história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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e nunca quantitativa". Desse modo, o 
absoluto C cindido do saber absoluto (da 
doutrina da citncia): "0 saber absoluto [...I n io C o absoluto [...I. 0 absoluto nio 
C o saber nem o ser, nem a identidade nem a 
indiferenqa de ambos, mas C absolutamente 
o absoluto, pura e simplesmente". 
Na redaqio da Doutrina da cigncia, 
de 1804, o filosofo recorre att, alCm do 
conceito de unidade, tambCm ao conceito 
neoplatbnico de "luz", que, irradiando-se, 
cinde-se em ser e pensamento. Aqui, Fichte 
n io apenas distingue o absoluto do saber 
conceitual, mas sustenta que este insere-se 
para ser superado na "evidincia" propria 
da luz da unidade divina. Nas ultimas ex- 
posiqdes, Deus C concebido como ser uno 
e imutivel, ao passo que o saber torna-se 
a imagem ou esquema de Deus, "o ser de 
Deus fora do proprio ser", o divino que se 
espelha na consciincia, sobretudo no dever 
ser e na vontade moral. 
- 
no s e g u ~ d o Fichte 
Uma linha de pensamento aniloga ma- 
nifesta-se nas exposiqdes exotiricas, ou 
seja, populares, que sairam paralelamente 
nesse periodo. 
Na Miss20 do homem, Fichte da a fC 
extraordinario relevo, tanto que, em algu- 
mas piginas, parece-nos quase estar lendo 
Jacobi. 
No que se refere aos fundamentos, 
Fichte j i fala, ao invCs de Eu, de Vida, Von- 
tade eterna e Razio eterna: "Toda a nossa 
vida e' a sua vida. Nos estamos em sua miio 
e ai permanecemos - e ninguCm poderi dai 
nos arrancar. Nos somos eternos porque ela 
C eterna". 
Ainda nessa obra, Fichte chega a afir- 
mar que "somente o olhar religioso penetra 
no sinal da verdadeira beleza". 
A instiincia religiosa da dtima fase do 
" 
Densamento de Fichte encontra sua mais 
tipica expressiio na Introdu@o a vida bem- 
aventurada, de 1806, na qual o idealismo se 
colore com as tintas proprias do panteismo 
metafisico: "NHo ha absolutamente nenhum 
ser e nenhuma vida fora da vida divina ime- 
diata. Esse ser C encerrado e obscurecido de 
virios modos na consciincia, com base em 
leis proprias, indestrutiveis e fundadas na 
essincia da propria consciincia; mas, liberto 
desses inv6lucros e modificado somente pela 
forma do infinito, reaparece na vida e nas 
acdes do homem dedicado a Deus. Nessas 
aqdes, niio C o homem que age, e sim o pro- 
prio Deus, no seu ser intimo e originirio e 
em sua essincia, que age no homem e realiza 
sua obra por meio dele". 
Esta, segundo Fichte, seria a doutrina 
do Evangelho de Jo20, que corrigiria aque- 
le "erro essencial e fundamental de toda 
falsa metafisica e doutrina da religiio", 
que C a teoria da criaqHo a partir do nada, 
"principio originario do hebraismo e do 
paganismo". E mais: "A suposiqiio de uma 
criaqHo, especialmente em relaq3o a uma 
doutrina religiosa, C o primeiro passo em 
direqHo ao erro: a negaqio de tal criaqHo, se 
suposta por doutrina religiosa anterior, C o 
Capitulo quarto - Fichte e o idealism0 Ctico 59 
primeiro critirio da verdade de tal doutrina E assim, Fichte reinterpreta segundo 
religiosa. 0 cristianismo, especialmente seus proprios esquemas os conceitos do 
Jo50, o profundo conhecedor das coisas Verbo divino e do amor. A pr6pria cifncia 
de que falamos, encontrou-se neste ultimo torna-se uma espCcie de uni5o mistica com 
caso". o absoluto. 
A ultima especula@o de Fichte teve pouco eco. Na Doutrina da ciencia, de 
1794, os rom&-tticos, ao inves, haviam lido muitas de suas aspiragies, como o con- 
ceito de infinito e do incessante tender para o infinito, a redus80 
do nao-eu a uma projeqao do Eu, a proclama@o da liberdade A marca etica 
como significado ultimo das coisas. e a constante 
A constante do pensamento de Fichte foi em todo caso a do pensamento 
marca etica. 0 idealismo de Fichte e idealismo "etico" principal- de Fichte 
mente porque a lei moral e a liberdade s%o a chave que explica 45 ' 
a escolha que todo homem particular faz das coisas e da propria 
filosofia: escolhe o idealismo quem e livre, escolhe o dogmatismo objetivista (a 
filosofia que da proeminhcia 8s coisas em rela@o ao sujeito) quem na"o e espiri- 
tualmente livre. ' 
l i d 1 4 0 idealism0 de Fichte 
k idealismo "ktico" 
As ultimas especulag6es de Fichte ti- 
veram pouco eco. 0 sucesso da Doutrina 
da ciBncia de 1794 nao podia se renovar, 
porque naquela obra os romiinticos viram 
tambim muitas de suas aspiras6es, que ali 
eram mais sugeridas do que expressamente 
formuladas e proclamadas. Alim do que 
era dito, leram tambCm, nas entrelinhas, o 
que n5o era dito, de mod0 que a obra foi 
carregada de significados diversos. 
Eis o que os romiinticos leram nela: o 
conceit0 de infinito e do incessante tender ao 
infinito; a redus50 do n5o-eu a uma projeg5o 
(ou criagiio) do Eu e, portanto, o predominio 
do sujeito; a proclamas50 da liberdade como 
significado ultimo do homem e das coisas; 
a concepgiio do divino como algo que se 
concretiza no agir humano. 0 proprio con- 
ceito romiintico de "ironia" como continua 
autoprodug50 e auto-superas50 provim da 
dialitica de Fichte, pel0 menos no que se 
refere a formulag50 e i definig50 te6rica. 
Se, para compreender o homem Fi- 
chte, C preciso seguir toda a sua paribola 
evolutiva, para compreender o desenvol- 
vimento das idiias desse period0 6 preciso 
concentrar-se sobretudo na Doutrina da 
ciBncia de 1794 e nas idCias que est5o em 
sua base. Ademais, a marca e'tica expressa 
nessa obra e nas obras estreitamente ligadas 
a ela permaneceu a constante do pensamento 
de Fichte, o minimo denominador comum 
de toda a sua obra. 0 idealismo de Fichte C 
idealism0 "Ptico" ou "moral", n50 apenas 
porque a lei moral e a liberdade siio a chave 
do sistema, mas tambPm porque s5o a chave 
que explica a escolha que cada homem em 
particular faz das coisas e da propria filoso- 
fia: escolhe o idealismo quem C liure, escolhe 
o dogmatismo objetivista (a filosofia que d i 
proeminfncia i s coisas em relasao ao sujei- 
to) quem niio e' espiritualmente livre. 
60 Segunda parte - FuedaG60 e absolutizaG60 esperulativa do idealismo 
0 fundamento do sistema do saber, 
em grau de 
transformar a filosofia em "doutrina da cihcia", i 
o Eu puro, 
I 
atividade auto-intuitiva pura 
que, por meio da imaginagiio produtiva, 
livremente se autop6e 
e, autopondo-se, cria toda a realidade 
1. 0 Eu pde absolutamente a si mesmo (TESE) 
2. 0 Eu opde absolutamente a si, dentro de si, um ndo-eu (ANT~TESE) 
- r 
ir'l: 3. No Eu absoluto, o eu lrmrtado e o ndo-eu lrmitado limitam-se reciprocamente (S~NTESE) 
Atividade cognoscitiva: Atividade pritica: 
0 eu k de-terminado pelo ndo-eu 0 eu de-termina o ndo-eu 
a acdo real, - - - - - - 
I aue constitui nosso 
Capitdo quarto - Fichte e o idealismo Ctico 
Primeira introdu@io d doutrina do ci6ncia (1 797) 
Um manifesto do idealismo: o que 6 o idealismo e por que um homem o escolhe 
Para responder as criticas suscitaclos pelo suo Doutrina da ci$ncia de 1 794, Fichte empreen- 
de a publicagdo em portes no revisto 'Yornal filosofico", a portir de 1797, do pensamento ex- 
presso noquslo obro, expondo-o em umo forma nova s respondendo a problemas qua hovio 
levantado. 
Na primeira parte da obra, projetado por Fichte corn o titulo Ensaio ds urna nova exposic;do 
da doutrina da ci&ncn, estava contida a 1ntroduc;do qua opresantamos oqui integralmsnte, e 
qua o filho de Fichte, oo publicar os escritos do pa;, intitulou de Primeira introdu~60 b doutrina 
da cihncia, titulo qua parmoneceu con6nico. 
Esta Introduc;do constitui o "manifesto" do idealismo e Q opresentada corn orgljcia e notdvel 
cloreza . 
0 objetivo que Fichte se propde Q o de opresentar a id& de fundo do idealismo, o qua 
deveria sa impor como o cjnico sistemo filosofico coerente. 0 idealismo, sagundo Fichte, ndo ssria 
refutdvel; quem procuro refutd-lo, demonstra ndo entend&-lo. 0 motivo de fundo que impele a 
escolher o