história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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do novo movimento, a revista "Athenaeum" (cujas publicaq6es A Escola 
cessaram em 1800). Ao movimento aderiram Novalis, Tieck, Wa- rOm&fica 
ckenroder, Fichte, Schelling e, principalmente, Schleiermacher. + 3 
Jena foi a cidade em que se constituiu 
o circulo dos romhticos, no hltimo lustro 
do sCculo XVIII. Seus animadores foram 
os irmios Schlegel: August Wilhelm (1767- 
1845) e Friedrich (1722-1829) um lustro 
mais jovem (e do qua1 falaremos a parte, 
logo em seguida), alCm de Karoline Michae- 
lis (1763-1809), mulher de August Wilhelm 
Schlegel (que mais tarde separar-se-ia dele 
para se casar com Schelling), que exerceu 
poderosa influencia inspiradora e fascinio 
extraordinario sobre os amigos (ao passo 
que era muito temida pelos adversarios, por 
seus juizos cortantes: Schiller a chamava de 
"Madame Lucifer"). Em 1797, em virtude 
de duro conflito com Schiller, F. Schlegel 
transferiu-se para Berlim, onde passou a 
publicar a revista "Athenaeum", que foi o 
orgio do novo movimento e cujo primeiro 
numero saiu em maio de 1798. A revista 
teve muita fama, mas vida brevissima (sua 
publicaqiio cessou logo em 1800). Muito 
ativos, os Schlegel promoveram algumas 
convenq6es em Dresden (1798) e em Jena 
(inverno de 1799-1800), e varios encontros. 
Ao movimento aderiu Novalis, que foi o 
poeta de ponta do grupo. 0 s Schlegel tam- 
bCm tiveram contatos com os poetas Ludwig 
Tieck (1773-1 853) e Wilhelm Heinrich Wa- 
ckenroder (1773-1798), e encontraram-se 
com Fichte (1796) e depois com Schelling. 
Mas, em Berlim, foi sobretudo Schleierma- 
cher quem esteve proximo a F. Schlegel. 
Horderlin ficou B parte, mas sua poesia e 
os pensamentos filosoficos que expressa 
em seu romance Hyperion s io tipicamente 
romhticos. 
0 circulo dos Schlegel pronunciara 
uma palavra magica que expressava a marca 
espiritual da nova Cpoca. 0 s proprios adver- 
sarios (como Schiller e Goethe) tornaram-se 
tais em relaqiio aos homens do circulo e de 
seus excessos ideol6gicos e pel0 seu mod0 
de viver, mas os sentimentos da Cpoca os 
ligavam necessariamente as idCias de fundo 
do movimento. 
l6 Primeira parte - O nov immio romiint i io c n forwwc&o do idralismo 
Alim disso, o fato de o romantismo 
expressar perfeitamente as instiincias es- 
pirituais da Cpoca prova-se por sua rhpida 
difusiio, n i o apenas na Alemanha, mas 
tambCm em toda a Europa: 
- as Baladas liricas dos poetas William 
Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, de 
1798, com o Prefacio ampliado da segunda 
ediq50, de 1800, constituiram o manifesto 
do romantismo inglis; 
- o livro Sobre a Alemanha, de Mada- 
me de Stael, em 1813, marca o nascimento 
do romantismo franc& e, em seguida, sua 
difusio europCia; 
- a Carta semi-se'ria de Cris6stom0, de 
Joiio Berchet, de 1816, marca o nascimento 
do romantismo italiano. 
Aqui nos ocuparemos do romantismo 
alemio, indissoluvelmente ligado A historia 
do pensamento filos6fico. 
II. Fviedvich Schlegel, 
e a a v t e como fovma suprema do espivito 
No pensamento de F. Schlegel(1772-1829) e central a concep@o do infinito, 
ao qua1 se pode chegar ou com a filosofia ou com a arte; em ambas nos servimos 
de meios finitos, e a grande dificuldade consiste em encontrar o acesso ao infinito 
com os meios do finito. 
Em filosofia, o unico conceito original de F. Schlegel e o de 
A ironia "ironia", a qua1 indica a atitude espiritual que tende a superar e a 
a dissolver progressivamente a inadequaqao em relaqao a infinitude 
de 
finito-infinito de todo ato ou fato do espirito humano, e nela tem um papel 
4 5 1-2 decisivo o elemento "espirituoso" ou "brincalhao" do humor. Na arte, ao contrario, e apanagio do g h i o criador operar 
uma sintese de finito e infinito: o verdadeiro artista anula-se como 
finito para poder ser veiculo do infinito, e neste sentido a arte assume tambem 
um altissimo significado religioso, porque religiao e toda rela@o do homem com 
o infinito. 
0 conceit0 deUironia" 
e m sentido ~ O M & M ~ ~ C O 
F. Schlegel(1772-1829) partiu do clas- 
sicism~ de Winckelmann (do qual j i falamos 
acima) e das teorias de Schiller (mais i fren- 
te), mas evoluiu e deu consistencia aut6no- 
ma ao seu pensamento, sobretudo a partir 
da leitura da Doutrina da cidncia de Fichte, 
e com Schelling. A concepqio do infinito C 
idCia central do seu pensamento, bem como 
de todo o pensamento romhtico. 
Ora, podemos chegar ao infinito pela 
filosofia ou pela arte. Mas, tanto numa como 
na outra, nos valemos de meios finitos. E 
aqui reside precisamente a verdadeira difi- 
culdade: encontrar o acesso ao infinito corn 
os meios finitos. 
Schlegel tentou se mover em ambas 
as direq6es, mas, em filosofia, criou apenas 
um conceito verdadeiramente original, o de 
"ironia"; o resto permaneceu fragmentirio e 
apenas esboqado. Sua teoria da arte constitui 
o melhor que ele deu i sua Cpoca. 
Retomado de Socrates, seu conceito 
de "ironia" C profundamente ampliado e 
modificado. Em Socrates a "ironia" era a 
simulaqio do jogo do advershrio, com o 
objetivo de refutar o proprio adversirio me- 
diante suas proprias armas. J i em Schlegel 
a ironia sup6e outros horizontes te6ricos: 
pressup6e a concepqiio do infinito como o 
objetivo ao qual se deve chegar e a inade- 
quaqio de todo pensamento que vise ao 
Capitulo segundo - 6 s fundadoves da &cola vom6ntica 17 
infinito, enquanto C sempre pensamento 
determinado. Ora, a ironia se insere nesse 
context0 como a atitude espiritual que 
tende a superar e dissolver esse "determi- 
nado" e, portanto, tende a impelir sempre 
para mais ale'm. A ironia, portanto, tende 
a suscitar um sentimento de contradiqiio 
n io eliminavel entre condicionado (finito) 
e incondicionado (infinito) e, ao mesmo 
tempo, o desejo de elimina-la e, por isso, o 
sentimento da "impossibilidade e necessida- 
de da perfeita mediaqio" ao mesmo tempo. 
Desse modo, a "ironia" posiciona-se sem- 
pre acima de todo o nosso conhecimento, de 
toda a nossa aqio ou obra. Em conclusiio, a 
nova "ironia" posiciona-se como o sentido 
de inadequaqso em relaqio i infinitude 
de todo fato ou ato do espirito humano, 
exercendo nela papel decisivo o elemento 
do "espirituoso" ou do "brincalhio", ou 
seja, do humor. 
Esse conceit0 de "ironia" C quase o 
pendant, de tonalidade aparentemente clas- 
sicizante, mas na realidade profundamente 
romiintico, do sentimento sCrio da Sehnsu- 
cht (ansiedade), que descrevemos. 
0 filosofo Nicolai Hartmann nos deu 
disso caracterizaqiio muito eficaz: "Schlegel 
estava profundamente convict0 da inex- 
primibilidade e da incompreensibilidade 
mistica de tudo o que t dtimo e autintico 
objeto do pensamento. Assim, o 'espirituo- 
so' (no sentido de humor) com que, no 
fim, o pensamento ironiza a si mesmo e se 
suprime C precisamente a admissio profun- 
damente justa e grandiosa de sua pr6pria 
impothcia. Com isso, mediatamente, C a 
reabilitagiio do irracional limitado e expulso 
pelo pensamento. Trata-se de 'pressagioso 
girar em torno do inabordavel', de salto do 
pensamento no vazio, que certamente nunca 
levari a terreno solido, mas que carrega 
consigo a conscitncia imediata desse terreno 
solido, isto C, aquele que so 6 real enquanto 
o pensamento abandona conscientemente a 
si mesmo. A forma desse 'abandon0 de si' 
6 a ironia, o espirituoso (o humor), o riso 
sobre si mesmo". 
f\ arte towm sinfese 
de finito e infinito 
Por tudo o que dissemos, C evidente que 
essa superaqio do espirito humano e o p6r- 
se gradualmente acima dos limites e de toda 
finitude valem n io apenas para a filosofia, 
mas tambtm para a Ctica, para a arte e para 
todas as formas da vida espiritual, consti- 
tuindo auttntica marca do romantismo. 
Segundo Schlegel, a arte C obra do 
gtnio criador que, precisamente por ser 
gtnio, opera a sintese entre finito e infinito.