história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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do espi- 
rito. Em suma, para Schelling, os proprios 
principios que explicam o espirito podem e 
devem explicar tambCm a natureza. 
Sendo assim, entso, aquilo que expli- 
ca a natureza,C a mesma intelighcia que 
explica o Eu. E precis0 transferir para a na- 
tureza aquela "atividade pura" descoberta 
por Fichte como a "essencia" do Eu. Desse 
modo, Scheling chega 2 conclus50 de que a 
natureza C produzida por uma inteligzncia 
inconsciente, que opera em seu interior, que 
se desenvolve teleologicamente em graus, ou 
seja, em niveis sucessivos, que mostram uma 
finalidade intrinseca e estrutural. 
0 grande principio da filosofia da 
natureza de Schelling C o seguinte: "A na- 
tureza deve ser o espir$o uisiuel, o espirito 
a natureza inuisivel. E aqui, portanto, na 
absoluta unidade do espirito em nos e da 
natureza fora de nos, que se deve resolver 
o problema de como C possivel uma natu- 
reza fora de nos". A natureza nada mais 
6 do que "inteligencia enrijecida em um 
ser", "sensag6es apagadas em um n5o-ser", 
"arte formadora de idCias que transforma 
em corpos". 
A natureza como 
desdobramento 
da intelig&cia inconsciente 
Se espirito e natureza derivam do 
mesmo principio, entiio devemos encon- 
trar na natureza aquela mesma dindmica 
de forga que se expande e de limite que se 
Ihe contrapde, que j6 encontramos no Eu 
segundo Fichte. Mas a oposigiio do limite 
s6 dettm momentaneamente a forga ex- 
pansiva, que acaba retomando seu curso 
para depois se deter em outro limite, e 
assim por diante. 
Ora, a cada fase constituida por tal 
encontro da forga expansiva com a forga 
limitante corresponde a produgio de um 
grau e de um nivel da natureza, que pouco 
a pouco se apresenta em patamares mais 
ricos e, portanto, hierarquicamente mais 
elevados. 0 primeiro encontro entre a for- 
ga positiva de expansso e a forga negativa 
de limitaqio da lugar a "matiria" (que, 
portanto, C produto diniimico de forqas). 
A retomada da expansiio da forga infinita 
positiva e o novo encontro com a forga 
negativa e limitadora da lugar iiquilo que 
se apresenta como "mecanismo universal" 
e como "processo diniimico" geral. 
Nesse ponto, explorando habilmente as 
descobertas da ciencia de sua Cpoca (da qual 
era estudioso atento, como ja recordamos), 
Schelling procura mostrar a manifestagiio 
move1 das forqas, bem como sua golaridade 
e oposi@o no magnetismo, na eletricidade 
e no quimismo. 
0 esquema identico de raciocinio vale 
para explicar o mais alto nivel da natureza, 
que C o nivel "orgiinico". A esse proposito 
Schelling recorre aos principios da "sensi- 
bilidade", da "irritabilidade" e da "repro- 
duqiio", em auge entre os cientistas de sua 
Cpoca, que ele faz corresponder, de mod0 
analogico, respectivamente ao magnetismo, 
ii eletricidade e a quimica, em nivel mais 
elevado, mas segundo a mesma diniimica. 
Em conclusiio, a natureza C constituida 
pela mesma e identica forqa (inteligencia 
inconsciente), que se desdobra da maneira 
como verificamos e que, pouco a pouco, se 
manifesta em planos e graus sempre mais 
elevados, at6 alcangar o homem, no qual se 
acende a conscihcia, quando a inteligencia 
chega a sua autoconscihcia. I 
4 A a l m a do mundo 
e a n a t ~ v e z a do h o w e m 
Desse modo, agora ficam claras certas 
afirmag6es de Schelling que se tornaram 
muito cklebres: "0 mesmo principio une a 
natureza inorgiinica e a natureza orgiinica", 
pois as coisas singulares da natureza cons- 
tituem como que os elos "de uma cadeia de 
vida, que se volta sobre si mesma e na qual 
todo momento C necessario para o todo"; 
aquilo que na natureza aparece como niio- 
vivo i apenas "vida que dorme"; a vida i 
"a respiragao do universo", ao passo que "a 
mat6r.a C espirito enrijecido". 
E compreensivel, portanto, que Schelling 
tenha podido repor no auge o antigo con- 
ceito de "alma do mundo" como "hipotese 
Unza an tga estampa, representando a Unwersrdade de [ e m . 
82 Segunda parte - FundaG&o e absolufiraG&o e ~ ~ e c ~ l a t i v a do idealismo 
para explicar o organism0 universal". Essa Por fim, o homem - que, considerado 
antiquissima figura teorica (que se tornou na infinitude do cosmo aparece fisicamente 
muito famosa de Platiio em diante), segundo como algo pequenissimo -, revela-se, ao 
Schelling nada mais C do que a inteligtncia contrario, como o fim ultimo da natureza, 
inconsciente que produz e rege a natureza, porque nele precisamente desperta o espiri- 
e que so se abre a consciEncia com o nasci- to, que em todos os outros graus da natureza 
mento do homem. permanece como que adormecido. 
111. Jdealismo transcendental 
e idealismo estCtico (1800) 
N o Sistema d o idealismo transcendental Schelling retoma o exame da filo- 
sofia da consci4ncia. Ele chama de "atividade real" a atividade originaria d o Eu, 
produtora ao infinito, enquanto chama de "atividade ideal" aquela que toma 
consci4ncia colidindo com o limite; o limite, com efeito, e ideal 
0 idealismo n o i m b i t o d o saber (objeto da filosofia tecnica), e real n o i m b i t o d o agir (objeto da filosofia pratica): a filosofia teorica e por isso 
+ 3 7-2 idealismo, enquanto a filosofia pratica e realismo, e apenas juntas 
elas formam o sistema completo d o idealismo transcendental. 
A mais elevada tarefa da filosofia transcendental consiste em mostrar a iden- 
tidade, inerente n o propr io principio, da atividade consciente e da inconsciente, e 
a atividade consciente-inconsciente presente tanto n o espirito quanto na natureza 
e a atividade estdtica: o mundo objetivo e, portanto, a poesia 
A filosofia primitiva e ainda inconsciente d o espirito, e o org%o universal da 
da arte filosofia e a filosofia da arte. E este o "idealism0 estetico" que 
-3 5 3-4 tanta impressao e tantos entusiasmos suscitou entre os contem- 
poraneos. 
, J r ii Partir do sMbjetivo 
para at i~gi l* o objetivo 
Uma vez esclarecido que a natureza 
nada mais C do que a historia da inteligtn- 
cia inconsciente, que, atravks de sucessi- 
vos graus de objetivaqiio, chega por fim a 
conscitncia (no homem), Schelling sentiu a 
necessidade de retomar o exame da filosofia 
da consciincia, ou seja, repensar a fundo a 
Doutrina da ciBncia de Fichte. Com efeito, 
depois de ter examinado como a natureza 
chega a inteligtncia, era precis0 rever como 
a inteligtncia chega ii natureza. 
E, ao fazer isso, tendo atras de si tudo o 
que Kant e Fichte j6 haviam dito em matiria 
de filosofia do espirito, Schelling concebeu e 
escreveu nada menos que uma obra-prima, 
0 sistema do idealismo transcendental, que 
Ihe saiu da pena quase perfeito. 
Eis como o fil6sofo anuncia o pro- 
grama da filosofia transcendental: "Par o 
objetivo em primeiro lugar e dele extrair 
o subjetivo C, como ja observamos, a fun- 
qiio da filosofia da natureza. Ora, se existe 
uma filosofia transcendental, niio Ihe resta 
seniio seguir o caminho oposto: partir do 
subjetiuo como primeiro e absoluto, e dele 
fazer deriuar o objetiuo. Desse modo, a fi- 
losofia da natureza e a filosofia do espirito 
distinguiram-se segundo as duas possiveis 
diregoes da filosofia. E se toda filosofia deve 
fazer da natureza uma inteligtncia ou da 
inteligtncia uma natureza, dai deriva que 
Capitulo quint0 - Schelling e a gesta+o rom8nticn do idealism0 83 
a filosofia transcendental, a que cabe esta 
ultima funqio, C a outra cidncia fundamental 
necessaria da filosofia". 
A "atividade realN 
e ~"atividade ideal" do EM: 
o ideal-realismo 
TambCm na construqio do idealismo 
transcendental, como na filosofia da nature- 
za, Schelling enfatiza a polaridade de forqas, 
seguindo o principio proprio de Fichte, 
oportunamente readaptado. 
0 esquema de raciocinio seguido por 
Schelling t o seguinte: o Eu t atividade 
originaria que se autopde ao infinito, ativi- 
dade produtora