história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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da unidade sintCtica da 
apercepqiio que se pode derivar niio somente 
a "forma", mas tambCm a "matCrian do 
conhecimento. 
A obra de Beck foi concluida em 1796. 
Mas, em 1794, jh fora publicada a Dou- 
trina da ci8ncia, de Fichte, bem mais nova 
e ousada, que fazia frutificar as tentativas 
mencionadas de repensar Kant e, ao mesmo 
tempo, as superava claramente com a cria- 
$50 do idealismo, do qual devemos tratar 
amplamente agora. 
FUNDAGAO 
E ABSOLUTIZAGAO 
ESPECULATIVA 
DO IDEALISM0 
"AS perguntas que a filosofia niio responde, deve- 
se responder que elas nso devem ser postas da- 
quele modo". 
Georg Wilhelm Friedrich Hegel 
Capitulo quarto 
Fichte e o idealism0 etico 47 
Capitulo quinto 
Schelling e a gestaqiio romfntica do idealism0 77 
Capitulo sexto 
Hegel e o idealism0 absoluto 95 
e o idealismo ktico 
I. vida e as obras 
* Johann Gottlieb Fichte nasceu em Rammenau em 1762. Depois de ter fre- 
quentado o gin8si0, em 1780 se inscreveu na faculdade de teologia em Jena, da 
qual passou depois para Leipzig. De I788 a 1790 foi preceptor em Zurique. 
Em 1792, depois da "i1uminac;ao" provocada pela leitura da Critica da raza"o 
prdtica, publicou o Ensaio de uma critica de toda revela@o, que marcou seu sucesso. 
Em 1794, por indicac;%o de Goethe, foi chamado a Universidade 
de Jena, onde permaneceu at4 1799 e comp6s obras de grande Primeira fase 
ressonanria: Fundamentos da doutrina da ci&ncia (1 794), Discursos + 5 7 
sobre a missao do douto (1 794), Fundamentos do direito natural 
(1 796), Sistema da doutrina moral (1 798). Em 1799 explodiu a "pol@mica sobre o 
ateismo", em que Fichte, envolvido, foi obrigado a pedir demisdo. 
* Transferiu-se para Berlim, onde conheceu Schlegel, Schleiermacher e Tieck, e 
comp6s o Estado comercial fechado (1 8OO), A miss40 do homem (1 8OO), a Introdu- 
@o c3 vida beata (1 806). 0 s Discursos ;i na@o alema de 1808, em 
que afirmava o primado espiritual do povo alem80, o levaram ao Segunda fase 
auge: em 1810 foi chamado a Universidade de Berlim, e tambem -+ 5 2 
foi eleito reitor. Morreu de cblera em 1814. 
Johann Gottlieb Fichte nasceu em 
Rammenau, em 1762, de pais muito pobres, 
de origem camponesa. Em sua juventude 
conheceu a verdadeira e propria mistria, 
tendo sido guardador de gansos para ajudar 
a familia. Mas a misiria constituiu para ele 
uma elevada escola moral. Nunca se enver- 
gonhou de suas origens humildes, declaran- 
do varias vezes ter orgulho delas. 
Foi graqas a um nobre e rico concida- 
d i o (0 bar50 von Miltitz) que Fichte p6de 
iniciar seus estudos. 0 nobre ficou admirado 
ao ver o rapaz repetir perfeitamente um 
sermio (ao qual ele niio pudera assistir), 
compreendendo ent5o encontrar-se diante 
de um talento excepcional e, por isso, deci- 
diu ajuda-lo. 
Depois de ter freqiientado o ginasio 
em Pforta, em 1780, Fichte se matriculou 
na faculdade de teologia em Jena, de onde 
se transferiu para Leipzig. Foram anos du- 
rissimos, porque as contribuiq8es de von 
Miltitz eram escassas e, mais tarde, cessaram 
completamente. Fichte vivia de aulas parti- 
culares, exercendo a humilhante funqiio de 
preceptor. 
De 1788 a 1790, foi preceptor em 
Zurique, onde conheceu Joana Rahn, que 
mais tarde se tornou sua esposa. 0 ano de 
1790 foi decisivo para sua vida. At6 aquele 
momento, ele fora vagamente spinoziano 
e determinista. Mas, altm de Spinoza, tam- 
btm nutrira interesse por Montesquieu e 
4 8 Segunda parte - FuvdnG&o e aLsolutiza+o especulativa do idenlisrno 
pelas idtias da Revolugio Francesa. Conhecia 
Kant apenas de nome. Mas um estudante 
pediu-lhe aulas exatamente sobre Kant. E, 
assim, Fichte foi obrigado a ler as obras do 
filosofo de Konigsberg, que constituiram 
para ele uma autintica revelag50. A Critica 
da razio pratica descerrou-lhe os insuspei- 
tados horizontes da liberdade, sugeriu-lhe 
novo sentido da vida e o fez sair do pessimis- 
mo fechado que o oprimia. Em Kant, Fichte 
descobriu a chave de sua pr6pria voca@o e 
de seu proprio destino. Apesar da carincia 
de meios materiais e de ganhar a duras penas 
o que necessitava para sobreviver, escreveu 
que aquela descoberta o tornou interiormen- 
te riquissimo, a ponto de sentir-se at6 "um 
dos homens mais felizes do mundo". 
Fichte compreendeu t i o bem o pensa- 
mento de Kant que no ano seguinte, depois 
de uma estadia em Vars6via (para onde se 
dirigira na qualidade de preceptor), ji estava 
em condigoes de escrever a obra intitulada 
Ensaio de critica de toda revela@o, na qual 
aplicava de mod0 perfeito os principios 
do criticismo, apresentando-a ao pr6prio 
Kant, em Konigsberg. Esse escrito marcou 
o destino de Fichte. 0 editor Hartung o pu- 
blicou em 1792, por intercessio de Kant, 
mas sem imprimir o nome do autor, de 
mod0 que foi confundido com trabalho do 
pr6prio Kant. Quando Kant interveio para 
revelar a verdade e o nome do autor, Fichte 
tornou-se repentinamente ctlebre. Jb em 
1794, por indicagao de Goethe, foi chamado 
A Universidade de Jena, onde permaneceu 
at6 1799. 
Esse period0 constitui seus anos doura- 
dos, os anos de sucesso e de popularidade, 
com as obras que tiveram maior ressonhcia, 
entre as quais recordamos: os Fundamentos 
da doutrina da ciBncia (1794), os Discursos 
sobre a missio do erudito (1794), os Funda- 
mentos do direito natural (1796) e o Sistema 
da doutrina moral (1798). 
Em 1799 explodiu acalorada poli- 
mica sobre o ateismo, na qual Fichte foi 
envolvido, sobretudo por causa de artigo 
de seu discipulo Forberg. Fichte sustentava 
que Deus coincide corn a ordem moral do 
mundo e que, portanto, nao se pode duvidar 
de Deus. Forberg, portm, ia alim, susten- 
tando que era possivel 1-60 crer em Deus e, 
n i o obstante, ser religiose, porque, para 
ser religioso, basta crer na virtude (e, por- 
tanto, se podia ser religioso at6 sendo ateu 
ou agn6stico). A polimica degenerou, em 
virtude do comportamento imprudente de 
Fichte em relagao 2 autoridade politica e i 
sua atitude orgulhosa, tanto que, no fim das 
contas, o fil6sofo foi obrigado a apresentar 
sua demissao. 
Fichte entiio se transferiu para Ber- 
lim, onde estreitou amizade (alibs, n i o 
duradoura) com os romgnticos (Schlegel, 
Schleiermacher, Tieck), e passou a viver 
dando aulas particulares. Em 1805 foi cha- 
mado a Universidade de Erlangen, que teve 
de deixar depois da paz de Tilsit, porque a 
cidade foi perdida pela Prussia. Sua ativida- 
de cultural e politica prbtica e o programa 
por ele apresentado nos Discursos a nag20 
alem4 de 1808, em que defendia a tese de 
que a Alemanha se recuperaria da derrota 
Capitulo quarto - Fichte e o idealismo Ctico 49 
politico-militar mediante renascimento 
moral e cultural, e afirmava inclusive o pri- 
mado espiritual do povo alem50, levaram 
novamente Fichte ao auge. Em 1810, com 
a fundagiio da Universidade de Berlim, foi 
chamado pel0 rei como professor efetivo, e 
chegou a ser eleito reitor. Morreu em 1814 
de cblera, contagiado pela mulher, que con- 
traira a doenga cuidando dos soldados nos 
hospitais militares. 
As obras do periodo berlinense mar- 
cam, no pensamento de nosso filosofo, uma 
reviravolta notivel do ponto de vista te6rico. 
AlCm do Estado comercial fechado (1 goo), 
recordamos: A missio do homem (1800), a 
Introdu@o a vida bem-aventurada (1 806) 
e os T r a ~ o s fundamentais da e'poca presente 
(1806). Mas devemos destacar sobretudo as 
inumeraveis reelaborag6es da Doutrina da 
cibncia. Fichte reescreveu essa obra durante 
toda a sua vida. 0 s estudiosos chegaram a 
contar cerca de doze e att quinze escritos 
que constituem reelaboraq6es explicitas 
ou que podem ser considerados nessa 6tica 
(muitos deles publicados somente depois 
da morte do filosofo). S2o importantes as 
reelaborag6es de 1801, 1804, 1806, 1810, 
1812 e 18 13, nas quais,