história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

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com o sagrado e muda sua existencia. James chega a defender 
positiva da filosofia a experiencia mistica, uma experiCncia que potencia 
da experiencia e alarga o campo perceptivo e que abre para possibilidades des- 
religiosa conhecidas no exercicio da racionalidade. A influente obra de 
-335 James A variedade da experibcia religiosa e de 1902. 
Capitdo quinto - 0 pragmatismo 8 5 
0 pvagmatismo 
& apenas urn mktodo 
Se com Peirce temos a vers5o 16gica do 
pragmatismo, com James temos a versio 
moral e religiosa, apesar de James ser lau- 
reado em medicina e ter ensinado fisiologia 
e anatomia em Harvard. 
Foi James (Nova Iorque, 1842 - Cho- 
corua, New Hampshire, 191 0) - quem lan- 
qou o pragmatismo como filosofia em 1898. 
Foi sob a sua lideranqa que o pragmatismo 
tornou-se conhecido no mundo. 0 prag- 
mat i sm~ de fato foi recebido e conhecido 
pelo public0 mais amplo nas concepqdes 
propostas por James. 
Afirma James: "0 pragmatismo C ape- 
nas mCtodo" que se configura, em primeiro 
lugar, como uma atitude de pesquisa, como 
"a disposiqiio de afastar o olhar das coisas 
primeiras, dos principios, das 'categorias', 
das pretensas necessidades e, ao contrkio, 
voltar os olhos para as coisas ultimas, os 
resultados, as conseqiicncias, os fatos". 
0 pragmatismo 6 mCtodo para alcanqar 
a clareza das idtias que temos dos objetos. 
E esse mCtodo nos impde "considerar quais 
efeitos priticos concebiveis essa [idCia] pode 
implicar, quais sensaqdes podemos esperar 
e quais reaq6es devemos preparar. Nossa 
concepqiio desses efeitos, tanto imediata 
como remota, C entiio toda a concepqHo 
que temos do objeto, enquanto ela tiver 
significado positivo". 
A verdade de urna idkia 
se reduz h sua capcidade 
A este ponto, parece que as idkias de 
James sobre o pragmatismo (expostas no 
ensaio Pragmatismo, de 1907) n5o diferem 
das de Peirce. No entanto, as coisas n5o 
s5o bem assim: para James, "as idCias (que 
siio parte da nossa expericncia) tornam-se 
verdadeiras a medida que nos ajudam a 
obter relaq5o satisfat6ria com as outras 
partes de nossa expericncia, e a resumi-las 
por meio de esquemas conceituais [...I. 
Uma idCia C verdadeira quando nos permi- 
te andar adiante e leva-nos de uma parte 
a outra de nossa expericncia, ligando as 
coisas de mod0 satisfatbrio, operando com 
seguranqa, simplificando, economizando 
esforqos". 
Esta, diz ainda James, "C a concepq50 
'instrumental' da verdade, ensinada com 
tanto sucesso em Chicago, a concepqiio 
t50 brilhantemente difundida em Oxford: 
a veracidade de nossas idtias significa sua 
capacidade de 'operar' ". Desse modo, a 
veracidade das idCias era identificada com 
sua capacidade de operar, com sua utilidade, 
tendo em vista a melhoria ou a tornar menos 
precaria a condiqiio vital do individuo. 
AlCm disso, para James "a verdade de 
uma idCia niio esta em sua estagnante pro- 
priedade". H i um processo de verificaq50 
que torna verdadeira uma idtia. "Uma idCia 
torna-se verdadeira, C tornada verdadeira 
pelos acontecimentos. Sua veracidade 6 de 
fato acontecimento, processo: mais exata- 
mente, o processo de seu verificar-se, sua 
verifica@on . As idCias verdadeiras, segun- 
do James, "s5o as que podemos assimilar, 
ratificar, confirmar e verificar. E falsas siio 
aquelas em relaq5o as quais n5o podemos 
fazer o mesmo". 
As idiias ou teorias verdadeiras, para 
James, s5o aproximaqdes melhores do que 
as idiias anteriores, resolvendo os proble- 
mas de mod0 mais satisfat6rio. E "a posse 
da verdade, longe de ser fim, C apenas meio 
para outras satisfaq6es vitais". 
86 Prirneira parte - A filosofia do S ~ C & XJX ao S;CJ~ 
0 s pvincipios da psicologia 
e a mente C O ~ O instv~mento 
Em 1890, James publicou os dois vo- 
lumes que constituem os Principios de psi- 
cologia. James considera que uma formula 
que prestou amplos serviqos a psicologia 
foi a formula spenceriana, segundo a qual 
"a esscncia da vida mental e a esshcia 
da vida corporal siio idhticas, ou seja, 'a 
adaptaqiio das relaq6es internas as exter- 
nas' ". Essa formula pode ser considerada 
a encarnagiio da generalidade - comenta 
James - mas, "corno considera o fato de 
que as mentes vivem em ambientes que 
agem sobre elas e sobre as quais elas por 
seu turno reagem, ja que, em suma, ela p6e 
a mente no concreto de suas relaqees, tal 
formula C imensamente mais fCrtil do que 
a velha 'psicologia racional', que conside- 
rava a alma como coisa separada e auto- 
suficiente, e pretendia estudar somente sua 
natureza e prioridade". 
Na realidade, James faz da mente um 
instrumento dinBmico e funcional para a 
adaptaqao ambiental. A vida psiquica ca- 
racteriza-se por finalismo que se expressa 
como energia seletiva j i i no ato elementar 
da sensaqiio. 
Por isso tudo, a velha nog5o de alma 
ja niio servia para James. Mas ele tambCm 
criticava os associacionistas, que reduziam 
a vida psiquica a combinagiio das sensaq6es 
elementares, e criticava os materialistas, com 
sua pretensiio de identificar os fen6menos 
psiquicos com os movimentos da matCria 
cerebral. 
A conscihcia se apresenta para Ja- 
mes como corrente continua: ele fala de 
uma stream of thought (uma corrente de 
pensamento). E a unica unidade que se 
pode detectar na stream of consciousness C 
aquela pela qual o pensamento "difere em 
cada momento do momento anterior, apro- 
priando-o juntamente com tudo o que este 
ultimo chama de seu". A "experihcia pura" 
aparece para ele como "o imenso fluxo vital 
que fornece o material para a nossa reflex50 
ulterior". Para James, a relaqiio sujeito-ob- 
jeto C derivada. 
Conceber a mente como instrumento 
de adaptas50 ao ambiente foi a idiia que 
levou James a ampliaqiio d o objeto de es- 
tudo da psicologia: esse objeto niio diria 
mais respeito somente aos fen6menos per- 
ceptivos e intelectivos, e sim tambCm aos 
condicionamentos sociais ou fen6menos 
como os concernentes ao hipnotismo, a 
dissociaqio ou ao subconsciente. James 1-60 
apenas realizou aniilises refinadas e criticas 
agudas sobre esses temas, mas tambCm 
prenunciou muitas doutrinas que depois 
seriam desenvolvidas pel0 comportamen- 
talismo, pela psicologia da Gestalt e pela 
psicanalise. 
entre ideais contvastantes? 
Presente em diversos escritos de James, 
a quest50 Ctica C enfrentada explicitamente 
em dois escritos fundamentais para sua 
CVLTV 
DELE A N I M A 
Frontispi'cio da ed i~do italiana 
dos Ensaios pragmaticos de William James, 
publicada por Carabba em 191 9 
com urn prefacio e uma bibliografia 
de Giouanni Papini. 
concepqiio pragmitica: 0 filbsofo moral 
e a vida moral, de 1891, e A vontade de 
crer, de 1897. Neste ultimo ensaio, James 
levanta quest6es como a dos valores, que 
nPo ~ o d e m ser decididas recorrendo 2s ex- 
periencias sensiveis: "As quest6es morais, 
antes de tudo, niio siio tais que sua soluqiio 
possa esperar prova sensivel. Com efeito, 
uma questiio moral niio C uma questiio do 
que existe, mas daquilo que 6 born ou seria 
bom que existisse". 
A ciincia pode nos dizer o que existe 
ou niio existe. Mas, para as quest6es mais 
urgentes, devemos consultar as "raz6es do 
coraq507'. H6 decis6es que todo homem 
niio pode deixar de tomar: dizem respeito 
ao sentido ultimo da vida, ao problema 
da liberdade humana ou de sua falta, da 
dependincia ou niio no mundo em relaqiio 
a uma inteligencia ordenadora e regente, 
da unidade monistica ou n5o do mundo. 
todas quest6es teoricamente insoluveis, que 
s6 se podem enfrentar mediante escolha 
pragmitica. 
Voltemos, portm, aos valores. 0 s fatos 
fisicos existem ou niio existem e, enquanto 
tais, nPo sHo bons nem maus: "0 ser melhor 
niio C relaciio fisica". A realidade C aue o 
bem e o ma1 s6 existem em referhcia ao 
fato de que satisfazem ou nPo as exigfncias 
dos individuos. Refletindo