história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


DisciplinaPsicologia Social8.881 materiais228.567 seguidores
Pré-visualização50 páginas
niio tem nada a ver com o juizo de valor 
ou com a apreciagiio de natureza Ctica. 
Weber C explicito: o juizo que glorifica ou 
condena, que aprova ou desaprova, nHo tem 
lugar na cifncia, precisamente pela razHo 
de que ele C subjetivo. Por outro lado, a 
referfncia aos valores, em Weber, niio tem 
nada a dividir com um sistema objetivo e 
universal qualquer de valores, um sistema 
em condigdes de expressar urna hierarquia 
de valores univoca, definitiva e valida sub 
specie aeternitatis. Dilthey ja constatara a 
moderna "anarquia de valores"; e Weber 
aceita esse relativismo. 
A referfncia aos valores, portanto, niio 
equivale a pronunciar juizos de valor ("isto 
6 bom", "aquilo 6 justo", "isto C sagrado"), 
nem implica o reconhecimento de valores 
absolutos e incondicionais. Entiio, o que pre- 
tende Weber quando questiona a "refertncia 
aos valores"? Para sermos breves, devemos 
dizer que a referkncia aos valores e' um prin- 
cipio de escolha; ele serve para estabelecer 
quais os problemas e os aspectos dos fen& 
menos, isto 6, o campo de pesquisa no qua1 
posteriormente a investiga~iio se realizara 
de modo cientificamente objetivo, tendo em 
vista a explicapio causal dos fedmenos. 
A realidade C ilimitada, alias, infinita, 
e o soci6logo e o historiador s6 acham inte- 
ressantes certos fen6menos e aspectos desses 
fen6menos. E estes siio interessantes nHo por 
urna qualidade intrinseca deles, mas apenas 
em referfncia aos valores do pesquisador. 
Segue-se dai que ao historiador cabe 
exclusivamente a explicagiio de elementos e 
aspectos do acontecimento enquadravel em 
determinado ponto de vista (ou teoria). E os 
pontos de vista nHo siio dados de urna vez 
por todas: a variagHo dos valores condiciona 
a variagiio dos pontos de vista, suscita novos 
problemas, prop6e considerag6es iniditas, 
descobre novos aspectos. E o feixe do maior 
numero de pontos de vista definidos e com- 
provados que nos permite ter a idCia mais 
exata possivel de um problema. Tudo isso, 
mais urna vez, mostra o absurd0 da preten- 
sso de que as cifncias da cultura poderiam 
e deveriam elaborar um sistema fechado de 
conceitos definitivos. 
P\ teoria doUtipo ideal" 
Na opiniiio de Weber, com frequincia 
a linguagem do historiador ou do soci6log0, 
diferentemente da linguagem das citncias 
naturais, funciona mais por sugestHo do que 
por exatidso. E precisamente com o objeti- 
vo de dar rigor suficiente a toda urna gama 
de conceitos utilizados nas investigag6es 
hist6rico-sociais, Weber prop6s a teoria 
do "tipo ideal". Escreve ele: "0 tip0 ideal 
obtCm-se pela acentua@o unilateral de um 
ou de alguns pontos de vista pela conexiio 
de certa quantidade de fen6menos difusos 
e discretos, existentes aqui em maior e 16 
em menor medida, por vezes at6 ausentes, 
correspondentes Aqueles pontos de vista 
unilateralmente evidenciados, em um qua- 
dro conceitual em si unit6rio. Em sua pureza 
conceitual, esse quadro nunca podera ser 
encontrado empiricamente na realidade; 
ele C urna utopia, e ao trabalho historic0 se 
apresenta a tarefa de verificar, em cada caso 
individual, a maior ou menor distincia da 
realidade daquele quadro ideal, estabelecen- 
do, por exemplo, em que medida o carater 
econ6mico das relagdes de determinada 
cidade pode ser qualificado conceitualmen- 
te como pr6prio da economia urbana". 
Pode-se ver, portanto, que o "tipo 
ideal" C instrumento metodologlco ou, se 
assim se preferir, expediente heuristic0 ou 
de pesquisa. Com ele, construimos um qua- 
dro ideal (por exemplo, de cristianismo, de 
economia urbana, de capitalismo, de Igreja, 
de seita etc.), para depois com ele medir ou 
comparar a realidade efetiva, controlando a 
aproximaqiio (Annaherung) ou o desvio em 
relaqiio ao modelo. 
Brevemente, pode-se dizer que: 
1) a tipicidade ideal niio se identifica 
com a realidade autfntica, niio a reflete nem 
a expressa; 
2) ao contrhrio, em sua "idealidade", a 
tipicidade ideal afasta-se da realidade efetiva 
para afirmar melhor seus virios aspectos; 
3) a tipicidade ideal niio deve ser con- 
fundida com a avaliaqHo ou com o valor, 
"este filho da dor de nossa disciplina"; 
4) o tip0 ideal, repetindo, pretende ser 
instrumento metodol6gico ou instrumento 
60 Prirneira parte - A filosofin do XJX no SCCUIO XX 
heuristico: os conceitos ideais-tipicos siio 
uniformidades limites. 
0 peso das diferentes 
causas na reaIiaaG&o 
A pesquisa historica C individualizante, 
isto 6 , diz respeito as individualidades his- 
toricas (a politica agriiria romana, o direito 
comercial na Idade MCdia, o nascimento do 
capitalismo, as condiq6es dos camponeses 
na Alemanha oriental do Elba etc.). 0 his- 
toriador quer descrever e dar conta dessas 
individualidades. Mas dar conta delas signi- 
fica explicii-las. E, para explica-las, necessi- 
ta-se de conceitos e de regularidades gerais 
pertencentes 2s ciincias nomologicas. Entre 
elas, vistas como instrumentos de explicagiio 
histbrica, Weber considerou especialmente a 
sociologia. Em outros termos, para explicar 
os fatos historicos precisa-se de leis, que o 
historiador vai buscar principalmente na 
sociologia, que descobre "conex6es e regu- 
laridades" nos comportamentos humanos. 
Deve-se notar, porCm, que, quando o 
historiador explica um fato, geralmente o 
faz referindo-se a uma constela@o de causas. 
Mas, a seus olhos, nem todas as causas tim 
igual peso. Eis, portanto, a questiio: como 
pode o historiador determinar o peso de uma 
causa na ocorrtncia de u m acontecimento? 
Para bem compreender a questiio, Weber se 
remete a algumas opini6es do historiador 
Eduard Meyer, para quem o desencadeamen- 
to da segunda guerra punica foi consequincia 
de uma decisiio voluntiiria de Anibal, assim 
como a explosiio da guerra dos sete anos ou 
da guerra de 1866 foram, respectivamente, 
consequincias de uma decisiio de Frederico, 
o Grande, e de Bismarck. Meyer tambCm afir- 
mara que a batalha de Maratona foi de gran- 
de importhcia historica para a sobrevivincia 
da cultura grega e, por outro lado, que os 
fuzilamentos que, na noite de margo de 1848, 
deram inicio a revoluqiio em Berlim niio fo- 
ram determinantes, pel0 fato de que, dada 
a situagiio na capital prussiana, qualquer 
incidente teria podido fazer explodir a luta. 
Opini6es desse tip0 atribuem a certas 
causas importhcia maior que a outras. E 
essa desigualdade de significado entre os 
viirios antecedentes do fen6meno pode ser 
detectada, diz Weber, jii que, com base nos 
conhecimentos e nas fontes a disposigiio, o 
o por Otto Neumnnn. 
historiador constroi ou imagina um desen- 
volvimento possivel, excluindo uma causa 
para determinar seu peso e sua import2ncia 
no devir efetivo da historia. Assim, em rela- 
qiio aos exemplos anteriores, o historiador 
se prop6e, pel0 menos implicitamente, a 
pergunta: o que teria acontecido se os per- 
sas houvessem vencido, se Bismarck niio 
Capitulo quarto - MaX Weber e as ci&cias histbrico-sociais 61 
houvesse tomado aquela deck50 e se n5o 
houvesse ocorrido o fuzilamento em Ber- 
lim? Da mesma forma que um penalista, o 
historiador isola mentalmente urna causa 
(por exemplo, a vitoria de Maratona ou o 
fuzilamento nas ruas de Berlim), excluindo-a 
da constelagao de antecedentes, para depois 
se perguntar se, sem ela, o curso dos aconte- 
cimentos teria sido igual ou diferente. 
Desse modo, constroem-se possibili- 
dudes objetivas, isto C, opinities (baseadas 
no saber a disposig50) sobre como as coisas 
podium ocorrer, para se compreender me- 
lhor como elas ocorreram. Prosseguindo no 
exemplo, se os persas houvessem vencido, 
entzo C verossimil (ainda que nao necessa- 
rio, pois Weber n5o C determinista) que eles 
houvessem impost0 na GrCcia, como fizeram 
em toda parte onde venceram, urna cultura 
teocratico-religiosa baseada nos mistCrios