história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

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pretendeu repropor uma filosofia em 
termos rigorosamente kantianos, ou seja, como anhlise das con- 
di@es de validade da cihcia e de outros produtos humanos (a 
-- 
moral, a arte e a religiao). 
Neocriticismo: 
analise 
das condi~bes 
de validade 
da ciencia, 
da moral, 
da arte 
e da religiso 
+§ 7 
Trabalhos de inspira~30 kantiana foram os de Otto Liebmann (1840-1912) 
e os do grande pesquisador Hermann Helmholtz (1821-1894). Neokantianos apa- 
recerao na lnglaterra (Shadworth H. Hodgson, George 0. Hicks), 
na ltalia (Carlos Cantoni, Felix Tocco, Francisco Fiorentino e Tiago 0 neokantismo: 
Barzellotti) e na Fransa (Charles Renouvier, Ot6vio Hamelin e Leon fendmeno 
Brunschvicg). Todavia, os centros mais importantes de elabora@o euroPeu 
do neocriticismo foram de um lado Marburgo, com Hermann Co- +§ 
hen, Paul Natorp e seu discipulo Ernst Cassirer (do qua1 falaremos 
A parte); e, do outro, Heidelberg e Friburgo - duas cidades situadas na regi%o do 
Baden (e dai a Escola de Baden) -, com Wilhelm Windelband e Heinrich Rickert. 
Hermann Cohen (1842-1918), contrario concepqao positi- Coben 
vista, afirma em A teoria de Kant da experi4ncia pura (1871) que e a f;losof;a 
a ciCncia n3o e um acumulo de sensas6es ou de fatos observados, como andlise 
que o fundamento da objetividade da ciCncia estd no a priori, e dos elementos 
que a filosofia tem como tarefa a pesquisa dos elementos puros, aprioridacigncia 
isto e, a priori, do conhecimento cientifico. 452.7 
Em 0 s fundamentos Mgicos das ciencias exatas ( I 91 0) Paul Natorp: 
Natorp (1854-1924), estudando n3o tanto a atividade pslquica do 
objeto do 
cognoscente e sim mais os conteudos do conhecimento, afirma conhecimento 
que o conhecimento 6 sintese que deve ser submetida a continua ponto 
anblise, onde se rev6em e corrigem 0s conhecimentos preceden- de chegada 
tes, de mod0 a aperfeiqoar sempre mais as determinaqbes dos gue sempre 
objetos. 0 objeto, no conhecimento cientifico, n3o e um dado, n%o se desloca 
e um ponto de partida, mas um ponto de chegada que sempre se + § 2.2 
22 Primeira parte - *; filosofia do S~CUIO FJF ao S & ~ O iCX 
0 nascimento 
do neocriticismo 
A partir da metade do sCculo XIX assis- 
tiu-se, sobretudo na Alemanha, a retomada 
sistematica da filosofia kantiana, no sentido 
precis0 de reflex50 sobre os fundamentos, os 
mCtodos e os limites da ciincia. E, posterior- 
mente, essa retomada levaria i ampliag5o 
dos iimbitos de exercicio da reflex50 critica, 
que n5o se limitariam mais ao campo da 
ciincia, mas abrangeriam tambCm outros 
produtos da atividade humana, como a 
hist6ria e a moral e, depois, a arte, o mito, 
a religi50, a linguagem. 
Da mesma forma que o espiritualismo, 
o criticismo pretende combater o fetichismo 
positivista do "fato" e a idCia da ciincia 
metafisicamente absoluta. Entretanto, o neo- 
criticismo C contrario a qualquer metafisica, 
tanto de tip0 espiritualista como idealista. E, 
igualmente, C avesso a toda redugiio da filo- 
sofia a ciincia empirica (trate-se da fisiologia 
ou da psicologia), a teologia ou a metafisica. 
Para o neocriticismo a filosofia deve 
voltar a ser o que era com Kant: analise das 
condi~des de validade da ciBncia e dos outros 
brodutos humanos. como a moral. a arte ou 
religiiio. Disso torna-se clara a raz5o pela 
qua1 os neokantianos propoem uma filosofia 
dominada por problemas gnosiol6gicos ao 
invis de problemas empirico-factuais ou 
.. . 
metatisicos. 
Na verdade, inclusive no period0 de 
hegemonia do idealismo, a tradig5o kantia- 
na nunca havia desaparecido inteiramente 
na Alemanha. Entretanto, em 1865, Otto 
Liebmann (1 840-1912) publicou um livro, 
Kant e os epigonos, onde examinava as 
quatro orientagoes da filosofia alem5 pos- 
kantiana (o idealismo de Fichte, Schelling e 
Hegel; o realism0 de Herbart; o empirismo 
de Fries; as concepgoes de Schopenhauer) e, 
ao tCrmino da anilise de cada uma dessas 
orientagGes, concluia com o lema: "Deve- 
mos, portanto, retornar a Kant" . 
 or sua pr6pria conta, ja retornara a 
Kant o grande cientista Hermann Helmholtz 
(1821-1894), que, com base em estudos de 
fisiologia e de fisica (Sobre a vista humana, 
Capitulo segundo - 0 neocr i t i~~~mo. A &cola de warburgo e a Escola de Baden 23 
1855; Doutrina das sensap5es sonoras, 
1863; 0 s fatos da percep@o, 1879), chega- 
ra ii tese segundo a qua1 nossa estrutura fisio- 
psiquica C uma espCcie de a priori kantiano. 
TambCm chegaram autonomamente 
ao criticismo Friedrich Albert Lange (1828- 
1875), autor de Histdria do materialism0 
(1866), e Alois Riehl(1844-1924), autor de 
0 criticismo filosdfico e seu significado para 
a citncia positiva (1876-1887). 
0 s dois centros de elaboraqiio do neo- 
criticismo forzm Marburgo, com Cohen e 
Natorp, aos quais se liga Cassirer, e Heidel- 
berg, com Windelband e Rickert. 
Entretanto, embora tenha alcanqado 
na Alemanha seus resultados mais significa- 
tivos, o neocriticismo n io foi uma filosofia 
apenas alemi. 
Na Inglaterra o neokantismo foi de- 
senvolvido por S. H. Hodgson (1832-1912), 
Robert Adamson (1852-1902) e George D. 
Hicks (1862-1941). 
Na Itdia foi A n t h i o Banfi (1886- 
1957) quem adotou as teses do neocriti- 
cismo, juntamente com outras instincias 
(como a da filosofia de Simmel e, depois, do 
marxismo). Mas, antes de Banfi, ja haviam 
retornado a Kant tambCm Carlos Cantoni 
(1840-1906) e FClix Tocco (1845-1911), 
alCm de Francisco Fiorentino (1 834-1 884) 
e Tiago Barzellotti (1 844-1917). 
Foi notiivel e influente a presenqa 
do neocriticismo na Franqa. Aqui basta 
mencionar Carlos Renouvier (1 8 15-1 9O3), 
para quem o unico fim da filosofia esta no 
estabelecimento de leis gerais e dos limites 
do conhecimento; Otivio Hamelin (1856- 
1907); e Lion Brunschvicg (1869-1941), 
que, na obra 0 idealism0 contemporiineo 
(1905), fez quest50 de sustentar que n io 
cabe a filosofia aumentar a quantidade do 
saber, jh que a filosofia nada mais faz do 
que refletir sobre a qualidade do saber. E 
como o saber humano estii em continuo 
desenvolvimento historico, entio, afirma 
Brunschvicg, a historia do saber humano C 
"o laboratorio da filosofia". 
tlermanm Cohen: a filosofia c r k a 
C O ~ O metodo1o9ia da ci&ncia 
0 fundador reconhecido da Escola 
de Marburgo foi Hermann Cohen (1842- 
191 8), professor em Marburgo e autor, entre 
outros, dos seguintes trabalhos: A teoria de 
Kant da experitncia pura (1871), 0 funda- 
mento da e'tica kantiana (1871), A influBncia 
de Kant sobre a cultura alem2 (1883) e 0 
fundamento da este'tica kantiana (1 8 89). 
A citncia e, mais precisamente, a fisica 
matemitica, assume papel de maxima im- 
portincia na concepqio de Cohen. Cohen 
aceita a ciincia como viilida e concebe a 
filosofia exatamente como o estudo das 
condiq6es de validade da ci2ncia. 
Ora, o positivismo tinha visto o valor da 
cizncia no fato sagrado, absoluto e intocivel; 
para o positivista, em suma, objetivo C o fato, 
objetiva C a sensagiio, isto C, o a posteriori. 
Cohen retorna a Kant, invertendo a concep- 
$50 positivista. Como escreve ele em A teoria 
de Kant da experitncia pura, o fundamento 
da objetividade da ciincia esta no a priori. 
Com efeito, a cihcia niio C e n5o se desen- 
volveu como caos de percepqGes, nem C a c ~ - 
mulo de sensaq6es ou de fatos observados. 
A realidade C que a ciincia nio se cons- 
tituiu tanto pela acumulaq50 de fatos, e sim 
24 Primeira parte - A fililoofia do ~CCUIO X3X ao sdcul0 XX 
muito mais pela unificagHo dos fatos por 
meio de e sob hip6teses, leis e teorias. Mas 
nos nHo extraimos leis e teorias dos fatos, 
e sim as impomos aos fatos: a teoria C o a 
priori. E a filosofia indaga exatamente os 
elementos "puros", ou seja, os elementos 
a priori, do conhecimento cientifico. A 
filosofia, portanto, deve ser metodologia