Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO
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Notas sobre atos e negócios jurídicos_REVISTO


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da parte a quem ludibriou.\u201d 
Nos casos de dolo praticados por representantes legais, aquelas pessoas que exercem direitos ou praticam atos e negócios jurídicos em nome de outros por expressa determinação da lei, ou de convenção das partes, a responsabilidade civil do representante distingue-se conforme o caso. Na representação legal, a obrigação do representado se estende ao até o limite do que ele aproveitou. No caso do dolo praticado pelo representante convencional, a responsabilidade civil do representado é solidária. É o que diz o art. 149:
 \u201cO dolo do representante legal de uma das partes só obriga o representado a responder civilmente até a importância do proveito que teve; se, porém, for do representante convencional, o representado responderá solidariamente com ele por perdas e danos.\u201d 
Na representação legal, a responsabilidade do representado limita-se a ressarcir até o limite da vantagem por ele aferida no negócio, enquanto na representação convencional, o representado responde, ademais, pelas perdas e danos.
Nos chamados dolos recíprocos, assim entendidos quando ambos os contraentes agem dolosamente, nenhum deles pode alegar o dolo do outro a fim de anular o negócio ou requerer indenização, qual se diz popularmente \u201csujo não pode falar de mal lavado\u201d. Sendo o negócio realizado, mesmo que ambas as partes do negócio ajam dolosamente, ele será válido. Não cabe, no caso, invalidar o negócio, pois não há boa-fé a ser protegida, nem, tampouco, a reparação civil, já que as manobras maliciosas foram recíprocas e, como tal, elas se compensassem. Diz o art. 150:
 \u201cSe ambas as partes procederem com dolo, nenhuma pode alegá-lo para anular o negócio, ou reclamar indenização.\u201d
Coação
A coação como defeito de negócio jurídico consiste na ameaça ou na violência física ou moral, iminente e capaz de incutir no agente um temor fundado que o faça agir de modo diverso do qual agiria espontaneamente. O coagido pratica o ato sem o desejar. Difere do erro e do dolo, nos quais a vontade do agente é falsa ou defeituosa; na coação, a vontade simplesmente não existe.
Para viciar o ato jurídico, a coação deve causar, no agente, um fundado temor. Não se trata de temor descabido, sem fundamento. A ameaça de dano deve ser, também, iminente. Não se fala em ameaça passada ou futura. Essa ameaça pode ser à própria pessoa, aos membros da família ou aos bens. Contudo, a coação deve ser suficiente para incutir, na vítima, o temor fundamentado. A gravidade do dano deve ser proporcional ao que se pretende extorquir e presente. Descaracteriza a coação uma ameaça banal e futura, a ameaça contra a qual a vítima poderia adotar medidas de proteção. Por temor fundado, entenda-se a ameaça de morte, de tortura, de prisão, de estupro, de destruição, de escândalo e assim por diante. Também se admite a coação contra terceiros. Neste caso, cabendo às diligências judiciais para apuração da ocorrência da coação e das circunstâncias. Na regência do art. 151:
 \u201cA coação, para viciar a declaração da vontade, há de ser tal que incuta ao paciente fundado temor de dano iminente e considerável à sua pessoa, à sua família, ou aos seus bens. Parágrafo único: Se não for pessoa da família do paciente, o juiz decidirá se houve coação, com base nas circunstâncias.\u201d
Na apreciação judicial da coação, o juízo deve considerar todas as circunstâncias que possam ter influído na declaração de vontade do coagido. São relevantes a idade, o sexo, o temperamento, o estado de saúde e demais circunstâncias pessoais e sociais que contribuíram para agravar a coação pelo teor do art. 152: 
\u201cNo apreciar a coação, ter-se-ão em conta o sexo, a idade, a condição, a saúde, o temperamento do paciente e todas as demais circunstâncias que possam influir na gravidade dela.\u201d 
Não se considera coação o simples temor reverencial, nem a ameaça de exercício regular de direito. A lei não considera suficiente para anular o negócio jurídico a simples alegação de temor ou constrangimento, o dever de obediência dos filhos em relação aos pais ou o respeito dos liderados aos líderes e superiores hierárquicos, tampouco, a ameaça de recorrer às vias judiciais para assegurar direitos. Diz o artigo 153: 
\u201cNão se considera coação a ameaça de exercício normal de um direito, nem um simples temor reverencial.\u201d
 A coação pode ser exercida por terceiros desde que incuta, na vítima, o temor fundado e iminente. Deve-se sopesar o grau de participação da parte que aproveita do ato involuntário do coato. No caso do preposto ter conhecimento da coação, além da anulação do negócio em relação ao representado, o representante responde, solidariamente, com o representado coator pelas perdas e danos sofridos pelo coato. Diz o artigo 154:
 \u201cVicia o negócio jurídico a coação exercida por terceiro, se dela tivesse ou devesse ter conhecimento à parte a quem aproveite, e esta responderá solidariamente com aquele por perdas e danos\u201d.
 
Porém, se a coação foi exercida por terceiro, e a parte a quem aproveita desconhecer esse fato e não tiver conhecimento ou ciência da coação, o negócio jurídico valerá. No entanto, o agente causador da coação responderá pelas perdas e danos do coato. É o que diz o art. 155: 
\u201cSubsistirá o negócio jurídico, se a coação decorrer de terceiro, sem que a parte a quem aproveite dela tivesse conhecimento ou devesse ter conhecimento; mas o autor da coação responderá pôr todas as perdas e danos que houver causado ao coacto.\u201d
 Essa regra afigura-se complexa quanto à aplicação pelo intérprete. Deve ser entendida de forma ampla, conforme o caso e suas circunstâncias. Se o coato não emite a vontade no negócio jurídico, e se o coagido realiza o ato de maneira que, livremente e espontaneamente, não realizaria, o negócio, certamente, é anulável. Dizer que o negócio \u201csubsiste\u201d se a coação for praticada por terceiro e se a parte beneficiada desconhecia a coação, resolvida apenas mediante a dedução de perdas e danos pelo autor da coação, pode ser contraditório. Se o coato não tiver interesse na subsistência do negócio que realizou involuntariamente e sob coação, mesmo assim, esse \u201cnegócio jurídico\u201d subsiste validamente? Bastando o coator indenizar a vítima do dano e o negócio convalida-se? A intenção do legislador deveria ter sido para punir unicamente o autor da coação quando a coação for da exclusiva responsabilidade dele, sem conhecimento da parte que se beneficia do negócio. E excluir desta responsabilidade civil a parte sem envolvimento na coação. Porém, dar validade, subsistência a um negócio jurídico decorrente da coação afronta o bom senso, no meu ponto de vista. 
 Estado de perigo
O Código de 2002 regula o estado de perigo como defeito dos negócios jurídicos no artigo 156:
 \u201cConfigura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa. Parágrafo único. Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá segundo as circunstâncias.\u201d 
No estado de perigo, a pessoa, diante de necessidade premente de salvar a sua vida ou a vida de familiar, assume compromissos exorbitantes, obrigações excessivas. O risco representado no perigo de vida determina a realização do negócio jurídico desproporcional e a pessoa, premida pela necessidade, obriga-se, para escapar do perigo, aceitando acordos excessivos, exorbitantes, onerosos, em demasia. Não fossem as circunstâncias do perigo, do risco e da necessidade de salvação, a pessoa livremente não avençaria ou aceitaria as obrigações que assumiu ante a situação de periculosidade. Não está presente em negócio celebrando em tais circunstâncias a livre vontade, a boa-fé, a licitude. A ninguém é dado obter vantagens indevidas das necessidades de outrem. No exemplo: avença do náufrago que assume a obrigação de pagar uma recompensa milionária pelo socorro à pessoa que o retira do perigo; da cobrança excessiva pelo transporte