história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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que se torna objeto para si 
mesma (e, portanto, C intuiqio intelectual 
autocriadora). Mas, para n i o ser apenas 
produtora, tornando-se tambCm produto, 
a produqio pura infinita que C propria do 
Eu "deve estabelecer limites ao seu proprio 
produzir" e, portanto, "opor algo a sin. 
Mas a atividade do Eu, enquanto C atividade 
infinita, estabelece o limite e depois tambCm 
o supera, gradualmente, em nivel sempre 
maior, como ja dissera Fichte. 
Schelling chama a atividade que produz 
ao infinito de "atividade real" (enquanto pro- 
dutora), ao passo que a chama de "atividade 
ideal" enquanto toma conscitncia, defron- 
tando-se com o limite. As duas atividades se 
pressup6em reciprocamente, "e dessa mutua 
pressuposiqio das duas atividades [. . .] deve- 
r6 ser derivado todo o mecanismo do Eu". 
Desse modo, porCm, os horizontes da 
Doutrina da cidncia de Fichte se ampliam e 
o idealismo subjetivo torna-se propriamente 
ideal-realismo, como diz Schelling nesta 
passagem: "A filosofia teorica t [...I idealis- 
mo, a filosofia priitica C realismo, e somente 
juntas formam o sistema completo do idea- 
lismo transcendental. Como o idealismo e 
o realismo se pressupdem mutuamente, o 
mesmo ocorre com a filosofia te6rica e a 
filosofia pratica; e, no prdprio Eu, e' ori- 
ginariamente uno e ligado aquilo que nds 
devemos separar em beneficio do sistema 
que estamos construindo". 
Devemos notar que, desse modo, 
Schelling acaba por estabelecer a filosofia 
transcendental como terceiro momento 
para alCm da filosofia te6rica e da filosofia 
priitica, mais precisamente como sua sintese. 
E, muito claramente, conclama a uma ati- 
vidade unitaria que esteja na base dos dois 
momentos do sistema. 
A atividade estLtica 
i s - " 
Essa nova perspectiva que se delineia 
pode ser mais bem compreendida com base 
em outro raciocinio, que Schelling tambtm 
apresenta, inteiramente andogo ao anterior. 
Na filosofia teorica, os objetos nos aparecem 
como "invariavelmente determinados", 
nossas representaqdes nos parecem determi- 
nadas por eles e o mundo nos parece algo 
enrijecido . fora . de nos; na filosofia pratica, 
ao contrario. as coisas nos aDarecem como 
variaveis e modificiiveis pelas nossas repre- 
sentaqdes, enquanto nos parece que os fins 
que nos propornos podem modifica-las. 
Existe ai contradiqio (pelo menos apa- 
rente), dado que no primeiro caso se exige o 
predominio do mundo sensivel sobre o pen- 
samento, ao passo que, no segundo caso, se 
exige predominio do pensamento (do ideal) 
sobre o mundo sensivel. Em suma, pareceria 
que, para ter a certeza teorica, nos teriamos 
de perder a priitica e, para ter a certeza prii- 
tica. nos teriamos de ~ e r d e r a te6rica. 
' Eis entio o g a i d e problema que se 
apresenta: "De que modo, ao mesmo tempo, 
as representa~bes podem ser pensadas como 
determinadas pelos objetos, e os objetos 
podem ser pensados como determinados 
pelas representa@es?" 
A resposta para o problema C a seguin- 
te: trata-se, diz Schelling, de algo mais pro- 
fundo do que a "harmonia preestabelecida" 
de que falava Leibniz, posto que se trata de 
identidade inserida no proprio principio: 
trata-se de atividade que, ao mesmo tempo, 
C consciente e inconsciente e que, como tal, 
estii presente tanto no espirito como na 
natureza e gera todas as coisas. Essa ativi- 
dade consciente-inconsciente C a "atividade 
estktica". Tanto os produtos do espirito 
como os da natureza s5o gerados por essa 
mesma atividade: "A combinacio de um e 
do outro (do consciente e do inconsciente), 
sem conscitncia, da o mundo real; com a 
conscitncia, d i o mundo estCtico (e espiri- 
tual). 0 mundo objetivo nada mais C do que 
a boesia brimitiva e ainda inconsciente do 
espirito; drgiio universal da filosofia - e 
a chave mestra de todo o seu edifizo - e' a 
filosofia da arte". 'f 
84 Segundu parte - F ~ n d a ~ ~ o e a b s o l ~ t i r a ~ ~ l o espec~lat iva do idealismo 
4 A atividude da urte 
e as curacterisficas 
da criaqho artisticu 
Na criagiio artistica se fundem, com 
efeito, o consciente e o inconsciente. 0 pro- 
duto artistic0 i, de fato, finito, mas mantim 
significagiio infinita. Nas obras-primas da 
arte humana encontra-se a mesma marca das 
obras-primas da arte cosmica. Assim, a arte 
torna-se "a unica e eterna revelagiio". 
E Schelling pode tambim se entregar 
aos mais audazes sonhos sobre urna huma- 
nidade futura que leve a cihcia de volta a 
fonte da poesia e crie nova mitologia, n io 
mais produto de um individuo, mas de 
urna estirpe regenerada: "Ora, se apenas 
a arte consegue tornar objetivo, com valor 
universal, tudo o que o filosofo so pode 
representar subjetivamente, deve-se espe- 
rar, para tirar ainda mais esta conclusiio, 
IV. P\ filosofia 
que a filosofia, assim como foi produzida e 
nutrida pela poesia na infincia do saber, e 
com ela todas as ciEncias que por seu meio 
s io levadas A perfeigiio, urna vez alcangada 
sua plenitude, como tantos rios retornariio 
ao oceano universal da poesia, do qual 
haviam saido. E niio 6 dificil dizer em geral 
qual seri o intermediirio do retorno da 
cicncia a poesia, visto que tal intermediario 
j i existiu na mitologia, antes que ocorresse 
essa separagio, que agora parece inconci- 
liivel. Mas como possa nascer urna nova 
mitologia, que niio seja criagio de um poeta 
individual, e sim de uma nova estirpe, que 
represente como que um s6 poeta, esse e' 
problema cuja solu@o s6 se deve esperar 
dos futuros destinos do mundo e do curso 
posterior da histdria". 
Esse i o "idealismo estitico" que tanta 
impress20 e tantos entusiasmos suscitou 
entre os contempor~neos, mas que, como 
todos os sonhos, embor , durou 
somente por breve tempo. 
da identidade 
A concep@o da intuisao estetica, como capta~ao da unidade do ideal e do 
real, implicava ja urna concep@o do absoluto como "identidade originaria" de 
Eu e nao-eu, sujeito e objeto, espirito e natureza. 0 absoluto 4, 
o absoluto portanto, esta identidade originaria de ideal e real, e a filosofia 
jdentidade e saber absoluto do absoluto. 
originaria 
de ideal e real A identidade absoluta e infinita e na"o sai nunca fora de si e, 
4 3 1-2 portanto, tudo aquilo que existe, existe, de algum modo, nela e 
e "identidade": a identidade absoluta e definitivamente o Uno- 
Todo, fora do qua1 nenhuma coisa existe por s i mesma. 
Para resolver a grande dificuldade de explicar como e por que da identida- 
de infinita nasqam a diferenciaqa"~ e o finito, Schelling retoma o antigo conceit0 
gnostico, aceito no passado pelo misticismo alemao, da "queda": 
DO infinito a existgncia das coisas e sua origem supBem uma "queda" origi- 
ao finito naria, uma "separa@oM em re1aqa"o a Deus. 6 este o tema central 
4 § 3 da fase "teosofica" do pensamento de Schelling. 
A ruz&o como ubsoluto ideal e o real em sua unidade, e a defini@o da 
filosofia transcendental como ideal-realism0 
j i implicavam claramente nova concepgio 
Essa concepgHo da arte, ou melhor, da do absoluto, que deveria abandonar as ex- 
intuigiio estCtica, como aquilo que capta o press6es kantianas e fichteanas unilaterais, 
Capitulo quinto - Schellincj e a yestaciio rom&ntira do iclenlistno 8 5 
rn ldentidade absoluta. Partindo do 
Eu absoluto de Fichte, que e Eu = Eu, 
o jovem Schelling elabora sua con- 
cepc;%o do absoluto como identidade 
origindria de Eu e n%o-eu, sujeito e 
objeto, consciente e inconsciente, 
espirito e natureza. 0 absoluto 6 esta 
identidade originaria de ideal e real, 
e a filosofia 6 saber absoluto do ab- 
soluto, ao qua1 nos elevamos apenas 
corn urna intui@o originaria. 
A identidade absoluta e infinita e r@o 
sai nunca fora de si, e tudo aquilo que 
existe, existe, de algum modo, nela e 
e "identidade": a identidade absoluta 
6 definitivamente o Uno-Todo, fora do 
qua1 nen huma coisa