história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)
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história da filosofia - volume 5 (giovanni reale - dario antiseri)


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o circulo, no qual principio e fim 
coincidem de mod0 dinsmico, ou seja, como 
movimento em espiral no qual o particular C 
sempre posto e sempre resumido dinamica- 
Capitulo sexto - tlegel r o idealismo alsoluto 103 
mente no universal; o ser C sempre resumido 
no dever ser e o real C sempre resumido no 
racional. Essa C a novidade que Hegel con- 
quista, permitindo-lhe superar claramente 
Fichte. 
Analogamente, tambim C compreensi- 
vel a novidade que permitiu a Hegel superar 
igualmente Schelling. 0 espirito niio C unum 
atque idem, como algo que, subrepticia e 
extrinsecamente, se imp6e a um material 
diferente, e sim "unum atque idem que se 
plasma em figuras sempre diversas", e n i o a 
repetiqiio de alguma coisa idtntica, privada 
de diversificaqiio real. 0 espirito hegeliano, 
portanto, C igualdade que se reconstitui 
continuamente, ou seja, unidade-que-se-faz 
precisamente atrave's do multiple. Nessa 
concepqiio, a quietude t somente "o inteiro 
do movimento". Sem movimento, a quietu- 
de seria a quietude da morte, n i o da vida. A 
permanencia n i o C a fixidez, que C sempre 
inircia, e sim a verdade do dispersar. 
6 espirito como processo 
que se autocria em sentido global 
Estamos agora em condiq6es de enten- 
der que, para Hegel, tudo o que dissemos 
vale para o absoluto e tambCm para cada 
momento particular da realidade (ou seja, 
vale para o real, tanto em seu todo como 
em suas partes), porque o absoluto hege- 
liano C de tal forma "compacto" que exige 
necessariamente a totalidade das partes, 
sem nenhuma exclusiio. Cada momento do 
real C momento indispemavel do absoluto, 
porque este se faz e se realiza em cada u m 
e em todos esses momentos, de mod0 que 
cada momento torna-se absolutamente ne- 
cessario. Vejamos um exemplo, tomando 
um botiio, a relativa flor e o fruto que dai 
deriva. No desenvolvimento da planta, o 
botio C de-terminagiio e, portanto, negagiio. 
Mas essa determinaqiio 6 tirada (ou seja, su- 
perada) pelo florescimento, o qual, porim, 
enquanto nega essa determina~iio, tambtm 
a "verifica", enquanto a flor C a positivida- 
de do botiio. Por seu turno, portm, a flor 
C de-terminaqio, o que, portanto, implica 
negatividade, que por sua vez C tirada e 
superada pelo fruto. E, nesse processo, 
todo momento C essential para o outro e a 
vida da planta e' esse proprio processo, que 
pouco a pouco p6e os varios conteudos, ou 
seja, os varios momentos, e pouco a pouco 
os supera. 
0 real, portanto, C um processo que se 
autocria enquanto percorre seus momentos 
sucessivos, e no qual o positivo C o proprio 
movimento, que C auto-enriquecimento 
progressivo (de planta a botio, de botio a 
flor, de flor a fruto). 
6 processo tr ibdico do espirito 
em ~entid~~~circular"dialktico 
Todavia, ainda h i outro ponto muito 
importante a destacar. Hegel salienta que o 
movimento proprio do espirito C o "movi- 
mento do refletir-se em si mesmo"; trata-se 
do sentido de "circularidade" de que ja 
falamos. E Hegel distingue trts momentos 
nessa "reflex50 circular": 
1) primeiro momento, que ele chama 
o do ser "em si"; 
2) segundo momento, que constitui o 
"ser outro" ou "fora de si"; 
3) terceiro momento, que constitui o 
"retorno a six ou o "ser em si e para sin. 
0 "movimento" ou o "processo" auto- 
produtivo do absoluto tern portanto ritmo 
triadico, que se expressa em um "em sin, em 
um "fora de si" e em umC'para sin (ou "em 
si e para si"). 
Vejamos um exemplo particular, apre- 
sentado pel0 proprio Hegel: "Se [...I o 
embriiio C em si o homem, ele,entretanto, 
n i o o C para si; para si s6 o C como raziio 
desdobrada" [...I, e somente essa C sua 
realidade efetiva. A semente C em si a plan- 
ta, mas ela deve morrer como semente e, 
portanto, sair fora de si, a fim de poder se 
tornar, desdobrando-se, a planta para si (ou 
em si e para si). E os exemplos poderiam se 
multiplicar A vontade, visto que esse pro- 
cesso se verifica em todo momento do real, 
como dissemos. 
Todavia, em nivel elevado, isso tam- 
bCm se verifica no caso do real visto como 
"inteiro". Assim, fica claro por que Hegel 
fala do absoluto tambCm como de circulo 
de circulos. 
Visto como inteiro, o "circulo" do 
absoluto tambem marca seu ritmo uelos 
trts momentos j5 especificados (o em-si, o 
fora-de-si e o retorno-a-si), momentos que 
s i o respectivamente denominados "idCian, 
"natureza" e "espirito" (em sentido forte). E 
como no processo que leva do germe ao ho- 
mem, atraves do desdobrar-se do primeiro, 
C semure a mesma realidade aue se desen- 
volve, concretizando-se e entiio voltando a 
104 Segunda parte - Fundacdo e absolutizac&o especulativa do ideulislno 
si mesma, e o mesmo ocorre tambCm com 
o absoluto: a idiia (que i o logos, a racio- 
nalidade pura e a subjetividade em sentido 
idealista, como veremos mais amplamente 
adiante) tem em si o principio do seu pr6prio 
desenvolvimento e, em funqiio dele, primeiro 
se objetiva e se faz natureza, "alienando- 
sex, e depois, superando essa aliena@o, 
retorna a si mesma. Por isso, Hegel pode 
dizer perfeitamente que o espirito C a idiia 
que se realiza e se contempla por meio de 
seu pq6prio desenvolvimento. 
E compreensivel, portanto, a triplice 
distinqiio da filosofia hegeliana em: 
1) Ldgica; 
2) Filosofia da natureza; 
3) Filosofia do espirito. 
A primeira estuda a "idiia em si", a 
segunda o seu "alienar-se" e a terceira o 
momento do "retorno a si". Eis um esquema 
de ilustraqiio e resumo, que pouco a pouco 
esclareceremos: 
Absoluto 
(= idkia) 
1. IdCia em si (= logos), estudada 
pela Logica 
2. IdCia fora de si (= natureza), 
estudada pela Filosofia da 
natureza. 
3. IdCia que retorna a si ou em si 
e para si (= espirito), estudada 
pela Filosofia do espirito 
f\19uns corolhrios essenciais 
Concluamos esta caracterizaqio pre- 
liminar do absoluto hegeliano com alguns 
coroliirios importantes e famosos. 
Na Filosofia do direito, Hegel escreveu: 
"Tudo o que i real C racional e tudo o que C 
racional C real". Isso significa que a idCia niio 
C separiivel do ser real e efetivo, e sim que o 
real ou efetivo 6 o mesmo desenvolver-se da 
idiia e vice-versa. Para atenuar o sabor do 
paradox0 de suas afirmaq6es (cujas implica- 
q6es veremos mais adiante), Hegel explicou 
que essa sua afirmaqiio diz de mod0 filoso- 
fico a mesma coisa que se diz em religiio 
quando se afirma que existe um govern0 
divino do mundo e, portanto, que aquilo 
que acontece i querido por Deus, e que Deus 
6 o que existe de mais real. Contudo, s6 se 
compreende perfeitamente o sentido dessa 
afirmaqiio importantissima considerando o 
fato de que, para Hegel, qualquer coisa que 
exista ou aconteqa niio esti fora do abso- 
luto, mas i um insuprimivel momento dele. 
0 mesmo significado tem a afirmaqiio 
de que "ser e dever ser coincidem": o que 6 , 
C o que devia ser, porque tudo o que existe 
6 precisamente momento da idCia e do seu 
desenvolver-se (o que acontece C sempre o 
que merecia acontecer). 
Doravante torna-se claro tambim o 
chamado "panlogismo" hegeliano, ou seja, 
a afirmaqiio de que "tudo C pensamento". 
Isso niio significa que todas as coisas t2m 
pensamento como o nosso (ou consciincia 
como a nossa), e sim que tudo 6 racional en- 
quanto i determina@o de pensamento. Essa 
afirmaqiio, explica Hegel, corresponde a afir- 
maqiio dos antigos segundo a qua1 o Nous 
(ou seja, a Inteligincia) governa o mundo. 
O "negative" como momento 
dialktico qMe leva o espirito ao positivo 
Resta o dtimo ponto a esclarecer: a 
importincia desempenhada pelo "negativo" 
na concepqiio hegeliana do espirito. 
A vida do espirito n io i a que se es- 
quiva da morte, e sim aquela que "suporta 
a morte e nela se mantim". 
0 espirito "s6 conquista sua verdade 
com a condiqiio de encontrar a si mesmo na 
devastaqiio