história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

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a pouco, atravCs 
de processos mais ou menos tortuosos e ini- 
cialmente desprovidos de urna linha diretriz, 
formam-se e siio transmitidos determinados 
procedimentos e instrumentos tCcnicos. 
V5o sendo reunidas informaqoes sobre as 
coisas, sobre suas propriedades e seus com- 
portamentos, independentemente de cada 
aplica@o imediata particular. Vamo-nos 
afastando sempre mais das situaqoes origi- 
narias de uso e fruiqiio imediatos [...I". 
Niio se ganha muito mantendo o pro- 
prio pensamento ligado ao tronco do uso 
com urna corrente muito curta, sentencia 
Dewey. 0 importante C que, como quer que 
seja, o pensamento, isto C, as idCias, estejam 
ligadas ii pratica, porque as idCias - tanto 
logicas como cientificas - estiio sempre 
em funqiio de problemas reais, ainda que 
abstratos, e porque C sempre a pratica que 
decide do valor de urna idCia. 
E as idCias siio exatamente instrumen- 
tos em nossa investigaqiio: siio instrumentos 
para resolver os problemas e para enfrentar 
um mundo ameaqador e urna existcncia pre- 
&ria. E, por serem instrumentos, h i muito 
pouco sentido em pregar a veracidade ou a 
falsidade deles. As idCias sao instrumentos 
que podem ser eficazes, relevantes ou niio, 
danosos ou econbmicos, mas niio verdadei- 
ros ou falsos. E o juizo final que se d i em 
todo process0 de pesquisa nada mais C do 
que urna "afirmaqiio garantida". 
Eis, portanto, o significado genuino 
do instrumentalismo de Dewey: a verdade 
niio C mais adequaqiio do pensamento ao 
ser, mas se identifica muito mais com "o 
poder comprovado de guia" de uma idCia 
e, em ultima anilise, com "o corpo sempre 
crescente das afirmaq6es garantidas", de- 
vendo-se ter em vista que essa garantia niio 
C absoluta nem eterna, j i que os resultados 
da pesquisa cientifica, bem como de toda 
operaqzo humana, siio continuamente corri- 
giveis e aperfeiqoiveis em relaqiio 2s novas e 
cambiantes situaq6es em que o homem viri 
a se encontrar em sua historia. 
f\ feoria dos vaIo~es 
Se as idCias comprovam seu valor na 
luta com os problemas reais, e se cada in- 
dividuo tern o direito-dever de dar sua con- 
tribuiqiio a elaboraqiio de idCias capazes de 
guiar positivamente a aqiio humana, entiio 
esti claro que as idCias morais, os dogmas 
politicos ou os preconceitos do costume 
tambim n5o se revestem de autoridade es- 
pecial: tambCm eles devem ser submetidos 
B verificaqiio de suas consequtncias na pra- 
tica e devem ser responsavelmente aceitos, 
rejeitados ou mudados com base na anilise 
de seus efeitos. 
Dewey 6 relativista, niio considera 
possivel fundamentar valores absolutos. 0 s 
valores siio historicos e a tarefa do fil6sofo 
C a de examinar as "condiq6es generativas" 
(isto C, as instituiq6es e os costumes ligados 
a estes valores) e de avaliar sua funcionali- 
dade na perspectiva de urna renovaqiio, em 
relaqiio i s necessidades que pouco a pouco 
irrompem da vida associada dos homens. 
Com efeito, existem valores de fato, isto C, 
bens imediatamente desejados, e valores de 
direitp, isto C, bens razoavelmente deseji- 
veis. E precisamente funqiio da filosofia e da 
Ctica promover a continua revisiio critica, 
voltada para a conservaqiio e o enriqueci- 
mento dos valores de direito. E esta claro 
que, na perspectiva de Dewey, sequer estes 
ultimos podem ter a pretensiio de dignidade 
meta-historica, ja que todo sistema Ctico 
C relativo ao meio em que se formou e se 
tornou funcional. 
A Ctica de Dewey C historica e social: 
como na teoria da pesquisa, nela tambtm 
desponta aquele sentido de interdependincia 
e de unidade inter-relativa dos fenbmenos, 
que se explicitari no conceit0 de intera~ii.0 
entre individuo e meio fisico e social. Assim, 
os valores tambCm siio fatos tipicamente 
humanos: s5o planos de aqiio, tentativas de 
resolver problemas que brotam da vida as- 
sociada dos homens. E constitui objetivo da 
filosofia educar os homens "a refletir sobre 
Capitulo sexto - 0 instrumentalismo de John D e w e y 
os valores humanos mais elevados, da mes- 
ma forma como eles aprenderam a refletir 
sobre aquelas quest6es que se inserem no 
iimbito da tCcnican. 
Ha, sem duvida, o problema da deter- 
minagio dos fins. Escreveu Dewey: "A c i h - 
cia C indiferente ao fato de suas descobertas 
serem utilizadas para curar as doengas ou 
difundi-las, para acrescer os meios para a 
promoqiio da vida ou para fabricar material 
bClico a firn de aniquila-la". 
Por vezes, Dewey parece indicar como 
firn ultimo da vida dos homens um reino de 
Deus visto como justiga, amor e verdade. 
Entretanto, C precis0 insistir em um ponto 
de capital importincia no pensamento de 
Dewey: trata-se da n i o possibilidade de 
distinguir entre meios e fins. 
Para Dewey todo firn C tambCm meio e 
todo meio para atingir um firn C desfrutado 
ou percebido tambCm como fim. A atividade 
que produz meios e a atividade que inventa 
e consuma os fins estio intimamente liga- 
das uma a outra. 0 firn alcanqado C meio 
para outros fins. E a avaliaqio dos meios C 
fundamental para todo firn real e genuino, 
que niio queira ser v i fantasia, ainda que 
nobre e sugestiva. E as coisas que parecem 
fins sio, com efeito, unicamente previs6es 
ou antecipaqoes do que pode ser levado a 
existhcia em determinadas condig6es. Por 
isso, em Teoria da avalia@o (1939), Dewey 
escreve que n io existe problema de avalia- 
g5o fora da relagio entre meios e fins, o que 
vale n io somente na Ctica, mas tambCm na 
arte, onde a criagiio dos valores estiticos (a 
arte C natureza transformada e niio existe 
distingio entre belas-artes e artes uteis) requer 
a utilizaqio de meios adequados. 
P\ t e o v i a da democmcia 
Dewey C urn relativista pelo fato de 
que, em sua opinigo, n io existem mCtodos 
racionais para a determinagio dos fins ulti- 
mos. Por isso Dewey t decididamente con- 
trario aos filosofos utopicos que, projetando 
suas vis6es ideais, n io se preocuparam em 
dedicar uma investigaqio acurada aos meios 
Kctr de John Dewey feito por E. B. Child. 
lo2 Primeira parte - A filosofia do S~CUIO XJX aa S&CUIO XX 
necessirios para sua realizaqiio, e sequer em 
avaliar atentamente sua desejabilidade mo- 
ral efetiva. A utopia gera normalmente o ce- 
ticismo ou o fanatismo. 0 que C necessirio, 
segundo Dewey, C propor metas concretas 
e descer dos fins remotos para os mais pr6- 
ximos, realiziveis em condiqoes hist6ricas 
efetivas. Portanto, Dewey projeta o operar 
continuo tendo em vista maior consciencia 
e maior liberdade, no sentido de que a liber- 
dade conquistada hoje cria situaq6es graqas 
i s quais haverii mais liberdade amanhii, e no 
sentido de que minha liberdade faz crescer 
a dos outros. 
Conseqiientemente, Dewey C avesso a 
sociedade totalitiria e convict0 defensor da 
sociedade democritica. Para ele, a pressu- 
posiqiio de um fim absoluto trunca a discus- 
siio, ao passo que a democracia representa 
discussiio inteiramente livre. C mCtodo aue 
permite discutir toda finalidade, C debHte 
sem fim, 6 colaboraqiio, C participaqiio em 
finalidades conjuntas. A democracia C aquele 
mod0 de vida em aue "todas as oessoas ma- 
duras participam da formaqiio dos valores 
que regem a vida dos homens associados", 
mod0 de vida que "6 necessiirio tanto do 
ponto de vista do bem social como da 6tica 
do desenvolvimento pleno dos seres huma- 
nos como individuos". Em Liberalismo e 
agiio social (1935), Dewey afirma que "o 
problema da democracia [...I torna-se o 
problema daquela forma de organizagiio 
social que se estende a todo campo e a todo 
caminho da vida, pel0 qua1 as for~as indi- 
viduais niio deveriam ser simplesmente li- 
bertadas de constri~6es mecAnicas externas, 
mas deveriam ser alimentadas, sustentadas 
e dirigidas" . 
Com base nisso tudo, pode-se compre- 
ender a aversiio de Dewey pela sociedade 
planejada.