BasesBiológicasdoCpto
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DisciplinaBases Neurais de Processos Psicológicos9 materiais75 seguidores
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apre sen tava boa capa ci dade de memó ria 
para even tos ocor ri dos antes da cirur gia e era capaz 
de reter infor ma ções por segun dos e minu tos, mas 
não arma ze nava infor ma ções acerca de pes soas, 
luga res ou obje tos por mais de um minuto. O mais 
grave pro blema de HM era a inca pa ci dade de trans fe-
rir infor ma ções para os sis te mas de arma ze na mento 
dura douro de memó ria. Mais tarde veri fi cou-se que 
HM e outros pacien tes com lesões simi la res no lobo 
tem po ral medial são capa zes de apren der cer tos 
tipos de infor ma ções, como tare fas moto ras e per-
cep tuais, e reter estas infor ma ções por algum tempo. 
São tam bém capa zes de res pon der com habi tua ção 
ou sen si bi li za ção a estí mu los novos e pas sí veis de 
con di cio na mento ope rante e Pavlo viano, mas são 
inca pa zes de trans fe rir infor ma ções novas para os 
ban cos de memó ria, tais como loca li za ção espa cial, 
reco nhe ci mento de faces e guar dar núme ros de tele-
fone. Esta difi cul dade estava asso ciada prin ci pal-
mente às lesões do hipo campo. 
Atual mente, com o desen vol vi mento das pes qui-
sas neste campo, a hipó tese de Las hley ainda con ti-
nua sendo con si de rada e aceita com as modi fi ca ções e 
atua li za ções por que pas sam to das as teo rias, influen-
cia das que são pelo desen vol vi mento das pes qui sas 
e pelo curso da ciên cia. Sem dúvida, hoje, admite-se 
que a apren di za gem e memó ria recru tam pro ces sos 
neu rais em múl ti plas regiões do cére bro, mas que cer-
tas estru tu ras estão mais envol vi das que outras. Os 
 sítios cere brais que são ati va dos depen dem, sobre-
ma neira, do que efe ti va mente está sendo apren dido. 
Assim, é natu ral que o cór tex occi pi tal seja mais ati-
vado durante a apren di za gem visual, o hipo campo 
em tare fas que reque rem o uso de mapas espa ciais, 
o cere belo em tare fas que exi gem habi li dade motora, 
a amíg dala no medo con di cio nado e o cór tex do cín-
gulo nas expe riên cias com colo rido emo cio nal.
Defi nir apren di za gem e memó ria não é tarefa 
fácil dado que, em geral, estes pro ces sos são infe ri-
dos a par tir de alte ra ções com por ta men tais antes que 
medi dos dire ta mente. Uma das defi ni ções cor ren tes 
 indica que a apren di za gem cor res ponde à aqui si ção 
de novos conhe ci men tos do meio e, como resul tado 
desta expe riên cia, ocorre a modi fi ca ção do com por-
ta mento, enquanto que a memó ria é a reten ção deste 
conhe ci mento. A rapi dez da ati va ção dos pro ces sos 
neu rais envol vi dos na aqui si ção de infor ma ções, 
bem como a efi ciên cia dos meca nis mos sub ja cen tes 
aos pro ces sos de arma ze na mento e recu pe ra ção das 
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Considerações gerais
mes mas, pode ser a repre sen ta ção no cére bro do que 
deno mi na mos inte li gên cia. De maneira geral, os 
meca nis mos cere brais da memó ria e apren di za gem 
estão tam bém asso cia dos aos pro ces sos neu rais 
res pon sá veis pela aten ção, per cep ção, moti va ção, 
pen sa mento e outros pro ces sos neu rop si co ló gi cos, 
de forma que per tur ba ções em qual quer um deles 
ten dem a afe tar, indi re ta mente, a apren di za gem e a 
memó ria.
Em vista da difi cul dade em se defi nir o que vem a 
ser apren di za gem tem-se optado por um termo mais 
geral que é a plas ti ci dade cere bral que se refere 
a alte ra ções fun cio nais e estru tu rais nas sinap ses 
(zonas ati vas de con tato) como resul tado de pro-
ces sos adap ta ti vos do orga nismo ao meio. Estas 
modi fi ca ções, como vere mos a seguir, pro mo vem 
alte ra ções na efi ciên cia sináp tica e podem aumen-
tar ou dimi nuir a trans mis são de impul sos com a 
con se qüente modu la ção do com por ta mento. Neste 
caso, a preo cu pa ção dos estu dio sos desta área está 
diri gida a todas as for mas de plas ti ci dade do sis-
tema ner voso antes que com um modelo par ti cu lar 
e espe cí fico de apren di za gem e memó ria.
6.1. CLAS SI FI CA ÇÃO DOS 
PRO CES SOS DE APREN DI ZA GEM
A clas si fi ca ção dos pro ces sos de apren di za gem 
 guarda íntima rela ção com os pro ce di men tos expe-
ri men tais de labo ra tó rio, conhe ci dos como con di cio-
na mento clás sico, con di cio na mento ope rante, habi-
tua ção e sen si bi li za ção. Uma abor da gem gené rica 
sobre estes tipos de apren di za gem será aqui feita ape-
nas para ser vir de base para a com preen são dos tópi-
cos sub se qüen tes. Uma aná lise mais apro fun dada é 
facil mente encon trada na lite ra tura (Squire e Kan del 
2003).
A his tó ria dos estu dos com con di cio na mento 
clás sico come çou com Ivan Pavlov, fisio lo gista 
russo, prê mio Nobel em 1904. A par tir de seus estu-
dos pio nei ros, hoje sabe mos que a base do con di-
cio na mento clás sico é a asso cia ção entre estí mu los. 
Reco nhe ce mos ali men tos pela visão ou pelo olfato 
(estí mulo con di cio nado) por que já pas sa mos pela 
expe riên cia pré via de expe ri mentá-los, ao mesmo 
tempo que o olhá va mos ou sen tía mos seu cheiro 
(con di cio na mento).
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Aprendizagem e memória
Fig. 6.1 - Con di cio na mento Pavlo viano. O uso da téc nica de con di cio na mento Pavlo viano per mite estu dar os meca-
nis mos de apren di za gem acio na dos no cére bro do indi ví duo pela estru tura do meio e pela rela ção entre estí-
mu los à sua volta. Na figura estão repre sen ta das as três fases do con di cio na mento Pavlo viano na situa ção 
em que é apre sen tado um pedaço de carne (US) a um ani mal com pro du ção de uma res posta incon di cio nada 
de sali va ção (UR). A. Fase de pré-con di cio na mento - não há qual quer res posta do cão ao som que é apre-
sen tado sozi nho. B. Fase de con di cio na mento - o som é apre sen tado asso ciado ( pareado ou empa re lhado) 
ao US que induz a UR. C. Fase de teste \u2013 o som (CS) apre sen tado iso la da mente pro move sali va ção, que é 
a resposta condicionada (CR).
Nas con di ções expe ri men tais de labo ra tó rio este 
con di cio na mento é comu mente divi dido em três 
fases: pré-con di cio na mento, con di cio na mento e 
teste. A apre sen ta ção de ali mento, que é o estí mulo 
incon di cio nado (US, de uncon di tio ned sti mu lus) a 
um ani mal pro voca sali va ção, que é a res posta incon-
di cio nada. O con di cio na mento ocorre quando um 
estí mulo neu tro (o som de uma cam pai nha ou uma 
luz, por exem plo) \u2014 o estí mulo con di cio nado (CS, 
de con di tio ned sti mu lus) \u2014 é empa re lhado com o 
US. Pos te rior mente, quando o CS é apre sen tado sozi-
nho é gerada uma res posta con di cio nada durante a 
vigên cia do CS. O ani mal passa a rea gir ao estí mulo 
con di cio nado como se ele fosse o pró prio estí mulo 
incon di cio nado. Uma res posta con di cio nada tam-
bém se desen volve se o estí mulo incon di cio nado é 
aver sivo. Esta res posta con di cio nada é o ele mento 
apren dido durante o con di cio na mento clás sico. O 
estí mulo con di cio nado pre diz ou torna-se um sinal 
ante ci pa tó rio da ocor rên cia do estí mulo incon di cio-
nado (Fig. 6.1).
Da mesma forma que Ivan Pavlov está para a his-
tó ria do con di cio na mento clás sico, Burhus F. Skin-
ner está para o con di cio na mento ope rante ou ins tru-
men tal. Skin ner desen vol veu as gaio las que levam 
seu nome, onde os ani mais podem pres sio nar uma 
barra ou desem pe nhar qual quer outra tarefa a fim 
de rece be rem uma recom pensa. O con di cio na mento 
ope rante baseia-se na pro ba bi li dade de ocor rên cia 
 futura de uma res posta quando ela é seguida de um 
 reforço. O reforço posi tivo (recom pensa; como é 
o caso do ali mento quando esta mos com fome ou 
água quando temos sede) ou nega tivo (estí mulo que 
é ter mi nado, retar dado ou omi tido como resul tado 
de uma res posta) aumen tam, e a puni ção (estí mulo 
aver sivo con tin gente a uma res posta)