Direito Penal
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pode ser retroativa: quando o agente deliberadamente se pôs em condição de inimputabilidade para 
cometer um crime \u2013 será considerado imputável. 
 
3.2. EMOÇÃO E PAIXÃO 
 
A emoção é um profundo abalo de estado da consciência determinada por uma mudança repentina 
do ambiente; comporta graus. O impacto inicial desencadeador da emoção (emoção-choque) confun-
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de as pautas intelectuais e volitivas; na medida em que vai se afastando do abalo, atinge-se um esta-
do de serenidade relativa (emoção-sentimento). 
 
Já a paixão é a total concentração da consciência em torno de um objeto, levando-se a um compro-
metimento da seletividade. 
 
Os estados emocionais ou passionais não excluem a imputabilidade (art. 28, I, CP), até porque a 
emoção e a paixão não são classificadas como enfermidades mentais, sendo situações freqüentes da 
vida de qualquer indivíduo equilibrado. Todavia, quando elas já se apresentam como sérias perturba-
ções crônicas da saúde mental ou manifestações sintomalógicas de outras psicopatias, podem levar 
à total ou parcial imputabilidade. Todavia, a emoção não é totalmente indiferente ao Direito Penal. 
Pode servir como causa de diminuição de pena no homicídio, quando causada por injusta provocação 
da vítima, além da a atenuante genérica do art. 65, II, c, quando provocada por ato injusto da vítima. 
 
3.3. EMBRIAGUEZ 
 
A embriaguez é a intoxicação passageira e aguda produzida pelo álcool ou por substâncias de efeitos 
análogos. O nosso Direito Penal adotou, quanto à embriaguez, um tratamento diversificado: ela pode 
ser uma contravenção (art. 62, LCP), aparece no Código de Trânsito Brasileiro (conduzir veículo em-
briagado constitui o crime do art. 306) e também vem disposta no Código Penal, podendo ter as se-
guintes conseqüências: 
 
\u2022 a embriaguez simples, voluntária ou culposa, proveniente de álcool ou substâncias análogas. Há 
incidência da actio libera in causa. Não exclui a imputabilidade, mesmo que, ao tempo da ação ou 
omissão, o agente esteja em embriaguez completa. Neste caso, se o agente, no início do processo 
causal, ao embriagar-se, agiu com dolo ou culpa (em relação ao ato de embriagar-se), responde 
pelo crime, mesmo que esteja completamente embriagado quando da prática do fato. Há muita crí-
tica a este dispositivo, que englobaria caso de responsabilidade penal objetiva.(art. 28, II); 
\u2022 a embriaguez preordenada é circunstância agravante (art. 61, II, l); 
\u2022 a embriaguez acidental, proveniente de força maior ou caso fortuito, se completa, exclui a imputabi-
lidade (art. 28, §1o) e, se incompleta, há diminuição de pena (art. 28, §2o); 
\u2022 a embriaguez patólogica, quando acarreta incapacidade intelectiva ou volitiva, exclui a imputabili-
dade (art. 26, caput), mas quando há redução dessa capacidade, acarreta a diminuição de pena 
(art. 26, parágrafo único). 
 
Para que a embriaguez seja exculpante no nosso ordenamento, ela deve conter os seguintes elemen-
tos: quantitativo (deve ser completa), causal ou etiológico (proveniente de caso fortuito ou força mai-
or), cronológico (ao tempo da ação ou omissão), e conseqüencial (inteiramente incapaz de entender o 
caráter ilícito do fato ou de determinar-se conforme esse entendimento). A doutrina entende que não 
seria preciso que a embriaguez decorresse de caso fortuito ou força maior, isto é, estando presentes 
todos os outros elementos, a imputabilidade deveria ser excluída. 
 
O fundamento da punibilidade em caso de embriaguez voluntária ou culposa, conforme a Exposição 
de Motivos, é a teoria da actio libera in causa ad libertatem relata. Acontece que se, no instante da 
imputabilidade, o sujeito quis o resultado, ou assumiu o risco de produzi-lo, ou o previu sem aceitá-lo 
ou ainda, não previu mas lhe era previsível, é possível a punição com base na supracitada teoria (o 
agente deve ser portador de dolo ou culpa quanto à embriaguez e quanto ao crime posterior); mas, se 
a hipótese era de imprevisibilidade, permitir a punição como faz o CP é consagrar a responsabilidade 
penal objetiva, vedada pela Constituição, pois a embriaguez não será ato executivo delituoso, o que é 
livre na causa não é a ação criminosa, mas somente a embriaguez. Faz-se necessária, portanto, uma 
modernização do Direito Penal quanto a esse aspecto. 
 
Por fim, a dependência física ou psíquica de substâncias psicotrópicas também pode levar à inimpu-
tabilidade, e seus efeitos penais regem-se pelo art. 19 e parágrafo único da Lei n. 6.368/76). 
 
4. CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE 
 
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O juízo de reprovação somente incide se, no caso concreto, ao agente capaz era possível saber que 
estava atuando contra o ordenamento jurídico: a vontade deve orientar-se pela consciência da ilicitu-
de do comportamento. Mas o que é a consciência da ilicitude? 
 
Não se trata de conhecimento técnico de uma norma jurídica (orientação formal) ou de um conheci-
mento diferenciado das normas culturais, da antissocialidade da conduta (orientação material), ou 
apenas os juristas, no primeiro caso, ou os sábios, no segundo, seriam passíveis do juízo de reprova-
ção. Trata-se de conhecimento leigo, vulgar, que está ao alcance de qualquer indivíduo capaz que 
tenha acesso aos meios de informação. E o ordenamento não impõe o dever de conhecer a ilicitude, 
mas o dever de se informar, somente exigindo o cumprimento desse dever quando, nas circunstân-
cias concreta do agir, verifique-se que o sujeito tem possibilidade de informar-se, com a reflexão ordi-
nária, sobre a antijuridicidade de um comportamento. 
 
 A censura deve recair tanto sobre quem realiza uma conduta cuja ilicitude conhecia quanto sobre 
quem realiza uma conduta cuja ilicitude desconhecia porque, tendo possibilidade de aplicar sua inteli-
gência e atenção para conseguir esse conhecimento, não se informou sobre a ilicitude. 
 
Teorias sobre a posição da consciência da ilicitude na estrutura do delito: 
 
a) teoria extrema do dolo: o dolo possui a consciência da ilicitude, que deve ser real e atual, não 
sendo suficiente que seja potencial; a inexistência real de consciência da ilicitude exclui o dolo, 
podendo haver punição por crime culposo se o erro era vencível; 
b) teoria limitada do dolo: no dolo basta que exista um potencial conhecimento da antijuridicidade; 
c) teoria extrema da culpabilidade: sendo o dolo natural, a consciência da ilicitude não faz parte 
dele, mas da culpabilidade, bastando ser potencial; ausente o conhecimento da ilicitude, o sujeito 
deve ser absolvido não por ausência de dolo, mas por inexistir culpabilidade \u2013 erro evitável, pois 
se o erro de proibição for evitável, a culpabilidade deve ser atenuada; já o erro de tipo exclui o 
dolo; 
d) teoria limitada da culpabilidade: semelhante à anterior, difere quanto ao erro sobre a situação de 
fato de uma causa de justificação, que seria erro de proibição pela teoria anterior, pela limitada, é 
erro de tipo, excluído o dolo e remanescendo a punição a título de culpa se evitável; mas se o er-
ro recair sobre a norma de proibição, o dolo subsiste, podendo ser excluída ou atenuada a culpa-
bilidade se o erro de proibição for inevitável ou evitável (como a anterior) \u2013 é a teoria adotada pe-
lo CP. 
 
Destarte, o primeiro requisito da culpabilidade (e seu segundo elemento) é a consciência potencial, 
não necessariamente atual, da ilicitude. Incidindo o erro de proibição sobre ela, pode fazer excluir a 
culpabilidade se invencível ou atenuá-la, se vencível (o assunto será mais bem abordado quando se 
falar de erro). 
 
5. EXIGIBILIDADE DE CONDUTA CONFORME O DIREITO 
 
5. 1. CONSIDERAÇÕES GERAIS 
 
A conduta do sujeito, ao realizar um fato típico e antijurídico, somente pode ser considerada autôno-
ma (reprovável, punível) se a decisão