é cônjuge sob regime de comunhão universal e não há determinação judicial em contrário, pela regra do art. 1.183 do Código Civil.