Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO
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Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO


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determina a mesma aplicação, no que couber, das disposições referentes aos negócios jurídicos exaustivamente reguladas ao longo do livro III para os atos jurídicos deste solitário artigo. 
ATOS ILÍCITOS 
 O conceito de ilicitude é um dos mais gerais e abrangentes, pois os seus fundamentos alcançam todos os campos do direito positivo, o privado e o público. Ato ilícito é todo aquele praticado contra o direito. Neste mesmo sentido, o Código Civil declara no art. 186: 
\u201cAquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito\u201d.
 De acordo com a regência legal, comete ato ilícito quem viola direito ou causa dano a outro, ainda que exclusivamente moral. Curiosamente o dispositivo em exame diz do cometimento do ilícito, mas silencia sobre a consequência jurídica lógica representada pelo dever de reparar os prejuízos materiais e morais causados pelo dano. O resultado jurídico consistente no dever de reparar os danos causados pelo ato ilícito independe da vontade do agente causador da violação de direitos, exatamente porque advém da própria lei.
 Desta forma, o artigo 186 expressamente aduz aquele que pratica e no que consiste o ato ilícito, na ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito ou causar dano a outrem, mas, estranhamente, silencia sobre a consequência do dever de reparação ou indenizar a vítima. Curioso que o art. 159 do Código de 1916, correspondente ao 186 do Código vigente, utiliza a expressão in fine, \u201cfica obrigado a reparar o dano.\u201d Ora, dizer quando alguém cometeu ilícito não é o mesmo que dizer que aquele que comete o ilícito fica obrigado a reparar o dano.
	Nas notas do art.43, explica-se a diferença entre a responsabilidade civil objetiva de entes públicos e a subjetiva de pessoas particulares. Quem quer que cause dano a outrem, não importa se a pessoa pública ou privada, obriga-se a reparação do dano. Tomem-se alguns exemplos: o avião da Força Aérea Brasileira cai sobre casas ou em uma plantação, causando prejuízos. A Fazenda pública tem o dever objetivo de indenizar os particulares pelos prejuízos sofridos e de apurar a responsabilidade subjetiva do piloto, inclusive promover a ação regressiva contra o mesmo se comprovada a sua culpa pelo acidente; Mariana, ao dirigir um veículo, colide com outro carro que transitava em velocidade acima da permitida em pista de contramão. No caso, o dever ou responsabilidade civil pelo dano é subjetivo, pois o dever de ressarcir os prejuízos sofridos por Mariana, sejam danos materiais ou morais, funda-se na teoria da culpa daquele que provocou o dano ou violou direito. Esse dever de reparação civil decorre da própria ordem jurídica, independe da vontade do agente causador da ilicitude, o qual, em tese, poderia mesmo não querer pagar os prejuízos causados. Dirigir o veículo em velocidade não permitida e na contramão, sendo ação voluntária e imprudente do agente, obriga-o a cobrir os prejuízos suportados pela vítima. Numa omissão voluntária, o agente comete o ilícito porque deixou de agir em circunstância onde estava obrigado a agir. Exemplo: a árvore do quintal de Tinôco desabou por falta de cuidados na casa vizinha, causando grandes estragos. O ilícito civil decorre da omissão de deixar de fazer algo que estava obrigado a fazer: cuidar da árvore ou cortá-la, se fosse o caso. A retórica de defensor do meio ambiente não escusa o proprietário descuidado da obrigação de indenizar o vizinho por todos os prejuízos causados pela árvore derrubada do seu quintal.
 
	O direito civil admite a culpa em seu sentido amplo. Logo, a culpa civil inclui o dolo e a culpa em sentido estrito. Ocorre dolo na ação ou omissão ilícita intencional, na vontade do agente de violar o direito e provocar o dano. Na culpa em sentido estrito, se o ilícito não resultar de dolo, mas de culpa pela negligência ou imprudência que acarretou o dano. Com efeito, o ato ilícito decorre de comportamento culposo no sentido lato, dolo ou culpa estrita, sendo impossível ato ilícito sem a presença da culpa ampla ou do dolo e da culpa estrita. 
 
 A afronta ao dever jurídico pode decorrer de violação de contrato ou da norma jurídica, a primeira chamada contratual; a última, extracontratual ou aquiliana.
 
 Costuma-se classificar diferentes espécies de culpa: in faciendo, quando decorrente de ação ou comissão; culpa in omittendo, advinda da omissão; culpa in eligendo, decorrente da má escolha de prepostos, empregados; culpa in vigilando, de falha na fiscalização de pessoas sob sua guarda ou vigilância e culpa in custodiendo, da falta de cuidado com pessoas, coisas ou animais.
 
 Outro elemento necessário à responsabilidade civil é o nexo de causalidade consistente da correlação entre a ação, ou da omissão com o resultado danoso. O dano é o efeito ou resultado da ação, ou da omissão, mas sem a constatação do nexo causal, não se pode determinar se determinado agente foi o responsável pelo prejuízo. 
 
 O dano consiste na violação de direito ou na redução do patrimônio de alguém. Dito prejuízo patrimonial pode ser identificável quanto aos bens materiais e quanto aos bens morais, pois ambos são tutelados pela lei.
 
 A reparação civil dos danos morais prevista no Código ajusta-se à Constituição de 1988: \u201cArt. 5º, V - \u201cé assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem\u201d e \u201cArt. 5º, X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito de indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação\u201d.	
	Mas sobre a ilicitude, porém, também é preciso anotar que pode decorrer de abuso de direito ou excesso no exercício dos direitos, no caso do titular do direito extrapolar os limites legais ou morais e, com esse comportamento, causar prejuízo a outrem. Não se considera excesso de direito a advertência normal do devedor da intenção de executar o contrato, o título de crédito, etc. Mas a forma da advertência e as circunstâncias, se forem excessivas, podem representar dano patrimonial ou moral ao devedor. Carmencita tem débito financeiro com Júnior, que, a fim de receber, logo utiliza de meios ilícitos na cobrança, faz ameaças graves, utiliza publicidade constrangedora, etc. Ora, a lei protege o credor, mas este deve agir de acordo com a lei, seguindo os seus ditames, utilizando os meios idôneos de cobrança, pela via ordinária de cobrança ou pela execução do título. A ordem jurídica não ampara o abuso de direito, nem tampouco, o exercício do direito além do seu limite. Assim, as atitudes excessivas que atentem contra a lei fustigam os bons costumes e a boa-fé. Neste sentido, a dicção do art. 187:
\u201cTambém comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.\u201d 
		Exclusão da ilicitude
 
	Os casos de exclusão da ilicitude estão regulados no art. 188: 
\u201cNão constituem atos ilícitos: I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido; II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão à pessoa, a fim de remover perigo iminente. Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo.\u201d
	Casos taxativos de exclusão do ilícito, consequentemente, do dever de reparar o dano: a legítima defesa, o exercício regular de direito e o estado de necessidade. Segue que nem toda infração de direito constitui ato ilícito. Exemplos: se Dionary provoca danos na loja de Geraldo a fim de defender-se de acidente, age em legítima defesa. Se