Direito Penal
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outrem. 
 
III) Os atos executórios, em regra, são puníveis. Mas como distinguir atos preparatórios de atos 
executórios? Vários critérios foram formulados: 
 
a) critério objetivo ou formal: \u201cinício da realização do tipo\u201d (Welzel) \u2013 começo da conjugação do 
verbo núcleo do tipo. Apesar da segurança, deixa de abarcar situações que o Direito tem inte-
resse em evitar pelo seu grau de aproximação com o bem jurídico tutelado. 
b) critério da inequivocidade e idoneidade: significa que, se o ato já é idôneo para produzir o re-
sultado e inequívoca é a sua intenção, será executório. Ex: A, querendo matar B, aponta-lhe 
uma arma e está prestes a acionar o gatilho quando é detido \u2013 tentativa de homicídio; 
c) critério material: o ato que não constitui ameaça ou ataque direto ao objeto da proteção legal 
é simples ato preparatório, já o ato que significa ataque ao bem jurídico é executório 
 
Entende-se que o critério objetivo é o adotado pelo CP, mas, no caso concreto, deve-se socorrer aos 
demais critérios subsidiariamente e, no caso de dúvida se o ato é preparatório ou executório, a ques-
tão se resolve pelo princípio processual do in dubio pro reu. Damásio de Jesus apresenta uma outra 
teoria, a objetiva-material, defendida por Welzel e Zaffaroni, pela qual deve se distinguir começo de 
execução do crime e começo de execução de ação típica, sendo que o primeiro é mais amplo e a-
brange os atos que, conforme o plano do agente, são imediatamente anteriores ao início de execução 
da ação típica; como o nosso Código fala em início de execução do crime (art. 14, II), seria aceitável 
o entendimento de que também são atos executórios do delito aqueles que estão num momento ime-
diatamente anterior ao comportamento que se amolda ao verbo-núcleo do tipo. 
 
A consumação se dá quando o agente realiza todas as elementares objetivas e subjetivas do tipo. 
Ocorre quando a conduta reúne todos os elementos da definição legal de crime. (art. 14, I, CP). 
 
O exaurimento é o proveito que o agente pretendia obter quando da realização do crime. Ex: matar o 
pai para receber a herança. De notar-se que é despiciendo para a complementação do tipo se ele 
consegue obtê-lo ou não, daí porque muitos não consideram como fase do iter; ainda, não é possível 
a prisão em flagrante se o agente é pego nesta fase \u2013 ex: quando o funcionário público está receben-
do o dinheiro da vítima do crime de concussão. Alguns falam em crime exaurido querendo se referir 
ao crime formal em que haja ocorrido o resultado, vez que, para se consumar, basta a ação. 
 
2. TENTATIVA 
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Iniciada a execução do crime, pode ser que o mesmo venha a se consumar, reunindo todos os ele-
mentos de sua definição legal. Pode ocorrer, todavia que, iniciada a execução, o agente não obtém a 
consumação por circunstâncias alheias à sua vontade (art. 14, II, CP). Neste caso, há a tentativa, que 
possui três requisitos: 
 
a) subjetivo: dolo de consumar determinado tipo legal de crime. A tentativa tem sua tipicidade subje-
tiva completa, mas sua tipicidade objetiva é incompleta. O dolo do crime tentado é idêntico ao dolo 
do crime consumado. 
 
b) objetivos: 
\u2013 começo de execução; 
\u2013 ausência de consumação por circunstâncias alheias à vontade do agente. 
 
Infrações que não comportam a tentativa: 
 
" Crimes culposos (com exceção da chamada culpa imprópria, decorrente de erro, que admite ten-
tativa); 
" Crimes preterdolosos, 
" Crimes omissivos próprios 
" Crimes de atentado 
" Crimes unissubsistentes 
" Crimes habituais 
" Crimes que a lei pune somente quando se dá o resultado 
" Crimes permanentes de forma exclusivamente omissiva 
" Contravenções penais (art. 4º LCP \u2013 Decreto-Lei 3.688/41) . 
 
Existem duas modalidades de tentativa. Uma é a tentativa imperfeita, quando o próprio processo exe-
cutório é interrompido antes que o agente esgote todo o seu potencial ofensivo. A outra é a chamada 
tentativa perfeita ou crime falho, pelo qual o agente esgota subjetivamente todo o potencial ofensivo, 
isto é, o agente realiza tudo o que acha necessário à consumação, mas, ainda assim, o crime não 
ocorre. 
 
3. DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA, ARREPENDIMENTO EFICAZ E ARREPENDIMENTO POSTERIOR 
 
No item anterior, observamos que um dos requisitos da tentativa é que o crime não venha a se con-
sumar por circunstâncias alheias à vontade do agente. 
 
Ocorre que situações há em que, iniciada a execução, ou até mesmo esgotada a execução, o resul-
tado não vem a ocorrer por contribuição do próprio agente. 
 
Nesses casos, temos a desistência voluntária e o arrependimento eficaz, previstos no art. 15 do Có-
digo Penal. 
 
A desistência voluntária ocorre quando, iniciada a execução, o agente, voluntariamente, cessa seu 
comportamento delituoso. Na desistência voluntária, a execução é interrompida por vontade do pró-
prio agente, ao contrário da tentativa imperfeita, em que os atos executórios interrompem-se por cir-
cunstâncias alheias à vontade do agente. Ressalte-se que a lei fala em desistência voluntária, e não 
em desistência espontânea, isto é, o agente pode desistir atendendo a um pedido de outrem. 
 
O arrependimento eficaz ocorre quando o agente, já esgotada a execução, impede que o resultado se 
produza. A lei fala em arrependimento eficaz, e não eficiente, isto é, não basta o agente querer impe-
dir o resultado, mas também ele tem que efetivamente impedir sua produção. Se o agente se arre-
pendeu, foi eficiente (fez tudo o que estava a seu alcance) mas não foi eficaz (não impediu o resulta-
do), o agente responde pelo crime. 
 
Nestes casos, não há a tentativa, punindo-se o agente apenas pelos atos já praticados. 
 
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Tanto a desistência voluntária quanto o arrependimento eficaz estão no art. 15, CP, e discute-se a 
sua natureza jurídica: para Damásio de Jesus, Mirabete e Cezar Bitencourt, seria excludente de tipi-
cidade; para Hungria e Magalhães Noronha, seria causa de extinção de punibilidade fora do rol do 
art. 107, CP: por fim, para Paulo José da Costa Jr., seria escusa absolutória pessoal. Parece ser o 
primeiro entendimento o mais acertado. 
 
Quanto ao arrependimento posterior, que é causa de diminuição de pena, ver art. 16, CP, que estabe-
lece os seguintes requisitos: 
 
a) crime sem violência ou grave ameaça à pessoa; 
b) reparação do dano ou restituição da coisa; 
c) a reparação ou restituição tem que ser por ato voluntário 
d) a reparação ou restituição tem que ser feita até a data do recebimento da denúncia ou da queixa. 
 
3. CRIME IMPOSSÍVEL OU TENTATIVA INIDÔNEA OU QUASE-CRIME 
 
O art. 17 cuida do crime impossível. A consumação é impossível, havendo atipicidade por carência do 
tipo objetivo, em três hipóteses: 
 
a) ineficácia absoluta do meio empregado para aquele crime; 
b) inidoneidade absoluta do objeto material para aquele crime. 
 
Vide art. 17, CP. Em ambos os casos, se for relativa, estando presentes os outros requisitos, há ten-
tativa punível, visto que o CP adotou a teoria objetiva temperada. 
 
c) crime de ensaio: o provocador introduz no ambiente condições tais que, por mais que se esforce, 
o executor não conseguirá completar a realização típica, inexistindo, em momento algum, a ofen-
sividade legitimadora da intervenção penal. É o caso do flagrante provocado (cf. Súmula 145, 
STF), diferente do flagrante esperado, em que se preserva a punibilidade, e do flagrante forjado, 
em que a geralmente a polícia "planta" provas a fim de incriminar alguém, o que constitui abuso de 
autoridade. 
 
Diferente é o crime putativo, em que o agente imagina, por erro, que está realizando uma conduta 
típica quando, em verdade, o fato não constituiu crime \u2013 ex: relacionar-se com a irmã achando que 
está