história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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fun~iio. Relaqdes e funqdes 
instituem os entes matematicos e constituem 
as expressdes geomttricas. No conhecimen- 
to cientifico e tambim no conhecimento 
comum encontramos muito mais do que 
dados sensiveis. Olhamos as coisas atra- 
vts de pontos de vista, teorias, leis, isto i, 
relaqdes. Em suma, o desenvolvimento do 
pensamento cientifico nos leva a passar do 
conceito de subst2ncia ao de fun@o. A me- 
tafisica de Aristoteles falava de um mundo 
de coisas das quais era precis0 abstrair as 
caracteristicas comuns, a esshcia. Mas, 
por um lado, enquanto esse mttodo levou a 
toda uma massa de resultados estireis (entre 
outras coisas, nzo ha garantia alguma de 
que o comum seja o essential), por outro 
lado, viu-se que as cihcias progrediram 
porque se matematizaram (na matematica 
niio entra o conceito de substsncia, mas o 
de fungzo); progrediram porque deixaram 
de buscar substhcias e voltaram-se para a 
busca de relap5es funcionais entre os obje- 
tos. E assim como as funqdes matematicas 
nHo se obtgm por abstraqso, mas sHo cons- 
truidas pel0 pensamento, da mesma forma 
tambim os pontos de vista, as teorias ou 
relaqdes funcionais que instituem e vincu- 
lam os objetos do conhecimento cientifico 
(e do conhecimento comum) siio produtos 
do pensamento, que tornam "possivel a 
priori" o conhecimento, estabelecendo suas 
condiq6es de possibilidade. E o fato de que 
a ciencia consiste em teorias ou relaqdes 
construidas pel0 homem e que os objetos da 
citncia sejam instituidos por esses pontos 
de vista, por essas teorias, nHo significa de 
mod0 algum cair no subjetivismo. Escreve 
Cassirer: "Nos nzo conhecemos os objetos, 
como se eles fossem dados e determinados 
como objetos, antes e independentemente 
de nosso conhecimento. Ao contrario, n6s 
conhecemos objetivamente, ja que, no trans- 
correr uniforme dos contelidos da expe- 
rihcia, criamos determinadas delimitaqdes 
e estabelecemos determinados elementos 
duraveis e determinadas ligaqdes entre 
eles" . 
Ernst Cassrrer ( 1 874-1 94 Y) 
d nnz dos mals representutrvos pensadores 
do neokantzsmo, hlstonador penetrante 
do pensamento moderno, 
autor pstamente fanzoso 
de A filosofia das forrnas smbol~cas. 
dele a defim@o do homern 
como mrmal symbol~cum. 
2 f\ filosofia 
das formas simLbIicas 
Cassirer niio submeteu 2 analise filo- 
sofica somente as ciincias. Indo alCm dos 
marcos das "duas culturas". ele tambCm 
pretendeu, com A filosofia d h formas sim- 
bolicas, "delimitar as diversas formas funda- 
mentais da 'compreensiio' do mundo umas 
em relaqiio as outras, e captar cada urna delas 
o mais claramente possivel em sua tendincia 
peculiar e em sua forma espiritual peculiar". 
Essas formas fundamentais de "com- 
preensiio" do mundo S ~ O "formafoes sim- 
b61icasn como o mito, a arte, a linguagem 
ou tambCm o conhecimento. Somos nos que 
plasmamos o mundo com nossa atividade 
simbolica. criando e fazendo mundos de ex- 
periencias: "o mito e a arte, a linguagem e a 
ciincia siio [. . .] sinais que tendem a realizar 
o ser", direfoes da vida humana, formas 
tipicas da afiio humana. E urna filosofia do 
homem, escreve Cassirer, deveria ser "filo- 
sofia que fafa conhecer a fundo a estrutura 
fundamental de cada urna dessas atividades 
humanas e que, nesse meio tempo, faqa por 
onde entendi-las como um todo orgiinico". 
As formas simbolicas - isto 6 , a linguagem, 
a arte. o mito e a ciincia - "diio forma e 
sentido", vale dizer, estruturam o mod0 de 
ver o mundo, criam mundos de significados, 
organizam a experiincia. Com efeito, "in- 
serido entre o sistema rece~tivo e o sistema 
relativo (encontraveis em todas as espCcies 
animais), existe no homem um terceiro 
sistema, que se pode chamar de sistema sim- 
bdlico, cujo aparecimento transforma toda 
a sua situaqiio existencial. Confrontado com 
os animais, observa-se que o homem niio 
somente vive em urna realidade mais vasta, 
mas tambCm, por assim dizer, em urna nova 
dimens20 da realidade". 0 homem C animal 
cultural, diriam os etologos. E Cassirer o cha- 
ma de "animal symbolicum". 0 s animais 
t im sinais, o homem produz simbolos. "A 
diferenqa entre linguagem proposicional e 
linguagem emotiva constitui o verdadeiro 
limite entre o mundo humano e o mundo 
animal". E o nascimento da linguagem 
descritiva ou proposicional que desencadeia 
o desenvolvimento da "cultura", isto i , da 
"civilizaqiio". Corn efeito, escreve Cassirer, 
"C inegavel que o pensamento e o compor- 
tamento simbolicos sao os aspectos mais 
caracteristicos da vida humana e que todo o 
progresso da cultura baseou-se neles". 
0 homem i animal symbolicum. Com 
a sua atividade simbolica, ele superou "0s 
limites da vida orginica". E agora "nio 
se pode fazer nada contra essa subversiio 
da ordem natural. 0 homem niio ~ n d e se 
subtrair as condic6es de existincia aue ele 
pr6prio criou: deve se conformar elas. 
Niio vive mais em um universo apenas 
fisico, e sim em um universo simbolico. A 
linguagem, o mito, a arte e a religiiio siio 
partes integrantes desse universo, siio os 
fios que constituem o tecido simbolico, a 
intricada trama da experiincia humana. 
Todo progresso no campo do pensamento e 
da experiincia fortalece e retina essa rede". 
De fato, afirma Cassirer, esta fora de qual- 
quer duvida que "o homem 1-60 se encontra 
mais diretamente diante da realidade; Dor 
2 L 
assim dizer, ele niio pode mais vi-la face a 
face. A realidade fisica parece retroceder 
medida que a atividade simbolica do homem 
avanca. Ao invCs de se defrontar com as 
pr6p;ias coisas, em certo sentido o homem 
esta continuamente em coloquio consigo 
mesmo. Cercou-se de formas lingiiisticas, 
de imagens artisticas, de simbolos miticos e 
de ritos religiosos a tal ponto que niio pode 
mais ver e conhecer nada seniio por meio 
dessa mediaqiio artificial". E a situaqiio C a 
mesma no campo teorico e no campo pri- 
tico. Tambim no campo pratico o homem 
niio vive em um mundo de puros fatos; ele 
vive muito mais "entre emocoes suscitadas 
pela imaginaqiio, entre medos e esperanqas, 
entre ilus6es e desilus6es7 entre fantasias e 
sonhos. Como disse Epicteto, 'aquilo que 
perturba e agita o homem niio siio as coisas, 
e sim suas opini6es e fantasias em torno das 
coisas' " . 
Chegando a esse ponto, Cassirer C da 
opiniiio de que se pode e se deve corrigir 
a definiqiio tradicional de homem. Na- 
turalmente, a definifiio de homem como 
animal rationale "mantCm seu valor", niio 
obstante pretenda ela trocar a parte pelo 
todo, "pois, alCm da linguagem conceitual, 
existe urna linguagem do sentimento e das 
emoqoes; alim da linguagem 16gica e cien- 
tifica, existe a linguagem da imaginaqiio 
poCtica. A linguagem niio expressa somente 
Capitdo segundo - 0 n e o c ~ l t i c ~ s ~ ? ~ . A Cscola de , M a ~ L u r ~ o e a &cola de Baden 29 
pensamentos e idtias, mas, em primeiro lu- 
gar, sentimentos e afetos". 0 s filosofos que 
definiram o homem como animal rationale 
n3o eram empiristas, observa Cassirer, e 
nzo pretenderam "dar explicaq30 empirica 
da natureza humana. Com essa definiq30, 
eles propuseram muito mais um imperativo 
moral". Em suma, a razz0 C termo pouco 
adequado se quisermos abraqar em toda a 
sua riqueza e variedade as formas da vida 
cultural do homem. "Essas formas s3o es- 
sencialmente formas simbolicas. Ao invCs 
de definir o homem como animal rationale, 
dever-se-ia, portanto, defini-lo como animal 
symbolicum. Desse modo, indicar-se-a o 
que verdadeiramente o caracteriza e o que 
o diferencia em relaqzo a todas as outras 
espicies, podendo-se entender o caminho 
especial que o homem tomou: o caminho 
para a civiliza@io". Nesse caminho, na 
opiniiio de Cassirer, a citncia corresponde a 
Cltima fase do desenvolviinento intelectual 
do homem, "podendo ser considerada como 
a mais elevada e significativa