história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)

história da filosofia - volume 6 (giovanni reale - dario antiseri)


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ensino 
e iniciou sua irrequieta peregrina~io de 
pens50 a pens50 pela Suiga, a It6lia e o sul 
da Franga. 
Em 1881 publicou a Aurora, onde ja 
tomam corpo as teses fundamentais de seu 
pensamento. A Gaia citncia t de 1882: aqui, 
o fil6sofo prometeu novo destino para a 
humanidade. Escreveu esses dois livros em 
Gsnova, onde tambCm teve oportunidade de 
ouvir a Carmen, de Bizet, que o entusiasmou. 
Ainda em 1882 Nietzsche conhece Lou 
SalomC, jovem russa de vinte e quatro anos. 
Acreditando nela, queria desposa-la. Mas 
Lou SalomC o rejeitou e se uniu a Paul RCe, 
amigo e discipulo de Nietzsche. 
Em 1883, em Rapallo, ele concebe sua 
obra-prima: Assim falou Zaratustra, obra 
que foi concluida entre Roma e Nice, dois 
anos depois. Em 1886, publicou Ale'm do 
bem e do mal. A Genealogia da moral C de 
1887. No ano seguinte, Nietzsche escreve: 
"0 caso Wagner, 0 crepusculo dos idolos, 
0 Anticristo, Ecce homo. Do mesmo perio- 
do i tambim o escrito Nietzsche contra 
Wagner. 
Nesse periodo, ainda, I t Dostoiewski. 
Entrementes, parece-lhe ter encontrado 
lugar satisfat6rio em Turim, "a c i d a d ~ 
que se revelou como a minha cidade". E 
em Turim que ele trabalha em sua dt ima 
obra, a Vontade de poder, que, no entan- 
to, niio conseguiu concluir. Com efeito, em 
3 de janeiro de 1889 cai vitima da loucura, 
langando-se ao pescogo de um cavalo que o 
dono estava espancando diante de sua casa 
em Turim. 
Inicialmente, foi confiado a sua mHe 
e, quando esta faleceu, 21 irmii. Morreu em 
Weimar, imerso nas trevas da loucura, em 25 
de agosto de 1900, sem poder se dar conta 
do sucesso que estavam tendo os livros que 
mandara publicar B pr6pria custa. 
Em Leipzig, conforme salientamos, 
Nietzsche leu 0 mundo como vontade e 
representa~iio, de Schopenhauer, e ficou 
fascinado, a ponto de mais tarde o julgar 
Frledrrc-h N~etzsche 
aos ufnte unos. 
Nwtzsche ( 1 844- 1900) 
fol urn critzco 
irnpledoso do passado 
e pvofeta "znatual" 
de nossos d m . 
Capitulo primeiro - i\lietzsche. Fidelidade terra e transmuta~do de todos os valores 7 
como "um espelho, no qual vi [. . .] o mundo, 
a vida e meu pr6prio espirito". 
A vida, pensa Nietzsche nas pegadas de 
Schopenhauer, t cruel e cega irracionalidade, 
dor e destruiqiio. So a arte pode oferecer ao 
individuo a forqa e a capacidade de enfrentar 
a dor da vida, dizendo sim 2 vida. 
E em 0 nascimento da trage'dia, que C 
de 1872, Nietzsche procura mostrar como a 
civiliza@o grega pri-socriitica explodiu em 
vigoroso sentido triigico, que C aceitagiio ex- 
tasiada da vida, coragem diante do destino 
e exaltaqiio dos valores vitais. A arte tragica 
C corajoso e sublime sim a vida. 
Com isso Nietzsche subverte a imagem 
romhtica da civilizagiio grega. Entretanto, a 
GrCcia de que fala Nietzsche niio C a GrCcia 
da escultura cl6ssica e da filosofia de Socra- 
tes, Platiio e Aristoteles, e sim a GrCcia dos 
prC-socraticos (stc. VI a.C.), a Grtcia da 
tragidia antiga, na qual o coro era a parte 
essencial, seniio talvez tudo. 
De fato, Nietzsche identifica o segredo 
desse mundo grego no espirito de Dioniso. 
Dioniso C a imagem da forqa instintiva e da 
saude, C embriaguez criativa e paixiio sen- 
sual, C o simbolo de uma humanidade em 
plena harmonia com a natureza. 
Ao lado do dionisiaco, diz Nietzsche, o 
desenvolvimento da arte grega tambCm est6 
ligado ao apolineo, que C visiio de sonho e 
tentativa de expressar o sentido das coisas 
na medida e na moderaqiio, explicitando- 
se em figuras equilibradas e limpidas. "0 
desenvolvimento da arte esti ligado a di- 
cotomia do apolineo e do dionisiaco, do 
mesmo mod0 como a geraqiio provim da 
dualidade dos sentidos, em continuo con- 
flito entre si e em reconciliaqiio meramente 
periodica [...I. Em suas [dos gregos] duas 
divindades artisticas, Apolo e Dioniso, 
baseia-se nossa teoria de que no mundo 
grego existe enorme contraste, enorme pela 
origem e pel0 fim, entre a arte figurativa, a 
de Apolo, e a arte niio figurativa da musica, 
que C especificamente a de Dioniso. 0 s dois 
instintos, t i o diferentes entre si, caminham 
um ao lado do outro, no mais das vezes em 
aberta discordia [...I, at6 que, em virtude de 
um milagre metafisico da 'vontade' helinica, 
apresentam-se por fim acoplados um ao 
outro. E nesse acoplamento final gera-se a 
obra de arte, tiio dionisiaca quanto apolinea, 
que C a tragtdia 6tica". 
Entretanto, quando, com Euripides, 
tenta-se eliminar da tragidia o elemento 
dionisiaco em favor dos elementos morais e 
intelectualistas, entiio a luminosidade clara 
em relaqiio a vida se transforma em super- 
ficialidade silogistica: surge entiio Socrates, 
com sua louca presunqiio de compreender 
e dominar a vida com a raziio e, com isso, 
temos a verdadeira decadincia. 
Socrates e Platiio siio "sintomas de 
decadincia, os instrumentos da dissoluqiio 
grega, os pseudogregos, os antigregos" . 
"Socrates - escreve Nietzsche - foi um 
equivoco: toda a moral do aperfeiqoamen- 
to, inclusive a cristii, foi um equivoco [...I. 
A mais crua luz diurna, a racionalidade a 
qualquer custo, a vida clara, prudente, cons- 
ciente e sem instintos, em contraste com os 
instintos, isso era apenas doenqa diferente 
- e de mod0 nenhum retorno a 'virtude', 
2 'saudey, h felicidade". "Socrates apenas 
esteve longamente doente". Disse niio a 
vida; abriu uma tpoca de decadincia que 
esmaga tambtm a nos. Ele combateu e des- 
truiu o fascinio dionisiaco que liga homem 
a homem e homem a natureza, e desvela o 
mistCrio do uno primiginio. 
-Aapk 
mit denr Yereooh elner Satibrtkrltfk 
Frontispicio da o h ~ a 
0 nascimento da tragedia, 
de Nietzsche (Leipzig, 1872). 
Primeira parte - A f i l ~ s ~ f ~ a do S & ~ O XJX ao S&CUIO F X 
0 Nascimento da trage'dia foi escrito 
sob a influcncia das idCias de Schopenhauer, 
mas tambCm sob a das idCias de Wagner. 
Com efeito, Nietzsche vislumbrava em Wag- 
ner o prototipo do "artista trigico" desti- 
nado a renovar a cultura contemporinea. E 
dedicou a Wagner o Nascimento da trage'dia, 
assim escrevendo no fim da dedicatoria: 
"Considero a arte como a tarefa suprema 
e como a atividade metafisica propria de 
nossa vida, segundo o pensamento do ho- 
mem ao qual pretend0 dedicar esta obra 
como a meu insigne precursor no campo 
de batalha". 
Logo que saiu, embora defendida pel0 
proprio Wagner e por Erwin Rohde, a obra 
de Nietzsche foi violentamente atacada, em 
nome da seriedade da ci2ncia filol6gica, pelo 
grande filologo Ulrich von Wilamowitz- 
Mollendorff, o qual escreveu que "com o 
Nietzsche apostolo e metafisico niio preten- 
do ter nada a ver", e o acusou de "ignorin- 
cia e escasso amor pela verdade". 
Mas, entre 1873 e 1876, contra a 
exaltaqiio da cihcia e da historia, Nietzsche 
escreve as Considera@es inatuais. Aqui o 
velho hegeliano D. F. Strauss, juntamente 
com Feuerbach e Comte, passa pela en- 
carnaqiio do filisteismo e da mediocridade: 
"autor de um evangelho de cervejaria", 
ele 6 o homem desejado e inventado por 
Socrates. Ao mesmo tempo, Schopenhauer 
C exaltado como precursor da nova cultura 
"dionisiaca". 
Aqui Nietzsche tambCm combate o que 
ele chama de satura@o de hist6ria. Niio que 
negue a importincia da historia: ele combate 
mais a idolatria d o fato, por um lado, e as 
ilusoes historicistas, por outro, com as impli- 
caqdes politicas que elas comportam. Antes 
de mais nada, na opiniio de Nietzsche, os 
fatos siio sempre estupidos: eles necessitam 
de intirprete. Por isso, so as teorias siio in- 
teligentes. Em segundo lugar, quem cri "no 
poder da hist6ria" torna-se "hesitante e in- 
seguro, niio podendo crer em si mesmo". E, 
em terceiro lugar, niio crendo em si mesmo, 
ele seri dominado pel0 existente, "seja ele 
um governo, uma opiniiio publica, ou ainda 
uma maioria numhica". Na realidade,