história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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o contraste %em" e "mal" 
tsm o rnesmo significado de "nobre" s "des- 
prezivel"; o contraste entre "born" e "rnau" tern 
outra origem, \u20ac desprezado o vil, o rnedroso, o 
rnssquinho, aquele que pensa em sua estreita 
utilidade; da rnesrno forma o desanirnado, com 
seu olhar sewil, aquele que se torna abjeto, a 
espbcis canina de hornens qua se deixa mal- 
tratar, o mendicants adulador e principalrnsnte 
o mentiroso: & convicc;do fundamental de todos 
os aristocratas que o populacho seja mendaz. 
"Nos, os verdadeiros" - assirn os nobres deno- 
minavom-se na antiga Grbcia. 6 fato evidente 
que as designa@5es rnorais ds valor sampre 
forarn sm todo lugar primeirarnents atribuidas a 
'hornens, e apsnas de rnodo derivado s sucessi- 
vo a ag6es: rnotivo pelo qua1 Q erro grave que 
os historiadores da moral tomem corno pontos 
de partida problemas corno "por que foi louvoda 
a a ~ b o piedoso?" 0 homem de t~po nobre ssnte 
a si mssmo corno clquele que determina o valor, 
ndo tern necessidade de recsber aprovac;do; 
seu julgarnento & "aquilo que & prejudicial a 
mirn, 6 prejudicial em si rnesmo", conhece a si 
mesrno unicarnente corno aquele que confare 
dignidade 6s coisas, ele & criador ds volorss. 
Honrarn tudo aquilo que sabern que pertencs 
a si: tal moral & autoglorifica<bo. Em prirneiro 
plano encontra-se o sentido do plenitude, do 
podsr que quer transbordar, a fslicidade da 
m6xima tensdo, a consci&ncia de uma riqueza 
que gostaria de dar e conceder: tambCm o 
hornern nobre presto socorro ao desventurado, 
mas ndo ou quase ndo por piedade, s sirn muito 
mais por impulso gerado pela superabundBncia 
de podsr. 0 hornem nobre honra ern si mesmo 
aquele qua possui, e tambbrn aquale que sobs 
falar a calor, que sxarce com gosto severidade 
e dureza contra si mesrno e nutre venera<do 
por tudo o qua & severo e duro. &quot;Urn duro co- 
raq3o Wotan colocou ern rneu psito&quot;, se diz em 
uma antiga saga sscandinava: deste rnodo a 
alma de um soberbo viquingue encontrou sua 
exata expressdo po&tica. Tal tipo de hornens & 
sobarbo justarnente palo foto de n80 ser Feito 
para a piedade, razdo pala qua1 o hsroi da 
saga acrescanto, ern tom de advert&ncia: &quot;qusrn 
nao tem duro corqdo desde jovem, ndo o tsrd 
jamais&quot;. Nobres e valorosos que pensam dests 
modo estdo muito distantes doquala moral que 
v& precisamente na piedade ou no agir altruists 
ou no dOsintdr~sssment o elernento pr6prio do- 
quilo que & moral; a f& em si rnssmos, o orgulho 
de si, urna inimizade radical e ironia para com o 
&quot;desinteresss&quot;, estdo cornpreendidos na moral 
aristocr6tica, exatarnente do mssrno rnodo com 
que cornpetem a ela urn leve desprezo e urn 
senso de raserva diante dos sentirnentos de 
simpatio e de &quot;color do coro@o&quot;. Sdo os pode- 
rosos aquelss que sobem atribuir honra, esta & 
a arts deles, seu dorninio inventive. R profunda 
venerar;do pela idode avan<ada s pela tradi- 
$30 - todo o direito repousa sobre esta dupla 
venera@o -, a f6 e a opinido preconcebida em 
favor dos antepassados e ern desfavor pelos 
posteros sdo um elsrnento tipico na moral dos 
poderosos; e ss, no oposto, os hornsns das 
&quot;idhias modernas&quot; creern, quase por instinto, 
no &quot;progrssso&quot; e no &quot;futuro&quot;, e sernprs estdo 
privados de respeito pela idads vetusta, tudo 
isso j6 & um indicio suficiente da origem ndo no- 
bre daquelas &quot;idQios&quot;. Mas principalrnente uma 
moral dos dorninadores & estranha ao gosto 
dos contempor6neos e para eles desagrad6- 
vel pelo rigor de seu principio, qua h6 devsres 
unicamente para com os pr6prios sernslhantes; 
que ern rela<do aos individuos de posi~bo in- 
ferior s da todos os estranhos seja licito agir 
Prirneira parte - p, filosofia do S & ~ O )<JX ao S~CMIO X)< 
por propria conta ou &quot;como quer o cora<do&quot;, e 
em todo caso &quot;albm do bem e do mal&quot;: 6 sob 
este ultimo aspecto que podem ter seu lugar a 
compaixdo ou outras coisas do 96nero. R capa- 
cidade e a obriga~do de uma longa grotiddo e 
de urna longa vinganga - as duos coisas @st60 
dentro da esfera dos proprios semelhantes -, 
a sutileza na represalia, o refinamento da id&ia 
de amizade, certa necessidade de ter inimigos 
(como canal de defluxo, por assirn dizer, para 
as paixdes da inveja, do litigio, do insol&ncia; 
no fundo, para ser bons amigos): todas estas 
sdo caracteristicas tipicas da moral aristocr6- 
tica, a qual, conforms acenei, ndo & a moral 
das &quot;idbias modernas&quot;, e & por isso que hoje 
se torna dificil senti-la ainda, como tarnbbm 
desenterra-la ou descobri-la. 
As coisas sdo diferentes no qua se refere 
ao segundo tipo de moral, a moral dos sscra- 
vos. Uma vez que os oprimidos, os despreza- 
dos, os soh-edores, os ndo livres, os inseguros e 
cansados de si proprios fazam moral, qua1 sera 
o elemento hornog&neo em suas estimativas de 
valor? Provavelmente sncontrara expressdo uma 
suspeita pessimists para com toda a condi~do 
hurnana, talvez urna condena<do do homem, 
juntarnente com sua condi~do. 0 escravo ndo 
v& com bons olhos as virtudes dos poderosos: 
6 cQptico e desconfiado, tern a finsza da des- 
confian~a de tudo o que de &quot;bom&quot; seja tido em 
honra no meio deles, gostaria de estar persua- 
dido de que entre elas a propria felicidade 
ndo b genuina. No oposto, sdo evidanciadas 
e inundadas de luz as qualidades qua sewem 
para aliviar a axistencia dos sofredores: sdo, 
neste caso, a piedade, a m60 que se compraz 
e socorre, o calor do cora<do, a paci&ncia, a 
operosidade, a humildade, a gentileza que sdo 
colocados em honra, urna vez que sdo estas, 
agora, as qualidades mais irteis e quase os 61%- 
cos meios para suportar o peso da exist&ncia. 
R moral dos escravos & essencialmente moral 
utilitaria. \u20acis o lor em que nasceu o famoso 
contraste entre &quot;bom&quot; e &quot;mou&quot;: no intimo do 
ma1 percebem-se o poder e a periculosidade, 
certa terribilidade, fineza e forgo, qua sufocam o 
desprezo nas raizes. Conforme a moral dos es- 
cravos, o &quot;mau&quot; suscita portanto temor; segundo 
a moral dos senhores & precisamente o bom que 
suscita e quer suscitar temor, enquanto o homem 
&quot;rnau&quot; 6 sentido como desprezivel. 0 contraste 
atinge seu ponto culminante quando, conside- 
rondo as implicag6es da moral dos escravos, 
tamb&m sobre os &quot;bons&quot; desta moral acaba 
por cair uma sombra desse desprezo - por 
mais leve e ben&volo que possa ser -, urna 
vez que o bom, no campo do modo de pensar 
dos escravos, deve ser em todo caso o homem 
inocuo: este & bonachdo. facilmente engan6vel, 
um pouco estupido talvez, um ing&nua. Em todo 
lugar em que a moral dos escravos se imponha, 
a lingua rsvela certa tendencia de aproximar 
urna da outra as palavras &quot;bom&quot; e &quot;estljpido&quot;. 
Uma ultimo difaren~a fundamental: o desejo 
de libsrdade, o instinto dirigido b felicidade e 
bs finezas do senso de liberdade pertencem 
tdo necassariamente b moral e b moralidade 
dos escravos, quanto a arts e o entusiasmo da 
venara<do, da dedicagbo, sbo o indicio normal 
de um modo aristocratico de pensar e de ava- 
liar. R partir disso & sem dljvida compreensivel 
a razdo de o amor como paix6o - & a nossa 
especialidads europbia - ser absolutamenta 
de origem nobre: sabe-se que sua descoberta 
cabe aos poetas cavaleiros proven<ais, bque- 
Ies espl&ndidos engenhosos homens do &quot;gaio 
saber&quot; ao qua1 a Europa deve tantas coisas, e 
quase que totalmente a si mesma. 
F. Nietzsch~, 
Pam al&m do bsm s do ma/. 
e centros de elaborac60 do neocriticismo 
Uma retomada sistematica da filosofia de Kant teve lugar 
na Alemanha a partir da segunda metade do seculo XIX. Tal re- 
tomada partiu e se desenvolveu como reflex30 sobre os metodos, 
os fundamentos e os limites da ciencia, para depois se estender 
-a outras atividades humanas como a moral, o mito, a religi30, a 
arte e a linguagem. Distante da metafisica, tanto a espiritualista 
como a idealista, critic0 do fetichismo positivista do &quot;fato&quot; e do 
cientismo, o neocriticismo