história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

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e nos oriculos. Esta C urna possibilidade 
objetiva e n5o gratuita, para que compreen- 
damos que a vitoria de Maratona 6 causa 
muito importante para o desenvolvimento 
posterior da GrCcia e da Europa. J i os 
fuzilamentos diante do castelo de Berlim, 
em 1848, pertencem ordem das causas 
acidentais, pel0 fato de que a revolug5o teria 
explodido de qualquer forma. 
Weber distingue claramente entre co- 
nhecer e avaliar, entre juizos de fato e juizos 
de valor, entre "o que 6" e "o que deve ser". 
Para ele a citncia social C Go-valorativa, no 
sentido de que procura a verdade, ou seja, 
procura apurar como ocorreram os fatos e 
por que ocorreram assim e n5o diferente- 
mente. A citncia explica, n5o avalia. 
Dentro do trabalho de Weber, tal toma- 
da de posig5o tem dois significados: 
a) um, epistemol6gic0, consiste na 
defesa da liberdade da citncia em relag50 a 
avaliag6es Ctico-politico-religiosas (uma teo- 
ria cientifica n5o C catolica nem protestante, 
n5o C liberal nem marxista); 
b) o outro significado, Ctico-pedagogi- 
co, consiste na defesa da citncia em relag50 
as deformagties demagogicas dos chamados 
"socialistas de citedra", que subordinavam 
o valor da verdade a valores Ctico-politi- 
cos, isto 6, subordinam a catedra a ideais 
politicos. 
Com base nisso, C oportuno fixar em 
alguns breves pontos as consideragties de 
Weber sobre a quest50 da avaliabilidade: 
1) 0 professor deve ter claro quando faz 
citncia e, ao contrario, quando faz politica. 
2) Se o professor, durante urna aula, 
n5o pudesse se abster de produzir avalia- 
@es, ent5o deveria ter a coragem e a probi- 
dade de indicar aos alunos aquilo que C puro 
raciocinio 16gico ou explicag50 empirica, 
e aquilo que se refere a apregos pessoais e 
convicgties subjetivas. 
3) 0 professor n5o deve aproveitar de 
sua posigiio de professor para fazer propa- 
ganda de seus valores; os deveres do pro- 
fessor s5o dois: 
a) de ser cientista e de ensinar os outros 
a se tornarem tambCm; 
b) de ter a coragem de p6r em discuss50 
seus valores pessoais e de p6-10s em discus- 
s5o no ponto em que se pode efetivamente 
discuti-los, e n5o onde se pode facilmente 
contrabandei-10s. 
4) A citncia C distinta dos valores, mas 
n50 esta separada deles: urna vez fixado o 
objetivo, a citncia pode nos dar os meios 
mais apropriados para alcanqii-lo, pode pre- 
ver quais ser5o as conseqiitncias provaveis 
do empreendimento, pode nos dizer qua1 C 
ou sera o "custo" da realizag50 do fim a que 
nos propomos, pode nos mostrar que, dada 
urna situagzo de fato, certos fins s5o irreali- 
zaveis ou momentaneamente irrealizaveis, e 
pode nos dizer tambCm que o fim desejado 
choca-se com outros valores. 
Em todo caso, a citncia nunca nos diri o 
que devemos fazer, e como devemos viver. Se 
propusermos essas interrogagties a citncia, 
nunca teremos resposta, porque teremos 
batido a porta errada. Cada um de n6s deve 
buscar a resposta em si mesmo, seguindo sua 
inspirag50 ou sua fraqueza. 0 mCdico pode 
at6 nos curar, mas, enquanto mCdico, n5o 
esti em condigties de estabelecer se vale ou 
niio vale a pena viver. 
A ktica protestante 
e o espirito do capitaIismo 
Tanto em seu grande tratado Econo- 
mia e sociedade (ver o capitulo: "Tipos de 
comunidade religiosa") como nos Escritos 
de sociologia da religiiio, Weber estudou a 
importhcia social das formas religiosas de 
vida. 0 ponto de partida da historia reli- 
giosa da humanidade C um mundo repleto 
Primeira parte - P\ filosofia do S~CUIO )<JK ao SCCUIO )<)< 
de sagrado e, em nossa Cpoca, o ponto de 
chegada C aquilo que Weber chama de desen- 
canto d o mundo: &quot;A ciincia nos faz ver na 
realidade externa unicamente forqas cegas, 
que podemos dispor a nosso serviqo, mas 
n5o pode fazer sobreviver nada dos mitos 
e da divindade com que o pensamento dos 
primitivos povoava o universo. Nesse mun- 
do desprovido de encantos, as sociedades 
humanas evoluem para uma organizagiio 
mais racional e sempre mais burocratica&quot;. 
Niio podemos nos deter aqui nos 
interessantissimos problemas levantados 
no grande tratado Economia e sociedade. 
Entretanto, C obrigat6rio pel0 menos acenar 
ao famoso livro de Weber A e'tica protestante 
e o espirito do capitalismo, de 1904-1905. 
Weber esta persuadido de que o capita- 
lismo modern0 deve sua forqa propulsora a 
Ctica calvinista. A concepgiio calvinista em 
quest50 C a que se pode encontrar no texto 
da Confissiio de Westminster de 1647, resu- 
mida por Weber nos cinco pontos seguintes: 
1) existe um Deus absoluto e trans- 
cendente, que criou o mundo e o governa, 
mas que o espirito finito dos homens niio 
pode captar; 
Gesammtlte Aufsltze 
iYI 
ionssozioIogie 
Frontispicio dos Escritos de sociologia da religizo 
(Tiibingen, 1920). 
2) esse Deus, onipotente e misterioso, 
predestinou cada um de n6s a salvag5o ou 
5 danagiio, sem que, com nossas obras, 
possamos modificar um decreto divino j6 
estabelecido; 
3) Deus criou o mundo para sua gl6ria; 
4) esteja destinado a salvagiio ou a da- 
nac5o. o homem tem o dever de trabalhar 
pa;a ig16ria de Deus e criar o reino de Deus 
sobre esta terra; 
5) as coisas terrenas, a natureza huma- 
na, a carne, pertencem ao mundo do pecado 
e da morte: a salvaciio Dara o homem C 
> L 
tiio-somente um dom totalmente gratuito 
da graqa divina. 
Esses diferentes elementos podem-se 
encontrar dispersos em outras concepg~es 
religiosas, mas a combinagiio de tais elemen- 
tos, precisa Weber, C original e unica, com 
conseqiiincias verdadeiramente de grande 
import2ncia. Antes de mais nada, encontra 
aqui sua conclusiio aquele grande processo 
historico-religioso de eliminagio do elemento 
mhgico do mundo, processo que se iniciou 
com as profecias judaicas e prosseguiu corn 
o pensamento grego. Niio h6 comunicaqiio 
entre o espirito finito e o espirito infinito de 
Deus. Em segundo lugar, a Ctica calvinista 
esth ligada a uma concepqiio anti-ritualista 
que leva a consciincia ao reconhecimento 
de uma ordem natural, que a ciincia pode e 
deve explorar. 
AlCm disso, ha o problema da predesti- 
naqiio. 0 s calvinistas viram no sucesso mun- 
dano na pr6pria profissiio o sinal da certeza 
da salvaq5o. Em substfincia, as seitas calvi- 
nistas acabaram por encontrar no sucesso 
temporal, sobretudo no sucesso econ6mic0, 
a prova da eleiq5o divina. Em outros termos, 
o individuo C impelido a trabalhar para 
superar a angustia em que C mantido pela 
incerteza de sua salvaqiio. 
H i mais, porCm: a Ctica protestante 
ordena ao crente desconfiar dos bens deste 
mundo e praticar conduta ascCtica. A essa al- 
tura, estii claro que trabalhar racionalmente 
em fungiio do lucro e n50 gastar o lucro, 
mas reinvesti-lo continuamente, constitui 
comportamento inteiramente necessirio ao 
desenvolvimento do capitalismo. 
Weber e IV\arx 
Do materialismo hist6rico Weber rejei- 
ta o pressuposto marxista de uma direg5o 
determinada de condicionamento que vai da 
Capitulo quarto - M a x Webev e as ci2ncias hist6~ico-sociais 
estrutura para a superestrutura e que tenha 
o cariter de interpretagio geral da hist6ria. 
E, contrariamente ii posigio marxista do 
inelutavel condicionamento do momento 
econ6mico sobre qualquer outro estado pes- 
soal ou social, material ou imaterial, Weber 
propGe, no escrito A &quot;objetividade&quot; cognos- 
citiva da cizncia social e da politica social, 
urna divisiio dos fen6menos sociais com 
base em sua relag50 com a economia (para 
esse prop6sito fala-se de fen6menos econ6- 
micos verdadeiros e proprios, de fen6menos 
economicamente importantes, por exemplo, 
os processos da vida religiosa, e de fen6me- 
nos condicionados economicamente, como, 
por exemplo, os fen6menos artisticos). 
Como bem se pode ver, Weber procura 
ampliar e desdogmatizar a posigio marxista, 
mostrando