história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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E dele aproxima sobretudo a arte, 
como aconteceu no povo grego ou como 
ocorre nos "gCnios", dos quais, para ele, 
Goethe C a encarnag20 viva (dedicou amplo 
estudo ao Hermann und Dorothee de Goe- 
the, exaltando o elemento clhssico). Mas a 
idCia de humanidade, atravCs dos individuos, 
realiza-se nas nag6es e, portanto, na historia. 
E assim que Humboldt define o obje- 
tivo da historia: "0 fim da historia s6 pode 
ser a realizagso da idtia que representa a hu- 
manidade, em todas as direg6es e em todas 
as formas". TambCm Humboldt admite uma 
Providgncia na historia, que niio age a partir 
de fora, mas de dentro dos homens, ou seja, 
mediante seu espirito. E o Estado deve limi- 
tar-se a tutelar a seguranga interna e externa, 
sem interferir nos objetivos dos individuos, 
o que lhes limitaria a liberdade. 
Mas Humboldt, como jh observamos, 
C considerado e apreciado principalmente 
como fundador da lingiiistica moderna. Por 
esse seu perfil, voltaremos a tratar dele mais 
adiante, de forma mais ampla. 
42 Primeira parte - O mov i~en to vomiintico e a f o r ~ a ~ & o do idecllismo 
V. 8 s debates sobre as aporias 
do kantismo 
e os pvel~dios do idealismo 
Tentativas 
de supera@o 
do kantismo 
4 9 1-4 
No clima mais amplo de renovaqilo cultural, surge um 
debate prolongado sobre os problemas de fundo postos e nao 
resolvidos pelo kantismo. Tais discussijes, que versam principal- 
mente sobre o problema da "coisa em si", s3o promovidas pelos 
kantianos K. L. Reinhold (1758-1823), 5. Maimon (1754-1800) e 
J. S. Beck (1761-1840), e pelo cetico G. E. Schulze (1761-1833), e 
representam uma passagem do criticismo ao idealismo. 
Paralelamente a esses fermentos mul- 
tiformes, desenvolveram-se vivas discuss8es 
sobre os problemas de fundo levantados e 
deixados abertos pelo kantismo, realizados 
em plano rigorosamente ticnico, e cujos re- 
sultados lanqam como que uma ponte entre 
o criticismo e o idealismo, constituindo uma 
transigiio gradual entre um e outro. 
0 primeiro que se moveu nessa di- 
reqiio foi Karl Leonhard Reinhold (1758- 
1823), sobretudo nos trts livros Ensaio de 
uma nova teoria da faculdade humana de 
representa@o (1789), Contribui~oes para 
a retifica~iio dos subentendidos que ainda 
perduram na filosofia (1790) e Fundamentos 
do saber filosdfico (1791), que conttm a 
chamada "filosofia elementar" (que significa 
"filosofia primeira" ). 
Ele encontrou em Kant aquele que o 
impediu de cair na "supersti@o" e na "in- 
credulidade" (dilema ao qua1 a poltmica 
sobre o spinozismo parecia levar). A Critica 
da raziio pura apresentava a estrutura au th - 
tica do saber e os limites da razzo, ao passo 
que a Critica da raziio pratica mostrava o 
primado da razio pratica e a possibilidade 
de fundamentar a religiso na moral. 
Mas a Critica da raziio pura C "pro- 
pedtutica", e Reinhold tenta reconstrui-la 
como "sistema". 
Para construir um sistema C preciso 
um principio, que, em sua opiniio, C dado 
pela doutrina da "representa~io" (Vors- 
tellung), assim definida: "A representaqio, 
na conscitncia, C distinta do representante e 
do representado, sendo referida a ambos". 
0 representante C o sujeito e, portanto, a 
forma; o representado C o objeto e, portanto, 
a matCria; a representa~iio C a unificaqiio 
deles. 
Assim, a consciincia emerge como o 
momento de compreensiio, que deveria su- 
perar o dualism0 kantiano; a forma faz-se 
coincidir com a atividade e espontaneidade 
da consciincia, e a mate'ria faz-se coincidir 
com a receptividade. 
Reinhold ensinou em Jena at6 1794, 
ano em que se transferiu para Kiel; em Jena, 
teve como sucessor Fichte, que se imp& com 
sua Doutrina da citncia. 
Trata-se de uma passagem que assume 
significado quase simbolico, porque, como 
veremos, Fichte prosseguiria nessa direqiio 
at6 as ultimas conseqiitncias. 0 proprio 
Reinhold se tornaria fichteano e, mais tarde, 
jacobiano. 
ao kantismo 
Gottlob Ernst Schulze (1761-1833) se 
imp& a atengao de seus contemporheos 
com um livro de 1792, intitulado Eneside- 
mo, ou acerca dos fundamentos da filosofia 
elementar defendida pel0 senhor professor 
Reinhold, com o acre'scimo de uma defesa 
do ceticismo contra as pretensoes da critica 
da raziio. 
Capitulo terceiro - Pensadores que contribuirurv\ para a superup30 do ~Iu~l\ inismo 43 
No livro, publicado anonimamente, 
Schulze vestia a roupagem do cCtico Enesi- 
demo, sustentando que o ceticismo eneside- 
miano e humeano n io fora de mod0 algum 
superado pel0 criticismo, do qual Reinhold 
era defensor, precisamente porque fazia am- 
plo uso daquele "principio de causa" enten- 
dido em sentido ontologico, que o pr6prio 
criticismo (reduzindo-o a mera categoria do 
pensamento) pretendera eliminar. 
Com efeito, as cccondiqBes" do conhe- 
cimento siio "causas reais". "Causas reais" 
siio as causas formais internas (enquanto 
determinam o fenGmeno), e "causa real" C a 
"coisa em si", que produz a ccsensa~io" do 
sujeito (ou seja, a matiria do conhecimento). 
Assim, das duas, uma: a ) ou a coisa em si 
niio C causa da sensaqio, b) ou entiio, se C 
causa da sensaqiio, n io C "incognoscivel". 
Essas conclusBes constituem um beco sem 
saida, no qual o criticismo se atola. 
De mod0 mais geral, Schulze objeta ao 
criticismo o fato de ser vitima do mesmo sal- 
to indevido do pensar ao ser, que ele censura 
como err0 de fundo das provas tradicionais 
da existincia de Deus, particularmente a 
ontologica. Com efeito, depois de ter esta- 
belecido que, para ser pensado, algo deve 
ser pensado de certo modo, conclui que, 
portanto, existe naquele modo, realizando 
dessa maneira a passagem do pensar ao ser 
que, ao contrhrio, ainda fica por demonstrar. 
A s criticas de lV\aiwon 
* II hl'coisa em SI kantiana 
0 debate sobre a coisa em si foi apro- 
fundado por Salomon Maimon (1754-1 800) 
no Ensaio acerca da filosofia transcendental 
(1790) e em uma strie de obras posteriores. 
A "coisa em si" n5o pode ser consi- 
derada como estando fora da consciincia, 
porque dessa forma seria nio-coisa (Un- 
ding), que Maimon identifica com nfimero 
imaginirio do tip0 de 6, que expressa 
grandeza niio real. A "coisa em si" deve ser 
pensada muito mais corno, por exemplo, as 
grandezas irracionais do tip0 CT, que S ~ O 
grandezas reais que expressam um valor 
limite, pel0 qual nos aproximamos sempre 
mais do infinito. 
0 que significa o seguinte. 
Na consciincia existe a forma, da 
qual temos plena consciincia, e a mate'ria, 
da qual, ao contrhrio, n io temos consciin- 
cia; nos niio podemos pensar nada fora da 
consciincia e, portanto, devemos conceber 
a matiria, leibnizianamente, como o grau 
minimo de consci8ncia. A "coisa em si", 
portanto, C o limite mais baixo dos graus 
infinitos da consciincia, assim como o exem- 
plo n i l u s t r a de forma analogica. 
Trata-se, indubitavelmente, de enge- 
nhosissima interpretaqiio da "coisa em si" 
como conceito-limite, que, no entanto, com- 
promete o kantismo, imantizando a "coisa 
em si" na consciincia, precisamente como 
limite da consciincia. 
A s criticas de Beck 
A obra de Jackob Sigismund Beck 
(1761-1840), autor de monumental Com- 
pzndio esclarecedor dos escritos criticos 
do senhor professor Kant, a conselho do 
prbprio, em tris volumes, publicados entre 
1793 e 1796, foi substancialmente uma obra 
de epigono. 
Ele sustenta que, para se compreender 
Kant, C precis0 identificar o "ponto de vista" 
central do qual brotam todos os problemas 
especificos conseqiientes. 
Entretanto, comeqando como fie1 ex- 
positor de Kant, Beck depois comeqa a 
se afastar, eliminando a "coisa em sin e 
interpretando o objeto como produto da 
representaqio. 
0 "verdadeiro ponto de vista" para 
compreender Kant C a unidade sinte'tica 
da apercep~iio como atividade diniimica. E 
dessa "atividade"