história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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todos os valores 3 
Capitulo segundo 
0 neocriticismo. 
A Escola de Marburgo e a Escola de Baden 21 
Capitulo terceiro 
0 historicismo alemio 
de Wilhelm Dilthey a Friedrich Meinecke 33 
Capitulo quarto 
Max Weber: 
o desencantamento do mundo 
e a metodologia das ciencias historico-sociais 55 
Capitulo quinto 
0 pragmatism0 79 
Capitulo sexto 
0 instrumentalismo de John Dewey 95 
Capitulo sCtimo 
0 neo-idealism0 italiano, Croce e Gentile 
e o idealism0 anglo-americano 109 
e t r a n s m ~ t a + o d e todos os valores 
4 Primeira parte - A filosofia do S&CM~O XJ)< QO S&CUIO )<)< 
Socra tes com sua louca presunsilo de dominar a vida com a razilo. Estamos 
e la tso em plena decadencia. Socrates e Platdo silo &quot;sintomas de deca- 
sso dencia, os instrumentos da dissolqilo grega, os pseudogregos, os 
&quot;pseudogregos&quot; antigregos&quot;. Socrates - continua Nietzsche - &quot;foi apenas alguCm 
e &quot;antigregosn longamente enfermo&quot;. Foi hostil a vida. Destruiu o fascinio dio- 
-3 § 2 nisiaco. A racionalidade a todo custo e uma doensa. 
Contra a exaltagilo da ciencia e da historia, Nietzsche, entre 1873 e 1876, 
escreve as Consideragdes inatuais: Strauss, Feuerbach e Comte sZio mediocres filis- 
teus; Strauss, mais precisamente, e &quot;autor de um evangelho de cervejaria&quot;. 
Nietzsche combate a saturagao de histdria e a idolatria do 
Historia fato (0s fatos &quot; d o estupidos&quot;; apenas as teorias que os interpre- 
demasiada tam podem ser inteligentes), e afirma que quem crb no &quot;poder da 
torna historia&quot; sera hesitante e inseguro, &quot;nilo pode crer em si mesmo&quot;, 
&quot;hesitantes e serij enti30 sucubo do existente, &quot;seja ele um governo, uma 
e insegurostt opiniao publica, ou a maioria numerica&quot;. 
+ § 3 Nietzsche rejeita a histdria monumental (de quem procura no 
passado modelos e mestres) e a histdria antiqudria (a que busca 
os valores sobre os quais a vida presente se enraiza) e torna-se 
partidhrio da histdria critica: esta 6 a historia de quem julga o passado, procurando 
abater os obsthculos que proibem a realizagilo dos proprios ideais. 
* Nietzsche havia dedicado a Wagner o Nascimento da tragPdia, vendo em 
Wagner &quot;seu insigne precursor no campo de batalha&quot;. No entanto, porem, ele vinha 
amadurecendo sua separagdo tanto de Wagner como de Schopenhauer, como d 
testemunhado por obras como Humano, demasiadamente huma- 
schopenhauer no (1878), Aurora (1881) e A gaia ciencia (1882). Schopenhauer 
foge da vida &quot;ndo e outra coisa que o herdeiro da tradisdo cristil&quot;; o seu tS &quot;o 
e Wagner pessimismo dos que renunciam, dos falidos e dos vencidos&quot;; 4, 
&quot;est une justamente, o pessimismo resignado do romantismo, fuga da vida. 
nevrose&quot; E, por outro lado, Wagner - deve admitir Nietzsche - n%o C de 
+ § 4 fato o instrumento da regenerasgo da musica; ele - escreve Niet- 
zsche em 0 caso Wagner (1888) - &quot;lisonjeia todo instinto niilista 
(-budista) e o camufla com a musica, bajulando toda cristandade [...In. Wagner 4 
uma doensa: &quot;est une nPvrose&quot;. 
* 0 afastamento de seus dois &quot;mestres&quot; comporta (ou caminha paralelamente 
com) o afastamento de Nietzsche em relasilo ao idealism0 (que cria um &quot;anti- 
mundo&quot;), ao positivismo (com sua louca pretens80 de dominar 
a vida com pobres redes teoricas), aos redentores socialistas, e 
somas ao evolucionismo (&quot;mais afirmado que provado&quot;). 0 desmasca- 
osassassinos ramento, porem, n80 termina aqui. E justamente em nome do 
de Deus instinto dionisiaco, em nome do homem grego sadio do sCculo 
+ § 5 VI a.C., que &quot;ama a vida&quot;, Nietzsche anuncia a &quot;morte de Deus&quot; 
e desfere um ataque decisivo contra o cristianismo. 
Deus esta morto: &quot;Nos o matamos; eu e v6s. Somos seus assassinos!&quot;. Elimi- 
namos Deus de nossa vida; e, ao mesmo tempo, eliminamos aqueles valores que 
eram o fundamento de nossa vida; perdemos os pontos de referhcia, lsso equivale 
a dizer que desapareceu o homem velho, mesmo que o homem novo ainda nao 
tenha aparecido. Zaratustra anuncia a morte de Deus; e sobre suas cinzas exalta 
a idPia do super-homem, repleto do ideal dionisiaco, que &quot;ama a vida e que, es- 
quecendo o 'cCul, volta sanidade da 'terra' &quot;. 
* 0 anuncio da morte de Deus caminha lado a lado com a &quot;maldicSo do 
cristianismo&quot;. verdade que Nietzsche sente-se fascinado pela figura de*cristo: 
&quot;Cristo 6 o homem mais nobre&quot;. Mas o cristianismo nil0 C Cristo. 0 cristianismo 
Capi'tulo primeiro - Nietzsche. Fidelidade h terra e trav\s~?utac2io de todos os valores 5 
- lemos no Anticristo - e uma conjura~30 &quot;contra a saude, a beleza, a constitui@o 
bem-sucedida, a vontade de espirito, a bondade da alma, contra a prdpria vida&quot;. 
Eis a raziio pela qua1 e precis0 a transmuta~a&quot;~ de todos os valores, dos valores que 
&quot;dominaram ate hoje&quot;. 
Esses temas siio difusamente tratados por Nietzsche em Alem Transmuta@o 
do bem e do ma1 (1886) e em Genealogia da moral (1 887). A moral de todos 
da tradisiio 6 a moral dos escravos, dos fracos e mal-sucedidos os valores 
que, n8o podendo dar maus exemplos, d8o bons conselhos. E +§6-7 
esses bons conselhos, a moral, d o fruto do ressentimento: e o 
ressentimento contra a forsa, a saude, o amor pela vida que faz com que se tor- 
nem dever e virtude comportamentos como o sacrificio de si ou a submissiio. E o 
todo justifica-se por metafisicas que, apresentando-se como objetivas, inventam 
&quot;mundos superiores&quot; para poder &quot;caluniar e emporcalhar este mundo&quot;, volunta- 
riamente reduzido a aparCncia. 
Com a morte de Deus e o desmascaramento da metafisica e dos valores que 
ate agora nos sustentavam, o que resta C nada: nos nos precipitamos no abismo do 
nada. Em tudo o que acontece niio ha um sentido, niio existem totalidades racionais 
que se mantenham de pe, nem existem fins consistentes. Caem 
&quot;as mentiras de vArios milCnios&quot; e o homem permanece sozinho 
e espantado. Permanece um mundo dominado pela vontade de O 
aceitar a si proprio e de repetir-re. Esta C a doutrina do eterno 
retorno: o mundo que aceita a si mesmo e que se repete. E a essa 
+ gg doutrina - que Nietzsche retoma da Grecia e do Oriente - ele liga 
sua outra doutrina do amor fati: amar o necessario, aceitar este 
mundo e am&-lo. 0 amor fati e aceitas30 do eterno retorno e da vida e, ao mesmo 
tempo, anuncio do super-homem. 0 super-homem 6 o homem novo que, rompi- 
das as antigas cadeias, cria um sentido novo da terra; 6 o homem que vai aNm do 
homem, o homem que ama a terra e cujos valores d o a saude, a vontade forte, o 
amor, a embriaguez dionisiaca. Esse 4 o anuncio de (Nietzsche) Zaratustra. 
fi vida e a obra 
Friedrich Nietzsche nasceu em 15 de 
outubro de 1844, em Rocken, nas proximi- 
dades de Lutzen. Estudou filologia classica 
em Bonn e em Leipzig. Em Leipzig leu 0 
mundo como vontade e representagiio, de 
Schopenhauer, leitura destinada a deixar 
marca decisiva no pensamento de Nietzsche. 
Com vinte e cinco anos apenas, Nietzsche 
foi chamado, em 1869, a ocupar a citedra 
de filologia classica na Universidade de Ba- 
siltia, onde estreitou amizade com o famoso 
historjador Jakob Burckhardt. 
E desse period0 seu encontro com Ri- 
chard Wagner, que naqueles dias vivia com 
Cosima von Biilow em Triebschen, no lago 
dos Quatro CantBes. Nietzsche se converteu 
A causa de Wagner, que sentiu como &quot;seu 
insigne precursor no campo de batalha&quot;, 
passando a colaborar com ele na organiza- 
$20 do teatro de Bayreuth. 
Em 1872, saiu 0 nascimento da tragk- 
dia. Entre 1873 e 1876 Nietzsche escreveu as 
quatro Considera~Bes inatuais. Nesse meio 
tempo, por motivos pessoais e por raz6es 
te6ricas rompeu sua amizade com Wagner. 
0 testemunho desse rompimento pode ser 
encontrado em Humano, muito humano 
(1 878), onde o autor tambtm toma distiincia 
da filosofia de Schopenhauer. 
No ano seguinte, em 1879, por ra- 
z6es de saude, mas tambtm por motivos 
mais profundos (a filologia n i o era seu 
&quot;destino&quot;), Nietzsche demitiu-se do