Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO
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Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO


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deste produto no país pela Agência Nacional de Saúde. Quando as circunstâncias do negócio permitem, argumenta-se o erro de direito, não havia da parte do empresário da farmácia a intenção de violar a lei. Sobre o erro de direito Caio Mário (2004: 525) comenta: \u201cNo estado atual da ciência jurídica, ganhou terreno aceitação do erro de direito, como causa de anulação do negócio jurídico\u201d. Mas ocorre no caso de a declaração ser determinante do negócio, de o agente não realizar o ato se conhecesse a norma que vicia o ato, pois a indicação de recusa de cumprir a norma afasta a escusa do erro de direito.
Por outro lado, não tem relevância o fato de o agente cometer o erro quanto aos motivos do negócio se a falsa compreensão não era a razão determinante do negócio jurídico. Juliana doa a sua bicicleta à Manoela porque tinha em vista uma viagem de estudo que faria à Espanha. Mas essa viagem, no final das contas, não aconteceu. Mesmo arrependida da doação, Juliana não tem respaldo na lei para desfazer o negócio jurídico gratuito da qual é doadora.
Diferente quando o contrato do negócio determina, expressamente, que a razão que determina a doação da bicicleta é a viagem. Neste caso, a viagem é o motivo determinante ou razão de ser da doação, expresso na declaração de vontade. Como esta razão não se realizou, a lei prevê a anulação do negócio, é a dicção do artigo 140: 
\u201cO falso motivo só vicia a declaração de vontade quando expresso como razão determinante.\u201d 
 
 Irrelevante quanto aos efeitos se a erronia da declaração de vontade decorre de meios diretos ou indiretos. Releva a vontade do agente no negócio se há correspondência entre a intenção e a vontade declarada, não importa os meios pelos quais a vontade se expressa. Diretamente pela própria pessoa ou por meios indiretos, eletrônico, telefônico, radiofônico, telegráfico, ex-vi do art. 141: 
\u201cA transmissão errônea de vontade por meios interpostos é anulável nos mesmos casos em que o é a declaração direta.\u201d
 O erro acidental não impede a efetivação do negócio, ou seja, os erros que dizem respeito às qualidades secundárias da pessoa ou do objeto do negócio. Somente vicia a declaração de vontade o falso motivo quando ele é determinante à manifestação errônea da vontade, art. 142: 
\u201cO erro de indicação da pessoa ou da coisa, a que se referir à declaração de vontade, não viciará o negócio quando, por seu contexto e pelas circunstâncias, se puder identificar a coisa ou pessoa cogitada.\u201d 
Assim, se alguém faz uma doação a título de incentivo para o artista Lucas Sarmento por haver esculpido uma estátua, mas se enganou em relação à pessoa, já que o escultor foi Matheus Sarmento, uma vez identificado autor da obra, o erro quanto à pessoa indicada anteriormente não diz respeito à qualidade essencial do negócio, não impedirá a doação ao autor da obra. Desta forma, a vontade manifestada pelo doador em beneficiar o artista com a doação se realiza corretamente, desfeito o erro. 
O critério empregado pela lei para o aproveitamento do negócio jurídico a fim de determinar o erro acidental de cálculo é bastante prático. Considera-se acidental o cálculo inexato passível de retificação. Se o erro se verificou na diferença de cálculo e o agente autoriza a retificação da declaração de vontade a fim de validar o negócio, art. 143: 
\u201cO erro de cálculo apenas autoriza a retificação da declaração de vontade.\u201d
A declaração de vontade, que expressa a subjetividade do agente, não deve ser prejudicada se o elemento objetivo do negócio jurídico for atendido de modo a atender a vontade do agente, embora diversa. Não prejudica a validade do ato se o erro na declaração não alterar a vontade da parte em realizar o negócio. Diz o art. 144: 
\u201cO erro não prejudica a validade do negócio quando a pessoa, a quem a manifestação de vontade se dirige, se oferecer para executá-la na conformidade real da vontade do manifestante\u201d. 
Se Mariana Sarmento imagina fazer negócio com uma televisão Toshiba de 42, mas, na hora da entrega, apresenta uma TV Sansung 22 e ela aceita uma pela outra por entender que os modelos e marcas são equivalentes e que não lhe trazem prejuízo, o negócio será válido, mesmo que, no caso, o erro diga respeito a elemento não acessório do negócio jurídico. 
Dolo
O Código Civil não define o dolo civil, mas o dolo encontra-se no rol dos defeitos dos negócios jurídicos passíveis de anulação dos negócios jurídicos e dos atos. Art. 145: 
\u201cSão os negócios jurídicos anuláveis por dolo, quando este for a sua causa.\u201d
O dolo consiste do uso de artifício com intenção de levar alguém à prática de ato prejudicial em virtude do desvio da noção correta provocado pelo ardil empregado. 
A diferença entre o dolo e o erro consiste em que, neste, a errônea da declaração de vontade decorre da falsa noção interna, de equívoco provindo do próprio agente. No dolo, não, uma ação maliciosa de terceiro induziu o agente a praticar negócio jurídico o qual ele não praticaria se os fatos não tivessem sido deturpados pela ação dolosa.
O dolo pode ser essencial ou acidental. Apenas o dolo essencial enseja a anulação dos negócios jurídicos. O dolo acidental obriga a reparação de perdas e danos. Para caracterizar se o dolo é principal ou acidental, observa-se critério prático. Se, apesar do emprego de artifícios e ardis, a vítima do ludíbrio realizasse o negócio de outro modo, este é acidental; se, porém, não realizasse de modo algum, o dolo é essencial. É o teor do art. 146:
 \u201cO dolo acidental só obriga a satisfação das perdas e danos, e é acidental quando, a seu despeito, o negócio seria realizado, embora de outro modo\u201d. 
No dolo acidental, o agente admite efetivar o negócio noutras condições, deduzindo-se do negócio aquilo que representa prejuízo para si. Eis porque não ser caso de anulação do negócio, porém, de reparação civil das perdas e dos danos em favor da parte prejudicada e desfavor da parte que empregou artifícios a fim obter vantagens indevidas. 
Em negócios comerciais, tornaram-se banalidades os excessos publicitários sobre a qualidade dos produtos oferecidos. Consumidores, não raramente, cometem erro levados pela chamada propaganda enganosa. A expressão dolus bonus é empregada pela doutrina ao dolo acidental, quando o consumidor, embora enganado, não desiste do produto apresentado. Se o produto não corresponde ao anúncio publicitário, pode o consumidor reclamar das perdas e danos decorrentes da qualidade do produto adquirido, a menos que o contido no anúncio que o levou a adquirir aquele produto seja fiel.
Nos negócios jurídicos bilaterais, o dolo pode decorrer de uma ação ou de uma omissão ardilosa do agente, inclusive, do silêncio de uma das partes. O relevante, juridicamente, para anular o negócio, é identificar se o dolo é essencial, e não se o agente agiu ou deixou de agir dolosamente. O silêncio doloso decorre da intenção do agente de celebrar o negócio omitindo uma declaração a respeito do fato ou da qualidade do objeto do negócio que, se ele declarasse, a outra parte não realizaria o negócio. 
É a regra do artigo 147: 
\u201cNos negócios jurídicos bilaterais, o silêncio intencional de uma das partes a respeito de fato ou qualidade que a outra parte haja ignorado, constitui omissão dolosa, provando-se que sem ela o negócio não se teria celebrado.\u201d
 
Também pode ser anulado negócio jurídico doloso praticado por terceiros. Havendo o chamado conluio, se a parte beneficiária tinha conhecimento do ardil ou devesse ter. No caso do contratante desconhecer o dolo de terceiro, não se anula o negócio. Mas se o negócio jurídico subsistir, o terceiro que agiu dolosamente deve satisfazer todas as perdas e danos da parte lograda. Na dicção do artigo 148:
 \u201cPode também ser anulado o negócio jurídico por dolo de terceiro, se a parte a quem aproveite dele tivesse ou devesse ter conhecimento; em caso contrário, ainda que subsista o negócio jurídico, o terceiro responderá por todas as perdas e danos