Autor e autoria no cinema e na televisão
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seu primeiro filme Titicut Follies em 1967, que
pode ser considerado um marco no cinema documental, além da enor-
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me polêmica causada pelo seu conteúdo, fazendo com que o filme ficas-
se censurado por mais de vinte anos. Frederick Wiseman é igualmente o
realizador de uma vasta obra documental composta de mais de trinta
filmes. Todos os filmes documentais deste cineasta trazem marcas
estilísticas inconfundíveis: pouca ou nenhuma interação com os sujei-
tos filmados, a não utilização de nenhum tipo de som (palavra, música)
que não tenha sido captado no momento da filmagem, equipe reduzida,
formada por duas pessoas, o operador de câmera e o próprio Wiseman
que capta o som, ausência de efeitos de montagem, o interesse maior do
cineasta é o de captar o ambiente da instituição filmada em detrimento
da apresentação dos atores sociais que participam das ações, pouco sa-
beremos sobre eles, a não ser se eles mesmos se auto-revelem, não have-
rá nenhum tipo de identificação dos personagens, através, por exemplo,
de recursos de montagem.
Wiseman desde 1967 tem realizado, ou buscado realizar, uma \u201cra-
diografia\u201d de algumas instituições (presídio, hospital, escola, parque
etc.) e utiliza praticamente os mesmos recursos de mise en scène desde
seu primeiro filme, inscrevendo-os em um movimento iniciado nos anos
1960, o cinema direto, onde se postula uma não intervenção no momen-
to da filmagem, filma-se tudo o que acontece face à câmera sem que haja
uma provocação pelo cineasta, a equipe reduzida de filmagem se quer
praticamente invisível. Observamos no caso de Wiseman algumas mar-
cas e opções estilísticas e que podem ser facilmente identificadas e que
colocam este cineasta na categoria de autor.
Nestes quatro exemplos (e poderíamos ter muitos outros) observa-
mos imbricações no sentido de todos eles optarem por um universo
(temático, social, geográfico) homogêneo e com estratégias de mise en
scène facilmente reconhecíveis e que dialogam entre si ao longo dos
filmes, com marcas estilísticas que evidenciam e explicitam as esco-
lhas e opções do cineasta.
Mas podemos nos interrogar o por quê e para que colocar certos
cineastas sob este epíteto de autor. Por que estes e não outros? A partir
de quantos filmes realizados por um cineasta podemos observar o
pertencimento a um universo pessoal, criativo. O que dizer então dos
produtos realizados para e pela televisão? Qual o método de análise
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para se chegar a uma conclusão quanto a estas questões de autoria?
Questionamentos estes que se encontram ainda em fase embrionária,
um pouco desordenada e ainda vaga mas que necessita ser continuada
tanto no âmbito do cinema de ficção quanto documental, como também
no universo da televisão.
É importante sublinhar a frase de Pierre Bourdieu, segundo o qual
\u201carte é o que é criado pelos artistas\u201d. Talvez tenhamos aqui uma das
aberturas para compreender a autoria no domínio do documentário, pois
no caso dos quatro cineastas aqui analisados (Rouch, Pelechian, Marker,
Coutinho e Wiseman) todos foram reconhecidos como cineastas de
prestigio pelo campo do audiovisual e mais especificadamente do cine-
ma documentário, marcas de reconhecimento estas que se deram atra-
vés das criticas (positivas) sobre o trabalho fílmico de cada um, de um
grande número de pesquisadores que tem dedicado trabalhos de pes-
quisa visando abordar aspectos das obras destes cineastas e reconheci-
mento através de instancias de premiação em importantes festivais de
cinema documentário.
Segundo François Niney (2004, p. 35) \u201c[...] o autor não é o suposto
pai do filme, são todos os prestígios (reais ou imaginários) da função
\u2018autor\u2019 sob o olhar dos cineastas eles \u2013 mesmos, dos produtores, dos
críticos, do publico, na relação que os unem e onde se confrontam.\u201d
Para Niney o autor pode ser visto de duas maneiras a primeira como
criador reconhecido pela critica e a segunda como \u201cmais-valia\u201d, imagem
de marca recrutada pelo produtor, a fim de se criar imagens de marca
patenteadas, ou seja, assinaturas, identidades reconhecidas com estilo
definido.
Podemos, talvez agora, à guisa de conclusão, avançar algumas con-
siderações a respeito do autor do filme documentário, a de que no cine-
ma documentário (a exemplo do cinema ficcional) funcionariam como
critérios de reconhecimento autoral, primeiramente ser o diretor de uma
obra composta de vários filmes (teríamos desta forma condições com-
parativas), em segundo lugar ter efetuado escolhas e estratégias de mise
en scène pessoais e criativas (critério obviamente bastante subjetivo)
que não estejam vinculadas a uma matriz única, por exemplo a formatação
televisiva, e em terceiro lugar ter obtido prestigio e consagração junto
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ao campo ao qual está vinculado formado por documentaristas, críti-
cos, pesquisadores, festivais de cinema. Talvez devêssemos começar a
pensar nesta conjunção de fatores como elementos fundamentais para
se compreender e buscar as marcas autorais e de autoria no filme docu-
mental.
A questão do autor e da autoria no cinema documentário, que foi
apenas esboçada aqui, continua aberta à discussão e debate a fim de se
verificar a suposta importância adquirida por um cineasta e sua obra
para que possam, por ventura, ser alçados ao Olimpo do autor e da
autoria.
Referências
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GAUTHIER, Guy. Le documentaire, un autre cinéma. Paris: Éditions Nathan,
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LETTRES de Sibérie. Direção: Chris Marker.France: Argos Films, 1958. (62 min.).
LOIN du Vietnam. Direção: Chris Marker. France: [s. n.], 1967. 1 bobina cinema-
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