história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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entre 
os homens. Ele deve se empenhar niio so- 
mente em fazer progredir o saber, mas em 
ser moralmente melhor e, nesse sentido, com 
sua atividade e seu exemplo, deve promover 
o progresso da humanidade. 
4 Significado 
I I 
e funC~o do direito 
A multiplicidade de homens implica 
tambCm o surgimento do "direito" e do 
"Estado". Visto que o homem n io esta so, 
mas C parte de uma "comunidade", C ser 
livre ao lado de outros seres tambCm livres, 
e deve, portanto, limitar sua liberdade pelo 
reconhecimento da liberdade alheia. Mais 
precisamente, todo homem deve limitar sua 
propria liberdade, de mod0 que todos e cada 
um possam igualmente exercer a sua. Assim, 
nasce o "direito". 
0 direito fundamental C aquele que 
cada homem tem B liberdade (aquela li- 
berdade que C concretamente co-possivel 
no contexto de sociedade feita de homens 
livres). 
0 segundo direito muito importante C 
o da propriedade. Mas, a proposito desse 
direito. Fichte manifesta idCias modernas 
e intekssantes. Cada qual tem direito a 
poder viver mediante seu proprio trabalho. 
Nascido de um contrato social e, portanto, 
do consenso das vontades dos individuos, 
o Estado deve garantir a quem C incapaz 
a possibilidade de sobrevivtncia, a quem C 
capaz a possibilidade de trabalhar e, por fim, 
tambtm deve impedir que alguCm viva sem 
trabalhar. Como concebido pel0 filosofo, 
portanto, o Estado garante trabalho para to- 
dos e impede que existam pobres e parasitas. 
Na obra 0 Estado comercial fechado, Fichte 
sustenta que o Estado, a fim de alcanqar os 
objetivos apontados, pode, se necesshrio, 
fechar o comircio com o exterior ou regula- 
lo a fim de assumir seu monopolio. 
ws ~ 0 papel histbrico 
- 
*I1111 da naqZio alemZi 
A essas posig6es socialistas esta ligado 
o ideal cosmopolita que Fichte defendeu por 
certo periodo, inspirando-se nos ideais des- 
pertados pela Revoluqiio Francesa. Mas os 
acontecimentos historicos aos quais assistiu 
na 6ltima fase da vida o convenceram de que 
o impulso para o progresso da humanidade 
niio viria do povo franc&, sob a guia de Na- 
poleiio, que agia como dispota e pisoteava 
a liberdade, e sim do povo alemiio, militar- 
mente derrotado e politicamente oprimido 
e dividido. 0 povo alemiio reunificado - e 
so o povo alemiio - teria podido cumprir 
essa missio. 0 s Discursos a na@o alemi 
terminam assim: "Conhecemos nos algum 
povo que se assemelhe a este nosso, que foi 
o progenitor da civilizaqiio moderna e que 
nos suscite a mesma confian~a? Creio que 
todo aquele que niio se entregue as fantasias, 
mas pense, refletindo e discernindo, deve 
responder com um 'nio' a tal pergunta. Por- 
tanto, niio h i outro caminho: se perecerdes, 
toda a humanidade perecerh, e nunca mais 
ressurgirh". 
Nem C precis0 recordar as funestas ins- 
trumentalizaq6es politicas as quais essas 
palavras deram origem. Em seu contexto 
original, porCm, elas tinham significado 
diverso, isto 6, aquele significado que toda 
na@o que ressurge 6 levada a atribuir a si 
mesma. Foi nesse sentido, por exemplo, que 
ressoou o significado do Primado moral 
e civil dos italianos, de Vicente Gioberti. 
Todavia, permanece o fato de que o escrito 
de Fichte ofereceu amplos elementos 2i ideo- 
logia do pangermanismo. 
Capitdo quarto - Fichte e o idealism0 Ctico 5 7 
do p e n s a m e n t o de Fichte (I 800-1 8 I 4) 
A filosofia de Fichte, apos a "pol6mica sobre o ateismo", idea,ismo 6 
revela evidentes mudanqas, de notavel relevo e porte, que se aprofundado 
desenvolvem segundo um aprofundamento progressivo do idea- em sentido 
lismo em sentido metafisico e acentuadamente mistico-religioso. metafisico 
Na exposi@o da Doutrina da ciencia de 1801, na base de tudo + § 1-2 
existe o absoluto, que se manifesta formalmente em si como ra- 
zao, como identidade que infinitamente se diferencia de saber e de ser; o absoluto 
e assim cindido do saber absoluto, o qual, para ser superado, deve ser posto na 
"evid@ncia" da luz da unidade divina. 
~Quan to a instiincia religiosa, ja notavel na Missa'o do 
homem, encontra sua express80 mais tipica na Introdu@o d A instsncia 
vida beata, onde se afirma que na vida e nas aq6es do homem religiosa 
devoto a Deus nao e o homem que age, mas o proprio Deus; + § 3 
a propria ciencia torna-se uma especie de uniao mistica com o 
absoluto. 
Rela+es e d i f e ~ e n ~ a s 
entre as d ~ a s fases 
d a filosofia d e Fichte 
A produqiio filosofica de Fichte pos- 
terior ii "pol~mica sobre o ateismo", ou 
seja, posterior ao momento em que se 
estabeleceu em Berlim (1800), apresenta 
evidentes mudanqas de pensamento, de 
nothvel importiincia e alcance, a ponto de 
alguns estudiosos falarem de duas filosofias 
de Fichte. 
0 filosofo, entretanto, defendeu a uni- 
dade de seu pensamento. 
A verdade talvez esteja no seguinte: 
Fichte sempre sustentou (e, provavelmente, 
com perfeita boa-fC) ter exposto em seus 
livros as mesmas coisas que Kant dissera, 
so que expressando-as de mod0 diferente; 
entretanto, aconteceu que, expressas de 
mod0 diferente, as coisas ditas por Kant 
tornaram-se diferentes; o mesmo pode-se 
dizer da segunda filosofia de Fichte em re- 
laqiio i primeira. Procurando dizer de mod0 
novo as coisas ditas entre 1793 e 1799, os 
escritos que viio de 1800 em diante acabam 
por dizer coisas novas. 
As novidades se desenvolvem segun- 
do duas direqbes fundamentais, precisa- 
mente: 
1) segundo aprofundamento progres- 
sivo do idealism0 em sentido metafisico; 
2) em sentido acentuadamente mistico- 
religioso. 
e m sentido metafisico 
Em 1798, no Sistema da moral, Fichte 
j6 escrevia: "0 saber e o ser niio se cindem 
fora da conscihcia e independentemente 
dela, mas cindem-se somente na conscihcia, 
porque essa cis20 6 a condiqiio da possibi- 
lidade de todo conhecimento, e somente 
mediante essa cis50 C que surgem um e 
outro. Niio h6 nenhum ser seniio atravCs 
da conscitncia, e fora dela niio h i tambCm 
nenhum saber que seja termo meramente 
subjetivo e em movimento em direqiio ao 
seu ser. Pelo simples fato de poder dizer-me 
'eu', sou obrigado a cindir: por outro lado, 
s6 porque digo 'eu', enquanto o digo, ocorre 
a cisiio. Portanto, estando a unidade assim 
58 Segunda parte - F ~ n d a c ~ o e nbsolut izas~o especulativa do idealismo 
cindida na base de todo conhecimento, e 
em conseqiiincia do qual o subjetivo e o 
objetivo siio inseridos imediatamente na 
conscitncia como unidade, 6 absolutamente 
= X, nHo podendo, em sua simplicidade, 
chegar de mod0 algum a consciincia". 
0 segundo Fichte, ao contririo, reve- 
la-se voltado para, a medida do possivel, 
captar essa incognita X e garantir-lhe 
estatura ontologica tal que ela acaba por 
tornar-se Deus acima do Eu, um absoluto 
que C bem mais do que a ordem moral do 
mundo. 
A exposiqio da Doutrina da cibncia de 
1801 ja mostra claramente essa tendincia. 
Em uma carta, Fichte assim a resume: "[ ...I 
Minha nova Exposip50 [.. .] mostrara que C 
precis0 inserir na base o absoluto (ao qual, 
precisamente por se tratar do absoluto, n io 
se pode acrescentar nenhum atributo, nem 
o do saber nem o do ser, e tampouco o da 
indiferenqa do saber e do ser), e que esse 
absoluto se manifesta em si como razio, se 
quantifica, se divide em saber e ser; somente 
sob essa forma C que chega a uma identida- 
de do saber e do ser, que se diversifica ao 
infinito". 
Retorna assim a sombra de Spinoza, 
d? qual Fichte procura fugir desta maneira: 
"E s6 assim que se pode manter o 'Uno e 
o Todo', mas niio como em Spinoza, onde 
ele perde o 'Uno' quando vem ao 'Todo' e o 
'Todo' quando tem o 'Uno'. Somente a razio 
possui o infinito, porque nunca pode aferrar 
o absoluto. E somente o absoluto, que nunca 
entra na raziio sen20 formaliter, C a unidade, 
unidade que permanece somente qualifica- 
tiva