história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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"se 
todo sucesso contCm em si uma necessidade 
racional, se todo acontecimento C a vit6ria 
do 'logico' ou da 'idkia', que nos ajoelhemos 
logo, entiio, e percorramos ajoelhados a 
escada dos sucessos". 
Siio tres as atitudes que Nietzsche dis- 
tingue diante da historia. 
a) Existe a hist6ria monumental, que 
6 a historia de quem procura no passado 
modelos e mestres em condiqdes de satisfazer 
suas aspiraqdes. 
b) Existe a hist6ria antiquaria, que t 
a historia de quem compreende o passado 
de sua propria cidade (as muralhas, as 
festas, os decretos municipais etc.) como 
fundamento da vida presente; a hist6ria 
antiquaria procura e conserva os valores 
constitutivos estiveis nos quais se radica a 
vida presente. 
c) E, por fim, existe a hist6ria critica, 
que 6 a historia de quem olha para o pas- 
sado com as intenqdes do juiz que condena 
e abate todos os elementos que constituem 
obsticulos para a realizaqiio de seus pr6- 
prios valores. Esta ultima foi a atitude de 
Nietzsche diante da hist6ria. 
E essa C a raziio pela qual ele combate 
o excesso ou "saturaqiio de historia": " 0 s 
instintos do povo siio perturbados por esse 
excesso e o individuo, niio menos que a to- 
talidade, C impedido de amadurecer". 
0 afastamento 
em relaG60 a S c h o p e n h a ~ e r 
Nesse meio tempo, porCm, Nietzsche 
vinha amadurecendo seu afastamento de 
Schopenhauer e mais ainda de Wagner. 
Esse distanciamento C testemunhado por 
obras como Humano, muito hurnano, a 
Aurora e Gaia ciincia. Siio dois os tipos de 
pessimismo: 
a) o primeiro C o romiintico, ou seja, 
"o pessimismo dos renunciantes, dos falidos 
e dos vencidos"; 
b) o outro C o de quem aceita a vida, 
embora reconhecendo sua dolorosa tragi- 
cidade. 
Pois bem, em nome deste ultimo pes- 
simism~ Nietzsche rejeita o primeiro, o de 
Schopenhauer, que por toda parte cheira a 
resignaqiio e renuncia, e que C mais fuga da 
vida do que "vontade de tragicidade". Scho- 
penhauer "nada mais 6 do que o herdeiro 
da interpretagio cristi". 
Capi'tulo primeiro - flietzsche. Fidelldade h terra e trav\sm~ta@io de todos os valores 9 
Por outro lado, o afastamento em 
relag20 a Wagner foi um acontecimento 
ainda mais significativo e doloroso para 
Nietzsche. Ele vira na arte de Wagner o 
instrumento da regeneragiio, mas logo teve 
de admitir que estava iludido. Em 0 caso 
Wagner, podemos ler: Wagner "lisonjeia 
todo instinto niilista (-budista) e o camufla 
com a musica, brandindo toda cristandade, 
toda forma de express20 religiosa da de'ca- 
dence". Wagner C uma doenga; "ele adoece 
tudo o que toca - ele adoeceu a mzisica". 
Wagner C "um g h i o histri6nicon, ele "est 
une ne'vrose". 
0 afastamento de Nietzsche em rela- 
$50 a seus dois grandes mestres significou 
o afastamento e distanciamento critic0 em 
relaq2o ao romantismo, com seu falso pessi- 
m i sm~ , a resignaq20 e a ascese quase crist2 
de Schopenhauer, com a retorica daquele 
"romantismo desesperado que murchou", 
que era Wagner. Significou distanciamento 
e critica daquelas pseudojustificag6es e ca- 
Niet 
znhio 
muflaeens metafisicas do homem e de sua 
hist6ca que s2o: 
1) o idealism0 (que cria um "anti- 
mundo" ): 
, , 
2) o positivismo (cuja pretens20 de en- 
jaular solidamente a vasta realidade em suas 
pobres malhas teoricas C ridicula e absurda); 
3) os redentorismos socialistas das mas- 
sas ou atravis das massas; 
4) e tambCm o evolucionismo (alias, 
"mais afirmado do que provado"). 
Desse modo. Nietzsche Darece basear 
suas reflexBes em raizes iluministas. E, com 
efeito, C o que acontece. A desconfianga em 
relaq2o as metafisicas, a abertura a respeito 
das ~ossiveis inter~retac6es "infinitas" do 
munbo e da historia e? portanto, a elimina- 
qio da atitude dogmitlca, o reconhecimento 
do limite e da finitude humana, e a critica a 
religigo s2o elementos que fazem Nietzsche 
dizer em Humano, muito humano: "Pode- 
mos levar novamente adiante a bandeira do 
Iluminismo" . 
Primeira parte - filosofia do S & M I O XJ)< a0 S&CMIO )<X 
MENSCHLICHES, 
ALLZUMENSCHLICHES. 
Friedrich Nietgchc 
Frontispicio 
da primeira edi@o (1 878) 
da obra Humano, demasiadamente humano. 
A critica ao idealismo, ao evolucionis- 
mo, ao positivismo e ao romantismo niio 
cessa. Essas teorias siio coisas &quot;humanas, 
muito humanas&quot;, que se apresentam como 
verdades eternas e absolutas que t precis0 
desmascarar. 
Mas as coisas niio ficam nisso, uma 
vez que Nietzsche, precisamente em nome 
do instinto dionisiaco, em nome daquele 
homem grego sadio do stculo VI a.C., que 
&quot;ama a vida&quot; e que t totalmente terreno, 
por um lado anuncia a &quot;morte de Deus&quot; e 
por outro realiza profundo ataque contra 
o cristianismo, cuja vit6ria sobre o mundo 
antigo e sobre a concepqiio grega do homem 
envenenou a humanidade. E, por outro lado 
ainda, vai As raizes da moral tradicional, 
examina sua genealogia, e descobre que ela 
C a moral dos escravos, dos fracos e dos 
vencidos ressentidos contra tudo o que C 
nobre, belo e aristocrhtico. 
Na Gaia ciincia, o homem louco anun- 
cia aos homens que Deus esta morto: &quot;0 que 
houve com Deus? Eu vos direi. Nds o ma- 
tamos - eu e v6s. Nos somos os assassinos 
dele!&quot; Pouco a pouco, por diversas razGes, 
a civilizaqiio ocidental foi se afastando de 
Deus: foi assim que o matou. Mas, &quot;matan- 
do&quot; Deus, eliminam-se todos os valores que 
serviram de fundamento para nossa vida e, 
conseqiientemente, perde-se qualquer ponto 
de referencia. 
Por conseguinte, com Deus desapare- 
ceu tambtm o homem velho, mas o homem 
novo ainda niio apareceu. Diz o louco em 
Gaia ciincia: &quot;Venho cedo demais, ainda 
niio t meu tempo. Esse acontecimento mons- 
truoso ainda esta em curso e nHo chegou aos 
ouvidos dos homens&quot;. 
A mope de Deus C fato que niio tem 
paralelos. E acontecimento que divide a his- 
t6ria da humanidade. N5o C o nascimento 
de Cristo, e sim a morte de Deus, que divide 
a historia da humanidade. 
E esse acontecimento, a morte de Deus, 
anuncia antes de mais nada Zaratustra, que, 
depois, sobre as cinzas de Deus, erguera a 
idCia do super-homem, do homem novo, 
impregnado do ideal dionisiaco que &quot;ama 
a vida&quot; e que, voltando as costas para as 
quimeras do &quot;ctu&quot;, voltari A &quot;sanidade da 
terra&quot;. 
A morte de Deus t um evento cosmico, 
pel0 qua1 os homens siio responsaveis, e 
que os liberta das cadeias do sobrenatural 
que eles pr6prios haviam criado. Falando 
sobre os padres, Zaratustra afirma: &quot;Tenho 
pena desses padres [...I, para mim eles siio 
prisioneiros e marcados. Aquele que eles 
chamam de redentor os carregou de gri- 
lhGes de falsos valores e de palavras loucas! 
Ah, se algutm pudesse redimi-10s de seu 
redentor! &quot; 
Esse, precisamente, t o objetivo que 
Nietzsche quer alcanqar com o Anticristo, 
que t uma &quot;maldi@o do cristianismo&quot;. Para 
ele, um animal, uma esptcie ou um individuo 
C pervertido &quot;quando perde seus instintos, 
quando escolhe e quando prefere o que lhe 
C nocivo&quot;. 
Capi'tulo primeiro - flietzsche. Fidelidade h terra e tra~smutaq60 de todos os valores 
spmh Zarathustra 
E n &d 
C 
Alk, und Keinen. 
h 
Irtadriah Xiet8rohr 
Frontispicio 
da primeira edi@o (1 883) da obra 
Assim falou Zaratustra. 
Todavia, pergunta-se Nietzsche, o que 
fez o cristianismo senio defender tudo o 
que C nocivo ao homem? 0 cristianismo 
considerou pecado tudo o que C valor e 
prazer na terra. Ele &quot;tomou partido de tudo 
o que e' fraco, abjeto e arruinado; fez urn 
ideal da contradi@o contra os instintos de 
conserva~iio da vida forte&quot;. 0 cristianismo 
6 a religiio da compaixiio. &quot;Mas a pessoa 
perde forqa quando tem compaixio [...I; a 
compaixzo bloqueia maciqamente a lei do 
desenvolvimento, que C a lei da sele~iio&quot;. 
Nietzsche vislumbra no Deus cristio &quot;a 
divindade dos doentes [...I; um Deus de- 
generado