história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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o sentir, e nisso se alicerqa a comoqiio 
poitica. Escreve Schiller: "Aqui, o objeto 
C referido a uma idCia, e sua forqa poCtica 
reside apenas nessa referincia. 0 poeta 
sentimental, portanto, esta sempre diante de 
duas representagees e sentimentos em luta, 
tendo a realidade por limite e a sua idCia por 
infinito. E o sentimento misto que ele suscita 
refletira sempre essa dupla fonte." 
0 s fermentos rominticos siio mais 
que evidentes nessa concepqiio. 0 pr6prio 
Goethe, como todos os poetas modernos, 
contra as intengees de Schiller e as apa- 
rincias exteriores, com base nessa analise n5o 
podia deixar de ser catalogado como poeta 
"sentimental". 0 c h o n da beleza clissica 
nao podia mais realizar-se imediatamente 
na dimens50 da natureza, mas apenas ser 
"buscado" atravCs de itinerario mediato, 
ou seja, como ideal romintico. 
L6 Primeira parte - 0 movimento rom&ntico e a fo rma+o d o idea l i smo 
VI. Goethe, 
suas relaG8es corn o rornantisrno 
Posicso critica Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o maior poeta 
em relagso alemso, foi o principal dos Sturmer, mas, a partir de 1775, quis 
aos romdnticos repropor os cinones classicos da beleza. Condenou os rominticos, 
+ § 7 mas nao com a mira na alma do movimento, e sim nos excessos 
do fencirneno romintico. 
A concepcso Importante e sua concepqao da natureza, compreendida 
da como forma de organicidade impelida as consequ@ncias extremas: 
+ § 2 a natureza e toda viva, ate nos minimos particulares, a totalidade 
dos fendmenos e produqao orginica da "forma interior", e as 
diversas formaqdes naturais derivam de uma polaridade de forqas (contraqao e 
expansao), seguindo um progressivo crescimento e elevaq80. 
A importdncia . Dois personagens de Goethe tiveram o privilegio de as- 
de Wilhelm cender a simbolos: Wilhelm Meister, protagonista do mais belo 
Meister exemplo de "romance de formaqao", ou seja, de desenvolvimen- 
e de Fausto to espiritual, e Fausto, tornado personagem eterna, cuja chave 
-3 § 3-4 interpretativa consiste no encontro entre sua tens20 incessante 
e o amor divino que vem em seu auxilio. 
Johann Wolfgang von Goethe (1749- 
1832) C o maior poeta alem5o. Ele resume 
em si toda uma Cpoca, com suas dificuldades 
e suas aspiraq6es. Diferentemente de Schiller, 
n5o dedicou obras especificas a filosofia; 
alias, fez quest50 de manter certa distin- 
cia em relag50 aos fil6sofos de profiss50. 
Seus escritos, todavia, contern numerosas 
idiias filos6ficas e algumas de suas obras 
tornaram-se verdadeiros simbolos para os 
rominticos. Por isso, devemos tratar delas, 
ainda que brevemente. 
Inicialmente, como ja dissemos, Goethe 
foi um dos Stiirmer, alias, o principal (e a 
esse periodo remontam obras farnosas, co- 
mo o Gotz von Berlichingen, o Prometeu, As 
dores d o jovem Werther, o primei~o Fausto 
e o primeiro Wilhelm Meister). E verdade 
que procurou acuradamente minimizar a 
importincia do movimento e do papel por 
ele desempenhado; entretanto, confessa ter 
contribuido para ele. Na realidade, n5o 
nostava dos descomedimentos ligados ao 
" 
Lovimento do fen8meno de imitagzo do- 
entia a que Werther havia dado lugar, n50 
apenas no plano literirio. 
Ja o Goethe do periodo posterior quis 
ser clhssico. r e ~ r o ~ o n d o os cinones classicos 
da beleza. ~ i i i a iue quem quer fazer algo 
de grande deve, como os gregos, ser capaz 
de elevar a natureza real a altura do espirito. 
Na realidade, o "classicismo" de Goe- 
the nada mais C do que o resultado da forqa 
decomposta do Sturm und Drang, ordenada 
~ e l a forma e Dor novo sentido do "limite". 
e, na realidade, i romantismo. 
Goethe condenou os rominticos, n5o 
a alma do movimento (porque tambCm nele 
vivia uma parte daquela alma); condenou os 
excessos do fen8meno romintico. 
2, jlatureza, Deus e arte 
llllllhh 
No que se refere As tematicas especi- 
ficas, devemos recordar em primeiro lugar 
a concep~5o goethiana da natureza, que 
Capitdo segundo - 0 s fundadores da Cscolu ~orniint ica 2 7 
C uma forma de organicismo levado i s 
ultimas conseqiihcias. A natureza e toda 
viva, at6 em seus minimos particulares. A 
totalidade dos fen6menos 6 vista como pro- 
duqio orghica da "forma interior". Uma 
polaridade de forqas (contraq50 e expanszo) 
origina as diversas formaqoes naturais, que 
assinalam acriscimo e produzem elevaqiio 
progressiva. 
Sua concepqio de Deus C predominan- 
temente panteista, mas sem rigidez dogma- 
tics. Com efeito, ele disse ser "politeista" 
como poeta e "panteista" como cientista; 
mas acrescentou haver espaqo, pelas exi- 
gencias de sua pessoa moral, tambCm para 
um Deus pessoal. 
Para Goethe, o "gEnio" C "natureza que 
cria", e a arte t atividade criadora e criaqio 
como a natureza, e at6 acima da natureza. 
"Wilhelm i\/\eistev" 
COMO vomance 
de fovmac&o espivitual 
Entre suas obras, especialmente duas ti- 
veram o priviligio de se tornarem simbolo: o 
Wilhelm Meister e, mais ainda, o Fausto. 
A primeira t o mais belo exemplo de 
"romance de formaqiio" ou de desenvol- 
vimento espiritual. AtravCs de uma sirie 
simbolica de experiencias artisticas, Wilhelm 
encontra-se por fim a si mesmo, realizan- 
do-se mediante atividade priitica, ou seja, 
inserindo-se na sociedade de mod0 factual. 
Para Wilhelm, as experizncias artisticas 
n i o foram puramente decepcionantes, mas 
tambim redundaram em potencializaq50 das 
28 Primeira parfe - O mavimenta rom&n+ica e a formaodo d o idealisma 
energias proprias das atividades da ultima 
fase (o romance reflete amplamente o pr6- 
prio Goethe que, de fervoroso Stiirmer, pas- 
sara ao serviso do govern0 de Weimar). 
Schlegel julgou o romance como algo 
compar6vel h Revoluq30 Francesa, ou seja, 
como express50 de uma tendzncia do se'culo. 
L. Mittner assim o define: "0 romance [...I deve ser entendido como tentativa de 
realizar, no plano artistico, o que era irrea- 
liz6vel no plano econ6mico-politico real; de 
fato, como o Fausto, ele t um verdadeiro 
uno-todo, uno diverso em si mesmo, j6 que 
abrange v6rios mundos sociais e Cticos bem 
fechados em si, mas que tambtm est5o ideal- 
mente e att realmente relacionados entre si, 
pel0 menos no sentido de que do menor de 
tais mundos sempre se desenvolvem mundos 
maiores, que por fim deveriam abranger 
toda a realidade cultural e social da tpoca 
goethiana". 
Hegel far6 algo semelhante, no mais 
elevado plano filos6fic0, em sua Fenomeno- 
logia do Espirito, que, como veremos, narra 
as experiincias da propria consciincia que, 
atravts das peripCcias morais e espirituais da 
historia universal, chega A autoconsciincia 
e ao saber absoluto. 
Mais duradoura foi a celebridade de 
Fausto, que se transformou em personagem 
eterno (uma posse para sempre, como diriam 
os gregos). Sobre Fausto, portm, j6 se disse 
att mais do que se deveria. Hegel se inspi- 
rar6 em algumas cenas para descrever certas 
passagens de sua Fenomenologia. Alguns 
acreditam ver nele refletida profeticamente 
a consciincia do homem moderno. No Stre- 
ben de Fausto, ou seja, no tender sempre 
para o ulterior, C mais f6cil perceber o ati- 
vismo que devora o homem contemporheo. 
Mas Goethe nos reserva enorme surpresa ao 
nos dar a sua interpretagso dos dois versos- 
chave do seu poema. Postos nos l6bios dos 
anjos do cCu, dizem os dois versos: 
Quem se afana em perene tender, 
esse nds podemos salvar! 
Em carta de 6 de junho de 1831 a 
Eckermann, Goethe escreve: "Nesses versos 
est6 contida a chave da salvaq50 de Fausto". 
E, segundo ele, a chave esta no encontro 
entre o incessante tender de Fausto, por 
um lado, e o amor divino, por outro: "No 
proprio Fausto (h6) atividade sempre mais 
elevada e mais pura att o fim, e do alto (h i ) 
o amor eterno que lhe vem em socorro". 
Goethe conclui, destacando expressamente: 
"Isso