história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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isto 6, menos 
dependentes de qualquer impress50 ou 
preferencia individuais". Substancialmente, 
para Vailati, a norma pragmatica constitui 
urna linha de demarcagio entre quest6es 
sensatas e quest6es sem sentido: "A quest50 
de determinar o aue aueremos dizer auando 
1 1 - 1 
enunciamos dada proposigiio n5o i apenas 
urna questio completamente diferente da 
quest50 de decidir se essa proposigiio e' ver- 
dadeira o u falsa: i quest50 que, de um ou de 
outro modo, precisa ser decidida antes que 
se possa sequer comegar a tratar da outra". 
Desse modo, o pragmatism0 tem cariter 
utilita'rio. "enauanto leva a descartar certo 
numero de quest6es inuteis: inuteis, porim, 
pela simples raz5o de que s5o apenas ques- 
t6es aparentes ou, mais precisamente, n5o 
s io auest6es de mod0 nenhum". Assim. Dor 
z L 
exemplo, as interminaveis discuss6es sobre 
o tempo, sobre a substiincia, sobre o infinito 
etc., que ocupam tanto espaqo em certas dis- 
cuss6es filos6ficas. "fornecem numerosos e 
caracteristicos exemplos das virias espicies 
de 'quest6es ficticias' ", quest6es que se asse- 
melham a da crianqa que perguntava ao pai 
onde esta' o vento quando niio estd soprando. 
Portanto, analise da linguagem e tera- 
pia lingiiistica. Voltando-nos para a parte 
construtiva do pensamento de Vailati, de- 
vemos recordar que ele examinou grande 
numero de problemas, apresentando vdidas 
contribuig6es clarificadoras. Andise de 
quest6es algibricas, geomitricas e 16gicas; 
estudos de metodologia cientifica; analise 
dos conceitos de causa e efeito aplicados i s 
ciincias hist6ricas: exame do ~roblema dos 
termos te6ricos nas ciencias empiricas e das 
relag6es entre linguagem comum e linguajar 
ttcnico, e assim por diante. 
E ainda outro ponto importante. Vaila- 
ti nos deixou estupendos ensaios de hist6ria 
da ciincia. De acordo com Mach, Vailati 
escreveu o seguinte sobre a importiincia 
dessa disciplina: "Sejam verdadeiras, sejam 
falsas, as opini6es s io fatos apesar de tudo 
e, como tais, merecem e exigem ser tomadas 
como objetos de investigagio, verificagio, 
confronto, interpretagso e explicaqio, pre- 
cisamente como qualquer outra ordem de 
fatos e com o mesmo objetivo [...I". Eis, 
pois, a enorme importiincia do mundo de 
papel. "Eu diria que a hist6ria das teorias 
cientificas sobre determinado tema n5o deve 
ser concebida como a hist6ria de urna sCrie 
de tentativas sucessivas. todas sem sucesso. 
exceto a ultima [...I. Ao contrario, a historia 
nos apresenta urna sirie de acontecimentos, 
em que cada qual supera e eclipsa o anterior, 
assim como o anterior, por sua vez, superara 
e eclipsara os que o haviam precedido [. . .I. 
Encontramo-nos sempre ou quase sempre 
diante de um process0 de aproximag6es 
sucessivas. com~araveis a urna sirie de 
exploraq6es em regiio desconhecida, cada 
urna das quais corrige ou precisa melhor 
os resultados das exploraq6es anteriores e 
torna sempre mais f a d , para as exploraq6es 
que se seguem, a consecugio do objetivo que 
todas tiveram em vista". Desse modo, Vailati 
precisava tambtm a funq5o do erro na his- 
t6ria da pesquisa cientifica: "Uma afirmaqio 
err6nea ou um raciocinio inconcludente de 
um cientista de tempos passados podem ser 
t io dignos de consideragio quanto urna des- 
coberta ou urna intuiqiio genial, se tambtm 
servirem para lanqar luz sobre as causas que 
aceleraram ou retardaram o progress0 dos 
conhecimentos humanos. ou Dara evidenciar 
o mod0 de agir de nossas ficuldades inte- 
lectuais. Cada err0 nos indica um escolho 
a evitar, ao passo que nem toda descoberta 
nos aponta um caminho a seguir". 
e Fora atinqido pelo fato de que hd divsrsos 
- . 
modos incompativeis entre SI para explicar 
os mesmos fatos. Por fim, a circunstbcia que 
uma hipotese, embora possa fazer-nos prever 
corretamente csrtos fatos, possa no futuro 
Ievar-nos a expectativas err6neas em relagdo 
a outros fatos - esta masma circunsthia, que Abdu~Bo, dodu~Go~ indu~Bo ndo ,odemos nwar uma vez que nos tenha 
saltabo aos olho; rmpressiono" ds tal forma 
Peirce cham0 de abdugdo o passo infe- 
rencial" que leva urn pesquisador a odotor 
umcl hipotese como tentative de solu~5o 
ds urn "fato surprssndsnte"; umo vez que 
a hip6tese tenho sido formulaclo, dela se 
deduzem as conssqu&ncias; conssqu&ncias 
qus ser6o indutivamante controladas sobre 
0s fatos. 
Ss aceitarmos a conclusdo de que uma 
explicagdo 6 necessdria quando surgem fatos 
contrdrios bquilo qus haviamos esparado, 
segue-se dai qua a explicagdo dew ser uma 
proposigdo em grau de prever os fatos ob- 
servados como consequ&ncias necessdrias ou 
pelo menos provdveis naqualas circunst8ncias. 
R esta ponto deve-se adotar uma hipotese, 
que seja em si verossimil a torns vsrossimsis 
os fatos. 0 passo de adogdo ds uma hipdtese 
enquanto sugerida pelos fatos 6 aquilo que 
defino como abdug3o. Considero-a uma forma 
de inferhcia, por mais problemdtica qua seja a 
hip6tsse adotada. Quais sbo as regras bgicas 
a saguir para realizar esta adogdo? Nbo seria 
racional impor regras e d i m que devem ser se- 
guidas at& qua ndo esteja claro que o objetivo 
da hip6tese as requeira. Rnalogamente, parece 
qua os primeiros cientistas, Tales, nnaximandro 
e os outros, considerasssm esgotada a tarefa 
do cibncia, uma vez que fosse sugerida uma 
hip6tese verossimil. Com isto homenageio seu 
solido instinto 16gico pela hipotsse. Tclmb6m 
Platbo, no Timsu e em outros lugarss, nbo he- 
sita em afirmar claramente a verdade de tudo 
aquilo qua porecs tornar razodvel o mundo, s 
este mesmo procedimento, ainda que em forma 
modificada, estd na base da moderna critica 
hist6rica. Tudo caminhou bem at6 que ndo se 
percebsu que tal procedimento pode interferir 
na utilidade da hipotese. Aristotales afasta- 
se em parte desse mQtodo. Suas hipoteses 
sobre a natursza s60 igualmante infundadas, 
mas a elas acrescenta sempre um "talvez". 
Isto, a meu ver, acontecia porque Arist6teles 
era conhecedor profundo dos outros filosofos, 
os cientistas, primeiro na astronomia e dspois 
nas outras ci&ncias, que se tornou indiscutivel 
qua urna hipotesa adotada por abdugbo deve 
ser adotada apsnas provisoriamente, e devs 
ser experimentado. 
Quando tudo isso for reconhecido como se 
deve, a primeira coisa a fazer, uma vez adotada 
uma hipotese, serd extrair dela as provdveis 
consequ&ncias experimentais. Este passo 6 a 
deduq3o. Notarei de passagem uma regra de 
abdugbo sobre a qua1 Ruguste Comts insiste 
muito, ou seja, que toda hipotese metafisica 
deveria ssr excluida; e por hipotess metafisica 
entende uma hipotese que ndo tem conse- 
qijhncias expsrimsntais. [. . .] 
Ora, tendo tirado por cJedu@o de uma 
hipotese as previsdes dos resultados de um 
experimento, procedarnos a saborear uma hip6 
tese executando o experimento e confrontando 
as previsdes com os resultados efetivos dele. 0 
experimento & uma empresa muito custosa em 
dinhairo, tempo e pensamento, de modo que 
serd uma poupanGa de despesa iniciar com as 
previsdes positivas da hipotese verossimilmente 
menos passiveis de confirmagdo. lsto porque, 
se um axperimsnto particular pode refutar de- 
finitivamente a mais vdlida das hipoteses, uma 
hip6tese fixada por um so experimento seria 
verdadsiramente de escasso valor. Quando, 
por fim, vemos que uma hipotese verifica-se 
experimentalmante, previsbo depois de previ- 
sbo, apesar de ss ter dado preced&ncia d prova 
das previsdes menos plausiveis, sem nenhuma 
modifica<do ou com modificagdes puramente 
quantitativas, antdo comegarnos a atribuir-lhe 
dignidade entre os resultados cientificos. Este 
tipo de inferhncia por experimentos que provam 
as previsdes bassadas sobre urna hipotese 6 
o ljnico que pode de fato ser definido como 
indu@o. 
Ch. 5. Peirce, 
Historia B abduq60. 
$2 Primeira parte - F filosofia do SCCUIO X3)< ao s