Direito Penal
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regular de direito e o estrito cumprimento de dever são excludentes 
legais, estariam abarcadas várias normas permissivas, inclusive o consentimento do ofendido, dife-
rente do que ocorre com o direito alemão, onde surgiu essa causa supralegal, tendo em vista que lá 
as supracitadas excludentes não se encontram previstas no código penal. 
 
 
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CULPABILIDADE 
 
1. CONCEPÇÕES 
 
Para que uma conduta seja punível, além da tipicidade e da antijuridicidade, é necessário que ela 
apresente um coeficiente pessoal de censurabilidade, reprovação: este juízo normativo de censura 
que se dirige ao autor do comportamento contrário ao Direito é o núcleo da noção de culpabilidade. 
 
No Estado Democrático de Direito, a culpabilidade, juntamente com o princípio da reserva legal, da 
lesividade, da intervenção mínima e da humanidade, é um dos princípios basilares do Direito Penal: 
nullum crimen, nulla poena sine culpa, pois não pode haver delito sem que seja possível exigir-se um 
comportamento conforme o dever imposto pela norma jurídica. 
 
Antigamente, a responsabilidade era objetiva \u2013 o grupo social impunha o castigo tão só pelo nexo 
causal entre a ação e o resultado lesivo a outrem, o que se traduz na responsabilidade penal objeti-
va. 
 
Posteriormente, com a concepção psicológica da culpabilidade, percebeu-se a diferença entre a 
evitabilidade e inevitabilidade do dano, associada à possibilidade de prever, a partir de uma processo 
psicológico de origem intelectual e volitivo, os resultados da conduta que poderiam ocorrer: quem tem 
condições de prever a ocorrência de um dano em relação a outrem, pode evitá-lo; se assim não o faz, 
quer intencionalmente (dolo), quer porque deixa de tomar o cuidado necessário (culpa), deve ser 
punido. A culpabilidade, portanto, é o vínculo psíquico que liga o agente ao fato, podendo assumir 
duas espécies \u2013 dolo e culpa \u2013 e tendo como pressuposto a imputabilidade. 
 
A segunda concepção nasceu da idéia de que a culpabilidade não se exaure no aspecto psicológico: 
culpado é quem erra em relação a algo que deveria fazer. Daí porque a culpabilidade, de acordo com 
a teoria normativa ou psicológico-normativa, é o juízo de censura que engloba a imputabilidade, o 
elemento psicológico (dolo e culpa), e o elemento normativo (exigibilidade do poder agir de outra for-
ma) \u2013 influência da teoria teleológica do delito (neokantismo ou teoria neoclássica do delito). 
 
Posteriormente, surgiu a teoria psicológico-normativa da culpabilidade, que, além do dolo e culpa \u2013 
elemento psicológico \u2013 continha a exigibilidade de conduta diversa e a imputabilidade como elemen-
tos normativos. 
 
Quanto à concepção normativa pura: sendo a ação humana orientada finalisticamente, o dolo e a 
culpa estão no tipo; a culpabilidade passa a ser um juízo de valor, um juízo de censura do juiz sobre a 
conduta do agente. Por esta teoria, não se pode confundir o juízo de censura ou reprovação que é a 
culpabilidade, com aquilo que se censura ou reprova, que é a conduta (valoração do objeto \u2260 objeto 
da valoração) \u2013 despojada de qualquer conteúdo psicológico, a reprovação passa a ser analisada 
apenas no seu conteúdo normativo. 
 
Destarte, o juízo de censurabilidade exige duas condições: que se realize um fato típico e antijurídico 
e que ele seja praticado por alguém com capacidade de decidir, i.e., que tenha autonomia de vontade 
para decidir conforme o direito, no caso concreto. São elementos da culpabilidade: 
 
a) imputabilidade; 
b) exigibilidade de conduta diversa; 
c) potencial consciência da ilicitude. 
 
Fala-se, hoje, também, numa teoria complexa da culpabilidade, evolução da teoria normativa pura, 
que inclui, no grau de censura, um juízo de valor acerca do elemento subjetivo do tipo: dolo direto, 
eventual ou culpa. 
 
2. ESTRUTURA 
 
Pelo conceito normativo, culpabilidade é a reprovação normativa do tipo de ilícito praticado pela pes-
soa que, tendo capacidade de entender e querer, podia, nas circunstâncias concretas do fato, conhe-
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cer a sua ilicitude e agir de outro forma. Disso se extrai que ela possui um pressuposto e dois requisi-
tos: imputabilidade, possibilidade concreta de conhecer a ilicitude da conduta e possibilidade concreta 
de agir de forma diversa. Faltando um dos elementos, a culpabilidade não se forma, existindo tipos 
permissivos exculpantes ou dirimentes, tais como a coação irresistível e a obediência hierárquica, 
bem como causas supralegais de exclusão da culpabilidade, conforme segue abaixo. 
 
3.IMPUTABILIDADE 
 
3.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS 
 
A noção de crime como fato punível implica o reconhecimento de que seu autor é uma pessoa com 
uma dimensão ética, alguém que tem condições de discernimento e autodeterminação suficientes 
para direcionar e motivar o seu comportamento segundo critérios de valor. Mas esta dimensão ética 
pressupõe normalidade biológica e psicológica, caso contrário faltará uma condição prévia para que o 
juízo normativo de censura possa incidir, não sendo possível imputar juridicamente a essa pessoa a 
prática do fato. 
 
Imputabilidade é a capacidade biopsicológica de compreender a ilicitude penal e de determinar sua 
conduta conforme esta compreensão. Apresenta-se como pressuposto da culpabilidade. 
 
Há três critérios possíveis para aferição da imputabilidade: o biológico, o psicológico e o biopsicológi-
co ou misto. O primeiro considera suficiente que haja imaturidade ou afecção mental para que se 
configure a inimputabilidade; para o segundo, inimputável seria todo aquele que apresentasse um 
déficit intelectual ou volitivo \u2013 ambos pecam pela visão unilateral do problema. 
 
O CP adotou o critério biopsicológico como regra: inimputável é aquele que, por fatores biológicos, 
demonstra incapacidade psicológica de conhecer do caráter ilícito da sua conduta, ou de determinar-
se conforme esse entendimento \u2013 a imputabilidade só estará excluída se o fator psicológico decorrer 
do biológico. É o que se deduz do art. 26, que traz um conceito negativo de imputabilidade: não sen-
do inimputável, imputável é (regra da imputabilidade). 
 
No entanto, no que tange à menoridade penal, o CP adotou o critério biológico quando, no art. 27, 
estabelece presunção de inimputabilidade por desenvolvimento mental incompleto, quais sejam, os 
menores de dezoito anos: a eles são aplicadas as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente. 
 
Os fatores biológicos ensejadores da inimputabilidade são a doença mental, o retardamento ou a 
imaturidade do desenvolvimento mental \u2013 eles geram a inimputabilidade do autor do fato típico e ilíci-
to quando determinarem a absoluta incapacidade de conhecimento da ilicitude ou a absoluta incapa-
cidade de orientação do comportamento. Sendo inimputável, ele não possui o discernimento ético de 
motivar-se conforme a norma e não pratica crime \u2013 há isenção de pena, sendo-lhe imposta uma me-
dida terapêutica de defesa social, a medida de segurança. 
 
Mas os distúrbios da saúde mental podem, embora preservando parcialmente, importar na redução (e 
não supressão) da capacidade psicológica de conhecimento ou de vontade: semi-imputabilidade ou 
imputabilidade diminuída (art. 26, parágrafo único). Ao juiz, esclarecido pela perícia, abre-se a opção 
de atenuar quantitativamente a pena ou de substituí-la por medida de segurança (sistema vicariante, 
em oposição ao duplo binário, que permitia a aplicação dos dois institutos. Pelo sistema vicariante, o 
agente só responde por uma das duas conseqüências: ou pena, ou medida de segurança). 
 
O momento da aferição é o da conduta \u2013 já que o tempo do crime é o da ação ou omissão \u2013 por meio 
de exame póstumo realizado por peritos especialmente habilitados. Esta aferição, em alguns casos,