história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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Onde estiio a es- 
sencia da historia e sua diferenga em relagiio 
i s outras disciplinas? Pode-se alcanqar um 
saber historic0 objetivo? Na obra citada e 
em outra, intitulada A constru@o do mundo 
hist6rico nus cidncias do espirito (1910), ele 
apresenta em forma definitiva seu projeto de 
fundamentaqiio das ciincias do espirito. 
Operando urna distingiio entre Erlebnis 
e Erleben (o Erlebnis C urna etapa do Erle- 
ben, isto C, da vida), Dilthey sustenta que 
aquilo que C comum As citncias do espirito, 
ou seja, o que constitui seu dominio, C isto: 
" 0 s estados de conscitncia se expressam 
continuamente em sons, em gestos do ros- 
to, em palavras, e ttm sua objetividade em 
instituig6es, Estados, Igrejas e institutos 
cientificos: precisamente nessas conexdes C 
que sq move a historian. 
E o nexo entre Erleben, ("expressao") 
e Verstehen ("entender") que institui a pecu- 
liaridade do mundo humano e fundamenta 
a autonomia das citncias do espirito. Esse 
nexo niio pode ser encontrado na natureza 
nem nas ciihcias naturais. A vida, o Erleben, 
torna-se espirito objetivo, isto C, se objetiva 
em instituigdes (Estados; Igrejas; sistemas 
juridicos; movimentos religiosos, filodficos, 
literarios e artisticos; sistemas Cticos etc.). 
E o entender, na refertncia retrospectiva, 
da origem as cidncias do espirito, que tern 
como objeto "a realidade historico-social do 
homem". Realidade que tem, de fato, um 
lado externo investigivel pelas citncias na- 
turais, mas cujo lado interno - o significado 
ou esstncia - s6 pode ser alcanqado pelas 
ciencias do espirito. E pode ser alcangado 
porque, atravCs do entender - que 6 "um 
encontro do eu no tu" -, o homem pode 
compreender as obras e as instituigdes dos 
homens. Em suma, o entender C possivel por- 
que "a alma anda pelos caminhos habituais, 
nos quais ja gozou e sofreu, sofreu e agiu em 
situagdes de vida semelhantes". AtravCs de 
urna "transferikcia interior", que implica 
um "com sentimento" (Mitfuhlen) e urna 
"penetragiio simpatitica", o homem pode 
reviver virias outras existtncias. 
A historicidade constit~tiva 
, , 
A objetiva@o da vida C a primeira 
caracteristica da estrutura do mundo histo- 
rico, devendo-se atentar para o fato de que 
o espirito objetivo de Dilthey niio C, como 
para Hegel, a manifestagiio de urna raziio 
absoluta, mas C o produto da atividade de 
homens historicos. Tudo saiu da atividade 
espiritual dos homens e, portanto, diz Dil- 
they, tudo C historico. 
A segunda caracteristica fundamental 
do mundo humano C a que Dilthey chama 
de "conex50 diniimica", que se distingue da 
conexiio causal da natureza enquanto pro- 
duz valores e realiza objetivos. 0 individuo, 
as institui@es, as civilizagdes e as Cpocas 
historicas sZo conexdes diniimicas. E, assim 
como o individuo, da mesma forma todo 
Capitdo terceiro - 0 historicistno alem&o, de Wilheltn DiltheZ! a Neihecke 3 9 
A ohra de Dilthey (aqui e m umu fotogrufia nos arms da maturidade) 
e tentatiua articuladu e tenaz de construir ulna "cri'tica da raziio historica ". 
sistema de cultura e toda comunidade tem 
seu proprio centro em si. E essa "autocentra- 
lidade", intrinseca a toda unidade historica, 
faz corn que essas unidades hist6ricas (0s sis- 
temas de cultura, os sistemas de organizaqiio 
social, as Cpocas historicas) se caracterizem 
por urn horizonte fechado, que torna as 
diversas historias irredutiveis, tornando-as 
singularmente compreensiveis apenas com 
a condiqiio de que possamos compreender 
os valores e os objetivos particulares que as 
tipificam. 
0 homem, conclui Dilthey, C um ser 
hist6rico. E hist6ricos siio todos os seus 
produtos culturais, inclusive a filosofia e, 
portanto, tambkm a metafisica. 
Uma fung5o do filosofo consciente C a 
de dar vida a uma "filosofia da filosofia", 
entendida como exame critic0 das possibi- 
lidades e dos limites da filosofia. E C assim 
que a raziio historica se transforma em 
critica "hist6rica7' da razZo. Niio existem 
filosofias que valham sub specie aeternitatis. 
40 Primeira parte - A filosofia do S ~ C U ~ O X J X SCCUIO )(X 
III. 8 historicismo alemzo 
entre Wilhelm Dilthey e M a x Weber 
Contrapor a "natureza" ao "espirito", como fez Dilthey, e simplesmente 
um erro: C o que afirma o neokantiano Wilhelm Windelband (1848-1915) em His- 
toria e ciencia natural (1894). Tal distingao 6 urna insustentdvel 
Windelband: tese metafisica; e a distingao das ciCncias operada por Dilthey 
as ciencias sobre uma base objetiva (mundo humano, mundo da natureza), 
distinguem-se Windelband contrapee urna disting%o sobre base metodol6gica 
sobre base e distingue as ciencias em cikncias nomottWcas (as que buscam 
metodoldgica determinar a regularidade dos fendmenos) e cihcias idiogrdficas 
+§ 7 (atentas especificidade dos fen6menos particulares). E qualquer 
evento - pertinente ao mundo da natureza ou ao mundo humano 
- pode ser estudado ou como caso particular de urna uniformidade ou ent%o para 
compreender seu carater unico e irrepetivel. 
Rickert: Para Heinrich Rickert (1863-1936), a mesma realidade torna- 
o papel se natureza quando "a consideramos em rela@o ao geral, e se 
de refer6ncia torna hist6ria quando, ao contr6ri0, a consideramos em relagao 
aos valores ao particular". Esta 6 a tese sustentada por Rickert em 0s limites 
no trabalho da formagao dos conceitoscienti'ficos (1896-1902). E urna posterior 
do historiador e importante idCia de Rickert, que veremos tambem em Weber, 6 
+ § 2 que no oceano sem fim dos eventos e das instituigbes humanas o 
historiador escolhe como objeto de estudo os fatos e os aconteci- 
mentos investidos e, portanto, tornados "interessantes" pelos valores da civilizagjo 
a qua1 ele pertence. Trata-se, justamente, da "relag%o aos valores". 
Georg Simmel(1858-1918) 4 um estudioso de grande fdlego e d o multiplas 
as temhticas por ele tratadas. Pois bem, no que se refere & historiografia, ele p6e o 
problema em termos kantianos: como d possivel a histbria? Quais 
Simmel: s%o as condigaes que tornam possiveis e fundamentam autono- 
"Um fa to mia e validade das ciCncias historico-sociais? A tal interrogagilo 
P importante Simmel responde, diversamente de Kant e dos neokantianos, 
porque que as categorias da pesquisa historica nZio s%o a prior; vdlidas 
in teressa para a eternidade, pois elas pr6prias s%o produtos hist6ricos de 
a quem homens hist6ricos, produtos que mudam com a hist6ria. Por 
considera" conseguinte, n%o tem nenhum sentido falar de fatos hist6ricos 
-+ § 3 
"objetivamente" importantes. "Um fato - escreve Simmel - ~6 
importante porque interessa a quem o considera". 
"As civilizaqdessa'o organismos; a hist6ria universal 6 sua biografia complexi- 
van: lemos isso no Ocaso do Ocidente, a obra que tornou famoso Oswald Spengler 
(1880-1936). Toda civilizagZio e um organismo; e, como os organismos, as civiliza@es 
"aparecem, amadurecem, fenecem e nao voltam mais". Toda civilizagao-acrexenta 
Spengler - e um mundo fechado: corn sua moral, sua filosofia e 
~penglec seu direito pr6prios. E as civilizagr3es, como os organismos, est%o 
as civilizac6es destinadas ao ocaso. Uma vez realitado seu ciclo, "a civiliza@o 
sdo como se enrijece repentinamente, dirige-se para a morte, seu sangue 
Os OrganismOs: se coagula, suas forgas faltam e ela torna-se urna civilizaq30 em 
nascem, 
crescem 
declinio". E este era o caso, aos olhos de Spengler, da civilizagao 
e depois morrem ocidental, doravante em seu ocaso por causa da prevakncia da 
+ § 4 democracia e do socialismo, e da venerag%o, na democracia, do dinheiro e do poder. 
Capitulo terceiro - 0 historicismo ulemzo, de Wilhelm Dilthey u Meinecke 41 
Um dos problemas fundamentais da especulagiio filosofica de Ernst Troeltsch 
(1865-1 923) consistiu na tentativa de conciliar o condicionamento historico de toda 
forma de religiiio