Direito Penal
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de realizá-la foi proveniente de um processo de normal motiva-
ção de sua vontade. Por outro lado, se qualquer interferência convence de que a vontade foi anor-
malmente motivada, a decisão não se considera autônoma, e a culpabilidade estará excluída. 
 
Para saber se a motivação foi normal ou anormal, recorre-se à teoria das circunstâncias concomitan-
tes, concebida por Frank: a análise exaustiva de tais circunstâncias ao atuar permitirá identificar os 
fatores e as situações que motivaram a vontade a decidir daquela maneira \u2013 se a conclusão for no 
sentido de que, naquelas circunstâncias, era impossível ao indivíduo decidir de outra forma, já que 
sua vontade estava anormalmente motivada, não poderá recair sobre ele o juízo de reprovação, pois 
ninguém pode ser culpado por uma conduta que não podia deixar de ser praticada. A inexigibilidade 
de conduta conforme o Direito fundamenta duas dirimentes legais, quais sejam, a obediência hierár-
quica e a coação irresistível (art. 22, CP) além de servir como causa supralegal de exclusão da cul-
pabilidade. 
 
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Direito Penal \u2013 Parte Geral \u2013 Dra. Fernanda Alves de Olveira 36
5.2. OBEDIÊNCIA HIERÁRQUICA 
 
O atendimento do interesse público, finalidade precípua do Estado, impõe rígido vínculo de subordi-
nação entre os funcionários que exercem atividades de chefia e os que exercem funções operacio-
nais. Do poder hierárquico que informa a Administração, decorre que, via de regra, as ordens emana-
das dos superiores devem ser cumpridas pelos subalternos tendo em vista o princípio da presunção 
da legitimidade e veracidade. Daí porque se diz que, muitas vezes, não é dado ao funcionário agir de 
outro modo, ainda que a execução de uma ordem superior importe na realização de um fato típico e 
antijurídico. Excluída a sua culpabilidade, responde pelo fato apenas seu superior. 
 
São requisitos da obediência hierárquica: 
 
a) relação de Direito Público entre superior e subordinado; 
b) que a ordem não seja manifestamente ilegal \u2013 o cumprimento estrito de uma ordem legal corres-
ponde a uma justificativa penal (art. 23, III). Se a ordem for manifestamente ilegal (quando não 
observa aos requisitos formais extrínsecos, ou emitida por autoridade incompetente ou tem objeto 
ilícito), a dirimente é afastada, respondendo o obediente como co-autor ou partícipe, incidindo a 
atenuante prevista no art. 65, III, c, CP. 
c) que o fato seja cumprido dentro de estrita obediência à ordem \u2013 se houver excesso, o executor 
responde por isso. 
 
Impende registrar que o subalterno militar tem o dever legal de obediência (pode cometer crime de 
insubordinação do art. 163, CPM), não sendo culpado qualquer que seja a sua concepção sobre a 
ilegalidade da ordem; apenas ela não pode ser manifestamente criminosa \u2013 todavia poderá ser obri-
gado a executá-la por meio de coação irresistível, excluindo-se nesse caso a sua culpabilidade por 
força dessa última exculpante. 
 
5.3 COAÇÃO MORAL IRRESISTÍVEL 
 
Em Direito Penal, coação é o constrangimento imposto a uma pessoa para compeli-la a realizar um 
fato típico e antijurídico. Fala-se aqui apenas da coação psicológica ou moral, porque a vis absoluta 
(coação física) é causa de ausência de vontade e, portanto, de conduta. A coação moral, que pode se 
dar por meio da violência ou ameaça, interfere no processo psicológico de decisão, fazendo com que 
o sujeito decida em circunstâncias anormais (sua vontade é viciada). 
 
Acontece que o Direito Penal impõe a todos a obrigação de abster-se de realizar condutas lesivas, 
mesmo suportando sofrimentos físicos ou morais \u2013 a escusabilidade da coação vai depender, por 
conseguinte, da persistência ou não desse dever de resistir. Afere-se esse dever no caso concreto 
(circunstâncias concomitantes), inclusive porque leva em conta a capacidade de resistir de cada um: 
sendo a coação moral irresistível, isenta-se de pena o coacto, respondendo pelo delito o coator; se 
resistível, ambos respondem em concurso, podendo o coacto se beneficiar da atenuante prevista no 
art. 65, III, c, CP. 
 
Na coação há a promessa de um mal futuro, grave e irresistível, contra o coacto. ou contra terceiro, 
em que o mal praticado ou anunciado pelo coator é igual ou maior do que o mal que será praticado 
pelo coacto. Assim, o coacto pratica o fato para salvar direito próprio ou de terceiro. Neste caso, ocor-
re autoria mediata, sendo que a culpabilidade se transfere do coacto para o coator. 
 
Há quem entenda que o coator responde, em concurso, pelo crime cometido pelo coacto e por cons-
trangimento ilegal. 
 
6. CASO FORTUITO E FORÇA MAIOR 
 
Afastam a culpabilidade porque o caso fortuito caracteriza-se pela imprevisibilidade do dano, embora 
evitável, enquanto a força maior caracteriza-se pela inevitabilidade do dano, embora previsível. Para 
Assis Toledo, apenas o caso fortuito excluiria a culpabilidade, pois a força maior excluiria a própria 
ação humana, assim como a coação física irresistível. 
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CONCURSO DE AGENTES 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
O crime pode resultar da ação isolada e exclusiva de uma só pessoa, como pode resultar da conju-
gação livre de duas ou mais pessoas, o até mesmo da adesão de uma pessoa à conduta de outra. 
 
Quando isso ocorre, todo aquele que cooperou ou contribuiu para a prática do crime vai incidir nas 
penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade, mesmo que, isoladamente, sua condutas 
não se constitua em crime. 
 
Em alguns crimes, a pluralidade de agentes integra o próprio tipo. Quando isso ocorre, temos crimes 
de concurso necessário ou crimes plurissubjetivos (ex: rixa \u2013CP, art. 137, bando ou quadrilha \u2013 CP, 
art. 288). No entanto, há crimes, que, não obstante possam resultar da conduta de uma só pessoa, é 
cometido por dois ou mais. Nestes casos,, há o chamado concurso eventual, disciplinado pelos arti-
gos 29 e seguintes do Código Penal. 
 
2. TEORIA UNITÁRIA 
 
O Código Penal, no art. 29, caput, ao disciplinar o concurso de pessoas, adotou a teoria monista ou 
unitária, isto é, todos aqueles que concorrem para o crime incidem nas penas a este cominadas, isto 
é, seja autor, co-autor, ou partícipe, todos responderão pelo mesmo crime. É um corolário da teoria 
da equivalência dos antecedentes (CP, art. 13, caput). 
 
Há algumas exceções à teoria monista, como no caso de aborto (a mãe responde pelo CP \u2013 art. 124 
e o terceiro, pelo CP \u2013 art. 126), corrupção (passiva CP \u2013 art. 317 e ativa CP \u2013 art. 333). 
 
3. CONCEITO DE AUTORIA 
 
As formas de realização do crime relacionam-se com a quantidade de pessoas que se empenham na 
tarefa e de quantos delitos tenham praticado, havendo as seguintes hipóteses: 
 
a) autoria, quando o crime é realizado por apenas uma pessoa; 
b) concurso de pessoas (co-autoria e participação); 
c) concurso de crimes. 
 
Existem três critérios que procuram explicar o conceito de autoria: o extensivo, o restrito e o do domí-
nio do fato. 
 
Pelo critério extensivo, autor é quem dá qualquer contribuição para a prática do crime \u2013 é simétrico ao 
adotado para estabelecer o vínculo causal entre a conduta e o resultado: se causa é qualquer ante-
cedente sem a qual o resultado não se teria verificado, causador (o autor) é todo aquele que põe 
qualquer antecedente para a ocorrência do resultado. Seu problema é que é por demais amplo tal 
critério. 
 
Pelo critério restrito, autor é quem realiza direta ou indiretamente, o núcleo do tipo no seu aspecto 
objetivo e subjetivo (visão substancial do autor). Tem a vantagem da precisão conferida pela referên-
cia à tipicidade, mas o inconveniente de não poder abarcar a situação do autor intelectual e a do au-
tor mediato. 
 
Como aperfeiçoamento dogmático desse critério, surgiu o critério do domínio do fato: autor é a-
quele que detém o poder de decidir