Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO
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Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO


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a voluntariedade da parte e a subordinação do efeito jurídico à eventualidade futura e incerta. Assim, a cláusula condicional decorre, exclusivamente, da vontade das partes. Logo, não se trata de imposição de ordem legal. O evento ou acontecimento deve ser futuro, pertencente ao devir; e a incerteza, algo cuja ocorrência futura não é certa ou inexorável, portanto, que poderá, ou não, ocorrer. 
O Código Civil prescreve normas sobre condições suspensivas e resolutivas.
Na condição suspensiva, os efeitos do exercício do negócio jurídico ficam suspensos até a realização da condição estipulada pelas partes. Assim, a partes postergam a eficácia do negócio até a realização do evento futuro e incerto. Uma vez realizado o evento futuro, tem-se por satisfeita a condição, os efeitos serão retroativos à data de sua celebração - ex-tunc. O negócio aperfeiçoado e completo pela satisfação da condição produz efeitos do momento inicial da manifestação de vontade das partes. Por exemplo, se José Sarmento compromete-se na promessa de venda celebrada com Rogério Porto a vender a sua Ferrari, porém, com a cláusula condicional ou subordinativa do negócio a que a fábrica produza um novo modelo com motor mais potente, o negócio jurídico da compra e venda fica suspenso até que a fábrica italiana produza, ou não, o modelo com maior potência. A eventualidade é futura (se houvesse modelos mais potentes já fabricados, não seria condição pela ausência do futurismo) e incerta, pois a fábrica Ferrari poderá, ou não, produzir modelos com motores mais potentes que os do veículo de José. Se ocorrer o evento da condição, levanta-se a cláusula suspensiva e realiza-se plenamente o negócio jurídico da venda. Do contrário, sem a ocorrência da condição, a eficácia do negócio permanece suspensa até o dia em que a condição se realize. 
Porém, os efeitos jurídicos do negócio sob condição resolutiva são produzidos desde logo, portanto, desde logo eficaz. Todavia, a ineficácia do negócio fica dependente de evento futuro e incerto: o negócio jurídico é eficaz e resolve-se com o advento da condição que determina a ineficácia. Se José Sarmento avença com o Pastor Elias, através de contrato de comodato, a utilização pelo ministro religioso do imóvel pertencente ao primeiro, sem ônus e graciosamente até que a Igreja Tal adquira um outro imóvel, desde logo o Pastor Elias, o comodatário, instalar-se-á no imóvel de José a usufruir dos efeitos jurídicos decorrente do comodato, os quais cessarão no dia da ocorrência do evento futuro e incerto \u2013 a compra do outro imóvel - se algum dia, isso ocorrer.
O Código civil regula a licitude das condições por exclusão, são lícitas quando não são ilícitas ou impossíveis. Diz o art. 122: 
 \u201cSão lícitas todas as condições se não são contrárias à lei, à ordem pública ou aos bons costumes; entre as condições defesas se incluem as que privarem de todo efeito o negócio jurídico, ou o sujeitarem ao puro arbítrio de uma das partes.\u201d 
 Segue que condição ilícita é a cláusula estipulada em afronta à lei, à ordem pública e aos bons costumes. Condições defesas cláusulas impeditivas do efeito do negócio, a exemplo da venda do Bar com cláusula de ele não vender bebidas alcoólicas. Idem quanto às estipulações unilaterais as quais a doutrina denomina de condição potestativa, por exemplo, a cláusula que autoriza de forma unilateral o locador rescindir o contrato de locação quando ele entender oportuno (quando ele quiser, quando ele decidir, quando ele puder, etc).
 
No que diz respeito às condições que invalidam o negócio jurídico, o Código prescreve no artigo 123: 
\u201cInvalidam os negócios jurídicos que lhes são subordinados: I - as condições físicas ou juridicamente impossíveis, quando suspensivas; II - as condições ilícitas, ou de fazer coisa ilícita. III - as condições incompreensíveis ou contraditórias.\u201d 
A primeira questão a ser examinada trata da impossibilidade física ou jurídica de realizar a condição que subordina a eficácia do ato. A condição fisicamente impossível atenta contra a ordem de natureza física e, por este motivo, não poderá ser realizada. Exemplo: venderei o terreno a você quando o mar secar, o Sol brilhar à noite, a galinha criar dentes, o bode der leite e assim por diante. Condição juridicamente impossível é condição ilegal, atentatória à ordem jurídica e invalida o ato uma vez que o direito não pode amparar ilegalidade. Exemplo: venderei a propriedade fundiária quando estiveres rico sem justa causa ou à custa de outrem. Mas tanto as condições físicas quanto as juridicamente impossíveis só invalidam os efeitos do ato se tratando de condição suspensiva pela razão de que a condição resolutiva produz, desde o início, a eficácia jurídica do ato, tornando-se ineficaz quando da ocorrência do evento futuro e incerto. 
Reputam-se condições ilícitas aqueles que atentem contra a lei, a ordem social, os costumes. Exemplo: o colar de pérola será seu quando te tornares minha amante ou abdicares da fidelidade conjugal ou fizeres trottoir na Praça da Independência ou quando mudares de sexo, etc. Assim, ante a ilicitude de tais condições, os atos negociais subordinados à realização de tais eventos, à míngua de idoneidade, são inválidos. Finalmente, o art. 123 trata das condições incompreensíveis e contraditórias. A cláusula condicional deve ser clara a fim de que a parte possa compreender o que tem de realizar a fim de efetivar o negócio. Deve, também, guardar coerência entre o elemento acidental e os elementos essenciais do ato a fim de não tornar o negócio inócuo, desprovido de sentido. Exemplo: alugarei o imóvel residencial, mas você não poderá ali estabelecer a sua residência ou de terceiros, pois o local é minha residência. 
Na condição resolutiva, a aquisição do direito dá-se no próprio ato negocial desde logo. É condição resolutiva porque a cláusula condicional resolve, e resolver é fazer cessar o efeito jurídico dado inicialmente ao ato. Se a condição estipulada no negócio for impossível de ser realizada, ou impossível de não se realizar, é tida como cláusula inexistente. Sendo inexistente, a condição, os efeitos jurídicos desde então produzidos e os direitos provisórios até a resolução perdem este caráter de provisório; o negócio jurídico subsiste como se não existisse cláusula condicional. É a inteligência do Art. 124: 
\u201cTem-se por inexistentes as condições impossíveis, quando resolutivas, as de não fazer coisa impossível.\u201d
Na regência do art. 125,
\u201cSubordinando-se a eficácia do negócio jurídico à condição suspensiva, enquanto esta se não verificar, não se terá adquirido o direito, a que ele vise.\u201d 
Assim, a aquisição do direito visado no negócio jurídico fica suspensa, o agente somente adquire esse direito pretendido com a realização do evento futuro e incerto. Até então, tem uma expectativa de direito. Exemplo: Luiz compromete-se com Pedro a doar-lhe um automóvel quando ele colar grau no curso de Direito. Enquanto Pedro não concluir o curso de Direito e colar grau, não adquire os direitos da propriedade do automóvel, tendo, todavia, expectativa destes direitos. 
	Sobre a introdução de novas condições no negócio jurídico sob condição suspensiva, a lei admite novas disposições se a condição anterior ainda é pendente, não foi satisfeita. Essas novas disposições condicionais não terão valor jurídico no caso da condição anterior ter sido realizada, mesmo que a nova cláusula seja incompatível com a anterior. É a dicção do artigo 126: 
\u201cSe alguém dispuser de uma coisa sob condição suspensiva, e, pendente esta, fizer quanto àquelas novas disposições, estas não terão valor, realizada a condição, se com elas forem incompatíveis.\u201d 
	A respeito do efeito jurídico do negócio sob condição resolutiva, dispõe o art. 127: 
\u201cSe for resolutiva a condição, enquanto esta não se realizar, vigorará o negócio jurídico, podendo exercer-se desde a conclusão deste o direito por ele estabelecido.\u201d
 Salientamos, anteriormente, que