Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO
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Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO


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legitima os credores prejudicados à ação anulatória da garantia.
Em sentido contrário, há a presunção da boa-fé do devedor insolvente nos negócios onerosos, porém indispensáveis a conservar e manter estabelecimento comercial, rural ou industrial, ou a sustentar a sua família. Consideram-se dívidas necessárias somente as que evitam a paralisação da atividade do estabelecimento, o que, decerto, torna a situação do devedor insolvente mais difícil para retornar ao seu estado de solvência. A solvência do devedor é o esperado pela ordem jurídica e pelos fins sociais a que a lei se destina. Não se pode negar ao insolvente a possibilidade de sua recuperação econômica, nem tampouco, a subsistência junta da sua família, um dever de todos. Na inteligência do artigo 164: 
\u201cPresumem-se, porém, de boa-fé e valem os negócios ordinários indispensáveis à manutenção de estabelecimento mercantil, rural, ou industrial, ou a subsistência do devedor e de sua família.\u201d
Novas dívidas podem ser assumidas pelo devedor insolvente, as dívidas necessárias especificadas nesse artigo, que não legitimam os credores à promoção de ação pauliana.
 
Na dicção do artigo 165: 
\u201cAnulados os negócios fraudulentos, a vantagem resultante reverterá em proveito do acervo sobre que se tenha de efetuar o concurso de credores. Parágrafo único. Se esses negócios tinham por único objeto atribuir direitos preferenciais, mediante hipoteca, penhor ou anticrese, sua invalidade importará somente na anulação da preferência ajustada.\u201d
 Ora, a ação pauliana visa à anulação dos negócios fraudulentos de direitos de credores quirografários a fim de devolver o patrimônio ou a garantia real \u2013 hipoteca, penhor ou anticrese - ao acervo de credores. O concurso de credores obre-se com todos credores habilitados. Se o negócio tinha por fim favorecer determinado credor ou estabelecer preferência através de garantia dada indevidamente, a revogação deste negócio só alcança o que excede o direito. Só vicia aquilo que lesa o direito dos outros credores. Retirado o privilégio descabido do credor \u201cpreferido\u201d pelo devedor que não fez por onde, não cabe impedi-lo da habilitação em igualdade de condição com os demais credores no concurso. 
 
	INVALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO NO CÓDIGO CIVIL
No direito civil positivo, os defeitos dos negócios tornam os atos nulos ou anuláveis, não havendo qualquer menção aos chamados atos inexistentes, tão reclamados pela doutrina. Negócio nulo ou de nulidade absoluta é inquinado de vício insanável por ofensa a preceito de ordem pública e, por esta razão, a lei impõe sanção mais severa impedindo que o negócio produza qualquer efeito jurídico. No negócio jurídico nulo, afrontam-se elementos essenciais do ato negocial, objetivam-se fins ilícitos, pretere-se forma exigida pela lei ou a própria lei taxativamente declara nulo:
 
\u201cArt. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
I \u2013 celebrado por pessoa absolutamente incapaz;
II \u2013 for ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto;
III \u2013 o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito;
IV - não revestir a forma prescrita em lei;
V- for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade;
VI \u2013 tiver pôr objetivo fraudar lei imperativa;
VII - a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção.\u201d
Declarada a nulidade, essa decisão torna sem efeito o negócio jurídico como se jamais tivesse existido porquanto produz efeito ex tunc. Matéria sumulada no STF, súmula n.º 346.
Simulação
Inova o Código de 2002 com o tratamento dispensado à simulação. O Código anterior, coerentemente, situava a simulação entre os defeitos susceptíveis de anulação do ato jurídico. Mas o novel Digesto desloca a simulação para o âmbito da nulidade. E erra. Não observa a boa técnica nem a lógica. O negócio jurídico é nulo quando não se aproveita, mas, contraditoriamente, o novo Código declara nulo o negócio simulado nada obstante admitir a sua subsistência se for válido na substância e na forma. A disposição legal prima pela incoerência e contradição, não apenas em relação à teoria da ineficácia como em relação ao próprio artigo 167. Na sistemática adotada pelo próprio Código, o negócio jurídico será válido ou inválido; sendo inválido, poderá ser nulo ou anulável. 
Na simulação, existe uma declaração falsa da vontade porquanto o agente oculta a verdadeira finalidade do negócio desejado e declara, intencionalmente, outro, lesando terceiros. A vontade emitida não corresponde à vontade almejada pelo agente que visa, com isso, lograr terceiros. Consequentemente, no negócio simulado, o efeito jurídico produzido realmente pelo ato não condiz com a declaração de vontade e, por isto, o ato é passível de anulação. Considera-se simulação absoluta ou relativa conforme a realização, ou não, de algum negócio. Exemplo: Teresa, em vias do divórcio, emite títulos de crédito para pagamentos de negócios inexistentes. O intento é dividir um patrimônio desfalcado com o ex-cônjuge. No caso, as falsas emissões de títulos não passam de simulacros, negócio algum foi realizado pela emitente. Já no caso da simulação relativa, as partes chegam a realizar o negócio, mas com declaração de vontade distinta do negócio de fato desejado. Daniel assina recibo de venda com valor a menor do que o preço efetivamente pago pelo comprador. O negócio jurídico da compra e venda se realizou, mas não nas bases declaradas pelos agentes. 
A doutrina aborda outros aspectos na classificação de negócio simulado, como a que ressalta o efeito do negócio simulado. Neste sentido, identificam uma simulação maliciosa e outra inocente, conforme o simulacro prejudique, ou não, a terceiros. No caso da simulação inocente, a declaração de vontade não prejudica terceiros e não contraria preceito legal; logo, não viciará o negócio. Exemplo: Lourival, solteiro, faz doação de bem à concubina, mas dissimulando o negócio como se fosse uma venda. Se essa doação não traz prejuízos a direito de terceiros nem viola disposição legal, será válido. Diferente da simulação maliciosa, que importa prejuízo a terceiros. Exemplo: Bisneto, casado, faz doação de bem à concubina simulando uma compra e venda. Neste caso, a doação viola direito do cônjuge. Nada obstante a clara distinção entre os dois negócios simulados, a terminologia \u201csimulação inocente\u201d não é pacífica. 
Na nova disciplina do Código, a simulação recebe a regência do art. 167: 
\u201cÉ nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for, na substância e na forma. § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II - contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III - os documentos particulares forem antedatados ou pós-datados; § 2º Ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado.\u201d 
Como se pode observar, a simulação pode incidir sob aparência de transmissão de direito à pessoa diversa da pretendida, nas declarações ou cláusulas não verdadeiras e também em relação a datas de documentos particulares. 
No âmbito da doutrina, ordinariamente, pelo menos até o advento deste Código, classificava-se a simulação em absoluta ou relativa, mas ambas como defeitos passíveis de anulação. Diante da nova disciplina legal, terão que refazer seus conceitos ou fustigar a nova disciplina legal. Neste caso, entendendo que o legislador obrou mal, ressaltamos a incongruência normativa em face da teoria das nulidades, mas com a advertência de que a nova disciplina legal declara o negócio jurídico simulado nulo. 
Neste sentido, situado no Código Civil, o negócio jurídico simulado no rol das nulidades, sanção mais grave que, em geral, diz respeito a interesses públicos, a nulidade pode ser alegada não apenas pelo interessado, como também pelo Ministério Público. Segue