história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

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da ci2ncia. 
0 outro prestigioso representante 
da Escola de Marburgo C Paul Natorp 
(1854-1924), estudioso de amplos in- 
teresses, autor de A doutrina plat6nica 
das ide'ias (1903), de 0 s fundamentos 
ldgicos das ciincias exatas (1910) e tam- 
bCm de escritos de pedagogia, psicologia 
e politics, como Guerra e paz (1916) e 
A missiio mundial dos alem2es (1918). 
A exemplo de Cohen, Natorp afirma 
que a filosofia nHo C ciincia das coisas; das 
coisas falam precisamente as ciincias, ao pas- 
so que a filosofia C teoria do conhecimento. 
Entretanto, a filosofia n5o estuda o 
pensamento subjetivo, ou seja, ela niio inda- 
ga sobre a atividade cognoscente, sobre uma 
atividade psiquica, e sim sobre conteudos. 
E estes siio determinag6es progressivas do 
objeto. Em 0 s fundamentos ldgicos das 
ciincias exatas, podemos ler que o conhe- 
cimento C sintese e a analise consiste no 
controle das sinteses j6 efetuadas. Sinteses 
que devem ser submetidas a reelaborag50 
continua, de mod0 a aperfeigoar sempre 
mais as determinag6es dos objetos. Por isso, 
o objeto 1-150 C um dado, nHo C um ponto 
de partida, mas um ponto de chegada que 
sempre se desloca. 
Em suma, o obiectum C um proiectum: 
C conhecimento sempre mais determinado 
que se projeta sobre a realidade. E niio ha 
termo para essa determinagzo; portanto, o 
objeto esta sempre in fieri, C tarefa infinita. 
Wilhelm Windelband 
e a filosofia como teoria dos valores 
0 s representantes mais prestigiosos da 
Escola de Baden (assim chamada porque 
teve seus pontos centrais em Heidelberg 
e Friburgo, cidades situadas na regiiio de 
Baden) foram Wilhelm Windelband (1848- 
1915) e Heinrich Rickert (1863-1936), de 
quem falaremos tambCm no capitulo sobre 
o historicismo, no que se refere as suas re- 
flex6es sobre a fundagzo da historiografia 
como ciincia. Aqui, falaremos a proposito 
de sua filosofia dos valores, que, embora 
os tornando expoentes de primeiro plano 
do neocriticismo, os diferencia, portm, da 
Escola de Marburgo. 
Em seu "retorno a Kant", Windelband 
certamente atribui 2 filosofia a fungHo de 
buscar os principios a priori que garantem 
a validade do conhecimento. Entretanto, 
siio duas as coisas novas que ele introduz 
nessa questiio: 
a) por um lado, esses principios siio 
interpretados como valores necessdrios e 
universais, tipificados pel0 carher norma- 
tivo independente de sua realizagiio efetiva; 
b) por outro lado, diferentemente da 
Escola de Marburgo, Windelband se liber- 
ta da referincia privilegiada ao 2mbito do 
conhecimento para considerar a atividade 
humana tambCm nos campos da moralidade 
e da arte. 
Portanto, a filosofia nHo tem por objeto 
os juizos de fato, mas Beurteilungen, isto 
C, juizos valorativos do tip0 "esta coisa C 
verdadeira", "esta coisa C boa", "esta coisa 
C bela". E C assim que os valores - que tim 
precisamente validade normativa - distin- 
guem-se das leis naturais: a validade das leis 
naturais C a validade do Miissen, a validade 
empirica de n20 poder ser de outro modo; a 
validade das normas ou valores C a do Sol- 
fen, isto C, do dever ser. Concluindo, deve-se 
dizer, portanto, que, para Windelband, a 
filosofia consiste na teoria de valores; que 
a fungiio da filosofia, mais especificamente, 
esta em estabelecer quais s2o os valores 
que estiio na base do conhecimento, da 
moralidade e da arte; que a teoria do conhe- 
cimento, para alCm da concepgHo de alguns 
neokantianos de Marburgo, C apenas uma 
parte da teoria dos valores. 
Heinrich Rickert: 
conhecer k juISar com base 
MO valor de verdade 
Rickert retoma de Windelband a con- 
cepgiio da filosofia como teoria dos valores 
e, ao mesmo tempo, os resultados mais 
vilidos de sua investigagiio metodol6gica. 
Entretanto, ele tenta sistematizar resulta- 
Capitulo segundo - O neocriticismo. $\ &cola de Marburgo e a Cscola de Bad rn 25 
dos semelhantes em concepqHo orghica da 
teoria do conhecimento e procura fundar 
(ao invCs de, mais ou menos simplesmente, 
registrar) a autonomia do conhecimento 
historico. 
Conhecer quer dizer julgar, isto 6, acei- 
tar ou rejeitar, aprovar ou reprovar, o que 
implica o reconhecimento de um dever ser 
que est5 na base do conhecimento. Negar 
o dever ser, isto i, a norma, equivaleria a 
ratificar a impossibilidade de qualquer juizo, 
inclusive daquele que nega. 
Um juizo n5o C verdadeiro porque 
expressa aquilo que 6; pode-se afirmar, ao 
invts, que algo C somente se o juizo que o 
expressa i verdadeiro por forla do seu dever 
ser. E o dever ser, isto 6 , os valores, ou seja, 
as normas, sHo transcendentes em relaqiio a 
cada simples consciincia empirica. Para Dil- 
they, o sujeito do conhecer C o homem como 
ser historico. Ja para Rickert C o sujeito 
transcendental, para alim de qualquer con- 
dicionamento de espaqo e de tempo; C a cons- 
ciincia em geral (Bewusstsein iiberhaupt); e 
essa "consciincia em geral" nHo 6 somen- 
te logica, mas tambim e'tica e este'tica. 
Desse modo, sendo os valores transcen- 
dentes as consciincias individuais e sendo 
o sujeito do conhecimento entendido como 
sujeito transcendental, 6 obvio que as in- 
vestigaqdes de Rickert, diferentemente das 
de Max Weber, se colocam em urn plano 
que abstrai completamente as condiqdes e 
os problemas efetivos dos processos de pes- 
quisa, sejam estes cientificos ou historicos. 
Segundo Rickert, a filosofia nHo tem em 
absoluto a funqHo de se interessar por tais 
problemas; ela deve muito mais cumprir a 
funqiio de estabelecer de que mod0 as ciin- 
cias generalizantes e as individualizantes 
encontram a garantia de sua validade uni- 
versal e necesshria, tendo em vista os vaiores 
que constituem seus principios a priori e o 
fundamento. 
Vista de Heidelberg, e m uma estampa do se'culo X I X . 
Esta ~zdade, /unto corn Frzh~trgo, 
foz centro cultural de przmez~iss~nzo plano 
e sede da Escola d o Baden. 
II. & M S ~ Cassirer 
e a filosofia das formas simb6licas 
como livre-docente e, depois, em Hambur- 
go. Em 1933, forgado a emigrar, vai primei- 
ro para a Inglaterra, depois para a SuCcia, 
Ernst Cassirer (1874-1945) nasceu em e finalmente para os Estados Unidos, onde 
Breslau, de familia judaica de boas condi- ensinou na Universidade Yale e, em seguida, 
g6es. Estudou filosofia sob a guia de Cohen e na Universidade de Colfimbia. Interessado 
Natorp. De 1906 a 1919 ensinou em Berlim pela historia das idCias filos6ficas, que vi en- 
Capitulo segundo - 0 neocritic~smo. A &cola de Marburgo e a &cola de B a d r n 2 7 
trelaqadas com as idiias cientificas, Cassirer 
6 autor de obras famosas, como 0 problema 
do conhecimento na filosofia e na ciincia da 
Lpoca moderna (vols. I e 11,1906-1907; vol. 
111, 1920; vol. IV, 1940, publicado postuma- 
mente), Individuo e cosmo da Renascen~a 
(1927), A filosofia do Iluminismo (1932). 
E a consciikcia hist6rica acompanhara sem- 
pre at6 as obras mais caracteristicamente 
teoricas de Cassirer: "0 uso [...I de p8r 
[. . .] no vazio os pr6prios pensamentos, sem 
pesquisar sua relag50 e sua conexiio com o 
trabalho de conjunto das cihcias filosbficas, 
nunca me pareceu oportuno e fecundo". En- 
tre as obras de natureza teorica de Cassirer, 
podemos recordar: 0 conceito de subst2ncia 
e o conceito de funpio (1910); A filosofia 
das formas simbolicas (3 vols., 1923-1925- 
1929); A teoria einsteniana da relatividade 
(1921); Determinismo e indeterminismo 
na fisica moderna (1937); Ensaio sobre o 
homem (1944). 
Em 1910, portanto, Cassirer publica 
0 conceito de substlincia e o conceito de 
fun@o. Nesse trabalho, atravts de seguro 
dominio da historia da cihcia, ele realiza 
uma investigag50 sobre o conhecimento 
matematico, geomitrico, fisico e quimico, 
a fim de mostrar que esses conhecimentos 
niio buscam a subst2ncia, e sim a lei, a re- 
lagHo, isto 6, a