história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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universal, n60 a servi~o do 
conhecimento, mas reduzida a fins prdticos, 
isto 6, egoistas, dos individuos e dos povos, o 
prazer instintivo da vida estaria provavelmsnte 
t6o enfraquecido em lutas generalizadas de 
extsrminio e em continuos migra@es de povos, 
qua, com o habit0 do suicidio, o individuo deve- 
ria talvez sentir o ultimo avan~o do sentimento 
do dever ao sstrangular, como o habitants das 
ilhas F idgi, como filho os proprios pais e como 
amigo o proprio amigo: pessimismo pratico, que 
poderia gsrar tambBm uma &tic0 cruel do mas-. 
sacre dos povos por piedade, o que de resto 
existe e existiu em todo lugar no mundo, onde 
ndo apareceu a art@ em urna forma qualquer, 
especialmente como religido e como ci&ncia. 
como remBdio e defesa contra aquele sopro 
pestilential. 
Diante deste pessimismo pratico Socrates 
& o prototipo do otimista teorico, qua na prdpria 
f& no perscrutabilidade da natureza das coisas 
em si atribui ao saber a ao conhecimento a forp 
de um remQdio universal, e no erro v63 o ma1 
em si. Penetrar nesses fundamentos e separar 
o verdadeira conhecimento do aparhncia e do 
err0 pareceu ao homem socratico a mais nobre, 
ou melhor, a unica vocagio verdadeiramente 
humana: assim como o mecanismo de conceitos, 
juizos e argurnenta@es de Socrates para frente 
foi considerado a afirrnac;ba suprema e o dom 
mais maravilhoso da natureza, acima de todas 
as outras faculdadas. BtC as a@es morais mais 
sublimes, os movimentos da compaixdo, do 
sacrificio, do heroism0 e a serenidade da alma 
semelhante a serenidade do mar, tdo dificil 
de atingir e qua o g rqo apolineo chamou de 
sofrosina, desde Socrates e dos sucessores e 
seguidores at& a Bpoca presents derivaram 
da dialbtica do saber e, por conseguinte foram 
Prirneira parte - F filosofia do SCCMIO XJ)< ao S&CM~O XX 
designados como possiveis de aprandar. Quem 
provou em si o prazar de um conhecimento 
socratico e intui como este procure abrapr o 
mundo inteiro dos fen6menos, ndo sentir6 ne- 
nhum estimulo, capaz de impelir 6 exist&ncia, 
mais violentamente do que aquele que ndo 
sinta o ansaio de realizar tal conquista e de te- 
cer a rede inpenetravelmente fechada. A quam 
esta em tal disposig50 de espirito o Socrates 
platbico aparece entdo como o mestre da uma 
forma totalmente novo da &quot;serenidade grega&quot; e 
da beatitude da exist&ncia, forma que procura 
efundir-se em qdes e encontrarci esta efusdo 
mais em influ&ncias mai&uticas e educativas 
exercidas sobre jovens nobres, com o objetivo 
de por fim suscitar o g&nio. 
Todavia, incitada por sua potente ilusdo, a 
ci&ncia corre agora sem trbgua at& seus limites, 
onde seu otimismo oculto na ess&ncia da logica 
se encalha. Uma vez que a pariferia do circulo da 
ciBncia tern infinitos pontos, e enquanto n8o se 
pode ainda de fato ver da que modo o circulo 
poderia ser completamenta medido, tarnbbm 
o homem nobre e de talent0 ainda antes de 
chegar ao meio de sua exist&ncia toca inevi- 
tavelmente tais pontos de limite da pariferia, 
onde se enrijece, fixando o olhar no inexpli- 
c6vel. Quando nests ponto v& com espanto 
como a 16gica nesses confins se snrola sobre 
si mesma e por fim morde sua propria cauda, 
entdo prorrompe a nova forma de conhecimen- 
to, o conhacimento trdgico, o qual, para poder 
ser apenas tolerado, tam necessidade da arts 
como prote~do e como remhdio. 
F. Ni~tzsche. 
da morte de Dsus 
&quot;Deus esM morto! [. . .] E nds o matamos! 
[.. .] Jamais houve uma o@o maior: todos 
aqueles qua virtio depois de nos ppeance- 
r60, por causa d ~ s t a a@o, a uma historia 
mais eiavada do que o Foram todas as his- 
tdrios at6 hoje!&quot; 
Ouvistes falar daquela homem louco que 
acendeu uma lanterna 6 Iuz clara do manhd, 
correu ao msrcado e se pas a gritar sem parar: 
&quot;Procuro Deus! Procuro Deus!&quot; E como justamente 
16 se encontravam reunidos muitos daquales 
que nSlo acreditavam em Deus, provocou gran- 
de riso: &quot;Perdeu-se, talvez?&quot;, disse um deles. 
&quot;Perdeu-se como uma crian~a?&quot;, disse outro. &quot;Ou 
estaria bem escondido? Tem medo de nos? Teria 
embarcado? Emigrou?&quot; -, gritavam e riam em 
grande confus8o.O homem louco pulou no meio 
deles e os fulminou com seus olhares: &quot;Para 
onde foi Deus?, gritou. Quero dizer-lhes! Fomos 
nos que o matarnos; vos e eu! Todos nos somos 
seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como 
podemos esvaziar o mar bebendo-o at& a ultimo 
gota? Quem nos deu a esponja para dissipar 
todo o horizonte? Qua faremos para desamarrar 
esta terra da corrente da seu sol? Onde & que 
se move agora? Onde 6 que nos movemos? 
Fora, totalmente sozinhos? 0 nosso n8o 6 um 
eterno precipitar? E para trds, pelos lados, na 
frente, de todos os lados? Existe ainda um alto 
e um baixo? Ndo estamos talvez vagando como 
atrav&s de um nado infinito? Ndo sopra sobre 
nos um espqo vazio? Ndo se tornou mais frio? 
Nbo continua a vir noite, sempre mais noite? 
Ndo devemos acender lanternas de manhd? 
N6o ouvimos nada do sstrhpito dos coveiros, 
enquanto sepultam Daus? N8o farejamos ain- 
do o cheiro da divina putrefa<do? Tambbm os 
deuses se decompbem! Deus estd morto! Deus 
continua morto! E n6s o matamos! Como nos 
consolaremos, nos, os assassinos de todos os 
assassinos? Tudo o que de mais sagrado e de 
mais poderoso o mundo possuia at& hoje se 
esvaiu em sangue sob nossos punhais; quem 
limpor6 de nos este sangue? Com qua1 69ua 
poderemos nos lavar? Quais ritos expiatorios, 
quais jogos s a g r ~ d 0 ~ deveremos inventor? Ndo 
6 demasiado grande, para nos, a grandeza des- 
ta agio? N60 devemos nos mesmos nos tornar 
douses, para parecer a0 menos dignos deb? 
Jamais houve uma a ~ d o maior: todos aqueles 
qua vir8o depois de nos pertencerdo, por causa 
desta a@o, a uma historia mais elevada do qua 
o Foram todas as historias 0th hoje!&quot; 
Nesse momento o homem louco calou-se 
e de novo dirigiu o olhar sobre seus ouvin- 
tes: tamb&m eles calavam-se e o olhavam, 
espantados. Finalmente atirou no chdo sua 
lanterna, que se despada<ou e se apagou. 
&quot;Venho muito cedo - continuou - ainda ndo t: 
meu tempo. Este anorme acontecimento ainda 
@st6 a caminho e fazendo seu caminho: ainda 
n6o chegou at& os ouvidos dos homens. Raio 
e trov8o requerem tempo, a Iuz das constela- 
$ 6 0 ~ requer tempo, as a@es requerem tempo, 
mesmo depois de terem sido realizadas, para 
que sejam vistas e ouvidas. Esta asdo ainda 
esta sempre mais distante dos homens do que 
as mais distantes constela~des: todavia, Foram 
eles que o raalizaram!&quot; Conta-se tamb&m qua o 
homem louco tenha irrompido, naquale mesmo 
dia, em diversas igrejas e ai tenha entoado 
ssu ROquiem ostsrnom Deo. Tendo delas sido 
expulso e interrogado, dizem que lirnitou-se 
a responder invariavelmente deste modo: &quot;0 
que mais sdo estas igrejas, sendo as covas e 
os sepulcros ds Deus?&quot; 
F. Ni~tzscha 
R gaia ci&ncia. 
A &quot;moral dos senhores&quot; 
e a &quot;moral dos escravos&quot; 
&quot;R morol oristocrdtico dos sanhorss t a 
de todos os qus dizam sim 2, Forgo, d olsgrio, 
2, solicle. 8 morol dos sscrovos O, oo contrd- 
rio, o morol dos Frocos a dos ma/-sucsdidos, 
dos rssssntidos contra o solide, a bsleza, o 
omor aos volorss vitois. 
Existe uma morol dos ssnhorss s uma morol 
dos sscrovos [. . .]. Rs diferenciaq3es rnorais de 
valor surqiram ou em rneio a urna est~rpe dorni- 
nante, que com urn senso de bem-estar adquiria 
consci6ncia da propria distin@o em relagio b 
dominada, ou entdo em meio aos dominados, 
os escravos a os subordinados de todo grau. 
No prirneiro caso, quando sdo os dorni- 
nadores que determinam a no@o ds &quot;born&quot;, 
sdo os estados de eleva$do e de altivez de 
alrna que sdo percebidos corno traco distintivo 
s qualificador da hiernrquia. 0 homem nobre 
separa de si os individuos nos quais ss exprime 
o contr6rio de tais estados de e~evor;do e de 
altivez: ele os dsspreza. Note-se logo que neste 
prirneiro tipo de moral